1.
A luz que me banha agora
é a luz que já fez falta
no submarino Kursk
e no forno da cruz de malta.
Quando o cão alado partiu
pra cuspir seus ais de incêndio
na puta que o urdiu,
a luz ia lá, ausente.
2.
A luz que me banha agora
é a mesma luz entre mil
que, doida, comeu a hora
e o momento engoliu.
É a luz. Luz sem poema,
luz rasteira, luz de horror.
Luz sozinha, luz-sistema,
luz que é cor furta-cor.
3.
A luz que me banha agora
banhou corações e mentes,
e uma tarde lá em Kansas
abriu alas para a bala
no crânio do presidente.
A luz, para o bem e o mal,
na ida e no poente,
é gélida e amoral.
4.
A luz que me banha agora
jamais será perdoada,
pois nunca pediu perdão.
A luz que me banha agora
é ocaso e apogeu,
no lugar mais inevitável,
na estrela subatômica
e no mar do Odisseu.
5.
Luz dos cegos, das minhocas,
luz das portas, luz das dores.
Limiar dos estertores,
bússola viva das rotas.
Luz dos sonos, dos dormentes,
luz dos trens e, finalmente,
luz das teias, luz das traças,
até quando a luz se faça.
6.
Não se entende ou justifica
que a mulher, ao gerar gente,
considere dar à luz.
É um tanto equivocado,
ou mesmo falha grotesca,
pois muito antes do parto,
e que o rebento apareça,
à luz ele estava dado.
7.
A luz me deixou assim:
a luz pânica, elétrica,
lusco-fusco, luz no fim
do túnel e da dialética.
A luz me deixou no escuro,
à luz dos acontecimentos,
minha cara contra o muro,
e o muro contra o tempo.
8.
A luz que me banha agora
tateia o câncer de pele
e o perverso devaneio.
Nunca diz que é dentro ou fora,
se é do tempo, se é do meio.
A luz que me banha agora,
a propósito ou a esmo,
é a luz que se chama eu-mesmo.
Publicado em 18 de abril de 2006 às 23:42 por briguet