Repórter das Coisas

Nunca

Se a flor de ferro se abre para o meu dia, tudo que eu tenho a dizer é Nunca. Se a flor é de plástico, e nunca expeliu cheiro algum, eu respondo Nunca. Se o homem vai morrer, sabe que vai morrer, e ainda assim não o escutam em suas últimas palavras, eu digo Nunca. Se um velho é atropelado sobre o asfalto da Avenida Tiradentes eu declaro Nunca.
Se preciso for, gritarei Nunca à garota indie apaixonada, prestes a furar seu pescoço com uma lâmina fina; e pronunciarei, todos dias e noites, a palavra Nunca à menina solitária que procura por um chá abortivo na Internet. Nunca à esquerda, Nunca à direita, Nunca ao sapo barbudo e ao picolé de xuxu e ao molequinho e à histérica do Senado. Nunca à cerveja quente e ao macarrão gelado. Nunca à pizza que faz mal. Nunca aos planos de saúde, ao programa da Fernanda Young e aos outdoors de Paulo Pimentel. Nunca a Assis Chateaubriand e todos os seus fantasmas.
Se a enxada me falta no campo do dia, eu digo Nunca aos hippies do CCH, aos que acreditam na conspiração das elites, aos que tecem loas ao MST. Se a enxada me falta, eu digo Nunca a mim mesmo por um dia ter acreditado nisso tudo. Um dia bem distante, ainda bem.
Eu digo nunca ao Skank, ao Cidade Negra, à Pitty e à Vanessa da Mata (“Tomar um banho de chuuuuva, um banho de chuuuva, um banho de chuvaaaaaaa”). Eu digo nunca ao Senhor dos Anéis.
Eu digo Nunca aos que não gostam de Paulo Francis, Rubem Braga, Nelson Rodrigues, Manuel Bandeira, Mário Quintana. Eu digo Nunca aos que acreditam em poesia concreta e revolução do hip hop. Eu digo Nunca ao terceiro setor, a um “outro mundo possível”.
Eu digo Nunca aos que esvaziaram o conteúdo o sentido da palavra Nunca. Eu digo Nunca, e Nunca deixarei de dizer.

Publicado em 17 de abril de 2006 às 17:36 por briguet

Comentários

    • Coitado dos Hippies da CCH, eles NUNCA vão lher perdoar.
    • por Savena - Anti-Hippie
    • 17.Abr.2006 às 21:56 - Permalink - Reportar
    Savena - Anti-Hippie
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PAULO BRIGUET, SEU CRIADO

Dizem por aí que o autor deste blog é chato, feio e bobo – a exemplo do capitalismo e do judaico-cristianismo que ele defende com unhas, dentes e, acima de tudo, argumentos assaz irrespondíveis (para desconcerto dos oponentes).

Ex-trotskista, ex-ateu, ex-sindicalista, ex-cantor, ex-ex, arrepende-se de (quase) tudo. É amado e odiado na exata proporção de sua obscuridade.

A liberdade de pensamento e expressão aqui encontra guarida. A babaquice, porém, é rejeitada, apagada e excluída, quando não editada. Que os babacas sejam livres em outras freguesias. (Tosquices, ao contrário, são permitidas e até incentivadas.)

Quê? Jornalista? Desconheço, senhor. Alguém aí falou no assunto?

Que o Criador, bendito seja o Seu Nome, abençoe a todos os leitores deste blog. Lembre-se: Paulo Briguet reza por você.

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