Já não consigo sair do trabalho, passar longamente no boteco e depois ir para uma festa que só termina às três da manhã. Já não finjo que entendi poemas herméticos. Já não minto dizendo que li Ulisses. Já não agüento feijoada. Já não passo batido pela bancada de frutas no supermercado. Já não acompanho os desempenhos de cada time do Paulistão. Já não tenho ódio aos ricos. Já não leio entrevistas de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Já não digo – só pra impressionar – que adoro os filmes do Glauber e Godard. Já não encaro uma crítica a um de meus escritores preferidos como se fosse uma ofensa pessoal. Já não tenho vergonha de não saber falar inglês. Já não tenho medo de revelar minha vastíssima ignorância. Já não me declaro ateu. Já não digo que Trotsky foi o homem mais importante do século XX. Já não acredito em comunismo, anarquismo, socialismo. Já não vejo tanta diferença entre Lênin e Hitler (entre Hitler e Stalin, nunca vi diferença). Já não digo que sei o que não sei. Já não digo que vi o que não vi. Já não digo que estou certo daquilo que não estou certo. Já não fico nervoso quando deixo de atender ao telefone. Já não acho que liberalismo é palavrão (pelo contrário, acho que é uma palavra bonita). Já não voto no Lula (votei em 89, 94, 98, e me arrependo; mas graças a Deus não votei em 2002, portanto posso dizer que não votei no Lula depois dos 30 anos). Já não acredito em político nenhum, nem um pouquinho (gostava do Covas, mas ele mentia também, e morreu; e tenho uma certa admiração por Churchill, mas ele morreu, e mentia também). Já não engulo conversinha de luta de classes. Já não tenho vergonha de concordar com a idéia de que existem comunistas honestos e inteligentes, mas os honestos não são inteligentes, e os inteligentes não são honestos. Já não como maionese fora de casa. Já não consigo digerir molho branco. Já não acho que sedentarismo é virtude. Já não toco Djavan no violão só para impressionar as meninas. Já não canto “Concheta vita mia, ricorda aquele giorno” só para ser o animador das festinhas. Já não tenho orgulho dos meus porres. Já não sou tão diplomático a ponto de sorrir para uma estupidez. Já não acho que vou viver mais tempo até minha morte do que o tempo que eu já vivi do meu nascimento até hoje. Já não fico ofendido se me chamarem de conservador – porque sou mesmo. Mas continuo dormindo em bar – e sonhando com você.
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Só pra irritar:
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São apenas quatro meses de estudos! Professores: Tanga (disciplina: COMO EVITAR ERROS CRASSOS EM PORTUGUÊS), Marcelo Rocha (disciplina: COMO SER FEIO E MESMO ASSIM SABER O QUE É NOTÍCIA), Lúcio Flávio (disciplina: COMO ESCREVER BOAS REPORTAGENS SEM ABANDONAR A CRIATIVIDADE) e Guilherme Mendes da Costa (disciplina: NOÇÕES BÁSICAS DE INGLÊS E INTERNET). Não teremos aula inaugural, apenas duas aulas finais com Márcio Leijoto (COMO NÃO ACREDITAR EM POLÍTICOS, POLICIAIS E JORNALISTAS) e Zero (COMO LIVRAR-SE DE IDÉIAS LULO-PETISTAS). Estou pensando em chamar o Yuge (CULTURA POP) e o Moraes para darem uns pitacos, também.
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Publicado em 04 de abril de 2006 às 17:13 por briguet