Carta aberta para Janaína Ávila
Peço licença para não dizer que estou com saudades de você. Para não confessar que sinto mais saudades na hora do almoço e na hora em que me viro para o lado, já com um trocadilho antológico na ponta da língua, e você não está aqui para ouvi-lo.
De joelhos, invoco a sua misericórdia, oh querida amiga, para não lhe informar que Lula, esse presidente patético, tem grandes chances de ser reeeleito. Portanto, continuo alérgico a política.
Por favor, deixe-me não contar que estou feliz; que eu e ela passamos o final de semana juntos, e várias vezes eu quis parar o tempo e deixá-lo em still pela eternidade. Mas ao final do dia não pude convidar você para tomar uma cerveja e contar tudo isso.
Peço autorização para não admitir que me matriculei numa academia para perder a barriga; hoje mesmo vou correr na esteira (correr de quem? de mim mesmo) e fazer um alongamento (acordem, músculos; desperte, ácido láctico!).
Suplico-lhe encarecidamente (mas há alguma súplica que não seja feita encarecidamente?) para abster-me de comentários sobre Match Point, o filme que vimos neste sábado. É só ler minha coluna depois.
Rogo-lhe para não exigir que eu conte coisas bestas. Por exemplo: um médico estava dando entrevista na televisão e declarou que, na vida moderna, as pessoas sofrem de um “sedentarismo galopante”. Ué, perguntei eu, se é galopante, como pode ser sedentarismo? (Está escutando este ruído tonitruante? São as gargalhadas da multidão ensandecida, que atravessam continentes e oceanos.)
Solicito o obséquio de não relatar que liguei para sua casa, atendeu uma voz de mulher, e me disse, em italiano, que você não estava. Entendi tudo que ela disse, inclusive quando ela perguntou se eu era o seu fratello, mas eu só conseguia dizer grazie, grazie, grazie – era a única palavra em italiano que me ocorria. Desliguei o telefone e me lembrei que aí faz frio e tem neve. E fiquei pensando neste mundo em que há gelo no hemisfério norte e sol no hemisfério sul, e que infelizmente estamos em hemisférios diferentes.
Por favor, não ligue para minha aversão a e-mails e MSNs; para mim, esses artifícios modernosos só aumentam a saudade; são simulacros risíveis da sua presença física.
Por fim, peço que guarde um pouco de neve para mim, na geladeira; quero mergulhar as mãos nesse gelo até maio, quando você se casar. Um abraço fraterno ao Andrea e a todos que a acolheram aí do outro lado do oceano. Grazie, grazie, grazie. E continue ouvindo o João Sebastião!
Com um beijo do seu fratello,
PB