Para Rosângela Vale
O tempo é isso que há tanto tempo
tentamos saber o que é.
Isso que vai quando não vamos,
em que minutos viram anos,
o tempo é isso que tanto tempo
há de passar.
O tempo é isso em que se passam
tantos meses,
o tempo é isso que, às vezes,
em voz alta,
dizemos, entre dentes,
que nos falta.
O tempo é curto, o tempo urge,
o tempo é tão longo e absurdo,
o tempo vai, o tempo fica, o tempo vem,
o tempo é de nada e de ninguém,
o tempo é um avatar do tempo
que não se sabe mesmo
onde vai dar.
O tempo é o contratempo interminável,
o céu do avesso, o Dia dos Mortos,
o sal dos vivos, um dia e mais nada.
O tempo, espírito de dedos tortos.
Quando logo o quero, ele passa pouco.
Se penso em voltar, ele continua.
Se jamais o peço, ele é um raio solto
como um quasar da verdade crua.
Se adiantamento busco nele em vão,
ele é um silêncio de nada saber.
Passa-me mais lento que numa prisão,
mas então se acende:
meu tempo é você.