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Archive for March of 2006

Ética sinistra

March 31, 2006
Aproveitando que hoje tô meio polêmico, mais um problema – sério – do Seminário de Ética que termina amanhã (1º de abril) em Londrina. Todos os palestrantes, com exceção do tal Di Franco – e olha lá... – são de esquerda. Que desproporção é essa? Como é que se pode falar em ética se a hegemonia ideológica está definida a priori? Por acaso a esquerda detém o monopólio da ética? (Não é o que temos visto por aí.) Será que um conservador é sinônimo de anti-ético? Será que um liberal ou neoliberal, como eu, não pode ser moralmente defensável? Cartas para a redação.

Ética e vergonha na cara

March 31, 2006
Dei um pulinho no Seminário de Ética, ontem, para ouvir o Raimundo Pereira, que fez a conferência de abertura. É chato dizer, porque o evento foi organizado por diletas e sérias amigas, mas não posso perder a piada: é estranho um Seminário de Ética que termina no dia 1o de abril...
Raimundinho, fundador do Opinião e do Movimento, jornais de combate à ditadura, é um dos maiores talentos do jornalismo brasileiro. Tempos atrás, já compartilhei das teses raimúndicas; hoje estou cooptado pela “farsa neoliberal”.
É duro ver Raimundo na posição de defender esse nefasto e ridículo governo Lula. O fato de que já existiram outros escândalos na República, antes do atual, não refresca nada. O governo do Barba me dá um nojo profundo, e deveria ser morto e enterrado, a despeito das (brilhantes, diga-se) ginásticas dialéticas de Raimundo. Se o sigilo bancário é uma vergonha, como diz o Raimundo, por que não liberam o do Paulo Okamotto?
No fundo, no fundo, o que a Fenaj propõe como panacéia ética para o jornalismo brasileiro? Duas coisas: diploma obrigatório e Conselho de Jornalismo. Duas rematadas sandices (para não dizer sem-vergonhices).
Reafirmo: Jornalismo deveria ser um curso de 6 meses no Senac, com aulas no final de semana. O Bagner Bogel vai se formar daqui a pouco, e isso vai transformá-lo em Cláudio Abramo? Não me engana que eu não gosto.
Conselho! Rá! Qual a representativade de um conselho de jornalismo formado por delegados sindicais que mal escondem a repugnância paranóica por qualquer tipo de liberalismo intelectual? Um conselho federal de jornalismo não passaria de mais um organismo burocrático e paraestatal, destinado a perpetuar corporativismos, tais como são os conselhos já existentes de outras profissões. É a repetição, como farsa, do slogan bolchevique: “Todo poder aos sovietes”. Soviete, em russo, quer dizer conselho. No fim dá bosta.
Da minha parte, continuo acreditando que ética é apenas um nome acadêmico para a velha e boa vergonha na cara. O jornalismo é uma profissão precária, e sua precariedade reside no fato de que a verdade dos fatos é, tantas vezes, inalcançável e incognoscível.
Ética é algo que pertence ao indivíduo. A verdadeira decisão moral é mais solitária que o onanismo. Citaram o García-Márquez, dizendo que a ética está para o jornalismo como o zumbido está para o besouro. O simbolismo do zumbido, na frase do García-Márquez, é muito claro ao afastar mediações burocráticas. Ué, zumbido agora precisa de código? Zumbido precisa de conselho? Zumbido precisa de diploma? Ah, passa amanhã. Tua mãe não te deu educação?
Mas o pior do seminário não está relacionado à ética. Ao ver alguns calouros de jornalismo, fiz as contas. Em 1989, quando eu estava entrando no curso de Jornalismo – aquele que deveria ser do Senac –, eles estavam nascendo. Tempus fugit.

Soneto dos pensamentos

March 30, 2006
Não é que eu pense nas coisas;
as coisas é que me pensam.
Passam por mim como sombras
passam numa ponte pênsil.

De tanto pensar em tudo,
me vi em forte declive:
tentei abraçar o mundo
com pernas que nunca tive.

Para tão grande cabeça,
tão pálidos pensamentos.
Que vida pregou-me a peça!

E hoje restou-me isto
(falarei enquanto é tempo):
Não penso, sequer existo.

Poema do cu

March 30, 2006
(...) cu é lindo!
(Adélia Prado)


Quem tem cu tem medo.
Ninguém é de ninguém:
procura-se o segredo
que é só o cu que tem.

Todo cu tem dono.
Mesmo o borracho,
ferrado em férreo sono,
protege-se embaixo.
(Cu bom é cu de aço.)

O cu é o mais nobre
buraco do organismo.
Os olhos são esnobes.
O umbigo é esquisito.
A boca é faladeira.
Nariz é tão comprido.
Ouvidos, oh que porre!,
só sabem ouvir asneira.

Quem tem cu tem medo.
Viver é perigoso.
Sem cu o que seria
de nós no pantanoso
país da picardia?
Que seria de nós,
meros macacos nus?
Por isso, em alta voz,
façamos, todo dia,
um viva a nossos cus.

Chaves abre as portas da vitória

March 29, 2006
Se for preciso faremos barricadas!

Buahahahahaha! Acabam de quebrar a cara todos os que não levaram a sério a campanha CHAVES PRESIDENTE. Eis que hoje, na Folha de São Paulo, jornal de maior circulação no país, saiu uma entrevista de página inteira – eu disse página inteira – com o nosso candidato e futuro mandatário da nação.
No mundo da política, não existem acasos. A entrevista sai exatamente um dia após a queda do menisco Palofi; no mesmo dia em que a CPI dos Correios divulga o seu relatório; e no mesmo dia em que o primeiro astronauta de mármore tupiniquim alça vôo em sua nave estelar.
Chaves, como sempre, esteve brilhante. Mais do que brilhante, ele foi explosivo; mais do que explosivo, ele foi demolidor; mais do que demolidor, ele foi histórico. Chaves abrirá as portas do nosso desenvolvimento!
O astronauta pode estar no espaço a uma hora dessas, mas foi o Chaves que decolou.
A seguir, algumas reflexões do nosso candidato:

Sobre a briga com Quico (nosso vice) e Chiquinha:

Isso me dói, não me irrita, porque gosto deles, foram meus amigos. Não me atrapalha porque não me prejudica. Ao contrário, fui eu quem lhes dei tudo que eles têm. Mas não me importa, não tiraram nada de mim, então façam o que queiram.

Sobre a lenda de que todo elenco do seriado Chaves teria morrido em um acidente de avião:

Isso acontece com várias pessoas conhecidas. Matam os que estão vivos e ressuscitam os mortos, como Emiliano Zapata e Carlos Gardel. A mim já mataram umas quatro ou cinco vezes. Não sei por quê.

Sobre o fato de não ter visitado o Brasil (antes da campanha):

Tínhamos contrato para apresentações com nosso grupo de teatro. Até aprendi coisas em português. Mas houve um problema político no Brasil.

Sobre os motivos que o levaram à candidatura:

Disse muitas vezes no programa: “Temos que preparar o futuro”. Tenho filhos, netos e logo haverá bisnetos. Quero que eles e todos os habitantes deste planeta tenham uma vida melhor. A política é inevitável. Ninguém consegue ficar fora dela.

Sobre o país que ele vai governar:

Creio que o Brasil é o país com o melhor futuro em todo o mundo.

Viram? Este é Chaves, número 71, vice Quico, PSB (Partido do Seu Barriga). Aos que acham que a candidatura Chaves não passa de uma gozação com a democracia, eu peço que leiam as obras completas de nosso mentor (há inclusive poemas, que muito me influenciaram). Quanto ao fato de ele não dominar o português – ué, o Lula por acaso domina?

E é por isso que...

... O MELHOR DO BRASIL É O MEXICANO!

Vila Casoni, Vila Gasoni

March 29, 2006

Vila Casoni, Vila Gasoni,
quantas ruas você tem,
se todas têm nomes de rio,
e do asfalto ao meio-fio
correm para ninguém?

Vila Casoni, Vila Gasoni,
quantas perobas, pereiras
e silvas ainda andam
silvando tal como cobras
entre as casas de madeira?

Vila Casoni, Vila Gasoni,
como se diz o seu nome?
Se os bêbados dizem sede
e os sóbrios dizem fome,
quem gritará de medo?

Vila Casoni, Vila Gasoni,
foram ranchos de palmito
depois lojas de concreto,
mas sempre esteve escrito
o mesmo destino incerto.

Vila Casoni, Vila Gasoni,
um lugar sempre por perto.
Vila Casoni, Vila Gasoni,
bem no meio do deserto.

Os desesperados da Internet

March 28, 2006
A noite dos desesperados

Eles querem receitas de trufas. Trufas de morango, de maracujá, de limão, de chocolate amargo, de cicuta. Querem proteção contra pombos. Querem algum remédio que mate os horríveis piolhos de pombos. Eles querem buceta. De qualquer maneira, de qualquer textura, de qualquer formato, querem uma buceta. Nem que sejam apenas algumas palavras, um poema besta, uma foto sem foco, eles querem buceta, querem beijo grego, querem putas. Querem putas e trufas. Querem o vídeo com o tal do Klaus; querem um resumo sobre o livro do Fernando Sabino (o livro, coitado, ninguém pensa em comprar); querem Citotec e chá abortivo.
Eles não só querem. Eles querem agora. Eles querem imediatamente. Eles querem e desejam. Eles querem e fazem questão. Eles exigem. Eles pedem encarecidamente. Eles suplicam em nome de Deus e de todos os santos, por favor, por piedade, pela alma da tua santa mãezinha! Eles se jogam no chão, eles ameaçam suicídio, eles esperneiam, eles querem. Querer é poder! Eles são náufragos, eles são mendigos, eles são pedintes, eles são os párias do mundo virtual.
E vão ficar querendo.

La mala leche

March 26, 2006
Fotógrafa: Rosângela Vale. Todos os direitos reservados.

Enquanto alguns mamam nas tetas do Leviatã, outros preferem recorrer aos serviços expressos do Tio Briguet. Grato pela preferência. (O nome do animal é Dolly. Ou Molly.)

Solipsismo

March 26, 2006
Enquanto ainda é tempo,
cassem meu diploma,
tirem meu emprego,
pisem nos meus calos,
atem minhas mãos.

Queimem meus registros
em todos alfarrábios.
Calem minha boca,
surrem minha face
– isso enquanto é tempo.

Não é tarde ainda
pra vendar meus olhos,
vedar-me os ouvidos
às interferências
do mundo sonoro.

Se é tempo – e é –,
prendam os meus braços,
quebrem minhas pernas
e, no tronco exausto,
parem o coração.

Nada mais será
então permitido.
Livre dos rumores,
livre dos sentidos,
estarei bem só.

Crônica em segunda pessoa

March 24, 2006
Estudo sobre um retrato do papa Inocêncio X - Francis Bacon (1953)

Não julgueis para não serdes julgados: aqui.

O selo lá e o anel do Eno

March 23, 2006
Houve um tiroteio hoje cedo em Londrina. Um dos envolvidos só não se feriu porque um tiro pegou no celular dele. E é só por isso que o cara está VIVO!

Calma, calma. Não se assuste com o barulho ensurdecedor. São apenas as gargalhadas da multidão.

Mas que o cara está VIVO, está. É CLARO!

*****

Se você não agüenta mais, eu ainda tenho uma LISZT de trocadilhos pra fazer!

Se ainda assim não gostou, por que está lendo este blog? Vá ver TV, vá ouvir HAYDN!

Ah, você se HAENDEL... Então, mais tarde, dê um pulo no BACH Brasil.

*****

Marcelo Rocha, pare com essa mania de afanar os objetos pessoais do ENO!

Obrigada por chamar!

March 22, 2006
TECLE 1 se quiser falar com alguma área específica.
TECLE 2 se quiser falar com alguma área genérica.
TECLE 3 se quiser falar com a coordenação das áreas.
TECLE 4 se quiser falar com a secretaria da coordenação das áreas.
TECLE 5 se quiser falar com a ouvidoria geral das áreas.
TECLE 6 se não quiser falar com nenhuma área específica ou genérica, nem com a coordenação, nem com a secretaria da coordenação, nem com a ouvidoria geral, nem com lugar nenhum, mas mesmo assim quiser deixar um recado carinhoso.
TECLE 7 se não quiser falar com nenhuma área específica ou genérica, nem a coordenação, nem com a secretaria da coordenação, nem com a ouvidoria geral, mas mesmo assim quiser deixar um recado furioso, seu grosso. A véia não te deu educação, babaca?
TECLE 8 se quiser confessar que andou encoxando alguém das áreas específicas ou genéricas, ou da secretaria da coordenação, ou tarará, tarará – você sabe muito bem de quem eu estou falando, não preciso ficar repetindo, né, seu bosta?
TECLE 9 se quiser passar um fax ou jogar o telefone na parede.
TECLE * se quiser mandar todo mundo tomar no cu.
TECLE # se foi trouxa o suficiente para chegar até aqui e quiser saber que todas as nossas atendentes estão ocupadas no momento. Tente mais tarde.

Até que os pássaros gritem

March 21, 2006
Depois de ler Henry Miller.


Pássaro da floresta, de Paul Klee

Abrimos os olhos
com relutância,
porque os pássaros,
os pássaros
estão gritando.

Caímos na sombra,
temos pesadelos,
mas seguimos presos
dentro de nós mesmos,
porque os pássaros,
os pássaros
estão gritando.

A vida é assim,
até o limite: esperar
que os pássaros gritem,
até que não reste
mais voz nem ar
e chegue, enfim,
a nós pássaros,
a última vez de gritar.

Academia, cerveja e Jornalismo

March 20, 2006
É ótimo ir à academia. Sinto umas dores das quais só posso me orgulhar. Mas hoje, como era de se esperar, dei vexame. Minha toalha de rosto caiu quando eu fazia esteira. Lusitanamente, tentei pegar a toalha no chão com a esteira em movimento. Óbvio que tropecei, trupiquei, escorreguei, sacolejei e só não caí de fuça por intervenção direta da Divina Providência. A professora perguntou: “Você se machucou, Paulo?”. Eu, garbosamente, respondi, aprumando-me: “Não”. É; não me machuquei – exceto no sentido moral.

*****

O amigo João disse que houve uma evolução entre os estudantes de Jornalismo. Antes, eles protestavam contra a proibição de cerveja no campus; agora, protestam contra a falta de estrutura do curso.

*****

Discordo com veemência. Ora, João, eu acho é que os estudantes regrediram! A cerveja é muitíssimo mais importante que a qualidade do curso de Jornalismo... O curso poderia ser feito em seis meses no Senac; quanto à cerveja, eu a consumo faz 20 anos e ainda não aprendi a beber direito...

*****

E eu continuo sendo uma besta quadrada de tocar nesse assunto.

Poema da cerveja

March 17, 2006
Aos meus amigos, sóbrios.


Bebo cerveja porque faz calor.
Porque a noite é curta
e o dia interminável.
Prefiro o prazer à dor:
bebo cerveja, e não cicuta,
porque me é muito agradável.

Bebo cerveja com gosto,
vontade e sofreguidão.
Bebo cerveja disposto
a beber até um galão.

Bebo cerveja, não diga
que beber não me faz bem,
embriaga e dá barriga.
Bebo água, às vezes pinga,
mas bebo cerveja também.

Bebo cerveja sedento
como quem fica juntando
os mil pedaços do tempo.
Bebo cerveja sentado,
bebo cerveja em silêncio.

Bebo cerveja falando.
Se me enrolo com as palavras,
isso é só de vez em quando.

Bebo cerveja e não quero
me render à embriaguez.
Para ser bem sincero,
bebo uma de cada vez.

Beber cerveja é uma sina
que machuca e escraviza.
Muita vez a Neosaldina
é tudo que a gente precisa.

Beber cerveja é sentir-se
qual um mendigo rei
que dorme no precipício
de mais uma Quinta Sem-Lei.

Cerveja é bebida amarga,
gelada e inebriante.
Um dia, sem a cerveja,
sei que vou seguir adiante.

Ao dr. Groo e seus companheiros

March 16, 2006
Lendo a autobiografia de Danuza Leão, deparo-me com o seguinte trecho:

“Além da vida noturna, intensa, nossa distração era jogar pôquer aos sábados. A roda, mais ou menos variável, era: nós dois [Danuza Leão e Samuel Wainer], meu pai, Millôr Fernandes, Ivan Lessa, Leon Eliachar, Antônio Maria, Paulo Francis, todos excelentes jogadores, modéstia à parte. Baralhos novos a cada sábado, fichas de madrepérola, começávamos às seis da tarde e não levantávamos para jantar: serviam-se comidinhas durante o jogo. Samuel, embora bebesse pouco, estava sempre com um copo de uísque na mão. O grupo de jovens jornalistas já era famoso, mas veio a ficar muito mais, e imagine o que eram as noites com esse escrete de inteligências.”

E eu, pobre d’eu, nem sei diferenciar os naipes... Ainda falo “arvrinha” e “coraçãozim”. O único jogo de cartas do qual sou capaz de participar tem um nome auto-explicativo: BURRO.

Soneto da reeleição

March 16, 2006

(Acordei, liguei a TV, vi as pesquisas de opinião, lamentei-as e escrevi o seguinte poema. Taí, mestre Tanga; o soneto é inglês, mas a situação é bananística.)

O mensalão não existe:
tudo coisa da imprensa.
E pertence à elite
quem o contrário pensa.

Lula é um cara honesto,
já disse a voz do povo.
E é por isso que, presto,
será eleito de novo.

Dinheiro não houve algum,
corruptos nem de longe.
Marcos Valério e Delúbio
comportaram-se qual monges.

Assim termina a comédia:
com mais quatro anos de merda.

Um-dois, um-dois, um-dois

March 15, 2006
No banheiro da Casa dos Trinta, minha primeira experiência acadêmica. Em breve, terei barriga de tanquinho.

Soneto zoológico

March 14, 2006

O cão é o maior amigo.
O boi é um pobre coitado.
O mosquito é um castigo,
e o gato, bem odiado.

A pomba é de paz, mas suja.
O camelo guarda a água
que o bebê tem de lambuja,
como a cobra tem a mágoa.

O peixe se afoga no ar.
O homem se dana no rio
se pensa saber nadar.

Com peso acima de mil,
na casa imensa do mar,
a baleia entra no cio.

Canção da calma

March 13, 2006

acalma este medo
antes que seja tarde
mesmo que seja cedo

acalma este mar
mesmo que a tempestade
seja meu próprio lar

acalma esta mão
antes que o dia acabe
e a noite diga não

mesmo que a noite acabe
dentro da escuridão

mesmo que seja tarde
mesmo que seja em vão

Grazie, grazie, grazie

March 13, 2006
Carta aberta para Janaína Ávila

Peço licença para não dizer que estou com saudades de você. Para não confessar que sinto mais saudades na hora do almoço e na hora em que me viro para o lado, já com um trocadilho antológico na ponta da língua, e você não está aqui para ouvi-lo.

De joelhos, invoco a sua misericórdia, oh querida amiga, para não lhe informar que Lula, esse presidente patético, tem grandes chances de ser reeeleito. Portanto, continuo alérgico a política.

Por favor, deixe-me não contar que estou feliz; que eu e ela passamos o final de semana juntos, e várias vezes eu quis parar o tempo e deixá-lo em still pela eternidade. Mas ao final do dia não pude convidar você para tomar uma cerveja e contar tudo isso.

Peço autorização para não admitir que me matriculei numa academia para perder a barriga; hoje mesmo vou correr na esteira (correr de quem? de mim mesmo) e fazer um alongamento (acordem, músculos; desperte, ácido láctico!).

Suplico-lhe encarecidamente (mas há alguma súplica que não seja feita encarecidamente?) para abster-me de comentários sobre Match Point, o filme que vimos neste sábado. É só ler minha coluna depois.

Rogo-lhe para não exigir que eu conte coisas bestas. Por exemplo: um médico estava dando entrevista na televisão e declarou que, na vida moderna, as pessoas sofrem de um “sedentarismo galopante”. Ué, perguntei eu, se é galopante, como pode ser sedentarismo? (Está escutando este ruído tonitruante? São as gargalhadas da multidão ensandecida, que atravessam continentes e oceanos.)

Solicito o obséquio de não relatar que liguei para sua casa, atendeu uma voz de mulher, e me disse, em italiano, que você não estava. Entendi tudo que ela disse, inclusive quando ela perguntou se eu era o seu fratello, mas eu só conseguia dizer grazie, grazie, grazie – era a única palavra em italiano que me ocorria. Desliguei o telefone e me lembrei que aí faz frio e tem neve. E fiquei pensando neste mundo em que há gelo no hemisfério norte e sol no hemisfério sul, e que infelizmente estamos em hemisférios diferentes.

Por favor, não ligue para minha aversão a e-mails e MSNs; para mim, esses artifícios modernosos só aumentam a saudade; são simulacros risíveis da sua presença física.

Por fim, peço que guarde um pouco de neve para mim, na geladeira; quero mergulhar as mãos nesse gelo até maio, quando você se casar. Um abraço fraterno ao Andrea e a todos que a acolheram aí do outro lado do oceano. Grazie, grazie, grazie. E continue ouvindo o João Sebastião!

Com um beijo do seu fratello,
PB

A morte dos bois

March 10, 2006
Mataram os bois,
mataram os bois
com um tiro nos cornos
e um chute depois.

Mataram os bois,
mataram sem dó.
Até que o rebanho
virou todo pó.

Mataram os bois,
mataram sem medo,
que a morte de um boi
nunca teve segredo.

Mataram os bois
imediatamente
até que não houve
uma rês vivente.

Mataram os bois
e as vacas de leite,
então os bezerros,
e ao fim toda gente.

Mataram os bois
mataram agora.
Depois de matarem
se foram embora.

Mataram os bois
os vivos e os mortos,
com um chute nos bagos
e um tiro nos cornos.

Coitados dos bois
de vida tão breve;
nem ao menos tinham
a maldita febre.

Mas nós é que somos os patos

March 09, 2006
Huguinho, Zezinho, Luizinho e Valério Duck

Agora só falta absolver Milton Nascimento, Huguinho e Zezinho.

A Wikipédia informa:

Os trigêmeos Huguinho, Zezinho e Luisinho (Huey, Dewey e Louie em inglês) são sobrinhos do Pato Donald, filhos de sua irmã gêmea Dumbela Duck, que os colocou sob os cuidados do tio e nunca mais os buscou. A identidade do pai dos patinhos é desconhecida. Existem rumores sobre um quarto sobrinho, chamado Phooey, mas acredita-se que não seja realmente um personagem e sim um erro de desenhistas entusiasmados que vez por outra faziam quatro e não três patinhos. o nome inteiro de Huey é Huebert, de Dewey é Deuteronomy, e de Louie é Louis.

Eu informo:

Pafu, o Professor Luizinho um dia deu aulas de matemática. Hoje, só contabilidade.

E mais não digo porque é inútil.

Data pra carpir

March 08, 2006
Quando cheguei a Londrina, achava que “data vaga” queria dizer feriado. É “terreno baldio” – craro, Cróvis.

*****

Não conheço uma data mais vaga que 8 de março. Dia da Mulher é a comemoração mais estúpida, hipócrita e demagógica do calendário gregoriano. Só faz sentido para políticos, ONGs feministas e demais espertos que faturam em cima. Além da mídia carente de pautas, é claro.

*****

Quem gosta de mulher (homem ou mulher) só pode detestar essa palhaçada.

*****

Um só verso de Adélia Prado é melhor do que toda literatura feminista já produzida no Brasil.

*****

Aí dizem que o Dia da Mulher é pra “conscientizar”. Conscientizar quem, rapá? Vá conscientizar as tuas negas!

*****

Não faz sentido uma data para homenagear meia humanidade. O lado varonil fica, então, com os outros 364 dias?

*****

Em vez de 8 de março, eu sugiro outra data: uma data pra carpir.

Madrigal da contingência

March 08, 2006

Ser isto que se é,
não ser um outro,
nascer condenado
ao próprio corpo,
é proprio de ser vivo
e ter um rosto.

Aqui sou a fronteira
e não a pólis,
idiotia grega ignóbil
de quem hoje é só
e amanhã prole.

Ser isto que se é
nunca foi fácil;
exige sangue frio,
nervos de aço.
Para que o ser
limite-se ao espaço
inscrito pelo tempo,
rumo ao infinito
esquecimento
de ser não ser
(eu paro e minto)
só silêncio.

Árvores cortadas

March 07, 2006


Talvez seja a condição de pedestre; talvez seja a opção preferencial pela sombra; talvez seja apenas miolo mole. Razões podem ser muitas. O fato é que gosto de árvores e, mais, dependo delas.
Nada entendo de ecologia. Nem sequer posso dizer, como Paulo Mendes Campos, que não tive cachorro, nem gato, só árvore. Certa vez tive um cachorro; ele morreu e fiquei triste. Mas agora são as árvores que morrem.
Fui menino criado no Centro de São Paulo. Minhas brincadeiras prediletas eram elevador e garagem. Eu, Marcelão, Marcelinho e Mauro tínhamos alguns metros quadrados para jogar futebol; oficialmente, a área se chamava playground. Não havia uma única árvore por ali. Só cimento, concreto e tinta branca. Era a sede do time que fundamos: Jumeiras Futebol Clube. Jumeiras: mistura de Palmeiras – time para o qual torcíamos (torço) – e Juréia – nome do nosso condomínio. Por isso fiquei dependente de árvores. Palmeiras são árvores; Juréia é uma serra arborizada. E no playground não tínhamos nem grama.
Há 17 verões moro aqui na Terra Vermelha – até 71 primaveras atrás, coberta de árvores. Derrubaram tudo. Tudo, não; sobraram algumas. Mas, neste verão, tem chovido forte. Tempestades elétricas, vendavais. Caíram muitas árvores. Então começou o holocausto vegetal.
Pelo simples motivo de que algumas árvores atingiram alguns carros e derrubaram alguns muros, toda e qualquer árvore da cidade passou a ser considerada Inimiga Pública Número 1. Nos últimos dias, um concerto de motoserra sem dó é ouvido pelas ruas.
Eis que estou chegando em casa, e vejo uma dona de casa triunfante, diante de uma grande e bela árvore desfeita em tocos. Ela diz:
– Demorou muito pra cortar. Por mim, derrubavam todas as árvores da cidade, deixavam só as pequenas. Árvore grande só serve pra fazer sujeira.
E sombra, dona. E sombra. Esta árvore que a senhora adorou derrubar também fazia sombra para aqueles que, como eu, passavam por aqui todos os dias, mortos de calor com o verão londrinense.
Uma árvore como a que foi derrubada faz parte da vida da gente. Dá cor, temperatura e beleza a um pequeno fragmento da cidade. Se uma árvore está condenada ou morta, é claro que ela deve ser cortada. Mas, nos últimos dias, a derrubada tem sido à moda antiga: sem critério algum.
Então, se abro o jornal e leio que morreu o compositor da trilha sonora de Vila Sésamo, fico mais triste, porque se vai com ele alguma coisa da minha memória profunda, da primeira infância. Em algum ponto da memória, existe uma canção da Vila Sésamo, como as estrelas de menor brilho e mais distantes, que só podem ser vistas em noites de profunda escuridão, noites que não existem mais. Que não existem mais como aquela árvore cortada.
E, se vou comprar uma Neosaldina na farmácia, fico surpreso com as que as coisas que são vendidas por lá atualmente: chocolates, biscoitos, brinquedos, sorvetes. Meu Deus, as farmácias vendem sorvetes! Quando eu era pequeno e assistia à Vila Sésamo, as farmácias eram local de tortura, espécie de DOPS para crianças, onde o que se fazia era tomar injeção de Benzetacil. Eu não podia tomar sorvete porque tinha dor de garganta. Quando poderia imaginar que os sorvetes seriam vendidos em farmácia? Acho que as farmácias-DOPS não existem; e estranhamente eu sinto saudades delas, assim como sinto saudades da árvore cortada.
Antes, era preciso comprar a Playboy de maneira muito discreta; hoje, a revista é vendida à luz do dia em postos de gasolina... e farmácias. E os postos de gasolina vendem mais álcool para ingerir do que álcool para abastecer o carro. São, acima de tudo, postos de cerveja. Que fim levaram os postos que só vendiam combustível? Foram para a terra das árvores cortadas.
Tomo o ônibus, a alguns metros do local onde a árvore foi abatida, e no ônibus há um passageiro falante, um velho caminhoneiro aposentado que conversa com o motorista, ignorando solenemente a placa que diz para falar somente o necessário ao referido profissional. O velho conta suas antigas peripécias no caminhão, enquanto o motorista responde hã-hã. A placa continua ali: FALE AO MOTORISTA APENAS O ESSENCIAL. Mas, para o velho, aquilo é essencial. Quem redigiu esse aviso certamente não é ex-caminhoneiro. E também não sente falta de uma árvore cortada – apenas o essencial.

Rosa do tempo

March 06, 2006
Para Rosângela Vale


Gabrielle com a rosa - Pierre-Auguste Renoir

O tempo é isso que há tanto tempo
tentamos saber o que é.
Isso que vai quando não vamos,
em que minutos viram anos,
o tempo é isso que tanto tempo
há de passar.

O tempo é isso em que se passam
tantos meses,
o tempo é isso que, às vezes,
em voz alta,
dizemos, entre dentes,
que nos falta.

O tempo é curto, o tempo urge,
o tempo é tão longo e absurdo,
o tempo vai, o tempo fica, o tempo vem,
o tempo é de nada e de ninguém,
o tempo é um avatar do tempo
que não se sabe mesmo
onde vai dar.

O tempo é o contratempo interminável,
o céu do avesso, o Dia dos Mortos,
o sal dos vivos, um dia e mais nada.
O tempo, espírito de dedos tortos.

Quando logo o quero, ele passa pouco.
Se penso em voltar, ele continua.
Se jamais o peço, ele é um raio solto
como um quasar da verdade crua.
Se adiantamento busco nele em vão,
ele é um silêncio de nada saber.
Passa-me mais lento que numa prisão,
mas então se acende:
meu tempo é você.

Chávez e Bush

March 06, 2006

A Unidos de Vila Isabel foi campeã do Carnaval carioca exaltando as virtudes da América Latina. A escola recebeu uma grana considerável de Hugo Chávez – e ninguém chiou.
Imaginemos, por um instante, se uma escola de samba recebesse dólares de George Bush para exaltar as qualidades da América. Será que o pessoal iria encarar o fato com a mesma naturalidade?

Crash

March 06, 2006

Boa e profética a charge de Marco Jacobsen na Folha de Londrina (página 2 de hoje).
Dois caubóis correm atrás do Oscar, e o Oscar foge: “Epa! Epa! Eu sou espada!”

R.I.P.

March 04, 2006
Athayde Patreze (1943-2006)

Morreu Athayde Patreze, aquele apresentador do microfone de ouro, famoso pelo bordão “É simplesmente um luxo”.

Vejo que era um bom homem. Doou um dos rins para um filho do primeiro casamento, e acabou morrendo porque o outro rim parou de funcionar.

Paz.

Houve um tempo

March 03, 2006
Sim, meu filho. Houve um tempo em que se vivia sem Google. Existia um negócio chamado disco; era engraçado. Os discos eram comprados em lojas, enormes bolachões. MP3? Ninguém sabia o que era. Ipod? Rsrsrsrs.
Meu filho, em certa época havia máquinas de escrever e mimeógrafos. A gente mandava cartas pelo correio e comprava filmes para as câmeras.
Houve um tempo, meu filho, em que as cervejas vinham sem Neosaldina; era preciso ir ao bar e à farmácia para comprar bebida e remédio separadamente; caso contrário, tínhamos dor de cabeça na manhã de sexta-feira.
Em 1995, filho, seu pai não sabia a diferença entre e-mail e site. Não ria: é verdade.
Houve um tempo em que a aids não era curada com injeção. E teletransporte só existia em seriado de TV. Por causa disso, tive que agüentar vários meses sem almoçar com a Tia Janaína.
Naquela época ninguém precisava de senha para andar na rua. Não existiam essas câmeras que espionam a gente dentro de casa. Não era preciso ter código de barra implantado no pulso.
Naquele tempo eu trabalhava em jornal. O que é jornal? Ah, filho, você só faz pergunta difícil. Vá pesquisar no Google.

Com as próprias mãos

March 03, 2006
Leonardo Da Vinci - Estudo de mãos (1474)

De igual em mim,
só restaram elas:
seguem sendo assim,
duas sentinelas.

Com dez dedos nus
não fizeram nada.
Mesmo havendo luz,
tanta coisa errada.

Muito tatearam
na escuridão;
e só trafegaram
pela contramão.

Umas vezes más,
outras vezes boas;
leves por demais,
foram sempre bobas.

De igual em mim,
só restaram duas.
Lavo-as, enfim,
pra que fiquem puras.

Único é o Sol
quatro são as luas.
Mãe é uma só
e as mãos são duas.
Mas de par em par
vou eclipsar
as minhas nas tuas.

Chaves presidente - Diário de campanha

March 02, 2006
Eles estão brigados!

O MELHOR DO BRASIL É O MEXICANO

Andei bisbilhotando o site do Chaves, nosso candidato presidencial. Lá achei informações preciosas, que certamente levarão à vitória no primeiro turno! Mestre Tanga, prepare seu terno pra posse (só espero que não caia numa Quinta Sem-Lei como hoje).

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Sabem qual o apelido de Chaves no México? Chespirito. Aí alguém pode perguntar: “Queque tem nisso?” Pois é. Chespirito é uma corruptela daquele carinha que escreveu Hamlet (ou, na tradução de algum gênio brasileiro, Hamleto). Sim, ele messss, Will Shakespeare. Chespirito quer dizer Shakespearzinho. Chaves (nome civil Roberto Gómez Bolaños, atualmente com 77 anos, o aniversário foi no último dia 21) era tão bom em escrever diálogos para teatro que foi comparado ao bardo ingrêis (aliauses, Ingrêis era o apelido de um cara que serviu exército com meu pai. “E daí?”, alguém pode contestar. E daí que o brogue é meu e eu escrevo o que eu quero, mané.)

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Da referência shakespeariana eu bolei um segundo slogan para a campanha: “Pra agüentar esse fardo, só mesmo um bardo”. Tá bom, tá bom, eu sei que eu slogan é fraco. Mas eu bolei, ué.

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Sabe, sem falsa modéstia, eu queria ser o Duda Mendonça da campanha chavista. Alguém tem uma dica de hotel em Cayman?

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Chaves, quando era Roberto, foi pobre. Menino, perdeu o pai. A mãe trabalhou duro pra botar comida na mesma. Mesmo assim ele se formou em Engenharia Elétrica (portanto, logo se vê que Chaves, apesar da origem igualmente humilde, tem uma formação mais sólida que a do nosso atual manda-em-otário.)

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O verdadeiro nome de Kiko, nosso vice, é Carlos Villagrán. Notícia bombástica: ele é brigado com o Chaves. Por incresça que parível, isso será ótimo para a campanha. Geralmente, o candidato a vice é brigado com o titular. Podemos conquistar diferentes fatias do eleitorado. (Esse negócio de “conquistar fatias” parece conversa de gordo.)

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Kiko e Chaves brigaram em 1979. Segundo Villagrán, o motivo da saída foram os ciúmes de Chaves. O personagem secundário estaria chamando mais atenção do que o principal. Discordo com veemência, mas em nossa campanha há espaço para a polêmica e o debate democrático.

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Um dado sensacional sobre o Kiko: Carlos Villagrán não usa nenhum tipo de enchimento para ficar com aquelas bochechas. Ele é portador de uma doença rara no rosto, que o permite deixar as bochechas duras por quanto tempo quiser. Fantástico!

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Infelizmente, Ramón Valdez y Castillo, o Seu Madruga, morreu em agosto de 1988. Mas não há problema: vamos instituir um concurso de sósias para escolher um novo Seu Madruga, e dar a ele o Ministério da Fazenda. Bem melhor do que Paloffi ou, como estão ameaçando, o homem de Neanderthal, Paulo Bernarrrrdo.

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Agora, reproduzo textualmente uma informação chocante sobre o Seu Madruga: “Em 9 de agosto de 1988, Ramón Gomez Valdez y Castillo veio a falecer, deixando aproximadamente dez filhos e milhões de fãs ao redor do mundo”. Vixi Maria! Morde Deus! O homem deixou “aproximadamente” dez filhos: ou não contou direito ou era um verdadeiro coelho. Eh, Seu Madruga, nunca me enganou! Séééim-vergonha – com todo respeito.

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E, ao final, devo fazer duas confissões: gosto de Coca-Cola sem gás e pizza no dia seguinte. Alguém pode perguntar: “E o queque isso tem a ver, etc. etc. etc.”. Ao que eu responderei: eu já disse que o brogue é meu, rapá!

Sonhos

March 02, 2006
Ontem você sonhou com uma querida amiga que não vê há muito tempo. Quando acordou e abriu o e-mail, percebeu que havia uma carinhosa mensagem da amiga na caixa de entrada. Você ficou feliz; eu fiquei feliz porque você ficou feliz; e assim até o final dos tempos.

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Hoje sonhei com o Carlos Silva. Ele estava do mesmo jeito que o conheci na Folha de Londrina: óculos fundo de garrafa e um sorriso matreiro de quem já viu muita coisa na vida (dizem as bocas de matildes que ele chegou a morar na zona quando jovem, sééééééiiiiiim-vergonha!). Carlos era editor de cartas da Folha, e um perfeito cavalheiro. Morreu em 2003, sem realizar o sonho de comprar um trailer e sair pelo mundo com a mulher. Agora ele está lá, com ela. No trailer, no mundo. Obrigado pela visita, Carlos. Volte sempre.

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Ontem à tarde, garrafa de água mineral à frente, entrevistei o Maurão, dono do Kotovelo´s Bar, para um livro que estou ajudando a fazer. Ele ficou emocionado durante a conversa. “Desculpe, é que é a vida da gente.” Grande Mauro. Não tem nada o que desculpar.

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Os sonhos demonstram apenas que nada é por acaso.

Dormir na mesa: eu recomendo

March 01, 2006
Hoje, na Folha de S. Paulo, tem uma foto do sr. Zeca Pagodinho dormindo na mesa do camarote da Brahma, ao lado da moça que fazia a Jade na novela.
É bom saber que eu não sou o único a manter o hábito.
Infelizmente, não encontrei a foto no Google, nem no site da FSP. Se alguém a conseguir, ficarei muito agradecido.
Mais não digo porque não sei. E porque preciso beber menos.

Ressurgido das cinzas

March 01, 2006
Os garis de Londrina estão em greve. Quem vai limpar as cinzas da quarta-feira? (Posso ouvir a multidão rolando na grama de tanto rir.)

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Releio uma entrevista com Karl Vonnegut (1922-), autor de “Matadouro 5”, e dou boas risadas. O cara é engraçadíssimo. A mãe se matou quando Vonnegut estava com 22 anos, na guerra; ele sobreviveu ao bombardeio de Dresden em fevereiro de 1945 (quando 135 mil pessoas morreram em poucas horas, a cidade ficou reduzida a cinzas); ele tentou se matar há 22 anos; está vivo e ativo.

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Apesar – ou por causa – de tudo que sofreu , Vonnegut saber fazer rir. Vou escrever um artigo sobre “Matadouro 5” para o jornal. Vonnegnut conta a história de um massacre e nos faz rir (sem abandonar a compaixão, o que é fundamental para um escritor).

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Não acredito que se possa fazer humor sem dor. Humor e dor não apenas rimam; há uma irmandade entre as duas palavras. O humor é uma estratégia de sobrevivência, um abrigo (ainda que precário) contra as tempestades de fogo.

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E tem mais: amor sem humor é impossível. Sem rir, ninguém ama. Rir de quem a gente ama é uma das melhores coisas da vida. E não estou falando de sarcasmo; refiro-me ao riso temperado de entendimento, compaixão, carinho, identidade, cuidado.


Para encerrar, nada melhor que uma piada.
Descobriram que o verdadeiro inventor do Orkut não é o sr. Orkut. É Roberto Carlos.
Sabe por quê?


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