Diocleciano, que de uma origem servil se alçara até o trono, passou os nove últimos anos de vida na privacidade. A razão havia ditado e o contentamento parece ter acompanhado seu retiro, no qual desfrutou por longo tempo o respeito dos príncipes a quem havia deixado a possessão do mundo. São raros os espíritos exercitados no trato dos assuntos do mundo que desenvolvem o hábito de conversar consigo mesmos, e é principalmente a perda do poder que os leva a lamentar a falta do que fazer. As distrações das letras e da devoção, que oferecem tanto consolo na solidão, não conseguiam prender a atenção de Diocleciano; todavia, ele havia conservado, ou pelo menos logo o recobrou, o gosto pelos prazeres mais inocentes e naturais, e suas horas de lazer eram satisfatoriamente empregadas em construção, plantio e jardinagem. Sua resposta a Maximiano é justificadamente célebre. Ele fora instado por esse impaciente ancião a retomar as rédeas do governo e a púrpura imperial. Rejeitou a tentação com um sorriso de piedade, observando calmamente que, se pudesse mostrar a Maximiano as couves que plantara com suas próprias mãos em Salona, não mais seria instado a trocar o desfrute da felicidade pela busca do poder.
(Edward Gibbon, “Declínio e queda do Império Romano”.)
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Arranjei meu estilo estudando matemática e ouvindo um pouco de música. – João Sebastião Bach. Conhece o Concerto Brandeburguês no. 5? Conhece essa coisa tão simples, tão harmoniosa e definitiva que é um sistema de três equações e três incógnitas. Primário, rudimentar. Resolvi milhares de equações. Depois ouvia Bach. Consegui um estilo. Aplico-o à noite, quando acordo às quatro da madrugada. É simples: quando acordo aterrorizado, vendo as grandes sombras incompreensíveis erguerem-se no meio do quarto, quando a pequena luz se faz na ponta dos dedos, e toda a melancolia do mundo parece subir do sangue com a sua voz obscura... Começo a fazer o meu estilo.
(Herberto Helder, “Os passos em volta”)
Publicado em 28 de fevereiro de 2006 às 03:58 por briguet