Saltam aos olhos as cores os dias
as supremas imperfeições
saltam aos olhos o pleno e o vazio
e tudo que falta entre os dois
As mulheres as páginas os domingos
as almas os cristos as manhãs
saltam a olhos vistos
como se fossem as palmas
das nossas próprias mãos
Salta aos olhos a pele
o sangue salta aos olhos
e dentro de nós há um cerne
que salta aos olhos do tempo
no mundo
É que tudo
salta aos olhos como quem diz
o que vê
E o que falta no fundo
está diante do nosso nariz
que a terra há-de comer
Salta aos olhos
bem antes de ouvirmos
o som dos passos
salta aos olhos no vento
no precipício no espaço
o visível advento
dos homens que silenciam
antes mesmo que nasçam
E mesmo que faltem os olhos
vão saltar no penhasco
a morte a sombra o amor
e amar e ocultar e morrer
os que têm olhos de ver
Publicado em 28 de fevereiro de 2006 às 11:15 por briguet