Nós, nós somos náufragos,
quem ouve a nossa voz?
Quem viu os nossos rastros
no mar, além de nós?
Quem viu nossas garrafas
com cartas de SOS,
e soube que eram náufragos
pedindo-lhe mais preces?
Quem viu em outras praias
o barco em fragmentos,
em que uma noite as vagas
lançaram os tormentos?
Quem sabe que os náufragos
não só perderam lares,
mas que, por tão esquálidos,
não têm nem mesmo mares?
Aqui estamos náufragos,
em pálidos atóis.
Queremos cá um barco,
mas, Deus, a quantos nós?
Aqui seguimos náufragos,
sob o Sol do Sertão,
no Mar Morto dos passos
nadamos contramão.
Aqui o lar dos náufragos,
de onde não se escapa,
bebemos todas taças
da última garrafa.
Vocês que não são náufragos,
escutem a balada,
a última mensagem
da voz embriagada.
Publicado em 22 de fevereiro de 2006 às 08:00 por briguet