Voltar para voltar,
para voltar atrás,
para voltar no tempo
e voltar nunca mais.
Voltar para voltar,
para voltar ao mesmo.
Para voltar ao caos
e refazê-lo inteiro.
Voltar para estar,
para chegar ao centro,
para voltar ao ventre
de uma noite adentro,
para voltar ao cerne
que nos fez primeiro.
Voltar como quem ia
voltar para a chuva.
Voltar para a folia,
o vinho verde, a uva.
Voltar para voltar
para ventar nas coisas,
para chover nas plantas
e outras coisas tantas.
Para voltar ao medo,
ao erro e à escolha.
Ao pássaro de cedo
e à rapidez da bolha.
Para voltar à terra,
para voltar à morte,
para voltar à face
de uma outra sorte.
Para voltar ao mar,
para voltar à praia
onde o castelo frágil
nas areias caia.
Voltar para bem dentro,
às águas do silêncio
no ventre da mulher
que nos levou ao tempo.
Voltar para nascer
de modo inconcebível,
voltar na epiderme
de outro indivíduo.
Voltar para voltar
sem dor e sem revolta
ao eterno lugar
aonde tudo volta.
Publicado em 21 de fevereiro de 2006 às 09:20 por briguet