O poema será despojado de tudo.
Das palavras, primeiramente.
Dos versos e das rimas. Dos climas.
O poema será despojado de tempo.
De glória, sangue, sentimento,
o poema será despojado das coisas,
eliminado da vida, arrancado ao silêncio.
O poema será despojado da página
inerte e branca e perplexa
que se abriu para o que é nada
e se fechou ao que interessa.
O poema será despojado
da lentidão e da pressa,
da frase, da arma e do ponto,
da vírgula e da verve.
O poema será despojado em breve.
Desancado dos corpos, alheio às virtudes,
atulhado de vícios, o poema será despojado
e jogado ao precipício.
O poema será despojado de som e ironia,
e, a qualquer imagem que haja, ver-se-á que o poema,
para sempre, em rajadas se distancia.
Pobre poema sem nódoas, sem crases,
sem processos, sem rigores, sem partes,
pobre poema do mundo, deixado sem roupas,
sem braços, sem pernas, sem sombra,
pobre poema inerte das loucas
mulheres da vida que, poucas,
mesmo assim gritam aos ares:
– Triste é o poema do mundo,
que existe, apesar dos pesares.
Publicado em 16 de fevereiro de 2006 às 12:42 por briguet