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Archive for February of 2006

Madrigal da visibilidade

February 28, 2006
Saltam aos olhos as cores os dias
as supremas imperfeições
saltam aos olhos o pleno e o vazio
e tudo que falta entre os dois

As mulheres as páginas os domingos
as almas os cristos as manhãs
saltam a olhos vistos
como se fossem as palmas
das nossas próprias mãos

Salta aos olhos a pele
o sangue salta aos olhos
e dentro de nós há um cerne
que salta aos olhos do tempo
no mundo

É que tudo
salta aos olhos como quem diz
o que vê
E o que falta no fundo
está diante do nosso nariz
que a terra há-de comer

Salta aos olhos
bem antes de ouvirmos
o som dos passos
salta aos olhos no vento
no precipício no espaço
o visível advento
dos homens que silenciam
antes mesmo que nasçam

E mesmo que faltem os olhos
vão saltar no penhasco
a morte a sombra o amor
e amar e ocultar e morrer
os que têm olhos de ver

Soneto das contas a pagar

February 28, 2006
Ninguém vai pagar a conta do Sol.
Nem mesmo acender e apagar a Lua.
Se os juros do mar estão de dar dó,
não faça onda, que a culpa é sua.

Anda atrasado o aluguel do chão,
semana que vem vão cortar o ar.
Grana que é bom não existe mais não;
nem o pensamento se pode quitar.

Relógios parados, dias escuros,
conta vermelha, carteira vazia,
gás esgotado, telefone mudo,

impostos de renda e perdas de fundo
não vão deixar você ficar em dia,
mesmo com todo dinheiro do mundo.

O imperador das couves e o terror da madrugada

February 28, 2006
Diocleciano, que de uma origem servil se alçara até o trono, passou os nove últimos anos de vida na privacidade. A razão havia ditado e o contentamento parece ter acompanhado seu retiro, no qual desfrutou por longo tempo o respeito dos príncipes a quem havia deixado a possessão do mundo. São raros os espíritos exercitados no trato dos assuntos do mundo que desenvolvem o hábito de conversar consigo mesmos, e é principalmente a perda do poder que os leva a lamentar a falta do que fazer. As distrações das letras e da devoção, que oferecem tanto consolo na solidão, não conseguiam prender a atenção de Diocleciano; todavia, ele havia conservado, ou pelo menos logo o recobrou, o gosto pelos prazeres mais inocentes e naturais, e suas horas de lazer eram satisfatoriamente empregadas em construção, plantio e jardinagem. Sua resposta a Maximiano é justificadamente célebre. Ele fora instado por esse impaciente ancião a retomar as rédeas do governo e a púrpura imperial. Rejeitou a tentação com um sorriso de piedade, observando calmamente que, se pudesse mostrar a Maximiano as couves que plantara com suas próprias mãos em Salona, não mais seria instado a trocar o desfrute da felicidade pela busca do poder.

(Edward Gibbon, “Declínio e queda do Império Romano”.)

*****

Arranjei meu estilo estudando matemática e ouvindo um pouco de música. – João Sebastião Bach. Conhece o Concerto Brandeburguês no. 5? Conhece essa coisa tão simples, tão harmoniosa e definitiva que é um sistema de três equações e três incógnitas. Primário, rudimentar. Resolvi milhares de equações. Depois ouvia Bach. Consegui um estilo. Aplico-o à noite, quando acordo às quatro da madrugada. É simples: quando acordo aterrorizado, vendo as grandes sombras incompreensíveis erguerem-se no meio do quarto, quando a pequena luz se faz na ponta dos dedos, e toda a melancolia do mundo parece subir do sangue com a sua voz obscura... Começo a fazer o meu estilo.

(Herberto Helder, “Os passos em volta”)

Soneto da porra

February 27, 2006
Este soneto vai ser do caralho,
e quem negar é um filho-da-puta.
Nem vem, cuzão, senão eu logo espalho
que a tua irmã é larga e manteúda.

Cada quarteto desta bela porra
é tão perfeito quanto meu cacete.
E eu desejo que se foda e morra
o puto que pensar contrariamente.

Este soneto é sutil como a bronha
que se descasca dentro do banheiro
(e se a mãe vê, meu Deus, oh que vergonha).

Este soneto é pra ser lido nu
como quem trepa na bela rameira
– quem não gostou que vá tomar no cu.

Soneto sem nome (ou: Rock não é meu ramo)

February 27, 2006
Apaguei este soneto.
Estava muito ruim (e olha que eu publico sonetos ruins...).
Esse negócio de escrever poemas usando palavras como anjo, rosa e amor é até um bom desafio, mas o cara precisa ser muito bom ou estar inspirado bagarai para fazer alguma coisa que preste.

*****

Mas não vim aqui só para apagar o soneto. Vim também para dizer que eu considero Bono Vox o sujeito mais chato e insuportável dubrasil. Ele é o Samuel Rosa da Irlanda. Jantar com ele e o menisco Gilberto Gil é a própria definição de inferno.

*****

Sei que rock não é meu ramo, mas considero uma ofensa falar de Bono Vox e Rolling Stones na mesma frase. Pronto: falei.

*****

E mais eu não digo porque não sei (o eu foi só para dar decassílabo, mestre Tanga).

Soneto da segunda-feira

February 27, 2006
Nesta segunda não existem feiras:
ontem domingo, amanhã terça gorda.
Fecham-se as portas, multidões inteiras
dão-se à preguiça que há nas coisas todas.

Facultativo nas repartições,
com o disfarce de um feriado,
dia vermelho, tão malandro sois
que, na folhinha, preto estais marcado.

Os estudantes já foram embora,
trabalhadores não bateram ponto
e o comércio está a meio-pau.

Eu, vagabundo, me alegro agora
por este dia útil um tanto tonto
que na segunda brinca o Carnaval.

Soneto da decomposição

February 26, 2006
Ao Júlio Tanga e à Cristiane Prizibisczki, que, durante meu sumiço da Quinta Sem-Lei, acharam que eu tinha morrido e estava em decomposição no apartamento da Rua Cacilda Becker.


O sólido desmancha-se no ar,
as águas sobem contra a gravidade,
enquanto o vapor, a flutuar,
evola-se com tal facilidade

que somos obrigados a saber
do corpo, esse pedaço vulnerável,
o fim anunciado, e o poder
da alma em ser a sombra do passado.

Palavras rumam para o precipício
e o Verbo não precisa nem dizer
que a luz se faça, mesmo que difícil.

À sombra do instante a se perder,
o sólido desmancha-se no início,
e ao fim se recompõe no mesmo ser.

Momento de consulta às Organizações Mendes da Costa

February 23, 2006
Desculpem a ignorãssa deste cronista da era analógica, mas, quando a gente vê aqueles números no Tipostats, tipo assim, qual seria a diferença entre hits e visitas? Muito me agradaria se alguma boa alma respondesse de maneira simples e acessível aos meus três neurônios (antes da Quinta Sem-Lei, por favor, pois que o dito folguedo etílico em geral costuma colocá-los fora de combate por um dia).

Ou, colocando em outros termos: qual a diferença entre hitar e visitar o meu brogue?

Muito agradecido.

E mais não digo porque não sabia desde o começo.

Ô seu dotô

February 23, 2006
Hoje, uma leitora da Folha de Londrina (identificada como W.V., 29 anos, jornalista, portanto colega) enviou a seguinte dúvida para a coluna jurídica do jornal:

Tenho um vizinho que vive me espionando da casa dele quando estou no meu quintal, seja estendendo uma roupa ou usando a piscina. Estou com tanto medo que não costumo mais sair de casa. O que eu posso fazer para acabar com essa situação? Eu posso dar queixa?

Taí. Gostei da atitude da garota. Até porque eu também tenho minhas dúvidas jurídicas. Passo a listar algumas delas, na esperança de que algum adEvogado leia este blog inútil, tornando-o útil:

1. Tenho um vizinho mala que sempre pergunta para onde eu estou indo e de onde eu estou vindo. Considero essas perguntas uma invasão de privacidade; porém, como sou educado, tenho que me esforçar para dar respostas evasivas e mentirosas, do tipo “Vou comer um cachorro quente de salmão na Indonésia” ou “Quero certificar-me de que não possuo um meio-irmão ilegítimo no Conjunto Habitacional Aquiles Stenghel”. Mandar o vizinho cuidar da vida dele e não me torrar a paciência é uma hipótese fora de questã. Há alguma forma de processá-lo e calá-lo na forma da lei, para que ele seja preso e pague uma multa por danos morais e lesões corporais?

2. Não suporto o U2, muito menos o Bono Vox. O homem vai, visita o Lula; dá uma guitarra de presente para o Fómi Zero; fala besteiras com a abundância de uma correição de saúvas canibalescas; oferece a oportunidade para que um cover gordo apareça; e, ao fim e ao cabo, transforma a apresentação daquela merda de banda em um showmício digno do presidente de bosta que ele visitou.
Depois de tudo isso, eu ainda tenho que ler na Folha de S. Paulo uma editora dizendo que é preciso separar “as opiniões políticas” de Bono e a “qualidade musical” do U2, e ao final comparando-o a Mario Vargas Llosa, como se a hediondez sonora do grupo não fosse a mais perfeita expressão de cretinice “ideológica”?
Há alguma forma, ô seu doutor advogado, de tacar um processo bem doloroso no colo do Bono, do Lula e dos jornalistas que insistem em glorificá-los?

3. Há alguma maneira, pelo amor de Deus, de responsabilizar judicialmente um deputado que luta para conseguir aposentadoria por invalidez (e assim se livrar de uma cassação), ao mesmo tempo em que aparece em propaganda eleitoral na TV, exaltando a própria atuação parlamentar, a mesmíssima que estaria impedida por razões de saúde?

4. Diz aí, ô sinhô causídico, se eu tenho como obrigar esses caras que ainda acham o Lula inocente e “vítima da direita” a carpirem uma data lá no Conjunto Habitacional Jamile Dequech ou a pintarem uma guia ao Sol das duas da tarde lá na Avenida Winston Churchill?

5. Uma última dúvida, seu dotô. No caso de um voyeur que tenha uma vizinha de generosas formas, ele pode ser processado caso não seja mané e observe-a sem que ela perceba (por meio de buraquinhos na janela, por exemplo)?

Aforismos apolíticos

February 22, 2006
Registre-se – e louve-se – a presença do grande Lúcio Flávio Moura na Terça Tilt de ontem. Sem favor algum, o melhor texto da imprensa paranaense (que não o tem merecido). Além disso, um dos mais hábeis trocadilhistas dubrasil.

*****

Meditar é produzir voluntariamente ignorâncias magistrais.

*****

A cirrose é o câncer dos bêbados.

*****

O ócio inventou o sanduíche, comida que concilia dois pecados capitais: a preguiça e a gula.

*****

Política provoca micose na alma.

*****

A política não é incurável, mas pode matar. A gripe espanhola não matou milhões? A política, também (Stalin, Hitler, Mao, Pol Pot).

Balada antiga dos náufragos

February 22, 2006
Nós, nós somos náufragos,
quem ouve a nossa voz?
Quem viu os nossos rastros
no mar, além de nós?

Quem viu nossas garrafas
com cartas de SOS,
e soube que eram náufragos
pedindo-lhe mais preces?

Quem viu em outras praias
o barco em fragmentos,
em que uma noite as vagas
lançaram os tormentos?

Quem sabe que os náufragos
não só perderam lares,
mas que, por tão esquálidos,
não têm nem mesmo mares?

Aqui estamos náufragos,
em pálidos atóis.
Queremos cá um barco,
mas, Deus, a quantos nós?

Aqui seguimos náufragos,
sob o Sol do Sertão,
no Mar Morto dos passos
nadamos contramão.

Aqui o lar dos náufragos,
de onde não se escapa,
bebemos todas taças
da última garrafa.

Vocês que não são náufragos,
escutem a balada,
a última mensagem
da voz embriagada.

Kaiser e Gil. É isso mesmo: Kaiser e Gil!

February 21, 2006
Perigo, perigo. O menisco Gilberto Gil vai lançar no Carnaval uma latinha de Kaiser temática com o nome “Expresso 2222”. Li hoje na Ilustrada da FSP, coluna da Mônica Bergamo, onde escreve a amiga Audrey Furlaneto.

É o cão. Só pode ser coisa do cão. Kaiser? Gil? Expresso 2222? Não deixe que isso aconteça com a Terça Tilt, mestre Rubão! Não permita Deus que isso passe perto da Quinta Sem-Lei, mestre Tanga!

Planárias e planilhas

February 21, 2006
Lula na frente? Das duas, uma: ou os institutos de pesquisa estão equivocados (sic - desculpe, foi um soluço), ou o povo tem memória de planária.
É por isso que eu digo:

Kiko (candidato a vice) e Chaves (nosso presidente) em plena campanha. Notem a animação.

CHAVES PARA PRESIDENTE! (A versão dublada! Naturalização já!)

Canção da volta

February 21, 2006

Voltar para voltar,
para voltar atrás,
para voltar no tempo
e voltar nunca mais.
Voltar para voltar,
para voltar ao mesmo.
Para voltar ao caos
e refazê-lo inteiro.

Voltar para estar,
para chegar ao centro,
para voltar ao ventre
de uma noite adentro,
para voltar ao cerne
que nos fez primeiro.

Voltar como quem ia
voltar para a chuva.
Voltar para a folia,
o vinho verde, a uva.

Voltar para voltar
para ventar nas coisas,
para chover nas plantas
e outras coisas tantas.
Para voltar ao medo,
ao erro e à escolha.
Ao pássaro de cedo
e à rapidez da bolha.

Para voltar à terra,
para voltar à morte,
para voltar à face
de uma outra sorte.
Para voltar ao mar,
para voltar à praia
onde o castelo frágil
nas areias caia.

Voltar para bem dentro,
às águas do silêncio
no ventre da mulher
que nos levou ao tempo.
Voltar para nascer
de modo inconcebível,
voltar na epiderme
de outro indivíduo.

Voltar para voltar
sem dor e sem revolta
ao eterno lugar
aonde tudo volta.

Questão de ordem (ou: Companheiro Briguet)

February 20, 2006
Companheiros! Não podemos permitir!

Olha aê o cara. A foto é de março de 1991; foi feita em alguma assembléia estudantil. Repare na expressão de ira santa trotskista. Esse cara acreditava em socialismo, comunismo, governo popular, maio de 68, a imaginação no poder.
Agora, repare na magreza e na cara de criança. Acha que algum antagonista iria levá-lo a sério? Quanta perda de tempo, meu Deus.

E pensar que daqui a 15 anos eu vou ser um porco capitalista!

Agora, repare na mecha de cabelos já um pouco caída sobre a testa; o dedo em riste; a sobrancelha esquerda em circunflexo de ponderação; meu Deus, esse cara pode ser chato aos 35 anos, mas com 21 era muito, muito mais insuportável.

Soneto da mãe que perdeu o filho

February 20, 2006

A dor da mãe que perdeu o filho
não é menor que a sombra do Sol
no espaço, não é menor que mil
universos esparsos, não é dor só,

é até alegria de tanto que dói,
tal qual o riso nervoso do homem
cujo veneno presto corrói
todas entranhas que logo somem.

A dor da mãe que perdeu o filho
não é menor que a morte inteira,
tampouco é vida que se compõe.

Não faz sentido, só faz martírio,
nem mesmo rima com o desespero
do mesmo filho que perde a mãe.

Esse Fidel também é fria

February 20, 2006
Acabo de receber por e-mail o comentário do camarada Fidel Castro da Silva. Reproduzo suas palavras na íntegra:

Por que você depois não foi no mcdonalds se lambuzar de gordura e dar sua grana para o Tio Sam, seu porco capitalista. Trouxa é quem finge que não gosta de politica, mas na verdade é de um reacionarismo conservador impressionante.

É, Fidelzinho. Acho que você deve ser o Márcio Leijoto brincando, mas o comentário é interessante. Sou conservador e reacionário exatamente porque detesto política: quero me conservar bem longe dos esquerdinhas lulo-chavistas; e reajo contra as idiotices “socializantes” ou “populares”.

Quanto ao seu comentário ulterior, dizendo que Chávez é sexy (vide caixa de comentários do post abaixo), prefiro me abster de réplicas. Não sou do ramo.

A propósito, o espetinho do Kotovelo's é bem melhor que McDonald's. Ambos só têm em comum o 's.

No te metas conmigo (ou: Esse Chávez é Fría)

February 20, 2006
Que tristeza. Sou muito melhor administrador que ele...

Olha aí eu com o mala. Notem meu sorriso sem graça.

Ver TV é o meu sonífero preferido. Bandnews, então, nem se fala.


Eis que aquele indivíduo lamentável, o “bolivariano” da Venezuela, Hugo Chávez, fez mais uma bravata em seu programa de TV, dizendo para a secretária de Estado dos EUA, Condolência Rice, não se meter com ele.

Algo assim:

- No te metas conmigo, chica.

Foi quando algum mané da técnica deixou o microfone aberto e alguém comentou:

- Esse cara é um xarope.

Confesso que, nos últimos dez anos, não ouvi melhor comentário na TV.

É por isso que eu continuo preferindo o outro Chaves.

E mais não digo porque não sei.

Soneto dos meses

February 18, 2006
Para Ester Falaschi, aniversariante.


Daqui a pouco estaremos em março,
e até dezembro estará quase perto.
Pós fevereiro, esse mês tão escasso,
juro que julho virá bem ao certo.

Penso em abril, de cruéis mentiras,
e em agosto do cachorro louco.
Só em setembro, quando o tempo vira,
descobriremos que junho foi pouco.

Abre novembro com todos os santos
e o quente janeiro já com feriado;
no mês de maio trabalha-se tanto
que até outubro se estará cansado.

Andam os tempos assim tão dispersos
que ao final ainda sobram dois versos.

Contra o relógio

February 18, 2006
I grow old... I grow old...
(T. S. Eliot)


Assim, todas as manhãs, travo um duelo com meu relógio. Ele avança, eu fico; ele vai, eu não.
Maratonista de si mesmo, o relógio corre à velocidade de um minuto por minuto. É calmo; preciso; animal de sangue frio.
– Que profissão é essa, cara? Não vê que estou dormindo?
Ele não responde. Não é de muita conversa.
Estamos condenados um ao outro, eu e meu relógio. Olho pra ele, ele olha pra mim. Eu trabalho com letras; ele, com números. O problema é que ele trabalha enquanto eu durmo.
Competição desigual: o relógio sempre vence. Da mesma forma que seu irmão mais velho, o calendário.
Correr contra o relógio, a suprema inutilidade de cada dia.
Assim. Todas as manhãs. Ele vai; não vou. É hora.

Jorge Mendonça

February 17, 2006


Não ando muito ligado em futebol, mas devo registrar que morreu, aos 51 anos, Jorge Mendonça, um dos maiores ídolos do Palmeiras. Só não fez mais sucesso porque era reserva do Zico na Copa de 78. Eu o vi jogar no Pacaembu. Era ótimo; era craque. R.I.P.

Pingüim, pingüim, pingüim

February 16, 2006


Uma crônica sobre ele.

Despojamento do poema

February 16, 2006
O poema será despojado de tudo.
Das palavras, primeiramente.
Dos versos e das rimas. Dos climas.
O poema será despojado de tempo.
De glória, sangue, sentimento,
o poema será despojado das coisas,
eliminado da vida, arrancado ao silêncio.

O poema será despojado da página
inerte e branca e perplexa
que se abriu para o que é nada
e se fechou ao que interessa.
O poema será despojado
da lentidão e da pressa,
da frase, da arma e do ponto,
da vírgula e da verve.
O poema será despojado em breve.

Desancado dos corpos, alheio às virtudes,
atulhado de vícios, o poema será despojado
e jogado ao precipício.
O poema será despojado de som e ironia,
e, a qualquer imagem que haja, ver-se-á que o poema,
para sempre, em rajadas se distancia.

Pobre poema sem nódoas, sem crases,
sem processos, sem rigores, sem partes,
pobre poema do mundo, deixado sem roupas,
sem braços, sem pernas, sem sombra,
pobre poema inerte das loucas
mulheres da vida que, poucas,
mesmo assim gritam aos ares:
– Triste é o poema do mundo,
que existe, apesar dos pesares.

Poema do torcicolo

February 16, 2006
De repente
a dor se mostra
e o pescoço
fica duro
como um poste.

Não posso
olhar pro lado,
não posso
olhar pra frente.
Torcicolo
é um negócio
deprimente.

Ar gelado?
Água quente?
Não se sabe
o que o faz
na gente.

De repente,
lá da carne,
vem a dor,
essa demente,
dar o alarme
e ser mais forte,
incrivelmente.

Não tem emplastro
nem Gelol, Doril
que me tire
deste claustro vil.
Cadeia
a esmo
que sou
eu mesmo.

De repente,
que má sorte!
o torcicolo
faz lembrar
da morte.

De repente,
num segundo,
ela pode
aparecer
do fundo.
E aí, seo moço,
a gente entra
com o pescoço.

Cinco frases minhas e uma de outra pessoa

February 15, 2006

1. O Brasil não precisa de mais esquerda nem de mais direita. O Brasil precisa de mais moderados.

2. Triste é a terra em que o verdadeiro moderado é confundido com os hesitantes; e em que os falsos moderados vendem a sua opinião.

3. Mesmo usando da maior moderação, não há como dizer que o governo Lula é menos que um desastre.

4. Pensar é um crime imperdoável no Brasil. Aqui, a opinião, por uma lei tácita, vem antes da reflexão.

5. Triste é também o Paraná. Entre Lerner, Requião e Dias, o pior é aquele que está no poder.

6. “Capitalismo é o sistema em que homem explora o homem. Socialismo é o contrário.” (Stanislaw Ponte Preta)

Há algo de podre no Reino da Terra (ou: Maomé tem mais o que fazer)

February 15, 2006
Sou cristão, e adoro contar piadas sobre Cristo. Não acho que contar uma anedota sobre o Homem vá prejudicá-Lo ou ofendê-Lo de alguma forma. O Cara tem outros afazeres.
Lembro-me de uma passagem do Livro de Reis em que Davi se finge de louco para fugir de uma enrascada. É engraçadíssima – e é Velho Testamento! Uma das teses defendidas por Umberto Eco em “O Nome da Rosa” é a de que Jesus (por sinal, conterrâneo de Davi) tinha senso de humor. Então, por que essa reação histérica e violenta às charges dinamarquesas sobre Maomé?
Você é muçulmano? Não gostou das charges? Proteste, se quiser. Mas – como bem observou Nelson Ascher, na Folha – ofensas simbólicas devem ser respondidas com protestos simbólicos. Censura, chibatadas, pena de morte e depredações de embaixada estão fora de cogitação.
Quem é islâmico de verdade – islâmico mesmo, lá, na bucha – jamais daria trela para uma charge na imprensa. O resto é mera desculpa para extravasar fanatismos.

Um dia

February 15, 2006
Um dia, quem sabe, talvez, provavelmente, se tudo correr bem, se as circunstâncias assim o permitirem, se a conjuntura estiver favorável, no caso de, desde que, apenas e tão-somente se, se Deus quiser...
Oxalá um dia, possivelmente, faço fé, estou na torcida, toc-toc-toc, Deus permita, apesar dos pesares, mesmo assim, por incrível que pareça, a despeito de, sem embargo, entretanto...
Um dia, uma hora, quando for adequado, a seu tempo, se, if, a partir do momento em que, dependendo do que acontecer, espera-se que, se nossas preces forem ouvidas, se nossas melhores esperanças forem confirmadas, se der certo, se não houver empecilho, com viés de alta, praticamente tudo leva a crer que...
Um dia...

Voz geral

February 14, 2006
Procuro uma voz para ser minha.
Para ser pura, para ser morte,
uma voz para ser fúria,
uma voz para ser forte.

Procuro uma voz em tantas,
uma voz com nós de tempo
e sem os nós da garganta.
Procuro uma voz sem medo.

E quero que seja outra voz
embora sempre a minha.
Quero uma voz da terra,
quero uma voz marinha.

Uma só voz arraigada,
interior e externa,
que, parecendo ser nada,
um dia se prove eterna.

Uma voz que, se ouvida,
permaneça na memória
até o final da vida
e o começo de outra história.

Busco uma voz geral,
clara e enigmática
uma voz irracional
pelas leis da matemática.

Uma voz para quem vive,
uma voz de quem morreu.
Uma voz que, ao perguntarem,
responda de pronto: – Sou eu.

Diálogo

February 14, 2006

- E aí, tudo bem?
- Que nada, rapaz. Tenho sofrido mais que sovaco de aleijado.

Eu nunca vi fazer tanta exigência

February 13, 2006
Os Stones vêm aí e já fizeram a tradicional “lista de exigências” dos astros pop. Até que mr. Jagger e seus amigos não extrapolaram na dose; a lista dos Pedras Rolantes foi bem modesta, em comparação com outras que já vi.
E daí? Daí que fiquei pensando, em meu sagrado ócio, no que pediria se fosse um astro do rock. Pensei em alguns itens:

Três sacos de Balas Chita (sabores abacaxi tradicional e uva).
Um freezer de Skol, Marcelo Rocha e Tanga. E Preto. E Rubão. E Pafu. E Zé. (Pensando bem, acho que vou precisar de dois freezers.)
Um DVD com todos os desenhos de Charlie Brown (não confundir – eu disse NÃO CONFUNDIR! – com Charlie Brown Jr. Do contrário, o show será cancelado.)
53 metros daquele plástico com bolinhas que a gente fica apertando.
Macarrão Miojo e caviar (para dar um contraste).
17 alvos com o retrato do Samuel Rosa.
Um quarteto com músicos de Filarmônica de Berlim tocando João Sebastião na hora em que me der na telha.
Videogame Atari em boas condições, com cartuchos de River Raid e Video Pinball.
A transferência da Cantina do Nonóca (com Chico, a família e os clientes) para o saguão do hotel onde eu me hospedarei.
Uma coleção completa de Futebol Cards, inclusive com os chicletes.
Janaína Ávila.
Uma coleção de fotos inéditas da Magda Cotrofe (meados dos anos 80).
Um carregamento de Neosaldina.
Um quarto, um quarto bem grande, com champagne e morangos, exclusivamente para você. Desnecessário dizer que só nós dois teremos a chave.

De camiseta na Quinta Sem-Lei?

February 09, 2006

Camiseta, sim. Skank, não!!!!!!!

Faltei na última QSL. Foi por um bom motivo – o melhor –, mas faltei. Portanto, hoje estarei presente na curva do balcão. E venho a público dizer em alto e bom som: vou de camiseta.

*****

Não sei o que tenho com camisetas. Acho que parei de usá-las aos 19 anos. Nos churrascos da faculdade, eu já ia de camisa social; geralmente de manga comprida; geralmente listrada.

*****

No ano passado, larguei o blazer. Passei a usá-lo só em ocasiões muito especiais, sempre no inverno. Agora, para surpresa dos amigos, estou voltando à camiseta. Entendam que é difícil: é como se eu voltasse a ter 19 anos. Não quero ficar parecendo um daqueles roqueiros velhos que usam pulseira de tachinha. Se eu estiver sendo ridículo, é favor avisar-me.

*****

Algumas camisetas causam a impressão de que meu músculo mais desenvolvido – o pânceps – é menor. Mas os mais lúcidos lembram que fazer uma caminhada por dia e reduzir a cerveja também não seriam atitudes de todo improdutivas.

*****

Tá bom, tá bom. Eu vou de camiseta na QSL. Mas vou manter velhos hábitos: Skank, não, por favor! Camiseta, vá lá. Mas Skank é pedir demais!

Necessidade do poema

February 09, 2006

Eu preciso do poema - como preciso de você. Leia mais aqui.

Matinal

February 08, 2006
Acordar
em silêncio
como um peixe
acorda
no meio do mar.

Acordar
para o dia
de assuntos eternos.
(Pois Deus
quando dorme
desce aos infernos.)

Acordar
com você
na cama do escuro.
Como um homem
acorda
quando nascituro.

Acordar
para o tempo.
Acordar
para o ar.
Acordar
para nunca
mais deitar.

Acordar
na história
com um homem
que joga
uma corda
ao mar.

Janaína e João Sebastião

February 07, 2006

Como Janaína Ávila está indo embora para a Itália, levei ontem para ela, em sua despedida, um presente temporário.

É uma categoria nova de presente que inventei. O presente temporário cria um vínculo entre o presenteador e o presenteado, pois exige um encontro pessoal para devolução.

Ofereci a Janaína o meu melhor disco do João Sebastião, com sonatas para violino e piano. Sem exagero, é como se ela estivesse levando uma parte de mim para a Itália.

Enquanto Janaína estiver na Itália, só vou ouvir aquelas sonatas dentro da memória.

É justo: afinal, Janaína e Bach inúmeras vezes reatribuíram sentido à minha vida.

Boa viagem e seja feliz, minha irmã do mundo.


Poemas solares

February 06, 2006
(Para você, que gosta do Sol.)


Atravessando o deserto de Saara, o Sol estava quente e queimou a nossa cara!

SOLAR I

O Sol
que me fere
à loucura

antes
é quem
me traz
a vida.

Viagem
que dura
um só instante
da própria ida.

SOLAR II

Vencer
a fúria
do tempo

é como
apagar
o Sol
do firma-
mento.

SOLAR III

O Sol
é nada:
um detalhe
da alvorada.

SOLAR IV

O Sol
é tudo:
a luz se fez
no mundo.

SOLAR V

Sobre
o que é você
ele
vai nascer.

Sobre
o que é o amor
ele
vai se pôr.

SOLAR VI

O Sol
é minha tese,
o Sol
é meu trabalho.
O Sol
por isso deve
um pagamento
em raio.

SOLAR VII

Antes
era ele
em movimento.

Depois
foi levado
para o centro.

Agora
(ninguém sabe
o motivo)
passou
a ser chamado
relativo.

SOLAR VIII

Sob o Sol,
tudo é novo:
o rio
que não corre
duas vezes,

os dias
que não são
dos mesmos meses,

as plantas
que não têm
os mesmos verdes.

Sol a Sol,
tudo é após:
até mesmo
o Sol
dentro de nós.

Soneto da leveza

February 05, 2006

Que o mundo seja leve e amorável
da forma como sugeriu Calvino,
que seja leve e claro como um hino
sem letra ou melodia por cantá-lo.

Que o mundo seja leve como nós
desfeitos, desatados sobre a terra,
que seja como a face de quem erra
e mesmo assim não perde a clara voz.

E assim, com a mesma voz desafinada
por erros que bem sei ter cometido,
eu peço um lugar nesta morada

de sonho, de beleza e de sentido,
de luz, de carne e sombra eclipsada,
leveza que um dia foi ferida.

Juramento

February 03, 2006
Por esta sexta-feira,
a primeira feliz em tantas,
pelo ar que faz o vento,
pelo vento que faz o fogo,
pela água que faz o mar,
eu juro.

Juro
amar e respeitar
e ser fiel e esperar
e na saúde e na doença
e ser só teu e tudo
que se fala ao padre,
mas
juro
com tal força e tal empenho,
com tal disposição,
que se quebrar o juramento
virarei um nada,
um nada, um poço, um vão,
um vão de medo.

Juro
pela pele sobre a carne,
pela carne sobre os ossos,
pelos ossos sobre o tempo,
juro
que te farei feliz,
amada e protegida
por um milhão de anos
que durar a vida.

Pelo ar que faz o vento.
Pelo vento que faz o fogo.
Pela água que faz o mar.

Juro
tudo que não é preciso jurar,
atenção e gentileza,
com as mãos sobre a mesa.
Mesmo as coisas triviais,
com palavras e sinais
eu juro,
e volto a jurar,
por todas as sombras da terra,
por todas as fúrias do mar.

Juro
sobre a mão da mãe,
sobre o nome do pai,
e sobretudo
juro,
em ritual silêncio,
sobre o que sou eu
sob juramento.

Pelo ar que faz o vento.
Pelo vento que faz o fogo.
Pela água que faz o mar.

Na dor feroz
e na alegria forte,
juro
entre nós
estar vivo
até o limite,
e que a morte
não separe
o que existe.

Rir

February 03, 2006
Buster Keaton, o homem que nunca ria.

Rir é prioritário, indispensável, essencial. O ditado diz: “Rir é o melhor remédio”. Discordo. O remédio vem para eliminar uma doença; mas o riso vem antes dela. Se “prevenir é melhor que remediar”, rir é a melhor prevenção. A desgraça não é combatida, mas é pontuada pelo riso. Rir, em situações de desespero, equivale abrir um champanhe numa trincheira da Primeira Guerra. Ora, por que não? Sploc.

*****

O palhaço Bozo diz que o melhor é sempre rir. Discordo, palhaço. É preciso rir bastante, mas não sempre. Rir de tudo é ser bobo. Quem ri de tudo faz o riso perder o valor. Em certos instantes, o riso tem que ser contido, silencioso. Até para que a cena fique mais engraçada – Buster Keaton que o diga.

*****

Rir de si mesmo é o fiel da balança. Quem não sabe rir de si mesmo, não sabe rir. E digo mais: é impossível amar sem rir.

*****

Rio, logo prefiro ler Aristófanes a Aristóteles.

*****

Eu rio. Quando isso acontece, e acontece com frequência, eu fico com olhos de japonês. Nunca é demais lembrar que o riso é um espasmo. Cada um tem um tipo de humor. O meu humor aproxima-se das coisas bestas – coisas em que ninguém acha graça e, por isso mesmo, são gozadíssimas. Eu tenho compaixão das piadas infames, coitadas; por isso, eu as conto.

*****

O melhor riso é o inesperado, aquele que nos faz perder o controle. É recomendável, para a boa saúde, pelo menos um riso de chorar, de fazer dobrar a barriga, todo mês.

*****

Rimos com a boca, mas não apenas. Rimos com os olhos, com o fígado, com o coração, com as mãos (adoro rir com as mãos, hã, hã, entendeu, entendeu?). Rir em pensamento é uma das minhas diversões. Rir de tristeza também é possível. Rir – a homenagem que prestamos ao absurdo. Deus, silenciosamente, deve estar rindo agora.

Hosken

February 02, 2006
Publico aqui, com a autorização do autor, um texto do amigo Gustavo Lessa Neto sobre a morte de José Hosken de Novaes, ex-prefeito de Londrina e ex-governador do Paraná.

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Na noite em que nos achamos

February 02, 2006

Na noite
em que nos achamos
havia só uma estrela
além das nuvens.

Eu pensava
na Cantata 57:
“O que seria de mim
sem o Teu amor?”

Eu pensava
em tudo
que virou estrela
na noite
do tempo.

Eu via
a tua mão
pousada
sobre a face
das nuvens.

Então
começou a chuva;
delicada
como só a água
pode ser.

E a água
no teu corpo
fez a noite
aparecer
plena de estrelas
e planetas.

Os planetas
existem,
mas nem todas
estrelas
existem;
algumas
se foram,
já são
da noite
do tempo.
Delas,
só a luz.

Eu pensava
na Cantata 57
e acreditei
ter ouvido
a voz do tempo

nas águas,
na pele,
na chuva
que acabou,

na noite,

na noite
em que nos achamos.

A vida sem Janaína

February 01, 2006

Olha, eu não estou nem aí para a Janaína Ávila que vai embora. Ela nem é muito minha amiga mesmo. Só o fato de que Jana é uma presença indispensável na Quinta Sem-Lei, a qual ficará bem mais desfalcada e menos florida, não me parece suficiente para lamentar-lhe a ausência. O costume de suportar as minhas depressões e lamentos apaixonados, sempre com uma palavra amiga e reconfortante, dessas que fazem a vida retomar o sentido como que por encanto, não justifica chorar-lhe a partida para terras itálicas.
Não me será mais possível esperar com ela o ônibus 303 ou torcer para a chegada do microônibus Psiu (aquele que tem ar condicionado), nem reclamar para ela da qualidade da comida nos restaurantes próximos ao jornal. E daí? A quem vai fazer falta uma ouvinte compreensiva e sorridente dos meus trocadilhos infames? Que espécie de valor pode ter uma cerveja no Magdalena enquanto o Sol de põe por trás dos edifícios?
Janaína é para os fracos. Para os moles de coração. Para os românticos incuráveis. Para os que sofrem, mas mesmo assim riem. Para os que riem, mas mesmo assim sofrem. Não consta que eu esteja nesses grupos de pessoas. Tô nem aí, Janaína! Pode ir, tá? Pode ir que eu nem ligo! Se eu soubesse assobiar, é o que estaria fazendo, em vez de escrever este texto.
Nem me causa comoção o fato de saber que, no fundo, Janaína está fazendo a coisa certa ao partir, pois está ao lado do seu amor e atrás do seu sonho. Sonho, amor: cada coisa sentimental! Ah, Janaína, se você soubesse o quanto eu estou calmo e contente com a sua partida! Parei de beber; parei de pensar em você-sabe-quem; parei até escutar João Sebastião, principalmente aquela cantata – aquela que eu não escuto quase nunca.
A vida agora será sem Janaína. Quer dizer, quase sem, porque ela falará conosco lá da Itália – mas eu não estou nem um pouquinho preocupado com isso, viu? A vida continuará a mesma. O ônibus 303 continuará melhor e mais vazio que o 312; o Psiu vai demorar uma eternidade para passar; os restaurantes próximos ao jornal continuarão fracos; o Magdalena continuará lotado nos finais de tarde; a QSL continuará acontecendo pontualmente às quintas-feiras; eu estarei de ressaca nas sextas; uma cachorrinha batizada de Cherrie continuará fazendo festa para as visitas, embora um pouco mais triste. Só a alegria, essa fugitiva contumaz, ficará um pouco mais difícil para todos nós. E daí, Janaína? Quem é que está ligando para a alegria?