Repórter das Coisas

Mozart, o favorito dos deuses



A seguir, um texto, publicado originalmente no JL, sobre os 250 anos do nascimento de W. A. Mozart.

Às 8 horas da noite de 27 de janeiro de 1756, há 250 anos, um menino nascia em Salzburgo (Áustria). Era filho de Leopold Mozart e Anna Maria Pertl. Foi batizado como Johannes Chrisostomus Wolfgang Theophilus Mozart, nome que mais tarde seria simplificado para Wolfgang Amadeus Mozart (sendo que Amadeus é o equivalente latino de Theophilus). A família tinha uma irmã cinco anos mais velha que Wolfgang, Maria Anna, apelidada de Nannerl.

Leopold logo começou a notar que o garoto, conforme crescia, revelava um certo dom para a música. Aos três anos, já arriscava melodias no cravo e caía no choro quando alguém desafinava perto dele. Aos quatro anos, já tocava violino quase tão bem quanto a irmã. Aos cinco anos, compôs o primeiro minueto.Quando o pequeno Wolfgang fez seis anos, o pai, ávido por exibir o tesouro que tinha na família, e com isso ganhar fama e dinheiro, colocou os dois filhos numa carruagem e partiu para uma viagem por vários países da Europa. As duas crianças-prodígio, acompanhadas por Leopold, que era músico profissional, fizeram concertos em Viena, Paris, Londres, Munique, Milão, Nápoles, Roma, Bolonha e outras cidades. Wolfgang era um menino frágil, enfermiço, pequeno, pálido, mas muito sociável. Em 1763, na corte francesa, pediu a mão de Maria Antonieta em casamento. “Peça-me de novo quando for mais velho”, teria sido a resposta da futura rainha. O escritor alemão Goethe chegou a conhecer o pequeno Mozart, a quem definiu como “um homenzinho com peruca e espada”. Em Londres, Wolfgang tornou-se amigo e admirador de Johann Christian Bach, que muito o influenciou na juventude.

Adulto e criança

Na época em que era exibido como prodígio na Europa, dormindo em carruagens e hospedarias, sem qualquer chance de levar a vida normal de uma criança, Mozart foi chamado de “favorito dos deuses”. Se pensarmos em termos musicais, o título é mais do que adequado. Ocorre que os deuses também souberam cobrar um preço alto pela glória de Mozart; nas palavras de um biógrafo, o compositor austríaco, certamente um dos maiores músicos de todos os tempos, se não o maior, teve uma vida de adulto quando criança e um comportamento de criança quando adulto. A glória de Mozart, vista erroneamente por alguns como um palhaço galhofeiro, também foi sua tragédia. E Deus sabe que Mozart transformou tudo isso – a alegria, a tristeza, a infância, a maturidade, a glória e a tragédia – em música eterna. A grandeza de sua obra é tamanha que somos tentados a mitificar sua vida.

Aos 12 anos de idade, em Viena, Mozart já era compositor de sinfonias e óperas. Com a chegada da adolescência, a situação foi se tornando mais complicada: embora fosse um excelente músico, Mozart não podia se apresentar como garoto-prodígio. Em 1771, conseguiu aquela que seria a única ocupação fixa em toda a sua vida: tornou-se maestro da corte de Salzburgo. Odiava esse trabalho, principalmente porque era maltratado pelo arcebispo conde Colloredo, um aristocrata pedante.

Mas, educado como músico viajante, Mozart não parava quieto. Em um só ano, chegou a mudar de endereço nove vezes! Casou-se com Constanze Weber aos 25 anos, contra a vontade do pai. Incapaz para a vida prática, antes e depois do casamento, dependia do auxílio paterno para não ir à bancarrota. Gastava dinheiro do mesmo modo que o ganhava: em andamento prestissimo. Para complicar as coisas, era boêmio, mulherengo e gostava de jogar.

Grande parte das obras de Mozart foi composta por encomenda. A confusão da vida de Mozart não afetava a qualidade de suas composições. Dos 18 aos 35 anos, escreveu em média quatro peças por mês, sendo que pelo menos uma delas era obra-prima. Era senhor absoluto de sua música: planejava mentalmente as composições, depois transcrevia as notas com espantosa rapidez, enquanto comia, conversava ou jogava bilhar.

Revoluções

O trabalho mercenário, nas mãos de Mozart, virava obra de gênio. É o caso de Eine Kleine Natchmusik (Pequeno Sarau Musical – K. 525), que servia como o “musak” dos aristocratas da época, animando ambientes enquanto as pessoas jogavam cartas ou conversavam. É espantoso imaginar os aristocratas jogando conversa fora diante de uma música tão sublime! A bela Sinfonia Haffner (k. 250) foi escrita para animar a festa de casamento de um abastado padeiro.

Mozart foi, talvez, o primeiro músico “freelancer” da história. Não teve a tranqüilidade de um J. S. Bach em Leipzig ou de um Haydn em Esterháza. De certo modo, Mozart era representante do seu tempo histórico, prenunciando a Era do Indivíduo e a derrocada as aristocracias com as revoluções Americana (1776) e Francesa (1789). Enquanto Maria Antonieta estava presa, à espera da guilhotina, seu antigo “pretendente” estava lutando para sobreviver e produzindo algumas das mais belas passagens da história da música. As últimas sinfonias, especialmente a 38 (Praga), 40 e 41 (Júpiter) foram compostas no espaço de algumas semanas, em 1788, no meio de uma grande turbulência na vida de Mozart (seu pai havia morrido no ano anterior). Eram tempos de extrema pobreza material e extrema riqueza musical para o “favorito dos deuses”. Em um dos momentos mais desolados de sua vida, escreveu o Divertimento para Trio de Cordas – K. 563, ponto culminante da música de câmara, que pode ser tudo, menos um simples divertimento...

O crítico Otto Maria Carpeaux, autor de “Pequena história da música ocidental”, diz que não há uma linha evolutiva que conduza de Haydn a Mozart, e de Mozart a Beethoven. Embora tenha laivos de romantismo (e, por vezes, até uma espécie de “demonismo”), Mozart ateve-se aos estritos padrões formais do gênero clássico. Mas, como observa Carpeaux, o desenvolvimento dos temas, em Mozart, é tão brilhante que faz a solução regular parecer a melhor e, às vezes, a mais surpreendente. O violinista Yehud Menuhin afirma que Mozart é “capaz de transmitir as mais dilacerantes emoções sem jamais transgredir os limites da elegância”.

Carpeaux aponta, como características específicas de Mozart, o uso de temas do folclore vienense, o italianismo e o rococó. A mistura dessas influências, longe de causar estranheza, resulta em uma sonoridade profundamente humana, que parece ter sido composta no início dos tempos. “Em Mozart, como nas valsas de Strauss, o que mantém o ritmo vivo é a sua humanidade e flexibilidade. A música de Mozart simplesmente precisa respirar”, diz Menuhin. Não por acaso, Mozart se confunde com o próprio conceito de música ocidental, da mesma forma que Shakespeare se confunde com a consciência.

É em Shakespeare que Carpeaux busca uma comparação suficiente para ilustrar um dos aspectos mais geniais do gênio austríaco: as óperas – sobretudo As Bodas de Fígaro (1786) Don Giovanni (1787), Così fan tutte (1790) e A Flauta Mágica (1791). Para Carpeaux, o compositor sincroniza as diversas intervenções dos personagens na ópera, o que favorece a formação de caracteres coerentes, da mesma forma que nas peças de Shakespeare. O artista Mozart, incapaz para a vida prática, foi o criador de um universo de seres imortais. Nas óperas, o favorito dos deuses se torna, ele também, um deus.

Mozart morreu de uremia em 5 de dezembro de 1791, deixando inacabado um magnífico “Réquiem” – encomenda de um aristocrata. Foi enterrado numa vala comum, e seus ossos nunca mais foram encontrados. Compôs 41 sinfonias, 24 óperas, 19 missas, dezenas de concertos, sonatas, quartetos, trios, duos, divertimentos, minuetos, cantatas e canções. Não chegou a completar 36 anos de idade.

- Paulo Briguet

Publicado em 23 de janeiro de 2006 às 20:53 por briguet

Comentários

  1. nada
    • esta muito bem descrito mas no tentanto um pouco laconico
    • por Barata
    • 20.Abr.2006 às 16:56 - Permalink - Reportar
    Barata
    • ADOREI PESQUISAR SOBRE MOZART
    • por FLAVINHO
    • 21.Jul.2008 às 09:39 - Permalink - Reportar
    FLAVINHO
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