Archive for January of 2006
Manifesto da classe média
January 31, 2006Não somos pobres, não somos ricos, ninguém gosta da gente, não somos nada. Somos a classe média, essa coitada. Leia mais aqui.
Física moderna
January 31, 2006Eu já estava bem confuso
com as dimensões em uso.
As visíveis e a do tempo
causavam algum tormento.
Agora vem um sujeito
e me diz – bate no peito! –
que as dimensões são 11.
Não sei mais se estou onde
imagino estar agora,
nem se dentro, nem se fora.
Já não sei mais quando é quando
ou se estou imaginando
que ainda existe um presente
quando tudo é inexistente.
Daqui a pouco à noite é sol
e de dia escuridão.
Com esse time de futebol
perco toda a dimensão!
Doravante, minha amada,
vou ficar ao Deus-dará:
será dura a empreitada
de tua dimensão achar!
Nem é perto, nem é longe
o endereço de teu canto.
Uma índole de monge
terei que forjar, portanto,
pois não mora nem no tempo
a tradução do esperanto
desse teu merecimento.
Soneto da pequena navegadora
January 30, 2006
Posso ouvir teu choro,
a bem dizer, teu grito,
pequena navegadora
na lagoa dos aflitos.
Posso ver teus braços,
nado sem consciência,
pés que não sabem passos,
mente que nada pensa.
Mas o que não se ensina,
alarme e anúncio da alma,
foi teu milagre, menina.
Alguém ouviu tua voz.
Choraste para ser salva,
e agora choramos nós.
a bem dizer, teu grito,
pequena navegadora
na lagoa dos aflitos.
Posso ver teus braços,
nado sem consciência,
pés que não sabem passos,
mente que nada pensa.
Mas o que não se ensina,
alarme e anúncio da alma,
foi teu milagre, menina.
Alguém ouviu tua voz.
Choraste para ser salva,
e agora choramos nós.
Soneto da amnésia alcoólica
January 29, 2006Que fiz ontem à noite?
Fui à missa? Ao bordel?
Que segredo se esconde
na terra e no céu?
Beijei uma garota?
Dormi no assoalho?
Tirei a minha roupa?
Gastei todo o salário?
Fui preso e condenado?
Xinguei o presidente?
Causei algum enfado?
Desculpe se aborreço,
mas tem alguém que lembre
meu nome e endereço?
Hera
January 29, 2006O tempo
é a hera
das coisas.
Sobe
sobre nós,
sobe
sobre o muro.
É a hera
e a sombra
das coisas.
Segue
sobre o claro,
segue
sobre o escuro.
O tempo
recobre
o mundo.
Sabe
sobre nós,
sabe
sobre tudo.
A era
das coisas
vem sempre.
Sobretudo
passa
sorrateiramente.
Soneto do sonho interrompido
January 28, 2006Eu não queria acordar agora,
e sim prender-me às cordas do sono,
à tua pele, ao teu cheiro, ao teu gosto.
Porém o dia me leva pra fora.
Queria tanto acordar nunca mais
e nunca mais ser levado à vigília;
queria sempre habitar esta ilha
em permanente exílio e paz.
E quando o dia viesse nascendo
roubando a estrela final do meu gozo,
eu voltaria a fugir para ti,
encontraria a linguagem e o tempo,
o desespero faria seu pouso
e sonharias pra sempre aqui.
Opus 6
January 27, 2006Nasci às 19 e 30 de 10 do 7 de 70. Meu primeiro dia, portanto, só teve 5 horas. Os outros, exceto o último, terão ou tiveram, todos, 24. Sou um homem do 20, mas tenho alguns resquícios do 19. Com 11, aprendi a falar e nunca mais parei, para desgosto de muitos. Mas só pintei o 7 depois dos 15, quando comecei a tomar umas 4 ou 9. Atualmente estou com 35, procurando uma garota 10 como você. Já encontrei umas 11, mas todas elas me deram nota 0. Não adianta: 70 fazer o melhor, mas acaba 100 nada. De qualquer maneira, 20 dizer que te amo muito, menina.
Depois de Vinicius
January 26, 2006Em algum lugar do mundo
é meio-dia agora.
Em algum visor quebrado
com ponteiros apontados
para a mesma hora.
Em algum lugar do tempo
estás comigo junto.
Em algum solo afastado
ficas sempre ao meu lado
até o fim do mundo.
Em algum lugar da sombra
alguém não está triste.
Em algum mar, terra, onda,
se o sonho se encontra,
o teu amor resiste.
O espectador
January 25, 2006Vigia
o espectador
da vida,
com seu olho
de vidro.
Tão perto,
o grande ouvidor
dos ecos,
com o tímpano
de séculos.
Tão ágil
o dono-ladrão
da verdade,
que um átimo
é tarde.
Tão denso
o esquecedor
do tempo,
que, por amor,
só se lembra
onisciente
quanto chega
o presente.
Dizia
as palavras
que dizemos
antes mesmo
de inventá-las.
Ditado de tudo,
em que o ditador
é mudo.
O colecionador
January 24, 2006
Estou colecionando domingos. Divido-os entre etílicos e sóbrios; são igualmente melancólicos. Vocês precisam ver como eles ficam bonitos na estante, alinhados e silenciosos, com suas caras de quase-segundas-feiras.
*****
Coleciono também gado. Comecei hoje. Que bobagem – vocês podem dizer – colecionar gado; todo mundo sabe que gado não se coleciona, gado se cria. Mas eu decidi colecionar gado, ué, o gado é meu e eu faço o que eu quero! Optei por colecionar gado humano. Até aqui só tenho um animal: eu mesmo. Pecuária intensiva. Eu sou meu próprio rebanho; não posso fugir do pasto porque o pasto sou eu mesmo. Medito; rumino.
*****
Coleciono mensagens sobre piolhos de pombas e trufas. Nada sei sobre os dois assuntos.
*****
Agradável é colecionar palavras. Tenho algumas aqui: juriti, nheco-nheco, esbórnia, cataclisma, maria-vai-com-as-outras, archote, climatério, verossimilhança, entropia, cachorrinho, apascentar, bombástico, contracheque, abigeatário, ordenado, bestando, olé. Se alguém quiser trocar, basta enviar um e-mail. Não aceitamos revoluções, arrependimentos. Palavra é palavra, pô. (E também troco “pô”.)
*****
Ressaca é um tipo de coleção difícil – talvez mais difícil que de chiclete Ploc Gigante – mas inevitável. Tenho tantas que já estou virando uma: o Homem-Ressaca.
*****
Coleciono comprimidos: Neosaldina, Pondera, Carbolitium. Pondera, Neosaldina, Carbolitium. Carbolitium, Neosaldina, Pondera. Já não sei mais diferenciá-los.
*****
Divertido é colecionar miniaturas e granduras. (Sendo que grandura é uma palavra ótima, não?) As miniaturas são granduras em tamanho pequeno. As granduras são miniaturas em tamanho maior. Penso seriamente em também colecionar mediuras, mas não sei onde vou colocá-las.
*****
Quando eu era criança, elegi-me vice-dono da bola de futebol. Foi quando comecei a colecionar títulos nobiliárquicos e burocráticos.
*****
A maior parte das pessoas que vem ao meu blog procura pela palavra buceta. Eu posso dizer que sou um colecionador involuntários de tarados por buceta. Alguns até se identificam como tais.
*****
Coleciono formigas. Vivas. Dão-me pouquíssimo trabalho; elas próprias se administram.
*****
Coleciono livros não lidos. É tão bom que penso em abrir um sebo. O nome do estabelecimento? Sebo nas Canelas.
*****
Coleciono pesadelos. Horas. Fantasmas. Símbolos. Amnésias. Papéis de Bala Chita. Promotoras de eventos (adoro colecionar promotoras de eventos!). Ar. Água. Fogo. Mar. Trocadilhos. Decepções. A dor. Derrotas. Filmes pornôs. Vozes. Mãos. Migalhas. Vento. Acima de tudo, coleciono nada. Nada é tão bom quanto colecionar.
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Coleciono também gado. Comecei hoje. Que bobagem – vocês podem dizer – colecionar gado; todo mundo sabe que gado não se coleciona, gado se cria. Mas eu decidi colecionar gado, ué, o gado é meu e eu faço o que eu quero! Optei por colecionar gado humano. Até aqui só tenho um animal: eu mesmo. Pecuária intensiva. Eu sou meu próprio rebanho; não posso fugir do pasto porque o pasto sou eu mesmo. Medito; rumino.
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Coleciono mensagens sobre piolhos de pombas e trufas. Nada sei sobre os dois assuntos.
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Agradável é colecionar palavras. Tenho algumas aqui: juriti, nheco-nheco, esbórnia, cataclisma, maria-vai-com-as-outras, archote, climatério, verossimilhança, entropia, cachorrinho, apascentar, bombástico, contracheque, abigeatário, ordenado, bestando, olé. Se alguém quiser trocar, basta enviar um e-mail. Não aceitamos revoluções, arrependimentos. Palavra é palavra, pô. (E também troco “pô”.)
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Ressaca é um tipo de coleção difícil – talvez mais difícil que de chiclete Ploc Gigante – mas inevitável. Tenho tantas que já estou virando uma: o Homem-Ressaca.
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Coleciono comprimidos: Neosaldina, Pondera, Carbolitium. Pondera, Neosaldina, Carbolitium. Carbolitium, Neosaldina, Pondera. Já não sei mais diferenciá-los.
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Divertido é colecionar miniaturas e granduras. (Sendo que grandura é uma palavra ótima, não?) As miniaturas são granduras em tamanho pequeno. As granduras são miniaturas em tamanho maior. Penso seriamente em também colecionar mediuras, mas não sei onde vou colocá-las.
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Quando eu era criança, elegi-me vice-dono da bola de futebol. Foi quando comecei a colecionar títulos nobiliárquicos e burocráticos.
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A maior parte das pessoas que vem ao meu blog procura pela palavra buceta. Eu posso dizer que sou um colecionador involuntários de tarados por buceta. Alguns até se identificam como tais.
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Coleciono formigas. Vivas. Dão-me pouquíssimo trabalho; elas próprias se administram.
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Coleciono livros não lidos. É tão bom que penso em abrir um sebo. O nome do estabelecimento? Sebo nas Canelas.
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Coleciono pesadelos. Horas. Fantasmas. Símbolos. Amnésias. Papéis de Bala Chita. Promotoras de eventos (adoro colecionar promotoras de eventos!). Ar. Água. Fogo. Mar. Trocadilhos. Decepções. A dor. Derrotas. Filmes pornôs. Vozes. Mãos. Migalhas. Vento. Acima de tudo, coleciono nada. Nada é tão bom quanto colecionar.
Mozart, o favorito dos deuses
January 23, 2006
A seguir, um texto, publicado originalmente no JL, sobre os 250 anos do nascimento de W. A. Mozart.
Às 8 horas da noite de 27 de janeiro de 1756, há 250 anos, um menino nascia em Salzburgo (Áustria). Era filho de Leopold Mozart e Anna Maria Pertl. Foi batizado como Johannes Chrisostomus Wolfgang Theophilus Mozart, nome que mais tarde seria simplificado para Wolfgang Amadeus Mozart (sendo que Amadeus é o equivalente latino de Theophilus). A família tinha uma irmã cinco anos mais velha que Wolfgang, Maria Anna, apelidada de Nannerl.
Leopold logo começou a notar que o garoto, conforme crescia, revelava um certo dom para a música. Aos três anos, já arriscava melodias no cravo e caía no choro quando alguém desafinava perto dele. Aos quatro anos, já tocava violino quase tão bem quanto a irmã. Aos cinco anos, compôs o primeiro minueto.
Saudades do Brasil
January 20, 2006
Para Janaína Ávila, que vai.
Ah, mas que saudades do Brasil,
saudades grandes, saudades mil!
Saudades do 1,99
da Neosaldina e do Engov,
saudades da cana 51
e do batuque do Olodum.
Saudades tantas do Carnaval
da alegria obrigatória, do sal
de frutas, do JoãoSinho Trinta
da depressão que sempre pinta,
das putas feias da praça
e de rir da própria desgraça.
Saudades das Casas Bahia
do restaurante por peso, da tia
que comprou dinheiro a juros
e das cercas sobre os muros;
saudades do mensalão, do caixa 2
de deixar tudo pra depois,
saudades do senhor do Brasil,
o brasileiro, este sutil,
das metáforas vernáculas do Lula
de trabalhar mais do que a mula,
saudades das praias sujas,
do esgoto a céu aberto,
do ônibus lotado e, de lambuja,
um guardador de carro por perto.
Saudades do engolidor de fogo
no semáforo, do Botafogo
versus Madureira, do axé
e do Gil que anda com fé,
da rodela de suor no sovaco
do prefeito, e, de fato,
uma saudade grande por estar aqui
quando poderia estar no Haiti.
Ah, mas que saudades do Brasil,
saudades grandes, saudades mil!
Saudades do 1,99
da Neosaldina e do Engov,
saudades da cana 51
e do batuque do Olodum.
Saudades tantas do Carnaval
da alegria obrigatória, do sal
de frutas, do JoãoSinho Trinta
da depressão que sempre pinta,
das putas feias da praça
e de rir da própria desgraça.
Saudades das Casas Bahia
do restaurante por peso, da tia
que comprou dinheiro a juros
e das cercas sobre os muros;
saudades do mensalão, do caixa 2
de deixar tudo pra depois,
saudades do senhor do Brasil,
o brasileiro, este sutil,
das metáforas vernáculas do Lula
de trabalhar mais do que a mula,
saudades das praias sujas,
do esgoto a céu aberto,
do ônibus lotado e, de lambuja,
um guardador de carro por perto.
Saudades do engolidor de fogo
no semáforo, do Botafogo
versus Madureira, do axé
e do Gil que anda com fé,
da rodela de suor no sovaco
do prefeito, e, de fato,
uma saudade grande por estar aqui
quando poderia estar no Haiti.
Crônica odontológica
January 18, 2006
Leia aqui a história da minha primeira coroa (dentária).
*****
E, aqui, leia minha nova coluna sobre os chatos.
É necessário perdoar
January 17, 2006
É necessário perdoar,
perdoar sempre, repetidamente,
perdoar os que não têm perdão,
perdoar os que não sabem perdoar
e não querem perdoar,
os que não concedem perdão
nem após setenta vezes sete súplicas,
e é preciso, acima de tudo,
que se perdoem a si mesmos
os que o perdão não alcançou.
É necessário perdoar
os piores inimigos, os maiores amores,
é necessário perdoar o tempo,
perdoar o acaso, a onda, os rancores,
é necessário perdoar o ato e a omissão,
perdoar palavras, pensamentos,
é necessário perdoar
de coração e de sentido,
perdoar o aço, perdoar o vidro,
é necessário perdoar
para estar vivo.
perdoar sempre, repetidamente,
perdoar os que não têm perdão,
perdoar os que não sabem perdoar
e não querem perdoar,
os que não concedem perdão
nem após setenta vezes sete súplicas,
e é preciso, acima de tudo,
que se perdoem a si mesmos
os que o perdão não alcançou.
É necessário perdoar
os piores inimigos, os maiores amores,
é necessário perdoar o tempo,
perdoar o acaso, a onda, os rancores,
é necessário perdoar o ato e a omissão,
perdoar palavras, pensamentos,
é necessário perdoar
de coração e de sentido,
perdoar o aço, perdoar o vidro,
é necessário perdoar
para estar vivo.
Romântico é o verão
January 16, 2006
Romântico é o verão: dar um passeio com a moça bonita à beira do lago, e sofrer um seqüestro-relâmpago.
Observar a beleza da morena que acaba de entrar no ônibus, enquanto o movimento estudantil bloqueia o Terminal Urbano em protesto contra o aumento da passagem para dô real.
Ouvir o disparo do alarme às sete da matina.
Caminhar na rua sem óculos escuros, e ficar com os olhos fechados quinênqui japonês.
Ter pesadelos com um monstro: acordar, e perceber que era apenas o barulho do ventilador. (“Circuladô de fulô, ao Deus ao demo dará; que Deus te guie por que eu não posso guiar...”)
Desidratação, insolação, alergia, insônia, preguiça, ficar suado logo depois de tomar banho: romântico é o verão.
Dormir pelado e de nada adiantar. Acabar a água gelada. Vem ver o asfalto que está derretendo. O ar quebrou. Romântico é o verão – pena é que não acaba nunca.
Cafajeste não sofre
January 13, 2006
(Mais um oferecimento das Organizações Neosaldina)
Às vezes, eu gostaria de ser cafajeste de verdade, como acaba de sugerir (sabiamente) uma amiga. Fazer as coisas e não sentir o mínimo remorso.
*****
Só que eu não consigo. A história tem sido sempre a mesma: trato bem as mulheres, crio uma grande expectativa e, quando as coisas não dão certo, recebo uma saraivada de críticas e ofensas.
*****
Meus ombros suportam o mundo, não tem jeito. Minha profissão é a culpa. Afinal, o que eu vou fazer com esses 12 mil anos de judaico-cristianismo?
*****
Não sei por que me identifiquei com a tira do Angeli, publicada na Folha de S. Paulo hoje:
Às vezes, eu gostaria de ser cafajeste de verdade, como acaba de sugerir (sabiamente) uma amiga. Fazer as coisas e não sentir o mínimo remorso.
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Só que eu não consigo. A história tem sido sempre a mesma: trato bem as mulheres, crio uma grande expectativa e, quando as coisas não dão certo, recebo uma saraivada de críticas e ofensas.
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Meus ombros suportam o mundo, não tem jeito. Minha profissão é a culpa. Afinal, o que eu vou fazer com esses 12 mil anos de judaico-cristianismo?
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Não sei por que me identifiquei com a tira do Angeli, publicada na Folha de S. Paulo hoje:
Carina faz 40
January 12, 2006Minha querida amiga Carina Paccola está fazendo 40 anos. E aqui tem uma crônica para ela.
*****
Mais um bom motivo para a QSL!
Não, não: vou atolar!
January 12, 2006O calor senegalesco provoca a sede.
O calendário indica que hoje é quinta-feira.
12 de janeiro. Nada mais nada menos que... a primeira Quinta Sem-Lei do ano!
Diante de todos esses fatos, nada mais natural do que cumprir a nossa responsalidade cívica.
Marcelo Rocha vai chefiar os trabalhos, secretariado por Janaína A Ávida.
Às vezes tenho medo. Imagine se eu esquecer de comprar Neosaldina.
*****
Rogério Fischer, um dos melhores jornalistas do Paraná, deixou a diretoria de redação do “Diário de Maringá”. Rogério é um dos meus professores de jornalismo. Quem perde com a saída dele? O jornal e os leitores.
Mas há um lado bom: agora Rogério estará mais livre para freqüentar a QSL em Londrina, e discutir os rumos do nosso Palmeiras. Trata-se do alviverde mais convicto que já conheci.
Aqui Bola de Fogo, o calor tá de matar
January 12, 2006
Janeiro é foda. Um mês perdido. O calor tá de matar, como diria o negão do funk. Comércio parado. Um monte de gente de férias. No jornal, então, é um marasmo. Necessário sair correndo atrás do cidadão para entrevistá-lo. E muitas vezes ele está com celular desligado, de sunga, sargando a bunda nareia.
*****
Olha, a Noite Latina estava ótima, a Janaína Ávila é a melhor DJ de todos os tempos, mas esse Bar Valentino anda impraticável. A quantidade de amigos que já foram vítimas de assalto – e até seqüestro-relâmpago – por ali, bem na saída do boteco, é de aterrorizar qualquer um. Coisa séria, séria.
*****
Aí, é claro, virá algum mentecapto dizer que a solução é fechar todos os bares. A mulher foi flagrada com o Ricardão no sofá? A solução é simples: troca-se o sofá. O Estado não dá segurança e quem se fode é o bêbado.
///////
Oi. Aqui é a Janaína Ávila que estréia neste blog como “personal designer blogger”. Sei que marrom envelhece mas aquele roxão já tava dando nos nerrrrrvos. Isso que é amigo, ne? Confiar a senha do Tipos e ainda sair para almoçar... hohohohoho! Eu tô tentando convencer o Briguet a me deixar uma figurinha “vintage” ali do lado mas ele insiste que é muito gay. Pô! Como assim, Bola de Fogo?!?!?
*****
Olha, a Noite Latina estava ótima, a Janaína Ávila é a melhor DJ de todos os tempos, mas esse Bar Valentino anda impraticável. A quantidade de amigos que já foram vítimas de assalto – e até seqüestro-relâmpago – por ali, bem na saída do boteco, é de aterrorizar qualquer um. Coisa séria, séria.
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Aí, é claro, virá algum mentecapto dizer que a solução é fechar todos os bares. A mulher foi flagrada com o Ricardão no sofá? A solução é simples: troca-se o sofá. O Estado não dá segurança e quem se fode é o bêbado.
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Oi. Aqui é a Janaína Ávila que estréia neste blog como “personal designer blogger”. Sei que marrom envelhece mas aquele roxão já tava dando nos nerrrrrvos. Isso que é amigo, ne? Confiar a senha do Tipos e ainda sair para almoçar... hohohohoho! Eu tô tentando convencer o Briguet a me deixar uma figurinha “vintage” ali do lado mas ele insiste que é muito gay. Pô! Como assim, Bola de Fogo?!?!?
Diário catarinense
January 10, 2006Quando viajamos em grupo, cria-se entre os integrantes da viagem uma espécie de dialeto particular, baseado em acontecimentos fortuitos – são as chamadas “piadas internas”. Essa linguagem destina-se ao abismo da memória individual; só será compreendida pelos envolvidos, e morrerá com eles. Tentarei, neste breve relato de viagem às praias de Santa Catarina, não me expressar pelo dialeto da mesma, para que outros possam entender o que se passou por lá na semana entre 2 e 9 de janeiro de 2006 com este cronista, o professor de matemática Pafu (também conhecido como Jean Ribeiro), o mestre Chicó (historiador e comerciante de couro, também conhecido como Alisson Sanches), e o casal composto por Rafael Rocha (historiador, educador e criador de espantosas caretas) e Ana Paula (esta, o único ser racional da viagem, também conhecida pela alcunha de Loba-do-Mato, por seus belos e implacáveis olhos azuis e seu rigor com a estupidez alheia). Cinco londrinenses nas praias de Santa Catarina.
Leia mais sobre nossa aventura nas praias catarinenses aqui.
Depois publicaremos as incríveis fotos de Palpatine Briguet, mestre Chicoda e cavaleiro jedi Pafu Jeanekin.
Herberto Helder, poeta
January 04, 2006* DOMINGO – Descobri o poeta Herberto Helder em São Paulo, numa tarde de domingo, no ano de 2001. Não sei o que há com as tardes de domingo. Neste Ano-Novo, mesmo, eu estava aterrado pela angústia da tarde dominical, quando me lembrei do primeiro encontro com o poeta. Como eu dizia, estava em São Paulo, sem muito a fazer depois de assistir a um filme meia-boca no cinema de um shopping. Resolvi dar um passeio pela livraria do shopping. Entre livros de auto-ajuda e imensos painéis de Harry Potter, havia uma pequena seção de poesia. Não ocupava mais do que uma prateleira. Nessa pequena seção de poesia, havia um pequeno livro de capa alaranjada, onde se via a foto de um homem barbudo com cara de poucos amigos. Era este livro a “O corpo o luxo a obra”, uma antologia poética de Herberto Helder. Abri ao acaso o livro e encontrei os seguintes versos:
Os ombros estremecem-me com a inesperada onda dos meus
vinte e nove anos. Devo despedir-me de ti,
amanhã morrerei.
Estamos nos quartos, há flores nas mesas. De babilónia
partem rios. Por detrás das cortinas,
despeço-me. Amanhã vou morrer.
* ILHA – Drummond dizia que nós temos alguns grandes aliados contra a solidão: os autores e livros que amamos. E este livro passou a fazer parte da minha vida. O livro escrito por um português de família judia, que nasceu no Funchal, na Ilha da Madeira, em 1930, e que eu encontrei em São Paulo, do outro lado do Oceano Atlântico, numa livraria de shopping, no final de uma tarde de cinema ruim. Não havia lido nada sobre Herberto Helder. Nenhum comentário, nenhum artigo, nenhuma entrevista. Depois descobri que Helder não dá entrevistas, não dá palestras, não fala em público, não faz lançamentos, não participa de coquetéis, não aceita prêmios. Dedica-se apenas a escrever. Leva uma vida exclusivamente voltada à poesia. E foi pela poesia – por um poema escrito em 1959, aos vinte e nove anos de idade – foi pela poesia que eu conheci Herberto Helder. Afinal, quem era aquele homem dizendo que amanhã iria morrer?
* OUTRA COISA – Eu disse que Helder nasceu na Ilha da Madeira. De certa maneira, a sua poesia continua sendo uma ilha. Embora faça parte de uma geração que se dedicou ao surrealismo em Portugal, Helder não pode ser definido como tal. Sua poesia, embora plena de imagens do inconsciente, embora nos conduza a uma atmosfera de sonho, tem uma lógica interna – uma gramática, como disseram alguns críticos – que não condiz com uma certa aleatoriedade do continente surrealista. Uma das grandes lições de Herberto Helder, e que poderíamos usar como epígrafe para sua obra, está nos seguintes versos de “Poemacto” (livro de 1961):
Minha cabeça estremece com todo esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
* VERBO – Esses versos me fazem lembrar dos primeiros versículos do Evangelho de João: “E no princípio era o Verbo / E o Verbo estava em Deus / E o Verbo era Deus”. Toda poesia e, de alguma forma, toda palavra humana é uma tentativa de voltar ao princípio, ao Verbo, à inteligência do Criador. Herberto Helder tem a consciência de que cada palavra carrega essa origem última. Antes que a língua portuguesa se criasse na Península Ibérica, antes do latim e do grego, antes do sânscrito, antes do antes – no princípio era o Verbo. E por isso o poeta escreve: “Eu procuro dizer como tudo é outra coisa”.
* E DAÍ? – Tudo é outra coisa. E todas as coisas estão grávidas de tempo. Há um tempo depositado em cada palavra. Herberto Helder liberta as palavras da letargia, desperta-as do seu estado de dicionário, como já definiram alguns. Na faculdade de comunicação a gente aprende sobre a tal objetividade jornalística. O que, quem, como, quando, onde, por que. E daí? Herberto Helder é o E DAÍ? supremo. É o oposto da linguagem jornalística. Não por acaso ele não dá entrevistas, não dá palestras, não aceita prêmios. Ele vive para o poesia.
* MEMÓRIA DAS PALAVRAS – E, no entanto, mesmo libertas de seu sentido primeiro, mesmo envolvidas por uma gramática singular, as palavras guardam a memória de seus sentidos anteriores. Tudo é outra coisa na poesia de Herberto Helder, mas tudo lembra e faz lembrar, que as palavras e as coisas aspiram ao sentido primeiro:
Se se pudesse, se um insecto exímio pudesse
Com o seu nome do princípio,
Entrar numa turquesa, monstruosa pela amplitude
Da cor e do exemplo,
Se até o coração da pedra e dele mesmo
Devorasse a matéria exaltada,
Por si e por ela e pelo nome primeiro ficaria
Vivo: profundamente
Num único nó de corpo,
E brilharia até se consumir
De si, todo – e a terra, suportaria ela
O poema disso?
* NAVEGAÇÃO – A poesia de Helder, talvez pela maneira inesperada com que surgiu em minha vida, foi para mim um descobrimento, o início de uma Grande Navegação pessoal. A obra desse poeta português, como já disse um crítico, representa “um dos maiores abalos já sofridos pela língua portuguesa em todos os tempos”. Para mim foi um abalo necessário. A confiança em seus versos foi um breve nos momentos difíceis, nas angústias, nos leves desesperos que caracterizam a existência diária. Agora eu sei que eles estarão lá, sempre.
O imperador romano Marco Aurélio dizia:
Quando acontecer de acordares desanimado, lembra-te das seguintes palavras: ´Levanto-me para retomar minha obra de homem’.
Já este cronista, que nada tem de imperial, limita-se a lembrar dos versos:
Deito-me, levanto-me, penso que é enorme cantar.