* PEPINO — Estou de férias. Nesta semana fiz algo que só consigo fazer durante as férias: tirar uma soneca depois do almoço, em plena segunda-feira. Foi um sono curto, mas agitado. Durante menos de uma hora, tive sonhos terríveis. Acordei várias vezes assustado com o enredo dos sonhos. Era só voltar a dormir — sempre conciliei o sono rapidamente — e os pesadelos voltavam, com imagens antropomórficas, monstros, cenas de espancamento e tortura, retratos de solidão absoluta, amigos que me abandonavam. Então me dei conta de que havia comido pepino no almoço.
* LEITURAS — Os livros que escolhemos para ler nas férias são um retrato daquilo que somos. Nunca aceitei a idéias de que as férias ou folgas pedem necessariamente livros leves, divertidos, alegres, em “alto astral” (como se dizia nos agitados anos 80). Uma das leituras mais importantes da minha vida foi a de “A Morte de Ivan Ilich”, de Tolstói — durante um carnaval. Li “Madame Bovary” viajando para uma festa de casamento e “Anna Karênina” em uma colônia de férias na praia. Emma e Anna não tiveram destinos felizes; eu estou vivo. Foram ótimas leituras, memoráveis. Aguardo ansiosamente a chegada de “Anna Karênina” na tradução direta do russo, lançada pela Cosac & Naify.
* MAUS — O livro que estava na minha cabeceira quanto tive os pesadelos é “Maus”, de Art Spiegelman, editado no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Antônio de Macedo Soares. Art Spielgelman é um cartunista americano nascido em 1948; foi editor da celebrada revista The New Yorker e da Raw, publicação especializada em quadrinhos e artes gráficas. Por “Maus”, história em quadrinhos publicada em diversos episódios entre 1978 e 1991, depois reunidos em livro, Spielgeman ganhou o Prêmio Pulitzer, um dos mais importantes dos EUA.
* HQ E HOLOCAUSTO — “Maus” conta a história de Vladek Spiegelman, pai do autor, sobrevivente do campo nazista de Auschwitz, na Polônia. Há muita literatura concentracionária, de boa e má qualidade. Com a ousadia de levar um relato sobre o Holocausto para a linguagem de HQ, Art Spiegelman conquistou um lugar bastante digno na extensa galeria sobre o tema.
* SANGRANDO HISTÓRIA — Para criar “Maus”, o autor entrevistou o próprio pai, um pai que, nas palavras do filho-entrevistador, “sangra história”. Vladek faz minuciosos relatos do cotidiano de miséria, fome, violência e morte entre os judeus da Europa na Segunda Guerra Mundial.
* ANIMAIS — Os judeus são representados como ratos; os alemães, como gatos; os americanos, como cães; os poloneses, como porcos. São imagens brutais, comoventes e simbólicas de um mundo governado pela lógica do mal. Todos ali são demasiado humanos — e também animais.
* EXPERIÊNCIA — Os méritos de Spiegelman não se limitam à representação icônica dos povos envolvidos na guerra. Ele sabe contar uma história, e o faz a partir da própria experiência íntima: alterna imagens do pai na velhice (morando nos EUA) e na juventude (sobrevivendo em Auschwitz e outros infernos). Tudo isso dá um caráter pessoal e pungente à narrativa. A denúncia contra o nazismo é vívida e complexa, livre dos clichês melodramáticos. Embora, é claro, não chegue aos pés da obra-prima do gênero — “É isto um homem?”, de Primo Levi --, “Maus” tem uma fluência e uma harmonia entre texto e imagem que lhe tornam um excelente painel sobre o sistema concentracionário e as conseqüências da ideologia racista.
* SIM OU NÃO — No mundo de “Maus” — e esse foi o mundo real dos judeus europeus, durante a Segunda Guerra --, a vida pode valer um sim ou um não. O caso de Vladek Spiegelman, narrado por seu filho Art, é uma odisséia da sobrevivência individual. Nunca fui um grande leitor de quadrinhos, mas os Spiegelman (pai e filho) merecem aplausos — e mereceram o Pulitzer.
* OLHO DE VIDRO — Com notável coragem, o autor coloca a nu mesmo os episódios mais sombrios e patéticos a vida familiar, sem abrir mão do humor e da ironia típicos da cultura judaica. E há passagens de beleza lírica — por exemplo, quando Vladek diz que vê a esposa Anja com o olho bom e o olho de vidro, com o olho aberto e o olho fechado. As descrições de um Vladek ranzinza e pão-duro na velhice são ao mesmo tempo hilariantes e melancólicas.
* IRÃ — Nestes tempos em que o novo presidente do Irã usa a tribuna para dizer que o Holocausto não passa de um “mito”, é preciso estar de olhos bem abertos para as reincidências do mal. Ler “Maus” é uma ótima idéia — mesmo se você estiver de férias. Só evite comer pepino antes de dormir.
Publicado em 21 de dezembro de 2005 às 18:25 por briguet