Acabou a chuva. Claro: é da natureza da chuva acabar, e isso não é matéria de poema. Mesmo aquela chuva antiga chegou ao fim, quando a pomba surgiu trazendo um ramo no bico. Há séculos, há milênios, os maus poetas escrevem que a chuva acabou (e continuarão escrevendo depois da minha morte). Não existe metáfora, espanto ou riqueza numa frase tão banal quanto Acabou a chuva. É uma sentença prosaica e pueril, indigna de um verso.
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É domingo. Oh que grande acontecimento. Todas as semanas, invariavelmente, têm um domingo entre os seus sete dias, e ele sempre ocorre antes da segunda-feira e depois do sábado. Há séculos, há milênios, maus cronistas dizem que é domingo, prenunciando uma semana de trabalho (mesmo que estejam de férias, como é o meu caso) e lamentando a exigüidade do final de semana que se vai com a musiquinha do Fantástico. É domingo, sim, e eu fui à Cantina do Nonóca, durante a chuva, e participei de quatro rodadas de bingo, tendo conseguido ganhar apenas uma vez, tendo acertado um “quatro-cantos”, cujo prêmio é uma cerveja. Oh que grande acontecimento.
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Estou mal. Aí temos outra novidade que vai abalar as estruturas do universo e determinar o futuro da espécie humana: o Paulo Briguet está mal! Ipi! Urra! Sus! Há séculos, há milênios, maus escritores ficam deprimidos com sua própria insignificância diante do mundo; com sua incomensurável culpa diante dos homens, das mulheres e de Deus; com a inevitabilidade da dor, da solidão e da morte. Grande coisa: mais um escritorzinho está mal! Coitado dele! Tá querendo cafuné, é? Não tomou seu remedinho hoje? Bateu firme demais na festa de confraternização da empresa? Ora, vá se catar, rapaz. Passe amanhã.
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Por fim, chego em casa, ponho o DVD do Glenn Gould tocando as Variações Goldberg, de João Sebastião, e noto que há um facho de luz de forma quase humana refletido na madeira do piano. Será o fantasma de João Sebastião? Será o Anjo de Deus, aquele que lutou com Jacó? Não, não é nada: é apenas uma impressão fugaz e irrelevante, em tudo igual ao fim da chuva, ao domingo e à dor de viver. Mas desconfio que, oculto neste mar de banalidades, está a verdade do tempo – como um fantasma, um anjo, um pianista morto em 1982.
Publicado em 18 de dezembro de 2005 às 17:18 por briguet