Repórter das Coisas

Tem coisas que só a Neosaldina faz por você

Na minha época não tinha isso.

Eu pergunto aos políticos que querem proibir bebida alcoólica depois das 11 da noite: por que os senhores não vão catar coquinho na descida, peidar na água para ver se sai bolhinha ou mesmo pintar uma guia na Avenida Leste-Oeste?
O Estado é incompetente para resolver o problema da segurança – e quem paga o pato são os bêbados.
Quando saio do bar, às duas da manhã, corro o sério risco de ser assaltado. Em vez de criar formas para prender o assaltante, esses luminares da falta-de-enxada querem me proibir de ir ao boteco!
O dente tem cárie? Arranca-se o dente. A Internet tem putaria? Proíbe-se a Internet. A cabeça tem pensamento? Corta-se a cabeça! Tudo para ganhar uns votinhos da patuléia.
Eu bebo sim: jamais provoquei uma briga em bar; jamais dirigi alcoolizado (mesmo porque não sei dirigir); sou um cidadão de bem, trabalhador e pagador de impostos. Por que os senhores querem me privar de um direito – o de encher a lata quando bem entender – baseados em estatísticas manipuladas e argumentos de delegado calça-curta?
Vão àquela parte.

*****

Na quarta-feira, completaram-se 70 anos da morte de Fernando Pessoa (de cirrose hepática, viu, seo vereadô?). Escrevi um texto sobre ele. Quem tiver paciência...O MILAGRE EM PESSOA (publicado no JL)

* MORTE – Há exatos 70 anos, no Hospital de São Luís, em Lisboa, morria o poeta português Fernando Pessoa, vítima de cirrose. Naquele 30 de novembro de 1935, o mundo não perdeu apenas um poeta. Perdeu ao menos quatro – e da melhor qualidade.

* MILAGRE – De tempos em tempos, em raras ocasiões, todo idioma é convulsionado por um milagre literário, que abala e reinventa a própria essência da linguagem. Fernando Pessoa, para a língua portuguesa, é um desses milagres, ao lado de Camões, Bocage, Machado, Euclides, Rosa, Drummond, Millôr Fernandes, Herberto Helder. Há, entanto, algo que o diferencia dos outros sócios do seletíssimo clube: a capacidade de se desdobrar em outros personagens a partir de si mesmo.

* UM OUTRO – Os heterônimos mais conhecidos de Fernando Pessoa são Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, além do Pessoa ortônimo, ou seja, ele-mesmo. Mas também há Bernardo Soares, o Barão de Teive, Alexander Search e Antônio Móra. A cada um deles, Pessoa atribui uma personalidade e um estilo singulares, além de uma biografia individual. Já houve explicações psicológicas, sociológicas e até espiritualistas para o fenômeno – praticamente único na literatura universal – da heteronímia de Pessoa. É bom ressaltar que muitos escritores já se valeram, antes e depois do poeta português, do uso de pseudônimos. A heteronímia, no entanto, é algo um tanto mais complexo: o poeta cria personagens independentes de si próprio, como se realizasse a fórmula de Rimbaud: “Eu é um outro”.

* DESCONHECIDO – No prefácio para o “Livro do Desassossego”, o crítico Richard Zenith, estudioso da obra de Pessoa, diz que os heterônimos pouparam a Pessoa o esforço e o incômodo de viver. O poeta teve uma vida modesta, trabalhando em meio período como tradutor para casas comerciais em Lisboa. Publicou vários poemas em periódicos, mas só um livro em vida: “Mensagem”, de 1934. Morreu praticamente desconhecido do público.

* ELE MESMO – Fernando Pessoa, quando assina como ele mesmo, é um poeta que intelectualiza as sensações; angustiado, maneirista; simpático; saudoso do passado imperial português; algo sebastianista. Sua vida foi marcada pela tristeza, o retraimento, a solidão. Aos cinco anos de idade, perdeu o pai. Seis meses depois, um irmão. A mãe casou-se em segundas núpcias com um diplomata e mudou-se com a família para a África do Sul, onde Pessoa aprendeu inglês. A avó morreu louca – e o medo de enlouquecer sempre marcou Pessoa. De volta a Portugal, percebeu que não conseguia viver. E o mar – esse símbolo eterno da alma lusitana – é o caminho, ainda que imaginário, para tão triste vida:

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram sem casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.


* CAEIRO – Pessoa definiu-se como “um poeta fingidor” cuja “pátria é a língua portuguesa”. Desta síntese entre verdade e poesia (com uma preenchendo as lacunas da outra), ele criou o heterônimo Alberto Caeiro. Nascido em 1889, Caeiro passou quase toda a vida no campo. Teve apenas a instrução primária. Vivia de rendas. Era um louro sem cor, de olhos azuis e aparência frágil. Em versos livres, criou uma filosofia do não-pensamento e uma poesia antiintelecualista, baseadas na contemplação da natureza. Achava que havia bastante metafísica em não pensar em nada. Para Caeiro, existir era o suficiente. E ele viveu pouco: só chegou aos 26 anos. No leito de morte, ditou as seguintes palavras:

É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus.
Fiz sinal de gostar de o ver ainda, mais nada.


* REIS – Ricardo Reis nasceu no Porto em 1887. Médico, educou-se em escola jesuíta. Monarquista, exilou-se no Brasil em 1919. Era baixo de estatura, forte e seco. Discípulo de Alberto Caeiro, procurou seguir o mestre, mas era intelectualmente mais refinado, tinha gosto pela versificação clássica. Reis foi, como já se disse, uma expressão mas rigorosa do paganismo de Caeiro. E amava o infinito. Pessoa disse ter colocado em Ricardo Reis “toda minha disciplina mental, vestida da música que lhe é própria”.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios.


* CAMPOS – Álvaro de Campos, segundo Pessoa, era “toda emoção que não dou à mim nem à minha vida”. Nascido em 1890, era um engenheiro inquieto, sangüíneo, com laivos futuristas, muitas vezes desesperado. Também discípulo de Alberto Caeiro, não consegue ter a mesma serenidade do mestre de “O Guardador de Rebanhos”. Por vezes, discute e ironiza a obra de Fernando Pessoa ortônimo. Seu uso do verso livre às vezes lembra a turbulência de uma máquina industrial. Qual um maníaco-depressivo, tem arroubos de otimismo (quando revela influência de Walt Whitman) e lancinantes ressacas morais. A ele pertencem os célebres versos de “Tabacaria”:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


* NAU – Vivendo sua existência praticamente anônima em Lisboa – a exemplo de Joyce em Dublin, Svevo em Trieste e Kafka em Praga –, Pessoa inventou o seu imortal teatro íntimo. Dos exílios de si mesmo, construiu a nau que até hoje pulsa em nossos ouvidos lusófonos. E continuará pulsando até quando o idioma português existir.

Publicado em 02 de dezembro de 2005 às 10:45 por briguet

Comentários

    • Briguet, estratégia de guerrilha provinciana: devemos mostrar a estes nobres senhoures que a mãe Bretanha — óbvio objeto de inspiração e inveja deles — acaba de liberar o enchismo de cara após às vinte e três horas! quando os caros (e como!) inventadores de leis se derem conta disso, certamente não vão resistir à própria jequisse e imitarão a antiga metrópole.

      só falta a moda pegar e a polícia passar a andar desarmada.
    • por guilherme
    • 02.Dez.2005 às 11:37 - Permalink - Reportar
    guilherme
    • aliás, esse na foto não é o Santos Dumont? tá querendo enganar a quem, rapá?
    • por guilherme
    • 02.Dez.2005 às 11:39 - Permalink - Reportar
    guilherme
    • “Sou um guardador de rebanhos.
      O rebanho é meus pensamentos...”
      Fernando Pessoa

      Fernando Pessoa não tem igual.
      Muitas pessoas numa única Pessoa.
      Muitos espíritos numa única Pessoa.
      Muitas almas numa única Pessoa.
      Muito ocultismo numa única Pessoa.
      Muitos heterônimos numa única Pessoa.
      Muitos estilos numa única Pessoa.
      Muita filosofia numa única Pessoa.
      Muita genialidade numa única Pessoa.
      Muita bebida para uma Pessoa.
      A cirrose matou o Fernando e muitas Pessoas.

      +++++++

      Aos políticos pés-vermelhos.

      Não fechem os bares.
      Protejam de verdade
      Nossas vidas, nossos lares.
      .
    • por
    • 02.Dez.2005 às 13:04 - Permalink - Reportar
    2e1b9f2151ab1cc4940e8d8cf9d5f1eb?s=80&r=pg&d=monsterid
    • sou viciada nissu!!!
      é ,uito perigoso!!!
      se eu não tomar posso ter fortes
      dores de cabeça!!
      uma forte droga!!!
      ahhh
      me ajudem
    • por
    • 28.Dez.2005 às 12:02 - Permalink - Reportar
    8e5fbfb61e8445c0844107fcc833624a?s=80&r=pg&d=monsterid
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PAULO BRIGUET, SEU CRIADO

Dizem por aí que o autor deste blog é chato, feio e bobo – a exemplo do capitalismo e do judaico-cristianismo que ele defende com unhas, dentes e, acima de tudo, argumentos assaz irrespondíveis (para desconcerto dos oponentes).

Ex-trotskista, ex-ateu, ex-sindicalista, ex-cantor, ex-ex, arrepende-se de (quase) tudo. É amado e odiado na exata proporção de sua obscuridade.

A liberdade de pensamento e expressão aqui encontra guarida. A babaquice, porém, é rejeitada, apagada e excluída, quando não editada. Que os babacas sejam livres em outras freguesias. (Tosquices, ao contrário, são permitidas e até incentivadas.)

Quê? Jornalista? Desconheço, senhor. Alguém aí falou no assunto?

Que o Criador, bendito seja o Seu Nome, abençoe a todos os leitores deste blog. Lembre-se: Paulo Briguet reza por você.

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