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Archive for December of 2005

Don-juan só se fode

December 30, 2005
Em 2005, aprendi que don-juan só se fode.
Inteligência não é meu forte, por isso levei 35 anos para chegar a essa conclusão.
Quem dera eu tivesse conquistado tantas mulheres como meus detratores dizem que conquistei. Só fico com a fama, e mais nada. Má fama, por sinal. Mulher odeia homem galinha e, embora eu não pertença ao gado asinino, é lá que me incluem. Peguei uma eterna gripe aviária.
Vocês aê que são dons-juans de verdade, aceitem o conselho de um falso: saiam dessa vida antes de encontrarem um grande amor; don-juan só se fode.
Em São Paulo, vi o filme sobre um don-juan em final de carreira, Flores Partidas (Broken Flowers), com direção de Jim Jarmusch. O ator principal é o grande Bill Murray (que, acreditem, está melhor do que em Lost in Translation). É claro que ele se dana o filme todo (com exceção de um lesco-lesco bêbado com Sharon Stone).
Acho que fiquei com a fama de don-juan porque sou feio, lento de raciocínio, pobre e não sei dirigir. Nenhuma mulher jamais olhou para mim. Na tentativa de compensar essas falhas, desenvolvi ao longo dos anos o chamado “bico-doce”, uma certa capacidade de conversar. Adorno a realidade com palavras. Acabei escravo da própria linguagem. Se levarmos em conta que no princípio era o Verbo, estou sendo rigorosamente judaico-cristão. Minha linguagem é apenas uma forma de retornar ao Criador. E você é a minha forma. Decepcioná-la foi como decepcionar a mim mesmo.
Mas voltemos ao Concerto de Brandenburgo número 1. Só João Sebastião agüenta papo de don-juan falsificado.

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Alguém lê o Tipos em pleno 30 de dezembro? Ei, estou falando com você!

Sexta sem Neosaldina

December 30, 2005

Na crônica da semana, um passeio pelo tempo perdido: Viagem com o meu avô.

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Notaram que ontem foi a última QSL do ano? Mesmo em recesso, uma quinta continua sendo uma quinta.

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Eu vou para uma praia incógnita, eu vou. Sem celular, sem e-mail, sem jornal. Com cerveja, João Sebastião e alguns sambas do Paulinho da Viola.

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Dorival Caimmy também pode. Se Amália não quiser ir, eu vou só.

Fome de Miojo

December 29, 2005

Tem um texto estranho, muito estranho, na Casa dos Trinta.

Votos

December 24, 2005
Hors-concours do Nobel de Medicina.

Que seja um feliz Natal
com peru, Skol, Neosaldina,
amor, trabalho, coisa e tal.

Sobrevivência e pedra

December 23, 2005

Uma crônica sobre uma pedra. Uma crônica sobre o perdão. Uma crônica em Atibaia. Uma crônica de sobrevivência. Uma crônica aqui.

Gatos e ratos

December 21, 2005
* PEPINO — Estou de férias. Nesta semana fiz algo que só consigo fazer durante as férias: tirar uma soneca depois do almoço, em plena segunda-feira. Foi um sono curto, mas agitado. Durante menos de uma hora, tive sonhos terríveis. Acordei várias vezes assustado com o enredo dos sonhos. Era só voltar a dormir — sempre conciliei o sono rapidamente — e os pesadelos voltavam, com imagens antropomórficas, monstros, cenas de espancamento e tortura, retratos de solidão absoluta, amigos que me abandonavam. Então me dei conta de que havia comido pepino no almoço.

* LEITURAS — Os livros que escolhemos para ler nas férias são um retrato daquilo que somos. Nunca aceitei a idéias de que as férias ou folgas pedem necessariamente livros leves, divertidos, alegres, em “alto astral” (como se dizia nos agitados anos 80). Uma das leituras mais importantes da minha vida foi a de “A Morte de Ivan Ilich”, de Tolstói — durante um carnaval. Li “Madame Bovary” viajando para uma festa de casamento e “Anna Karênina” em uma colônia de férias na praia. Emma e Anna não tiveram destinos felizes; eu estou vivo. Foram ótimas leituras, memoráveis. Aguardo ansiosamente a chegada de “Anna Karênina” na tradução direta do russo, lançada pela Cosac & Naify.

* MAUS — O livro que estava na minha cabeceira quanto tive os pesadelos é “Maus”, de Art Spiegelman, editado no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Antônio de Macedo Soares. Art Spielgelman é um cartunista americano nascido em 1948; foi editor da celebrada revista The New Yorker e da Raw, publicação especializada em quadrinhos e artes gráficas. Por “Maus”, história em quadrinhos publicada em diversos episódios entre 1978 e 1991, depois reunidos em livro, Spielgeman ganhou o Prêmio Pulitzer, um dos mais importantes dos EUA.

* HQ E HOLOCAUSTO — “Maus” conta a história de Vladek Spiegelman, pai do autor, sobrevivente do campo nazista de Auschwitz, na Polônia. Há muita literatura concentracionária, de boa e má qualidade. Com a ousadia de levar um relato sobre o Holocausto para a linguagem de HQ, Art Spiegelman conquistou um lugar bastante digno na extensa galeria sobre o tema.

* SANGRANDO HISTÓRIA — Para criar “Maus”, o autor entrevistou o próprio pai, um pai que, nas palavras do filho-entrevistador, “sangra história”. Vladek faz minuciosos relatos do cotidiano de miséria, fome, violência e morte entre os judeus da Europa na Segunda Guerra Mundial.

* ANIMAIS — Os judeus são representados como ratos; os alemães, como gatos; os americanos, como cães; os poloneses, como porcos. São imagens brutais, comoventes e simbólicas de um mundo governado pela lógica do mal. Todos ali são demasiado humanos — e também animais.

* EXPERIÊNCIA — Os méritos de Spiegelman não se limitam à representação icônica dos povos envolvidos na guerra. Ele sabe contar uma história, e o faz a partir da própria experiência íntima: alterna imagens do pai na velhice (morando nos EUA) e na juventude (sobrevivendo em Auschwitz e outros infernos). Tudo isso dá um caráter pessoal e pungente à narrativa. A denúncia contra o nazismo é vívida e complexa, livre dos clichês melodramáticos. Embora, é claro, não chegue aos pés da obra-prima do gênero — “É isto um homem?”, de Primo Levi --, “Maus” tem uma fluência e uma harmonia entre texto e imagem que lhe tornam um excelente painel sobre o sistema concentracionário e as conseqüências da ideologia racista.

* SIM OU NÃO — No mundo de “Maus” — e esse foi o mundo real dos judeus europeus, durante a Segunda Guerra --, a vida pode valer um sim ou um não. O caso de Vladek Spiegelman, narrado por seu filho Art, é uma odisséia da sobrevivência individual. Nunca fui um grande leitor de quadrinhos, mas os Spiegelman (pai e filho) merecem aplausos — e mereceram o Pulitzer.

* OLHO DE VIDRO — Com notável coragem, o autor coloca a nu mesmo os episódios mais sombrios e patéticos a vida familiar, sem abrir mão do humor e da ironia típicos da cultura judaica. E há passagens de beleza lírica — por exemplo, quando Vladek diz que vê a esposa Anja com o olho bom e o olho de vidro, com o olho aberto e o olho fechado. As descrições de um Vladek ranzinza e pão-duro na velhice são ao mesmo tempo hilariantes e melancólicas.

* IRÃ — Nestes tempos em que o novo presidente do Irã usa a tribuna para dizer que o Holocausto não passa de um “mito”, é preciso estar de olhos bem abertos para as reincidências do mal. Ler “Maus” é uma ótima idéia — mesmo se você estiver de férias. Só evite comer pepino antes de dormir.

Mar de banalidades

December 18, 2005

Acabou a chuva. Claro: é da natureza da chuva acabar, e isso não é matéria de poema. Mesmo aquela chuva antiga chegou ao fim, quando a pomba surgiu trazendo um ramo no bico. Há séculos, há milênios, os maus poetas escrevem que a chuva acabou (e continuarão escrevendo depois da minha morte). Não existe metáfora, espanto ou riqueza numa frase tão banal quanto Acabou a chuva. É uma sentença prosaica e pueril, indigna de um verso.

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É domingo. Oh que grande acontecimento. Todas as semanas, invariavelmente, têm um domingo entre os seus sete dias, e ele sempre ocorre antes da segunda-feira e depois do sábado. Há séculos, há milênios, maus cronistas dizem que é domingo, prenunciando uma semana de trabalho (mesmo que estejam de férias, como é o meu caso) e lamentando a exigüidade do final de semana que se vai com a musiquinha do Fantástico. É domingo, sim, e eu fui à Cantina do Nonóca, durante a chuva, e participei de quatro rodadas de bingo, tendo conseguido ganhar apenas uma vez, tendo acertado um “quatro-cantos”, cujo prêmio é uma cerveja. Oh que grande acontecimento.

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Estou mal. Aí temos outra novidade que vai abalar as estruturas do universo e determinar o futuro da espécie humana: o Paulo Briguet está mal! Ipi! Urra! Sus! Há séculos, há milênios, maus escritores ficam deprimidos com sua própria insignificância diante do mundo; com sua incomensurável culpa diante dos homens, das mulheres e de Deus; com a inevitabilidade da dor, da solidão e da morte. Grande coisa: mais um escritorzinho está mal! Coitado dele! Tá querendo cafuné, é? Não tomou seu remedinho hoje? Bateu firme demais na festa de confraternização da empresa? Ora, vá se catar, rapaz. Passe amanhã.

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Por fim, chego em casa, ponho o DVD do Glenn Gould tocando as Variações Goldberg, de João Sebastião, e noto que há um facho de luz de forma quase humana refletido na madeira do piano. Será o fantasma de João Sebastião? Será o Anjo de Deus, aquele que lutou com Jacó? Não, não é nada: é apenas uma impressão fugaz e irrelevante, em tudo igual ao fim da chuva, ao domingo e à dor de viver. Mas desconfio que, oculto neste mar de banalidades, está a verdade do tempo – como um fantasma, um anjo, um pianista morto em 1982.

Acorda, Briguet

December 16, 2005

Acorda, Briguet. Já é quase meio-dia e você ainda ferrado no sono. Não percebe que o mundo inteiro já despertou, enquanto você, oh você, continua ressonando, nos braços de Morfeu? Que é que te deu?
Toma vergonha, Briguet. Acorda, lava o rosto, escova os dentes, toma o antidepressivo, sai pro dia, toma jeito, Briguet! Vê se faz alguma coisa útil, em vez de ficar aê escrevendo bobagem. Olha o exemplo do Tanga, do William Bonner, da Natália Falavigna, ô Briguet. Tá todo mundo trabalhando, em prol da sociedade. É gente carpindo data, derriçando rua de café, lavando tanque de roupa, pintando guia ao sol do meio-dia, Briguet – e você nada. Deixa de preguiça, homem de Deus. Neosaldine-se!
E daí que você tá de férias? E daí que ontem foi Quinta Sem-Lei? E daí que o tempo, a morte, o medo, a solidão e o amor? Faz favor!
Acorda, Briguet. Deixa de lero-lero, de vem-cá-que-eu-também-quero. Te mexe! E que parangolé é esse de ficar misturando a segunda e a terceira pessoa verbais? Tu é foda! Respeita a língua portuguesa, estrupício!
Tá, tá, tá. A gente sabe que você levou pé na bunda da namorada. (Culpa sua, culpa sua.) A gente sabe que você alterna momentos de desespero e trocadilho, mas pô! Cacete! Será o Benedito? Vê o exemplo do Diego de los Prazeres. Vê o exemplo do Ranulfo. Vê o exemplo da Rosângela Vale. Olha o Rubão, o Vidalzinho, a Janaína Ávida! Só não vê o exemplo do Marcelo Rocha, por favor, que ele é muito feio. Vá te catar, Briguet.
Acorda, Briguet. Que mania estúpida de dormir no balcão! Você acha que isso conta pontos a favor da tua imagem? Deixa de viadagem! Fica aê ouvindo João Sebastião e acha que tá ótimo? Já não é noite, é dia! Acorda e sai pro mundo, Briguet. Deixa de ficar circulando de cueca e põe uma roupa. Vai viver a vida. Vai, cara. Vai, que Deus tá vendo isso tudo, ô mané.

A bela fera

December 15, 2005
E não vem com gracinha pro lado dela, ô malandro!

A lutadora Natália Falavigna acaba de ganhar o título de atleta do ano. Deveria ser também eleita a musa do ano.

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Nestes tempos em que Deborah Secco, Débora Falabella, Adriane Galisteu, Vanessa Camargo, Preta Gil e outras campeãs da falta de graça arvoram-se em símbolos sexuais pátrios, Natália deixa todas as concorrentes na lona. E isso porque ela não concorre para sair na Caras ou nos programas de fofoca; não está nem um pouco preocupada com a fogueira das vaidades. O negócio dela é lutar taekwondo. E o faz muito bem: acaba de se tornar campeã mundial da categoria.

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Daiane trupica, Deborah sussurra, Débora sorri para o JK, Adriane namora o cara do Corinthians, Vanessa sai na capa, Preta “polemiza” – e Natália derruba. Eu escolheria mil vezes Natália, se me fosse dado escolher. Que me desculpem minhas musas incontestáveis – Juliette Binoche, Natalie Portman e você, é claro –, mas Natália Falavigna acaba de entrar para o panteão.

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A melhor atleta do país é dona de uma beleza marcante, natural e desprentensiosa. Seu melhor golpe é estar presente. Ela não tem a magreza famélica e doentia das top models; não é a falsa diva siliconada para quem a Glória Perez escreve papéis ridículos; não é a boa-moça delicadinha insossa como Débora Falabella; não é patroa da Ilha de Caras como Adriane Galhos Teus; é só Natália Falavigna – nascida em Maringá, moradora de Londrina, campeã do mundo. Ela é de categoria.

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Lamento não saber escrever japonês ou chinês, pois seria preciso criar um ideograma para definir a harmonia entre qualidades contrárias personificada na lutadora de taekwondo. Como uma sonata de Beethoven, Natália combina delicadeza e força; violência e graça; beleza e poder. Seu talento é não-cartesiano; sua geometria é antieuclidiana; sua forma é um exagero do conteúdo.

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Não consta que Scott Fitzgerald tenha praticado lutas marciais. Mas ele disse uma frase que se aplica perfeitamente à imagem de Natália Falavigna: “Uma mente privilegiada é aquela capaz de conviver simultaneamente com duas idéias contrárias”. Quando assistimos aos seus golpes, a contradição se instaura: um violento chute é também a expressão da beleza. Forte é Natália. Suave é Natália.

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Mais do que atleta, Natália é uma artista privilegiada. As artes marciais ensinam a mente a controlar o corpo – Natália é uma praticante dessa filosofia, e o resultado, mais do que nos títulos, está em seu próprio ser: ela é a bela e a fera em uma só pessoa.

Férias de um vagabundo - 2

December 14, 2005

OS PROBLEMAS

Juro que o vizinho passa o dia inteiro ouvindo, bem alto, a mesma música do Guns and Roses. Alguém me dê uma gun, por favor. (Pausa para a reverberação das gargalhadas gerais.)

AS SOLUÇÕES

Ninguém chama o Galvão Bueno de Bueno, já notaram?
Por isso, tomei uma decisão para depois das férias.
Se ele ligar para o jornal e eu atender (algo que felizmente nunca aconteceu), vou dizer a seguinte frase:
– Quer falar com quem, sr. Bueno?
Acho que é uma boa decisão.
O mesmo vale para Mildred Bueno. Direi apenas:
– Quer falar com quem, sra. Bueno?

OS PROBLEMAS, AINDA
Uma rosa para quem me der uma gun.

AS SOLUÇÕES, AINDA
E aí, Rubão? Tomar uma hoje no Magdalena?

Sou caipira pira pora nossa

December 14, 2005
O povo andou discutindo aê sobre cidades. Eu só sei que não é nem um pouco fácil morar no Sertão. Mas continuo morando. Para mais detalhes, veja minhas reflexões sobre o fato de ser caipira. Lá, na Casa dos Trinta.

As férias de um vagabundo

December 13, 2005
Neste segundo dia de (merecidas) férias, sinto-me um autêntico morador da vila. Nos outros 11 meses do ano, a condição de vilão (vilão = que mora na vila) é um pouco prejudicada pelo parangolé do trabalho. A cada dia se fortalece, para mim, a idéia de que só trabalho para ganhar o direito de ser vagabundo. Para ganhar o direito de estar como estou agora, de cuecão, falando bobagem no blog, ouvindo João Sebastião, depois de dar uma voltinha pela vila, tendo almoçado no Restaurante do Canto (assim denominado porque fica no canto da quadra, e porque suas dimensões são reduzidas; mas o preço do rango caseiro também é), prestes a ler um Lawrence Durrell nerrrrrrrrvoso (pronuncie-se a última palavra com sotaque do Sertão).

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Como o Restaurante do Canto é pequeno, sou levado a dividir os mínimos cantinhos com, de preferência, outras comensais. Hoje duas se sentaram à minha mesa. Uma bonitinha; a outra, nem tanto. Veja que a velha regra-do-lutador-de-sumô-barrado-na-boate (“Não se pode ter tudo”) valeu mais uma vez: para decepção dos duendes que controlam minhas fantasias, a bonitinha trabalha numa loja de móveis e a nem-tanto trabalha numa loja de artigos eróticos. Tudo aqui na minha vila. A vila é como a vida: nada perfeita. No mundo real, este que eu tanto desprezo, dificilmente a bonitinha trabalhará na loja de artigos eróticos.

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Em seguida, fui à farmácia comprar Neosaldina, que sou um homem previdente. E, na próxima quinta-feira, tem a QSL dos meus sonhos: sem ter horário para acordar no dia seguinte. Eh, tendéu! Carro de puta é Corcel!

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(Ô, seo Aurélio! Que história é essa de tendéu não ser uma palavra dicionarizada?)

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Nas Alturas continua em cartaz até o dia 20 (e não 18 como eu havia dito). Os detalhes, dois posts abaixo. Hoje eu vou. Vamos?

Percurso de uma idéia

December 12, 2005

Quando vejo que teu braço
se move no escuro e tua mão
se deita em minha pele
e teu passo se dirige
ao meu peito, e meu cansaço
te envolve em tua mente,
e meu tempo te torna
em linguagem,
quando a forma
de meu rumo te espera,
como um facho de sombra,
e dilacera, tão quente,
a superfície da terra,
e o nascente, absinto
que sonha, e um pedaço
do mundo se desprendem,
e um abraço de morte e de dor
me envolve, como pura matriz
se resolve na cura do horror,
e um nome se expressa depois
como um modo de achar
a mensagem das trevas,
e entre todos um só se eleva,
e a promessa dos tempos etéreos,
que dos pés à cabeça, inertes,
retornam, da memória ao avesso
dos olhos, a bebida que agora
eu tomo se confunde
com o sal do veneno,
e meu lastro de sangue
é pleno, como a volta
do mar ao silêncio,
como a luz que à ordem
desfaça o que foi nesta vida
de graça – quando for
não serei mais que um traço.

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Para quem chegou até aqui: tem duas imagens de Natal lá na Casa dos Trinta.

Nas Alturas

December 11, 2005
Não sou do ramo de viver. Não consigo nem diminuir a resolução de u'a maldita foto para publicar aqui no Tipos. Vou trupicando feito Dayane ao sabor do vento – jamais contra ele; não sou Caetano Veloso; e uso lenço; aliás, dois – sem encontrar sentido algum, a não ser o medo, a solidão e o amor. Mas não sei o que venham a ser o medo, a solidão e o amor; apenas tenho uma vaga noção – irracional, emo, infantil, idiossincrática.

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Para quem quiser saber um pouco mais, ou um pouco menos, tem esta peça aí que escrevi a pedido do ator Paulo Braz, levemente inspirada no romance “O Barão nas Árvores”, de Ítalo Calvino. O nome da peça? “Nas Alturas”. É a história de um cara que resolve subir nas árvores para nunca mais descer. Está em cartaz de 12 a 20 de dezembro, sempre às 21 horas, na Casa de Cultura da UEL (Rua Mato Grosso, 537, aqui no Sertão). Ingresso custa cinco lascas. Estudantada e aposentados pagam meia – R$ 2,50!

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Espero que vocês perdoem o texto e curtam a interpretação de Paulo Braz; a direção de Luiz Bertipaglia; a cenografia do mestre Amilton e de Paula Dalberto; a música de Janete El Haouli.

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Taí o recado: Nas Alturas. Agora, se me dão licença, vou lá para Cantina do Nonóca (assim com acento mesmo; e é o único bar do mundo que tem bingo). Além de tudo estou de férias. Decerto, não sou do ramo de viver. Os que forem brasileiros me sigam.

Criança

December 10, 2005

No elevador, minha amiga Cláudia, uma moça de 20 anos e uma menina de 5.
Vendo que a moça carrega livros, Cláudia lhe pergunta:
– O que você estuda?
– Eu estudo Letras.
Rapidamente, a menina esclarece:
– Eu estudo Letras e Números.

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Cultura inútil: elevador é o único meio de transporte que só anda em linha reta. Mas também tem a escada rolante.

Eu e a cidade

December 09, 2005

Minha cidade vai fazer 71 anos. Eu tenho 35. Para uma cidade, 71 é a juventude. Para um homem, 35 é a maturidade. Eu e a cidade somos parecidos. Leia mais aqui.

Nelson Freire e QSLatina

December 08, 2005
Concerto do Nelson Freire ontem à noite. Ducas. Também, o cara começou a tocar com 3 anos; com 4, o professor de piano disse que não tinha nada mais a ensinar para ele; com 5, fez o primeiro concerto. A exemplo de Mozart, Freire é Dom Fulgencio, não teve infância.

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Ontem, Freire batizou o primeiro piano Steinway comprado aqui no Sertão. Programa: Mozart, Beethoven, Debussy e Schumann. Freire debulha todos.

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Mozart é foda. Morreu com 35 anos (conheço alguém que tem essa idade). Foi o palhaço mais genial e espirituoso que já existiu neste mundão de meu Deus. E quando era trágico, meu irmão, não tinha pra ninguém. Freire tocou o Concerto número 11, do balacobaco.

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Esta Sonata ao Luar é de esmagar o coração, principalmente o último movimento. Por essas e outras, Beethoven é o Maradona da música. (Nada a ver com pó, embora os pesquisadores andem afirmando que ele – Beethoven – morreu intoxicado por chumbo. Faz sentido: Ludwig é heavy metal).

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Debussy, um louco, mais pintor que músico, delicioso de ouvir.

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E Schumann. Eh, Schumann. As canções dele são de primeira linha, mas o tal do Carnaval número 9, que o Freire tocou ontem, é meio puxado. Coisa para exercitar virtuosismo. É como futsal: deve ser mais gostoso de jogar (tocar) do que ver (ouvir).

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Não queriam deixar o homem dormir: Freire bisou cinco vezes. Quer dizer: pentisou (pausa para gargalhadas gerais). Com direito a Chopin e Villa-Lobos. E teve uma que eu não identifiquei, nem a Janete El Haouli, mas é bonita bagarai.

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É claro que faltou João Sebastião. Mas, como dizia o porteiro que barrou o lutador de sumô na boate, não se pode ter tudo. (Hã, hã? Entendeu, entendeu?)

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O que a gente não faz pelos amigos. Hoje, pela primeira vez em muitíssimo tempo, vou transferir minha Quinta Sem-Lei do Bar Brasil para o Valentino, onde vai pontificar e discotecar minha amiga Janaína A Ávida, em sua última Noite Latina antes de partir para o Velho Continente com seu amado. Quero ouvir Eliete. E ver a mulher que sobe na mesa. E você vai, não é, mestre Tanga? Olha o medo.

Manifesto contra a realidade

December 06, 2005


Às vezes eu me esqueço da realidade.
Eu não ligo a mínima para a realidade.
A realidade é desprezível para mim.
Não tenho senso de realidade.
A realidade nunca me comoveu.
A realidade foi feita para fugirmos dela.
Como um cão foge dos fogos.
Como um homem foge das feras.
A realidade não tem nada com a verdade.
A realidade freqüentemente é o oposto da verdade.
A máquina da realidade é um monstro.
O amor é verdade. A morte é a realidade.
O ódio também é a realidade. E o soco na cara.
E a dor. A dor é irmã gêmea da realidade.
A realidade não existe.
Não existe na terra, não existe no mar.
Não existe nas cordilheiras oceânicas.
Às vezes eu me lembro da realidade. E acordo rindo.

Jingle do Café Concreto

December 03, 2005


Depois de um pesadelo
a gente levanta
toma aquele tombo
e quebra os dentinhos

Na hora de tomar café
é Café Concreto
que a mamãe prepara
xingando os vizinhos

Café Concreto tem
sabor de palmito
e com ele eu vomito

É Café Concreto...
Café Concreto... Café Concreto...

(repeat)

Desculpe, não resisti

December 02, 2005

Vejo que em Cascavel o jacaré fugiu do zoológico. Tentaram recapturar o animal usando pintos. Mas só apareceram piranhas.

(Pausa para as gargalhadas gerais.)

A propósito, responda sinceramente:

Jacaré no seco anda?

E mais não digo porque é ridículo.

Tem coisas que só a Neosaldina faz por você

December 02, 2005
Na minha época não tinha isso.

Eu pergunto aos políticos que querem proibir bebida alcoólica depois das 11 da noite: por que os senhores não vão catar coquinho na descida, peidar na água para ver se sai bolhinha ou mesmo pintar uma guia na Avenida Leste-Oeste?
O Estado é incompetente para resolver o problema da segurança – e quem paga o pato são os bêbados.
Quando saio do bar, às duas da manhã, corro o sério risco de ser assaltado. Em vez de criar formas para prender o assaltante, esses luminares da falta-de-enxada querem me proibir de ir ao boteco!
O dente tem cárie? Arranca-se o dente. A Internet tem putaria? Proíbe-se a Internet. A cabeça tem pensamento? Corta-se a cabeça! Tudo para ganhar uns votinhos da patuléia.
Eu bebo sim: jamais provoquei uma briga em bar; jamais dirigi alcoolizado (mesmo porque não sei dirigir); sou um cidadão de bem, trabalhador e pagador de impostos. Por que os senhores querem me privar de um direito – o de encher a lata quando bem entender – baseados em estatísticas manipuladas e argumentos de delegado calça-curta?
Vão àquela parte.

*****

Na quarta-feira, completaram-se 70 anos da morte de Fernando Pessoa (de cirrose hepática, viu, seo vereadô?). Escrevi um texto sobre ele. Quem tiver paciência...

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