Repórter das Coisas

Reflexões sobre o fundo do poço

Hoje achei que não iria conseguir sair de casa nem trabalhar. Mas consegui. Levantei-me da cama; tomei banho; tomei café; tomei água; escovei os dentes; fui para a redação; entrevistei o Hermeto Paschoal por telefone; entrevistei o Murilo Barbosa por telefone; escrevi as matérias; fui ao bairro Nossa Senhora da Paz entrevistar um senhor que sustenta uma família de seis pessoas com uma atividade profissional quase em extinção; voltei para casa; tomei algumas notas; vi que o dia acabava de maneira espantosamente clara.

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Digamos que o meu dia teve dois núcleos de sobrevivência: o almoço com Janaína Ávila – sempre bons conselhos, além de uma feliz notícia de casamento – e uma frase de Fernando Pessoa no Livro do Desassossego: “Somos dois abismos – um poço fitando o Céu”.

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Alguém pode dizer que uma frase como essa só pode gerar desalento. Pelo contrário: chegar ao fundo do poço é um alívio. Quem chega ao fundo do poço não pode descer mais, salvo se tiver uma pá. Mas não é o meu caso; não tenho pá, muito menos enxada, como bem sabe o mestre Tanga.

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As paredes do fundo do poço são escorregadias? São. O clima é sufocante? É. O guincho das ratazanas incomoda? Incomoda. Mas só resta sair daqui – para o lugar onde me aguarda o dia espantosamente claro. “O que não me mata, me fortalece.”

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Trilha sonora: Sinfonia no. 5 em Ré Menor, de Shostakovich. Principalmente o terceiro movimento.

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Essa história de diploma de jornalismo? Tudo bobagem. Esqueçam o que escrevi.

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E mais não digo porque o silêncio, às vezes, é o modo autêntico da palavra, já dizia o professor Heidegger.

Publicado em 28 de novembro de 2005 às 21:17 por briguet

Comentários

    • SEROFF, Victor Illich. Shostakovich. Tradução de Guilherme Figueredo; prefácio de Mário de Andrade.Empresa gráfica O Cruzeiro S.A., Rio de Janeiro, 1945.
      Prefácio de Mário de Andrade (p. 9-33), concluído em janeiro de 1945. Com certeza o último texto de fôlego do autor de Macunaíma.
      Dimitri (Dmitri) Shostakovith (Chostakovith) - 25.02.1906-9.08.1975.

      “Sinfonia nº 5, em ré menor (op.47)
      ...4.Alegro non troppo: depois de uma tal profundidade de sentimento, o finale poderá, com razão, parecer decepcionante. Todavia, não lhe falta caráter: seu principal tema, no trompete, ritmado pelos tímpanos, é voluntarioso e otimista, e todo movimento revela-se de uma poderosa vitalidade...” Guia da Música Sinfônica. Organização: François-René Trancherfot. Editora Nova Fronteira.

      Briguet,

      Você é um bom moço.
      Quero ver você
      Tirando água do poço.
    • por
    • 28.Nov.2005 às 23:44 - Permalink - Reportar
    6ca9b871be02f5a5a8556df142d6853d?s=80&r=pg&d=monsterid
  1. cau
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PAULO BRIGUET, SEU CRIADO

Dizem por aí que o autor deste blog é chato, feio e bobo – a exemplo do capitalismo e do judaico-cristianismo que ele defende com unhas, dentes e, acima de tudo, argumentos assaz irrespondíveis (para desconcerto dos oponentes).

Ex-trotskista, ex-ateu, ex-sindicalista, ex-cantor, ex-ex, arrepende-se de (quase) tudo. É amado e odiado na exata proporção de sua obscuridade.

A liberdade de pensamento e expressão aqui encontra guarida. A babaquice, porém, é rejeitada, apagada e excluída, quando não editada. Que os babacas sejam livres em outras freguesias. (Tosquices, ao contrário, são permitidas e até incentivadas.)

Quê? Jornalista? Desconheço, senhor. Alguém aí falou no assunto?

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