Archive for November of 2005
João Sebastião e sauna
November 30, 2005
O que mais me espanta em Bach: ele não tinha consciência da própria grandeza.
Segundo os bambas do assunto, João Sebastião nunca nunquinha imaginou ser o maior de todos os tempos. Negócio dele era fazer música e neném (teve 20 filhos).
Claro que era religioso (luterano), e que considerava sua música uma forma de comunicação com Deus. Mas não se via como um portador da própria voz de Deus, ou como o quinto evangelista, como já o chamaram.
Era conhecido com bom instrumentista. Se lhe perguntassem o nome de um grande compositor, provavelmente ele citaria Haendel, seu ídolo. Mas Haendel, mesmo sendo ótimo, não chega aos pés do João Sebastião.
*****
Fui ao show do Hermeto Paschoal ontem no Ouro Verde. Dureza. Não pela música, que é boa. O problema é a sauna: ainda não consertaram o maldito ar condicionado. Com este calor, nem que fosse João Sebastião em pessoa. Até elefante na bunda sua! (Meu Deus, posso ouvir os espasmos da multidão em riso frenético.)
*****
E ó: mais Casa dos Trinta. Já vou avisando que é poema falta-de-enxada.
Segundo os bambas do assunto, João Sebastião nunca nunquinha imaginou ser o maior de todos os tempos. Negócio dele era fazer música e neném (teve 20 filhos).
Claro que era religioso (luterano), e que considerava sua música uma forma de comunicação com Deus. Mas não se via como um portador da própria voz de Deus, ou como o quinto evangelista, como já o chamaram.
Era conhecido com bom instrumentista. Se lhe perguntassem o nome de um grande compositor, provavelmente ele citaria Haendel, seu ídolo. Mas Haendel, mesmo sendo ótimo, não chega aos pés do João Sebastião.
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Fui ao show do Hermeto Paschoal ontem no Ouro Verde. Dureza. Não pela música, que é boa. O problema é a sauna: ainda não consertaram o maldito ar condicionado. Com este calor, nem que fosse João Sebastião em pessoa. Até elefante na bunda sua! (Meu Deus, posso ouvir os espasmos da multidão em riso frenético.)
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E ó: mais Casa dos Trinta. Já vou avisando que é poema falta-de-enxada.
Lei de Murphy
November 30, 2005O despertador sempre toca na hora do sono mais gostoso. E nesse momento eu lembro que você não conseguia abrir os olhos.
*****
Hoje faz 70 anos que Fernando Pessoa morreu de cirrose, em Lisboa. Ele foi o verdadeiro inventor do blog: O Livro do Desassossego.
A sacola
November 29, 2005
Hoje eu recebi a sacola mais pesada do mundo. Dentro dela, uma toalha e um lenço, lavados e passados.
E quatro livros: Inventário das Trevas, de José Castello; Octaedro, de Cortázar; Muitas Vozes, de Ferreira Gullar; e Claro Enigma, de Drummond.
Também havia um bilhete e um poema de Paulo Leminski, encontrado na mesa de um bar. O poema, não Leminski.
Dentro da sacola, todo meu passado. A vida.
O que me fez lembrar outro poema, do grande Herberto Helder:
Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado, quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
– eu não sei como dizer-te que cem idéias
dentro de mim, te procuram.
(...)
E mais não digo.
E quatro livros: Inventário das Trevas, de José Castello; Octaedro, de Cortázar; Muitas Vozes, de Ferreira Gullar; e Claro Enigma, de Drummond.
Também havia um bilhete e um poema de Paulo Leminski, encontrado na mesa de um bar. O poema, não Leminski.
Dentro da sacola, todo meu passado. A vida.
O que me fez lembrar outro poema, do grande Herberto Helder:
Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado, quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
– eu não sei como dizer-te que cem idéias
dentro de mim, te procuram.
(...)
E mais não digo.
Reflexões sobre o fundo do poço
November 28, 2005
Hoje achei que não iria conseguir sair de casa nem trabalhar. Mas consegui. Levantei-me da cama; tomei banho; tomei café; tomei água; escovei os dentes; fui para a redação; entrevistei o Hermeto Paschoal por telefone; entrevistei o Murilo Barbosa por telefone; escrevi as matérias; fui ao bairro Nossa Senhora da Paz entrevistar um senhor que sustenta uma família de seis pessoas com uma atividade profissional quase em extinção; voltei para casa; tomei algumas notas; vi que o dia acabava de maneira espantosamente clara.
*****
Digamos que o meu dia teve dois núcleos de sobrevivência: o almoço com Janaína Ávila – sempre bons conselhos, além de uma feliz notícia de casamento – e uma frase de Fernando Pessoa no Livro do Desassossego: “Somos dois abismos – um poço fitando o Céu”.
*****
Alguém pode dizer que uma frase como essa só pode gerar desalento. Pelo contrário: chegar ao fundo do poço é um alívio. Quem chega ao fundo do poço não pode descer mais, salvo se tiver uma pá. Mas não é o meu caso; não tenho pá, muito menos enxada, como bem sabe o mestre Tanga.
*****
As paredes do fundo do poço são escorregadias? São. O clima é sufocante? É. O guincho das ratazanas incomoda? Incomoda. Mas só resta sair daqui – para o lugar onde me aguarda o dia espantosamente claro. “O que não me mata, me fortalece.”
*****
Trilha sonora: Sinfonia no. 5 em Ré Menor, de Shostakovich. Principalmente o terceiro movimento.
*****
Essa história de diploma de jornalismo? Tudo bobagem. Esqueçam o que escrevi.
*****
E mais não digo porque o silêncio, às vezes, é o modo autêntico da palavra, já dizia o professor Heidegger.
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Digamos que o meu dia teve dois núcleos de sobrevivência: o almoço com Janaína Ávila – sempre bons conselhos, além de uma feliz notícia de casamento – e uma frase de Fernando Pessoa no Livro do Desassossego: “Somos dois abismos – um poço fitando o Céu”.
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Alguém pode dizer que uma frase como essa só pode gerar desalento. Pelo contrário: chegar ao fundo do poço é um alívio. Quem chega ao fundo do poço não pode descer mais, salvo se tiver uma pá. Mas não é o meu caso; não tenho pá, muito menos enxada, como bem sabe o mestre Tanga.
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As paredes do fundo do poço são escorregadias? São. O clima é sufocante? É. O guincho das ratazanas incomoda? Incomoda. Mas só resta sair daqui – para o lugar onde me aguarda o dia espantosamente claro. “O que não me mata, me fortalece.”
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Trilha sonora: Sinfonia no. 5 em Ré Menor, de Shostakovich. Principalmente o terceiro movimento.
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Essa história de diploma de jornalismo? Tudo bobagem. Esqueçam o que escrevi.
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E mais não digo porque o silêncio, às vezes, é o modo autêntico da palavra, já dizia o professor Heidegger.
O diploma é uma piada
November 27, 2005
Os melhores jornalistas que conheço – Jota Oliveira, Widson Schwartz, Cláudio Abramo, Otávio Frias Filho – não têm diploma de jornalismo. Por isso eu acho uma besteira sem tamanho exigir que jornalista seja formado em jornalismo.
*****
Acho que o diploma de jornalismo é uma piada. Veja bem: não acho que o curso de jornalismo seja uma completa piada; nem que os estudantes de jornalismo sejam uma piada; nem mesmo que a profissão de jornalista seja uma piada; só acho que o diploma é uma piada.
*****
Quando digo que o diploma é uma piada, quero dizer que tive um péssimo curso de jornalismo, e que o fato de ter cursado jornalismo não garante competência a ninguém.
*****
É claro que tive alguns bons professores; a maioria, no entanto, jamais poderia pertencer ao quadro de profissionais do jornal em que trabalho hoje. O desafio, portanto, não é fazer com que o diploma de jornalismo deixe de ser uma piada, porque já o é; o desafio é fazer com que a formação passe a ser alguma coisa séria.
*****
E aí vem o pessoal dizer que esta minha opinião acaba por afrontar a dignidade da profissão de jornalista. É uma grande besteira. Todas as profissões humanistas – direito incluído – não deveriam depender de formação acadêmica. O resto é corporativismo e fanatismo.
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Acho que o diploma de jornalismo é uma piada. Veja bem: não acho que o curso de jornalismo seja uma completa piada; nem que os estudantes de jornalismo sejam uma piada; nem mesmo que a profissão de jornalista seja uma piada; só acho que o diploma é uma piada.
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Quando digo que o diploma é uma piada, quero dizer que tive um péssimo curso de jornalismo, e que o fato de ter cursado jornalismo não garante competência a ninguém.
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É claro que tive alguns bons professores; a maioria, no entanto, jamais poderia pertencer ao quadro de profissionais do jornal em que trabalho hoje. O desafio, portanto, não é fazer com que o diploma de jornalismo deixe de ser uma piada, porque já o é; o desafio é fazer com que a formação passe a ser alguma coisa séria.
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E aí vem o pessoal dizer que esta minha opinião acaba por afrontar a dignidade da profissão de jornalista. É uma grande besteira. Todas as profissões humanistas – direito incluído – não deveriam depender de formação acadêmica. O resto é corporativismo e fanatismo.
É legal, é chato
November 27, 2005É legal pisar em vagens secas.
É chato ir à reunião de condomínio.
É legal beber sozinho na Cantina do Nonóca.
É chato encontrar alguém de quem você não sabe o nome.
É legal ver uma bunda oscilando à sua frente.
É chato ver um cachorro recebendo um chute.
É legal enviar uma mensagem e ser compreeendido.
É chato alguém fazer um comentário irônico a seu respeito.
É legal Camões.
É chato Ezra Pound.
É legal Fernando Pessoa.
É chato poema concreto.
É legal Bach.
É chato política.
É legal poesia.
É chato filosofia.
É legal mulher bonita.
É chato homem peludo.
É legal Shostakovitch.
É chato neguinho politicamente correto.
É legal minha vizinha.
É chato meu vizinho.
É legal ler Guerra e Paz.
É chato ter diploma de jornalismo.
É legal ser amigo da Glória Pires.
É chato ver que a Cléo Pires é nova demais.
É legal.
É chato.
Despertar
November 26, 2005
O cara acorda e percebe que seu antebraço está inteiramente tatuado com a figura de um dragão chinês (soltando fogo pelas ventas) e, em letras garrafais, o nome Michelainny. Uma das circunvoluções do y de Michelainny chega a atingir a palma da sua mão direita.
- Como é que vou explicar isso pra minha mulher?
Indo ao banheiro, percebe que seus cabelos, mesmo curtos, se transformaram numa singular medusa de dreads comparáveis aos de Djavan nos anos 80.
Inexplicavelmente, escova os dentes.
- Como é que vou explicar isso pra minha mulher?
Indo ao banheiro, percebe que seus cabelos, mesmo curtos, se transformaram numa singular medusa de dreads comparáveis aos de Djavan nos anos 80.
Inexplicavelmente, escova os dentes.
Duas crônicas e uma dúvida
November 24, 2005
Hoje acordei num quarto que não é o meu, numa cama que não é a minha, cercado por objetos que não me dizem respeito.
Leia mais na Carta de Londrina.
*****
Se me perguntarem de onde sou, respondo logo que sou da minha vila. Nem brasileiro, nem paranaense, nem londrinense: da minha vila.
Leia mais na Casa dos Trinta.
*****
Tanga, Tanga. Você vai à QSL? Estou com um mau pressentimento... Há alguma formatura em Harvard, hoje?
Leia mais na Carta de Londrina.
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Se me perguntarem de onde sou, respondo logo que sou da minha vila. Nem brasileiro, nem paranaense, nem londrinense: da minha vila.
Leia mais na Casa dos Trinta.
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Tanga, Tanga. Você vai à QSL? Estou com um mau pressentimento... Há alguma formatura em Harvard, hoje?
Notas quintaneiras
November 24, 2005Esta cidade não é bolinho. É um absurdo. Não o sei as pessoas vêem aqui; não sei o que vejo. Acabo de entrevistar um professor de literatura, com doutorado em Coimbra, decidido a morar em Londrina por um ano. Chegou e gostou. Pensei em alertá-lo: “Aqui não tem nada! Aqui não tem nada!” Mas é nesta cidade que eu vivo há 16 anos.
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Vamos combinar uma coisa? Da próxima vez que o mandatário da Província vier aqui para o Sertão, que tal ignorarmos as suas (dele) palhaçadas? Além disso, ele não faz nada mesmo. Logo logo o homem se verá sem publicidade gratuita; há uma chance (remota, é bem verdade) de que venha a se comportar como gente.
*****
O referido mandatário deveria seguir o exemplo do anterior, e sumir do Sertão por um ano. Seria bom para todo mundo.
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Em casa, aguarda-me o Livro do Desassossego. Aquilo sim que é blog.
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No Calçadão, o pregador berra: “Ainda é tempo! Ainda é tempo”. Isso é pra mim?
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Quero fugir deste calor dos infernos. Quero ir pra Itália.
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Harry Potter: não li; não vi; nada sei. Não me perguntem.
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E, como diria o taxista, hoje é QSL, QSL? Hein? Hein? Hã? Hã?
*****
Me deu medo, Tanga. Medo de que você não vá à QSL. Nem pense nisso.
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E mais não digo porque cansei.
Minha Quinta Sem-Lei ninguém tasca
November 23, 2005Mais um Einstein aparece dizendo que fechar os bares às 10 da noite é solução para a segurança pública. O governo e a polícia são incompetentes e nós bêbados é que pagamos o pato.
*****
“Defina seus termos!” Assim dizia Sócrates. Ou era algo parecido, em grego. Mas o fato é que ninguém precisa definir seus termos para viver, muito menos para ser feliz. Amor, Deus, justiça, felicidade, música – coisas que pouca gente sabe definir, nem por isso são menos reais. Não é preciso conhecer a fórmula da água para matar a sede.
*****
É bom chegar aos 35 anos com a sensação de nunca ter lido um livro de filosofia até o fim. (Logo se nota, Briguet. Logo se nota.)
*****
E mais não digo porque nada sei.
Testamento amoroso
November 22, 2005
Eis a minha estréia na Casa dos Trinta, onde sou responsável pelo WC. Mas continuo amando o Tipos, viu, Moraes?
Consulta
November 21, 2005Doutor, acho que estou gripado.
Tenho asma, olheiras, náusea e hemorragia.
Sinto-me bem mal, doutor.
Quero comprar uma farmácia:
faixas pretas, faixas vermelhas,
genéricos, homeopáticos
e florais de Bach.
Doutor, acho que estou morrendo.
Sinto isso desde que nasci,
mas agora é diferente.
Acho que estou com dengue,
infarto, calo e septicemia.
Não tenho fome. Tenho uma grande sede.
Sinto calor e frio ao mesmo tempo.
Doutor, eu devo estar com febre.
Não vê as minhas mãos, doutor,
como tremem, como telefonam
para ex-namoradas?
Doutor, receite alguma coisa.
Alguma coisa forte, carnaval,
penicilina ou absinto.
Tenho pânico e vertigens,
desmaio sempre no banheiro.
À noite ando pela casa,
um tanto nu e apavorado.
Quero gostar do dia.
Quero ser outra pessoa.
Quero ter carro, casa,
uma bonita esposa e filhos.
Doutor, não fique aí parado.
Me diga alguma coisa.
Me diga por que morro
nas tardes de domingo
e quando ressuscito
já é segunda-feira.
Doutor, exijo uma resposta.
Até porque a consulta
anda pela hora da morte.
Meu ideal político
November 20, 2005Um dia, não saber o nome do presidente, nem o do governador, nem o do prefeito.
O homem mais forte é o mais só
November 19, 2005Parabéns, Paulo Briguet. Agora, você está sozinho. Completamente sozinho.
Piada. Chatice. Poema.
November 19, 2005PIADA
A estudante Sabrina encontra o jornalista Pedro. E diz:
– Foi você que andou dizendo que o diploma de jornalismo é uma piada?
– Eu mesmo. Seu criado.
Antes que Pedro inicie outra frase ou esboce reação, Sabrina mete-lhe uma certeira bifa no meio do naso.
Limpando o sangue do rosto, Pedro volta-se para a agressora e comenta:
– Puxa, essa foi forte. Agora nós podemos passar ao lesco-lesco?
CHATICE
Plantão é chato.
Explicar as coisas é chato.
Poesia, em geral, é chata.
Ressaca, pô, claro que é chata.
Homem é chato.
Mulher comum é chata.
Platão e Aristóteles – dois chatos.
Bêbado é chato.
Skank é chato.
Wagner é chato.
Ópera é chata.
O mundo, no mais das vezes, é chato.
Mendigo é chato.
Eu sou chato.
POEMA
Não quero fazer nenhum poema importante,
nenhuma declaração de amor (já está declarado),
nenhum apelo e nenhuma cerimônia.
Quero apenas dizer a verdade mínima
entre todas as verdades, entre os reis
e os mendigos do Céu, da Terra;
quero apenas gritar a completude
do meu amor e da minha aliança,
que você nunca achou em outro.
Quero apenas dizer adeus e bom-dia,
no vão das coisas dentro de nós.
Skank, paradoxo e lição
November 19, 2005
Não é que eu odeie o Skank. Não desejo a morte do Samuel Rosa. Só quero que os integrantes da banda abandonem a carreira artística; dediquem-se a outras atividades profissionais; nunca mais cantem ou toquem instrumentos musicais; e providenciem a compra e destruição de todos os CDs do grupo, da mesma forma que Xuxa fez com as fitas VHS do filme “Amor Estranho Amor”.
Só isso.
*****
Quando a mulher que sobe nas mesas se aproxima, digo a ela:
-- Minha musa!
E ela responde irônica, generosa e irrefletidamente:
-- Meu guru!
O problema é que a musa nada pode ter com o guru; e o guru nada pode ter com a musa.
*****
Aprendi a lição. Sei que é ininteligível, a não ser para você, mas aprendi a lição. Embora não tenha mais esperanças.
*****
Não ficou bonito o título desse post? “Skank, paradoxo e lição.” Brrrr.
A festa da vírgula
November 18, 2005Para Cristiane Prizibisczki
A vírgula, de férias, resolveu dar uma festa. Os primeiros a chegar e últimos a sair foram os asteriscos; arrepiaram a noite inteira! As reticências, misteriosas, distribuíram comentários lacônicos. As interrogações queriam saber de tudo. As exclamações gritaram até perder a voz. Curiosíssima foi a chegada de uma interrogação espanhola, perguntando “que pasa, que pasa”; virou a festa de cabeça para baixo. Os dois-pontos se confundiram com os tremas, a ponto de ninguém saber mais quem era quem. De tanto piscar o olho, o ponto-e-vírgula acabou sem a pestana. O til franziu a sobrancelha diante da confusão. O circunflexo passou o chapéu. O acento grave confessou que está cansado de trabalhar para a crase, essa incompreendida. O acento agudo deu a tônica do baile, enquanto o ponto, a ponto de dormir, insistia sem sucesso em concluir a esbórnia. “Ponto final? Uma vírgula”, respondia a própria.
O terremoto de Lisboa
November 18, 2005
Você que sofre com falta de dinheiro, amor perdido e enxaqueca, é porque não conheceu o terremoto de Lisboa.
Catarata? Seguro vencido? Rancor de parente? Vizinho paranóico? Desemprego há nove meses? Teimosa urucubaca? Condomínio pela hora da morte? Lembre-se que o terremoto de Lisboa foi pior que isso tudo.
O terremoto de Lisboa soterraria nosso rosário de paixões com a facilidade de um Tiranossaurus rex desossando um passarinho.
Você que é perseguido pelo ciúme doentio, pela dor de cotovelo e pela anorexia nervosa jamais teve ciência do terremoto de Lisboa.
O terremoto de Lisboa mata com absoluta frieza; sentencia com perfeita na animosidade; rasga ventres com a sem-cerimônia de um leopardo.
Sacrílego, o terremoto de Lisboa varre nossas crenças em troca de vento. É seguido pela tempestade no mar.
Antes de soltarem a bomba sobre Hiroshima, os americanos cogitaram levar o terremoto de Lisboa para a baía de Tóquio.
O terremoto de Lisboa fala um idioma desconhecido até mesmo para os navegantes nonagenários; nenhum pompoarismo controlaria os terríveis espasmos de sua vagina sísmica.
Quem acha que sofre, não sofre; quem acha que delira, não delira; quem acha que morre, não morre. Basta aguardar o terremoto de Lisboa.
O terremoto de Lisboa é nosso consolo e penitência – a última frase de nossa oração.
Todos os dias, pela manhã, dedique um pensamento de compaixão ao terremoto de Lisboa, assassino de uma inexplicável inocência. Explosão de supernova sobre a face da terra – a face de Lisboa.
O terremoto de Lisboa revolve a gramática dos céus; equivale a um almoço temperado com veneno; vibra mais do que o chocalho de uma cascavel gripada. Deus me livre do terremoto de Lisboa.
E se você acha que sofre, não sofre. E se você acha que dói, não dói. E se você acha que sangra, não sangra. Muitíssimo prazer, eu sou o terremoto de Lisboa.
Catarata? Seguro vencido? Rancor de parente? Vizinho paranóico? Desemprego há nove meses? Teimosa urucubaca? Condomínio pela hora da morte? Lembre-se que o terremoto de Lisboa foi pior que isso tudo.
O terremoto de Lisboa soterraria nosso rosário de paixões com a facilidade de um Tiranossaurus rex desossando um passarinho.
Você que é perseguido pelo ciúme doentio, pela dor de cotovelo e pela anorexia nervosa jamais teve ciência do terremoto de Lisboa.
O terremoto de Lisboa mata com absoluta frieza; sentencia com perfeita na animosidade; rasga ventres com a sem-cerimônia de um leopardo.
Sacrílego, o terremoto de Lisboa varre nossas crenças em troca de vento. É seguido pela tempestade no mar.
Antes de soltarem a bomba sobre Hiroshima, os americanos cogitaram levar o terremoto de Lisboa para a baía de Tóquio.
O terremoto de Lisboa fala um idioma desconhecido até mesmo para os navegantes nonagenários; nenhum pompoarismo controlaria os terríveis espasmos de sua vagina sísmica.
Quem acha que sofre, não sofre; quem acha que delira, não delira; quem acha que morre, não morre. Basta aguardar o terremoto de Lisboa.
O terremoto de Lisboa é nosso consolo e penitência – a última frase de nossa oração.
Todos os dias, pela manhã, dedique um pensamento de compaixão ao terremoto de Lisboa, assassino de uma inexplicável inocência. Explosão de supernova sobre a face da terra – a face de Lisboa.
O terremoto de Lisboa revolve a gramática dos céus; equivale a um almoço temperado com veneno; vibra mais do que o chocalho de uma cascavel gripada. Deus me livre do terremoto de Lisboa.
E se você acha que sofre, não sofre. E se você acha que dói, não dói. E se você acha que sangra, não sangra. Muitíssimo prazer, eu sou o terremoto de Lisboa.
Fico triste
November 16, 2005Às vezes fico triste. Aqui explico por quê.
As férias da vírgula
November 16, 2005
certo dia uma vírgula
decidiu tirar férias
pois andava cansada
de viver entre regras
separando palavras
apostos períodos
nomes vocativos
oh que vida agitada
na licença sabática
foi acompanhada
pelo rol da gramatica
em total debandada
não sobrou um só ponto
pra contar a história
reticências de pronto
mandaram-se embora
ninguém fazia mais
perguntas respostas
eram tantas ou quais
de frente ou de costas
e a culpa foi dela
que com a pá virada
cansou-se da espera
de ser bem empregada
decidiu tirar férias
pois andava cansada
de viver entre regras
separando palavras
apostos períodos
nomes vocativos
oh que vida agitada
na licença sabática
foi acompanhada
pelo rol da gramatica
em total debandada
não sobrou um só ponto
pra contar a história
reticências de pronto
mandaram-se embora
ninguém fazia mais
perguntas respostas
eram tantas ou quais
de frente ou de costas
e a culpa foi dela
que com a pá virada
cansou-se da espera
de ser bem empregada
O blog sou eu
November 16, 2005Acabo de sonhar com esta fórmula: eu sou o blog, o blog sou eu.
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Em minhas leituras de banheiro, fiquei sabendo que os computadores e máquinas são prolongamentos de nossas mãos e olhos. O Google foi inventado por Jung – é um prolongamento do inconsciente coletivo.
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E o blog? O blog é um prolongamento da fórmula paradoxal que é minha consciência. Essa mesma que dorme quando eu durmo de bêbado em churrascos. É por isso que eu sou o blog, e que o blog sou eu.
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Ninguém acredita que o Lago Igapó foi feito por solicitação do Iate Clube. Mas é o fato.
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Sem o blog, eu não conheceria tanta gente que conheço hoje. Parte dessa turma – não toda, infelizmente – veio aqui para o Sertão no último feriado. Vidalzinho, que forçando um pouco a barra poderia ser meu filho, ficou hospedado aqui no apartamento 21, edifício Marta. A todos que vieram, minha saudade e meu agradecimento. E desculpas por não ter a saúde que vocês têm.
*****
E ainda tem o grande ritual da Esva, não é mesmo? Aguardem o monstro da Cacilda Becker. Estarei de férias. Até monstros tiram férias.
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Para quem não sabe o que é Esva... Esva é... blog.
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As dores provocadas por elas são mesmo terríveis, Vidalzinho. Ainda morreremos disso. Antes, porém...
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Glória Pires, Cléo Pires – como esse tempo passa, meu Deus! É duro quando você descobre que pertence mais à geração da Glória do que à geração da Cléo. E mais não digo.
Uma palavra
November 14, 2005Mulher,
diga uma palavra
e serei salvo.
Uma palavra,
mesmo em voz baixa,
e serei salvo.
Se não puder dizer,
mulher,
apenas pense,
e serei salvo.
E se não puder pensar,
apenas viva:
respire um segundo,
enquanto o sangue
percorre
suas mãos, sua língua,
sua flor de carne
e silêncio.
Apenas um instante,
perdido no ódio,
banhado em desprezo,
vive a memória do amor.
E serei salvo.
Só me fodo
November 11, 2005
Eu tenho uma capacidade inigualável para meter a mão em caixa de marimbondos.
Negó seguin: sou contra o diploma obrigatório para jornalista. Neguinho pode muito bem estudar letras, história, economia, medicina, e depois escrever em jornal. Sem falar nos autodidatas.
Os melhores jornalistas que eu conheço não são formados em Jornalismo. Escrever bem e ter vergonha na cara são coisas que a gente não aprende na faculdade.
Não sou contra o curso de Jornalismo. Tive bons e maus professores. Poucos bons e muitos maus. Só acho que o curso é muito longo. Daí nasceu a piada – acho que foi o Grota – de dizer que Jornalismo poderia ser um curso do Senac.
Dia desses acordei de mau humor e li, no jornal virtual ComTexto , o artigo de uma estudante defendendo a obrigatoriedade do diploma com unhas e dentes. Entre outras assertivas, a moça associava o diploma à ética profissional. Pô, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Picareta também pode ter diploma (e hoje em dia, com a proliferação daninha dos cursos de Jornalismo, isso é bem mais fácil).
Não tive dúvida. Mandei um e-mail para a estudante, com o seguinte comentário:
“Moça, minha querida estudante, sei que você está imbuída dos melhores princípios e intenções, mas o diploma de Jornalismo é uma piada. Deveria ser um curso do Senac.”
Por causa desse e-mail, estou sendo alvo da fúria politicamente correta. Na réplica ao comentário, a estudante afirma que eu sou a piada, e não o diploma. Já recebi e-mails com xingamentos.
O pior é que ela tem razão. Eu sou a piada: sem humor eu não sobreviveria 30 segundos. Sem boas risadas, inclusive das bobagens que leio e penso a todo instante, eu já teria vestido o pijama de madeira.
Só para constar: eu não disse que o curso de Jornalismo é uma piada. Não disse que os professores e estudantes de Jornalismo são uma piada. Não disse que meus colegas de imprensa são uma piada. Eu apenas disse que o diploma (obrigatório, subentende-se) é uma piada.
O diploma e eu.
*****
Republico, aqui, o poema que fiz para o diploma de Jornalismo:
Quatro anos pra nascer;
morreu de morte matada.
Mas, na verdade, confesso:
valer, nunca valeu nada.
No curso de jornalismo,
fui uma enrolação só.
Antes dele – desconfio –
eu escrevia melhor.
Meu diploma está preso
na gaveta lá do quarto,
onde jaz entre panfletos,
livros, revistas, retratos.
Diploma? Não sou contra,
muito menos a favor.
Ele não me explica o tempo,
nem a morte ou o amor.
Não acho que agora vamos
perder o chão e o piso;
já fomos tão pisoteados
que pisar não é mais preciso.
A sentença do juiz
para mim não fará mal:
no dia em que eu for preso,
vou pra cela especial.
*****
É. Só me fodo.
O ex-jardineiro
November 09, 2005
Hoje ele estava no ônibus. Negro; barba rala e cinzenta; nariz comprido; chapéu; desdentado. É o antigo jardineiro. Cortava a grama da minha república, lá por 1989, 1990. Já era velho naqueles tempos; difícil de entender o que falava.
Há algum tempo, talvez cansado de cortar grama, mudou de ramo. Está vendendo capachos. Capachos coloridos de pano. Pensei em perguntar quantos capachos ele vende por dia. Mas ele desceu no ponto do Colégio Vicente Rijo.
Eu me lembrarei do ex-jardineiro quando chegar em casa, hoje.
(Como sempre, falta-me enxada.)
Há algum tempo, talvez cansado de cortar grama, mudou de ramo. Está vendendo capachos. Capachos coloridos de pano. Pensei em perguntar quantos capachos ele vende por dia. Mas ele desceu no ponto do Colégio Vicente Rijo.
Eu me lembrarei do ex-jardineiro quando chegar em casa, hoje.
(Como sempre, falta-me enxada.)
Pressa
November 08, 2005
Não há tempo pra quase nada.
Não há tempo pra chorar, pra sofrer,
pra tirar o pai da forca, pra salvar o pescoço,
não há nem mesmo tempo pra morrer.
Não há tempo pra conhecer a vida,
pra entender o que se passa no tempo,
pra cessar um segundo que for,
não há tempo e não tem jeito.
Não há mais tempo nas coisas,
não há mais tempo no mundo.
Nem mesmo há tempo pra rimar
um verso e outro verso,
tempo pra metrificar a fala, a sentença,
pra ligar um verbo ao outro verbo.
(A escassez do tempo é imensa.)
Não há tempo pra atiçar as palavras
e despertar o sentido, ressuscitar a linguagem
– morreram os tempos verbais, não há tempo.
Não há tempo pra tantos pensamentos.
Talvez, mulher, não haja nem tempo pro amor.
Talvez só haja tempo pra lembrar
um detalhe do seu rosto, do seu tempo,
um detalhe do seu corpo, do seu medo,
na angústia do momento,
na zona de litígio entre memória e profecia: agora.
Talvez só haja tempo pra viver um instante,
uma voz no telefone
que depois some pra sempre.
Não há tempo pra chorar, pra sofrer,
pra tirar o pai da forca, pra salvar o pescoço,
não há nem mesmo tempo pra morrer.
Não há tempo pra conhecer a vida,
pra entender o que se passa no tempo,
pra cessar um segundo que for,
não há tempo e não tem jeito.
Não há mais tempo nas coisas,
não há mais tempo no mundo.
Nem mesmo há tempo pra rimar
um verso e outro verso,
tempo pra metrificar a fala, a sentença,
pra ligar um verbo ao outro verbo.
(A escassez do tempo é imensa.)
Não há tempo pra atiçar as palavras
e despertar o sentido, ressuscitar a linguagem
– morreram os tempos verbais, não há tempo.
Não há tempo pra tantos pensamentos.
Talvez, mulher, não haja nem tempo pro amor.
Talvez só haja tempo pra lembrar
um detalhe do seu rosto, do seu tempo,
um detalhe do seu corpo, do seu medo,
na angústia do momento,
na zona de litígio entre memória e profecia: agora.
Talvez só haja tempo pra viver um instante,
uma voz no telefone
que depois some pra sempre.
Declaração de bens de um mendigo
November 07, 2005Meu endereço é o mundo,
minha mesa é a terra.
Sou natural do segundo
e estou casado com a era.
Minha casa é aqui,
meu RG só tem zeros.
À noite eu nunca dormi
e o dia é tudo que espero.
No meu rude sistema
não consta a palavra não.
Minha língua é o poema,
minha cama é o chão.
Desagravo a Cony
November 05, 2005Sei que muita gente não gosta de Carlos Heitor Cony. Compreendo. É doença natural da juventude, não gostar de Cony – como ter espinhas e ouvir Marcelo D2. Cony é velho, escreve como velho, tem opiniões de velho. E velhos, em geral, não agradam aos jovens.
Não estou, é claro, falando das atitudes públicas de Cony – aquele negócio de receber indenização por causa da ditadura –, mas do que interessa: o que ele escreve. Sinceramente, não gosto dos artigos (apesar de que o de hoje – 5 de novembro – é sensacional), mas não vem ao caso; nos livros, como em “Pessach – A Travessia”, ele é sensacional, dugarai. Quem escreve todos os dias no jornal necessariamente escreverá alguma besteira. Os livros de Cony, no entanto, são uma beleza.
Mestre Tanga, outro dia, me disse que a experiência é um pente que nos é oferecido quando já não temos cabelos. Aos que odeiam Cony, eu recomendo a chegada do pente.
Em tempo: aos que odeiam o Cony civil, eu diria que fazer o que ele fez – ou seja, botar o dedo nos olhos da ditadura, e ser preso por isso – não é tarefa para qualquer fedelho. Mil Mainardis não valem um Cony; e Paulo Francis, amigo dos dois, preso quatro vezes, concordaria.
Frases que eu penso no ônibus, vindo para o trabalho
November 03, 2005
Todo humor inteligente é uma forma de compaixão.
Então, Deus criou o liberalismo. E viu que era bom.
Então, Deus criou os modos. E viu que eram bons.
Então, Deus criou a mulher. E viu que era excelente.
Então, Paulo Freire criou a educação. E viu que era bão.
Uma semana com duas segundas-feiras. Mas a segunda segunda se transforma, um tanto milagrosamente, em quinta. Sem-lei.
(Rubão, ouvir Hey Jude com Kiko Zambianchi, em pleno Terminal Urbano, é puxado demais. Cosdilô.)
E mais não digo porque não pensei. Graças a Deus.
Então, Deus criou o liberalismo. E viu que era bom.
Então, Deus criou os modos. E viu que eram bons.
Então, Deus criou a mulher. E viu que era excelente.
Então, Paulo Freire criou a educação. E viu que era bão.
Uma semana com duas segundas-feiras. Mas a segunda segunda se transforma, um tanto milagrosamente, em quinta. Sem-lei.
(Rubão, ouvir Hey Jude com Kiko Zambianchi, em pleno Terminal Urbano, é puxado demais. Cosdilô.)
E mais não digo porque não pensei. Graças a Deus.
Memórias de um viciado em mulheres – 3
November 02, 2005
Eu me apaixonei por Pietra quando a vi fumando. Ela fumava com erotismo e nobreza; segurava o longo cigarro como uma imperatriz segura o cetro de seu amante. Expelia a fumaça com a autoridade de uma deusa pagã. Hoje, fumar é “politicamente incorreto”; conheço até homens que se desinteressam por uma mulher se souberem que ela fuma. Não sabem o que perdem. Perdem Pietra.
*****
Pietra estava noiva, já com casamento marcado e apartamento comprado, quando se engraçou comigo. Era especialista em invadir meu apartamento em horários impróprios e bolinar-me por baixo das mesas; gostava de vinhos caras, roupas caras, elogios profusos. Apesar do nome e sobrenome italianos, tinha uns olhos rasgados, maliciosos e orientais que faziam minha loucura; apelidei-a de Japinha. Cabelos curtos, ombros de estátua, costas intermináveis, um rabo precioso – era a Valentina, dos quadrinhos, em pessoa.
*****
Tinha uma forma delicada de anunciar o próprio gozo. Apenas uma frase tímida e soberba entre os gemidos: “Eu vou gozar”. Impossível reproduzir o tom daquela sentença de três palavras.
*****
Enlouqueci. Pietra desmanchou o noivado e, para selar o acontecimento, chupou-me no banco de carona do carro. Gastei tudo que não tinha em presentes e jantares.
*****
Assim que eu terminei com a minha namorada da época, para ficar só com Pietra, ela se desinteressou. Dava-me canos. Atrasava-se nos encontros. Não queria me apresentar aos amigos e à família.
*****
Mesmo já entediada e distante, Pietra exigia planos de casamento e compra de casa própria. Estimulava-me a escrever para que eu ganhasse dinheiro e fama. É possível que quisesse ficar noiva para então romper o noivado e me empurrar aos seus pés; onde, aliás, eu já estava.
*****
Sei que ela me traiu. Sei, mas nunca tive provas; Pietra era mais esperta que uma enguia possuída pelo mal. Pietra odiava o amor. Só o aceitava nas trevas. “Eu vou gozar.”
*****
Terminei tudo numa tarde. Ela voltou duas horas depois e transamos como nunca. Na semana seguinte, ela decidiu terminar tudo. Entenda-se: por uma questão de protocolo, era necessário que a decisão de terminar partisse dela. Lancei-lhe inúmeras ofensas, brandindo uma suposta (e inexistente) superioridade intelectual. Rá! Ela era – é – muito mais inteligente que eu. E ainda me lançou um adjetivo cabal: “Pobre de espírito”.
*****
Toda razão.
*****
Anos depois, encontrei Pietra numa festa e lhe pedi desculpas. Ela deu uma de suas nobilíssimas tragadas e disse, depois de soltar a fumaça cancerosa, para eu esquecer; garantiu nem se lembrar das ofensas. Confesso que não lhe negaria uma noite. Mas um grande amigo, talentoso e rápido, teve mais sucesso: devorou o belíssimo rabo de Pietra ao ar livre, naquela mesma noite de abril. “Eu vou gozar.” Vocês não podem fazer idéia. Meu amigo pode.
*****
E acho que ela estava noiva.
*****
Pietra estava noiva, já com casamento marcado e apartamento comprado, quando se engraçou comigo. Era especialista em invadir meu apartamento em horários impróprios e bolinar-me por baixo das mesas; gostava de vinhos caras, roupas caras, elogios profusos. Apesar do nome e sobrenome italianos, tinha uns olhos rasgados, maliciosos e orientais que faziam minha loucura; apelidei-a de Japinha. Cabelos curtos, ombros de estátua, costas intermináveis, um rabo precioso – era a Valentina, dos quadrinhos, em pessoa.
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Tinha uma forma delicada de anunciar o próprio gozo. Apenas uma frase tímida e soberba entre os gemidos: “Eu vou gozar”. Impossível reproduzir o tom daquela sentença de três palavras.
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Enlouqueci. Pietra desmanchou o noivado e, para selar o acontecimento, chupou-me no banco de carona do carro. Gastei tudo que não tinha em presentes e jantares.
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Assim que eu terminei com a minha namorada da época, para ficar só com Pietra, ela se desinteressou. Dava-me canos. Atrasava-se nos encontros. Não queria me apresentar aos amigos e à família.
*****
Mesmo já entediada e distante, Pietra exigia planos de casamento e compra de casa própria. Estimulava-me a escrever para que eu ganhasse dinheiro e fama. É possível que quisesse ficar noiva para então romper o noivado e me empurrar aos seus pés; onde, aliás, eu já estava.
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Sei que ela me traiu. Sei, mas nunca tive provas; Pietra era mais esperta que uma enguia possuída pelo mal. Pietra odiava o amor. Só o aceitava nas trevas. “Eu vou gozar.”
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Terminei tudo numa tarde. Ela voltou duas horas depois e transamos como nunca. Na semana seguinte, ela decidiu terminar tudo. Entenda-se: por uma questão de protocolo, era necessário que a decisão de terminar partisse dela. Lancei-lhe inúmeras ofensas, brandindo uma suposta (e inexistente) superioridade intelectual. Rá! Ela era – é – muito mais inteligente que eu. E ainda me lançou um adjetivo cabal: “Pobre de espírito”.
*****
Toda razão.
*****
Anos depois, encontrei Pietra numa festa e lhe pedi desculpas. Ela deu uma de suas nobilíssimas tragadas e disse, depois de soltar a fumaça cancerosa, para eu esquecer; garantiu nem se lembrar das ofensas. Confesso que não lhe negaria uma noite. Mas um grande amigo, talentoso e rápido, teve mais sucesso: devorou o belíssimo rabo de Pietra ao ar livre, naquela mesma noite de abril. “Eu vou gozar.” Vocês não podem fazer idéia. Meu amigo pode.
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E acho que ela estava noiva.
Coisas que me fazem lembrar você
November 01, 2005
O barulho da chuva.
O cartaz de um filme.
Dois convites para um show.
Camisa de listras comprada no Ibirapuera.
Crianças com menos de 4 anos.
A pasta de couro marrom.
Cachorrinhos Cofap.
Minha avó Maria (“Agora vai, hein?”).
Os livros não lidos e não devolvidos.
Roupas que não combinam, mas não sei por quê.
Editoriais. Inexplicavelmente, editoriais.
O sofá novo.
O sofá velho.
A parte esquerda da cama.
As amigas de UEL.
A cidade de São Paulo.
A cidade de Londrina.
O cheiro de um prato de raviolli.
O assobio do vizinho.
A toalha da mesa.
As frutas.
As calçadas.
O calor.
O frio inexplicável hoje cedo.
A viagem que nunca fizemos.
As que fizemos.
Bach.
O tempo de Paulinho da Viola.
O ar.
O copo d´água.
A quaresmeira.
A voz eletrônica: “Você não tem mensagens novas”.
A terra.
As nuvens.
O recorte das janelas.
O silêncio de Deus.
De novo, Bach.
O cartaz de um filme.
Dois convites para um show.
Camisa de listras comprada no Ibirapuera.
Crianças com menos de 4 anos.
A pasta de couro marrom.
Cachorrinhos Cofap.
Minha avó Maria (“Agora vai, hein?”).
Os livros não lidos e não devolvidos.
Roupas que não combinam, mas não sei por quê.
Editoriais. Inexplicavelmente, editoriais.
O sofá novo.
O sofá velho.
A parte esquerda da cama.
As amigas de UEL.
A cidade de São Paulo.
A cidade de Londrina.
O cheiro de um prato de raviolli.
O assobio do vizinho.
A toalha da mesa.
As frutas.
As calçadas.
O calor.
O frio inexplicável hoje cedo.
A viagem que nunca fizemos.
As que fizemos.
Bach.
O tempo de Paulinho da Viola.
O ar.
O copo d´água.
A quaresmeira.
A voz eletrônica: “Você não tem mensagens novas”.
A terra.
As nuvens.
O recorte das janelas.
O silêncio de Deus.
De novo, Bach.