Archive for October of 2005
Brasileiro deixa tudo para a última hora
October 31, 2005Prezado Moraes:
Sei que não se deve usar post para recados, mas não vi outra maneira de avisá-lo.
Depositei hoje no HSBC os mensalinhos de Paulo Briguet, Ranulfo Pedreiro (Preto) e Jean Ribeiro (Pafu), no valor total de R$ 45.
Tá valendo aquela proposta de paga um, convida dois? Se eu pago três, convido seis?
Um abraço,
Paulo Briguet Valério.
*****
Tem uma fanfarra ensaiando músicas de Natal no quintal do vizinho. Não é delírio; estou sóbrio e tomando água mineral.
*****
Moraes, você me deve R$ 0,03.
É o canal
October 31, 2005
Hoje estive na sala de torturas. Tratamento de canal. Marcar dentista para segunda-feira às 8 da manhã é uma tática de auto-ilusão: significa que o resto da semana deverá ser melhor.
*****
Sempre que vou ao dentista, fico esperando a hora da massinha. Como se sabe, quando o japonês usa a massinha, quer dizer que a sessão está chegando ao fim.
*****
Hoje, porém, demorou a bendita massinha. Como demorou! Era agulha, motorzinho, agulha, motorzinho, agulha, esguicho, motorzinho, agulha, motorzinho, motorzinho, motorzinho, agulha, agulha, agulha maior, motorzinho, borracha, abre um pouco mais a boca, agulha, agulha, motorzinho.
*****
Afinal, veio a massinha. E veio também a continha, cujo pagamento dividi em dois cheques, enquanto o dentista sorria em sua serenidade oriental.
*****
Mas o japonês é bom de serviço. Já me salvou várias vezes. É por isso que eu vou lá.
*****
Na hora de fazer o raio-x, o dentista e a secretária saem da sala. Com o dedo indicador, seguro o filme para receber minha descarga de radioatividade. Mas há um segundo raio-x. Desta vez, uso o dedo médio para segurar o filme, para que o indicador não receba duas vezes a mesma carga de cancerzão. O dentista adverte:
– Tem que segurar com o indicador.
Foi só aí que eu percebi: queima o filme segurá-lo com o dedo médio. Mal-educado que sou.
*****
A semana fica melhor, sim: além de eu já ter ido ao dentista, Janaína Ávila está trabalhando aqui ao meu lado.
*****
Então está decidido: amar, sim – mas em silêncio. Porque a massinha sempre vem, mesmo que demore.
*****
Sempre que vou ao dentista, fico esperando a hora da massinha. Como se sabe, quando o japonês usa a massinha, quer dizer que a sessão está chegando ao fim.
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Hoje, porém, demorou a bendita massinha. Como demorou! Era agulha, motorzinho, agulha, motorzinho, agulha, esguicho, motorzinho, agulha, motorzinho, motorzinho, motorzinho, agulha, agulha, agulha maior, motorzinho, borracha, abre um pouco mais a boca, agulha, agulha, motorzinho.
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Afinal, veio a massinha. E veio também a continha, cujo pagamento dividi em dois cheques, enquanto o dentista sorria em sua serenidade oriental.
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Mas o japonês é bom de serviço. Já me salvou várias vezes. É por isso que eu vou lá.
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Na hora de fazer o raio-x, o dentista e a secretária saem da sala. Com o dedo indicador, seguro o filme para receber minha descarga de radioatividade. Mas há um segundo raio-x. Desta vez, uso o dedo médio para segurar o filme, para que o indicador não receba duas vezes a mesma carga de cancerzão. O dentista adverte:
– Tem que segurar com o indicador.
Foi só aí que eu percebi: queima o filme segurá-lo com o dedo médio. Mal-educado que sou.
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A semana fica melhor, sim: além de eu já ter ido ao dentista, Janaína Ávila está trabalhando aqui ao meu lado.
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Então está decidido: amar, sim – mas em silêncio. Porque a massinha sempre vem, mesmo que demore.
De onde vem a voz
October 29, 2005
Janaína A Ávida me telefona:
– Oi, Briguet, tudo bem? O pessoal de Curitiba vem no dia 11.
– Que ótimo. Tem lugar pro povo aqui em casa.
– E aí, fazendo o quê?
– Escrevendo.
– Escrevendo o quê?
– Bem... sabe... um poema.
– Carpir uma data você não quer, né? Derriçar uma rua de café, de jeito nenhum. Pintar uma guia lá na Tiradentes, nem pensar, né?
*****
a voz vem
de um lugar
mais fundo
que o sangue
de um mundo
de espanto
vem não sei de onde
vem da vertigem
de uma queda livre
se se sonha
a voz é martírio
e vergonha
vem de algo
sem definição
porque é comum amar
sem saber
o que é o amor
e viver
sem saber
o que é a vida
a voz vem
do que não é
do que não falei
de um nome sem nome
de uma volta sem ida
a voz vem
de uma ferida
que não fecha
e arde
escondida
a voz vem
de um prelúdio de cores
de uma confusão de formas
caros senhores
e senhoras
a voz vem das fodas
e estertores
a voz vem
e vem sem copas
e sem flores
a voz só não vem
da garganta
dos nós na garganta
da boca e dos pulmões
dos ventos
das monções
dos enterros dos anões
a voz não vem
do que mais alto
se alevanta
a voz não vem da luz
e não adianta
na mentira
dizer que a voz
não mente
a voz é mãe e filha
do silêncio
a voz mais muda
é a mais forte
e ao fim de tudo
ela morre
sem saber
o que é a morte.
– Oi, Briguet, tudo bem? O pessoal de Curitiba vem no dia 11.
– Que ótimo. Tem lugar pro povo aqui em casa.
– E aí, fazendo o quê?
– Escrevendo.
– Escrevendo o quê?
– Bem... sabe... um poema.
– Carpir uma data você não quer, né? Derriçar uma rua de café, de jeito nenhum. Pintar uma guia lá na Tiradentes, nem pensar, né?
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a voz vem
de um lugar
mais fundo
que o sangue
de um mundo
de espanto
vem não sei de onde
vem da vertigem
de uma queda livre
se se sonha
a voz é martírio
e vergonha
vem de algo
sem definição
porque é comum amar
sem saber
o que é o amor
e viver
sem saber
o que é a vida
a voz vem
do que não é
do que não falei
de um nome sem nome
de uma volta sem ida
a voz vem
de uma ferida
que não fecha
e arde
escondida
a voz vem
de um prelúdio de cores
de uma confusão de formas
caros senhores
e senhoras
a voz vem das fodas
e estertores
a voz vem
e vem sem copas
e sem flores
a voz só não vem
da garganta
dos nós na garganta
da boca e dos pulmões
dos ventos
das monções
dos enterros dos anões
a voz não vem
do que mais alto
se alevanta
a voz não vem da luz
e não adianta
na mentira
dizer que a voz
não mente
a voz é mãe e filha
do silêncio
a voz mais muda
é a mais forte
e ao fim de tudo
ela morre
sem saber
o que é a morte.
O céu dos escritores
October 27, 2005
(Uma idéia que, sem dúvida, alguém já teve.)
Entre o céu e o inferno, há o purgatório. Mas pouca gente sabe – nem mesmo Dante soube – que entre o céu e o inferno também existe um outro céu, um céu diferente, um céu alternativo: o céu dos escritores. Dizem que Deus construiu o céu dos escritores porque eles são criaturas de difícil convívio. Além do mais, Deus já escreveu o livro que precisava para dar o Seu recado.
*****
Dante e Virgílio, que se conheceram na época da “Divina Comédia”, são os guias que recebem os escritores recém-falecidos. Graças a essa dupla, que só fala com rima, João Antônio encontrou uma boa mesa de sinuca, Hemingway localizou a praça de touradas e João Cabral de Melo Neto achou uma farmácia com farto estoque de aspirinas.
*****
Tolstói e Dostoiévski brigam muito no céu dos escritores. Brigam e – graças a Deus – escrevem. Imagine você a qualidade da continuação de “Guerra e Paz”, ambientado na Rússia soviética, e sem a censura de Stálin. Há também um “Crime e Castigo” inspirado na época dos grandes expurgos e dos Processos de Moscou. Dos – é assim que eles o tratam por lá – finaliza uma novela sobre terrorismo.
*****
Drummond deu para escrever poemas religiosos como “A Verdadeira Máquina do Mundo”. Vinicius e Faulkner devoram litros e litros de uísque celestial. De vez em quando, fazem um check-up nos consultórios de Tchekhov, William Carlos Williams e Guimarães Rosa.
*****
Cirrose na eternidade é foda.
*****
Haja Neosaldina no céu dos escritores. Principalmente depois das festas promovidas por Scott e Zelda, onde Bukowski costuma dar baixaria. Sem falar nas orgias homéricas de... dele mesmo. Nelson Rodrigues às vezes aparece por lá, mas ele não bebe, vocês sabem.
*****
Joyce e Proust ficam ali na varanda, discutindo telepaticamente não sei o quê. Mário e Oswald de Andrade se reconciliaram.
*****
Antonio Callado e Henry Miller, quem diria, se deram muito bem no céu dos escritores. Eles evitam falar de política, tema que irrita Miller. Blaise Cendrars às vezes participa da conversa, e convida-os para uma queda-de-braço.
*****
Há muitos romances no céu dos escritores (nos dois sentidos da palavra). Shakespeare andou arrastando um caminhão de merda por Dorothy Parker, que não lhe deu pelota. A paixão do bardo rendeu dezenas de sonetos (dele, cheios de amor) e soft-poems (dela, cheios de sarcasmo). Gertrude Stein quis comer Emily Dickinson, que fugiu para o quarto e de lá não saiu nem por decreto. Gertrude ficou tão brava que deu uns tabefes em Oscar Wilde.
*****
Enquanto Gertrude caça as meninas, Nabokov caça borboletas. E tem discussões em russo com Turguêniev. Eliot conversa em latim com Catulo, a quem julga mau poeta, porém bom de prosa. Machado de Assis simula ataques epiléticos só para assustar almas delicadas como a de Jane Austen.
*****
O marxismo tem sido uma filosofia muito cultivada no céu. Ou melhor, o groucho-marxismo. Sófocles resolveu escrever comédias (só para mostrar a Aristófanes) e Aristófanes passou a fazer tragédias (só para mostrar a Sófocles). Eric Bentley viu e gostou. Samuel Johnson viu e gostou. Edmund Wilson não viu porque estava de ressaca (o gim do céu dos escritores é de má qualidade).
*****
Camus refez sua tese sobre o suicídio, já que esta opção não lhe é mais oferecida. Camões pisca o olho para Florbela Espanca. Santo Agostinho coleciona memórias e bênçãos. Tomás de Aquino distribui argumentos e bênçãos. Cervantes e Shakespeare fazem aniversário de morte no mesmo dia. Poe, Sartre, Górki, Céline e Beckett querem porque querem um passaporte para o inferno – mas não o conseguem. Jack Kerouac quer viajar – mas ninguém lhe dá carona. Aldous Huxley quer abrir as portas – mas cadê a chave?
*****
Ai, meu Deus. Olha lá o Haroldo de Campos! Olha lá o Ezra Pound escrevendo seus “Cantos Celestes”! Olha lá a Lilian Hellmann fazendo passeata! O céu dos escritores às vezes pode ser um inferno.
Entre o céu e o inferno, há o purgatório. Mas pouca gente sabe – nem mesmo Dante soube – que entre o céu e o inferno também existe um outro céu, um céu diferente, um céu alternativo: o céu dos escritores. Dizem que Deus construiu o céu dos escritores porque eles são criaturas de difícil convívio. Além do mais, Deus já escreveu o livro que precisava para dar o Seu recado.
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Dante e Virgílio, que se conheceram na época da “Divina Comédia”, são os guias que recebem os escritores recém-falecidos. Graças a essa dupla, que só fala com rima, João Antônio encontrou uma boa mesa de sinuca, Hemingway localizou a praça de touradas e João Cabral de Melo Neto achou uma farmácia com farto estoque de aspirinas.
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Tolstói e Dostoiévski brigam muito no céu dos escritores. Brigam e – graças a Deus – escrevem. Imagine você a qualidade da continuação de “Guerra e Paz”, ambientado na Rússia soviética, e sem a censura de Stálin. Há também um “Crime e Castigo” inspirado na época dos grandes expurgos e dos Processos de Moscou. Dos – é assim que eles o tratam por lá – finaliza uma novela sobre terrorismo.
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Drummond deu para escrever poemas religiosos como “A Verdadeira Máquina do Mundo”. Vinicius e Faulkner devoram litros e litros de uísque celestial. De vez em quando, fazem um check-up nos consultórios de Tchekhov, William Carlos Williams e Guimarães Rosa.
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Cirrose na eternidade é foda.
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Haja Neosaldina no céu dos escritores. Principalmente depois das festas promovidas por Scott e Zelda, onde Bukowski costuma dar baixaria. Sem falar nas orgias homéricas de... dele mesmo. Nelson Rodrigues às vezes aparece por lá, mas ele não bebe, vocês sabem.
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Joyce e Proust ficam ali na varanda, discutindo telepaticamente não sei o quê. Mário e Oswald de Andrade se reconciliaram.
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Antonio Callado e Henry Miller, quem diria, se deram muito bem no céu dos escritores. Eles evitam falar de política, tema que irrita Miller. Blaise Cendrars às vezes participa da conversa, e convida-os para uma queda-de-braço.
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Há muitos romances no céu dos escritores (nos dois sentidos da palavra). Shakespeare andou arrastando um caminhão de merda por Dorothy Parker, que não lhe deu pelota. A paixão do bardo rendeu dezenas de sonetos (dele, cheios de amor) e soft-poems (dela, cheios de sarcasmo). Gertrude Stein quis comer Emily Dickinson, que fugiu para o quarto e de lá não saiu nem por decreto. Gertrude ficou tão brava que deu uns tabefes em Oscar Wilde.
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Enquanto Gertrude caça as meninas, Nabokov caça borboletas. E tem discussões em russo com Turguêniev. Eliot conversa em latim com Catulo, a quem julga mau poeta, porém bom de prosa. Machado de Assis simula ataques epiléticos só para assustar almas delicadas como a de Jane Austen.
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O marxismo tem sido uma filosofia muito cultivada no céu. Ou melhor, o groucho-marxismo. Sófocles resolveu escrever comédias (só para mostrar a Aristófanes) e Aristófanes passou a fazer tragédias (só para mostrar a Sófocles). Eric Bentley viu e gostou. Samuel Johnson viu e gostou. Edmund Wilson não viu porque estava de ressaca (o gim do céu dos escritores é de má qualidade).
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Camus refez sua tese sobre o suicídio, já que esta opção não lhe é mais oferecida. Camões pisca o olho para Florbela Espanca. Santo Agostinho coleciona memórias e bênçãos. Tomás de Aquino distribui argumentos e bênçãos. Cervantes e Shakespeare fazem aniversário de morte no mesmo dia. Poe, Sartre, Górki, Céline e Beckett querem porque querem um passaporte para o inferno – mas não o conseguem. Jack Kerouac quer viajar – mas ninguém lhe dá carona. Aldous Huxley quer abrir as portas – mas cadê a chave?
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Ai, meu Deus. Olha lá o Haroldo de Campos! Olha lá o Ezra Pound escrevendo seus “Cantos Celestes”! Olha lá a Lilian Hellmann fazendo passeata! O céu dos escritores às vezes pode ser um inferno.
História sem fim
October 26, 2005
Os tempos estão difíceis. Hoje em dia, boleira apresenta-se como cake designer. As palavras estão perdendo qualquer relação com a existência das coisas.
E é nesses tempos que você me diz: Nossa história acabou. Eu não consigo entender o sentido dessa frase.
Nossa história acabou. Mas não será óbvio que uma história como essa nunca acaba?
Não será óbvio que uma história como essa deixa, e vai deixar para sempre, as suas marcas no tempo?
Não será óbvio que essa história vai emergir quando menos esperarmos, nem que seja no abismo do sono?
Seu fantasma está aqui. Estará para sempre. Maior e mais forte que a própria realidade.
Eu digo apenas: Nossa história começa aqui.
E é nesses tempos que você me diz: Nossa história acabou. Eu não consigo entender o sentido dessa frase.
Nossa história acabou. Mas não será óbvio que uma história como essa nunca acaba?
Não será óbvio que uma história como essa deixa, e vai deixar para sempre, as suas marcas no tempo?
Não será óbvio que essa história vai emergir quando menos esperarmos, nem que seja no abismo do sono?
Seu fantasma está aqui. Estará para sempre. Maior e mais forte que a própria realidade.
Eu digo apenas: Nossa história começa aqui.
Bananinhas Mongaguá
October 26, 2005Na crônica da semana, o sabor e a memória de um doce. Desenvolve.
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Espero que o caso das trufas não se repita!
Minha idéia de jornalismo
October 25, 2005De vez em quando a gente lê alguma coisa interessante nos jornais. Foi o caso desta matéria do Marcelo Frazão (um tipo que anda sumido), publicada hoje no JL. É a história de dona Justina, uma senhora que há 40 anos plantou três seringueiras no quintal de casa. Hoje, ela tem no quintal de casa uma árvore gigante, de 20 metros de altura, que serve de abrigo para um agressivo casal de gaviões. O seo Gavião e a dona Gavioa vivem atacando quem passa pelo local. Até o Frazão teve que se abrigar para não levar bicada. Espero que tudo dê certo: para os gaviões, para a seringueira e para dona Justina. É um autêntico dilema. Ou melhor, trilema. Valeu, Frazão.
Meu coração
October 24, 2005Meu coração é uma teia de células e espírito, um novelo de artérias e memória, um emaranhado de ilusões e mentira. Meu coração é a mais pura verdade.
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Não bate; explode, a cada segundo, a bomba atômica de Nagazáki. Meu coração é a ordem no limbo do caos; é a podridão, laboratório da vida; é a pureza florescendo no manancial de pecados sem perdão. Meu coração é a cólera e o riso; a sinfonia milenar dos pássaros e a roda da vida e da morte. Meu coração é o olho da planária. É a peste, a rosa e o vento. Meu coração é o exemplo.
*****
Meu coração tem um infarto a cada minuto. Ridiculariza o eletrocardiograma. Meu coração é todo colesterol, arritmia e compaixão. Meu coração é a casa da taquicardia.
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Engraçado: meu coração não sai no jornal. Não veio da Áustria nem do Ceará: veio da água do mar. (Ouça, mulher, a água do mar.) A voz de dentro, sem voz. Há um rio inteiro dentro de mim: meu coração é a foz.
*****
Meu coração prefere Skol. Bebe cerveja bem rápido. É o mendigo dos meus órgãos: um vampiro ofegante no vão esquerdo do tórax. Não pode ver sangue, o coitado: por isso tantos espasmos. Meu coração, na bebedeira, muda de cor a exemplo dos olhos: às vezes vermelho escuro, às vezes marrom bem claro. Meu coração é imutável.
*****
Meu coração tem medo da morte e dos demônios. Embora ele próprio seja um anjo da morte, um demônio da vida. Meu coração é a parte da minha anatomia mais próxima de Deus. Quando durmo à noite, ele flutua entre outros corações. Por exemplo o seu, mulher.
O mendigo Briguet
October 20, 2005
Então, eu estava dormindo, o telefone tocou, e eu pensei que pudesse ser um antepassado que vivia há 253 anos no Norte da França, onde faz frio.
*****
Esse antepassado vivia coberto de molambos. De cabeça grande, olhos de peixe morto, mãos compridas e hálito de conhaque, sobrevivia de esmolas na porta das igrejas.
*****
Mas não era só dinheiro que o mendigo Briguet procurava na porta das igrejas. Pelas frestas do portal, ele também queria ouvir as cantatas de Bach, único prazer que lhe restava além do conhaque.
*****
Agora eu sei que meu destino é ser um mendigo. A metamorfose já começou. Quando todos aqueles que prezo se afastarem ou forem levados pela morte, nada me restará além da tênue memória do amor.
*****
Não terei filhos; serei um dos galhos da árvore genealógica que conduzem ao vazio.
*****
Vagamente me lembrarei do dia em que me chamavam de Briguet. Tornai-me-ei apenas o mendigo.
*****
O diabo é que as igrejas do século XX não tocam Bach. Até a música morreu, sendo substituída por baladinhas fáceis, de refrões pegajosos.
*****
Pouco a pouco, minhas camisas sociais de manga comprida vão se esfacelar; haverá o dia em que serei apenas um organismo vivo sob um amontoado de trapos. Tomarei banho de chuva e sabão em pedra – sim, pois, mesmo mendigo, detestarei a sujeira. E meus sapatos estarão mais molhados do que o Oceano Atlântico inteiro.
*****
Pois, se a voz de quem eu mais amava, tudo aquilo em que eu mais acreditava, pôde se transformar nisto – neste amálgama de rancor, violência e desprezo – o caminho para mendicância será muito fácil.
*****
Então, um dia, quando tudo desaparecer, exercerei a minha vocação: estender as mãos compridas e pedir perdão face a Face com Deus. Era isso que meu antepassado queria dizer ao telefone. Mas você não atendeu. E inexplicavelmente faz frio.
*****
Esse antepassado vivia coberto de molambos. De cabeça grande, olhos de peixe morto, mãos compridas e hálito de conhaque, sobrevivia de esmolas na porta das igrejas.
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Mas não era só dinheiro que o mendigo Briguet procurava na porta das igrejas. Pelas frestas do portal, ele também queria ouvir as cantatas de Bach, único prazer que lhe restava além do conhaque.
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Agora eu sei que meu destino é ser um mendigo. A metamorfose já começou. Quando todos aqueles que prezo se afastarem ou forem levados pela morte, nada me restará além da tênue memória do amor.
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Não terei filhos; serei um dos galhos da árvore genealógica que conduzem ao vazio.
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Vagamente me lembrarei do dia em que me chamavam de Briguet. Tornai-me-ei apenas o mendigo.
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O diabo é que as igrejas do século XX não tocam Bach. Até a música morreu, sendo substituída por baladinhas fáceis, de refrões pegajosos.
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Pouco a pouco, minhas camisas sociais de manga comprida vão se esfacelar; haverá o dia em que serei apenas um organismo vivo sob um amontoado de trapos. Tomarei banho de chuva e sabão em pedra – sim, pois, mesmo mendigo, detestarei a sujeira. E meus sapatos estarão mais molhados do que o Oceano Atlântico inteiro.
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Pois, se a voz de quem eu mais amava, tudo aquilo em que eu mais acreditava, pôde se transformar nisto – neste amálgama de rancor, violência e desprezo – o caminho para mendicância será muito fácil.
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Então, um dia, quando tudo desaparecer, exercerei a minha vocação: estender as mãos compridas e pedir perdão face a Face com Deus. Era isso que meu antepassado queria dizer ao telefone. Mas você não atendeu. E inexplicavelmente faz frio.
The woman is on the table
October 20, 2005Confesso: eu gosto de mulheres que sobem na mesa. Mulheres que, em certo instante da madrugada, nos surpreendem com o inimitável gesto de subir na mesa para dançar, sapatear, discursar ou simplesmente mostrar o quanto é bela uma dama de saltos altos e pernas sem fim.
Mulheres quase a ponto de fazer strip-tease (e, se o fazem, melhor). Mulheres que brilham ao final de churrascos, Noites Latinas ou festas inesperadas.
Mulheres, oh mulheres, que me inebriam com o balé sinuoso da malícia.
Mulheres que sobem na mesa costumam pendurar no lustre.
Sempre que uma garota resolve subir na mesa, eu vejo mais um motivo para continuar vivendo.
Bem-aventuradas sejam as mulheres que sobem na mesa!
Do suicídio
October 19, 2005Nenhuma pessoa comum deixou de cogitar o suicídio. Ao menos uma vez na vida. Ao menos em teoria.
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Não sou exceção. Vira-mexe, penso no assunto. Hoje foi um exemplo. Não que eu tenha planos de consumar o auto-aniquilamento – passo longe disso, por absoluta ausência de coragem física (dói) e moral (Deus proíbe). Além disso, meus pais, minha irmã e um punhado de amigos (os que restaram) ficariam chateados. Por fim, existem as coisas boas da vida. Se eu me matasse hoje, deixaria de ir ao aniversário de três anos da Noite Latina, e Janaína Ávila nunca me perdoaria.
*****
Estive pensando. Ter a certeza de que perdi um grande amor é difícil; já seria uma pena suficiente. O duro mesmo é saber que esse grande amor hoje só pensa em mim com ódio ou desprezo. Para quem acha que ódio ou desprezo são excludentes (“Não levo ninguém a sério a ponto de sentir ódio”, dizia Paulo Francis), eu responderia que a alternância dos dois é muito mais letal. O silêncio e a voz irada; a voz irada e o silêncio.
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Sem contar as alfinetadas – e fuzilarias – do ódio coletivo. Afinal, sou o vilão da história. E vilão não tem direito de defesa. Já que o facínora foi capturado, não custa nada atribuir-lhe alguns crimes que ele não cometeu. Que diferença faz ser condenado a 580 ou 590 anos de prisão?
*****
Leio, em Amós Oz, que fé e medo são a mesma palavra em hebraico. Daí vem a expressão “temer a Deus”. Temente a Deus, e à dor (Jó aprendeu que esta pode vir dAquele), dou uma caminhada pelo Calçadão de Londrina, depois de ir ao dentista.
*****
A visão daquelas lojas de “crediário fácil” no Calçadão de Londrina não é recomendável a suicidas em potencial. São as abomináveis lojas que vendem dinheiro. O dinheiro mais fácil do mundo (para o credor). Descontado em folha ou no contracheque dos pensionistas do INSS. Centenas de povoados nordestinos vivem só do dinheiro das aposentadorias. Lula, com sua mão de Sadim, está conseguindo levar essa realidade ao País inteiro.
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Os garotos-propaganda dessas “linhas de crédito fácil” – em nenhum lugar o dinheiro custa tão caro quanto no Brasil – são os decrépitos da mídia: Hebe Camargo, Paulo Goulart, Nair Bello, o ex-moço do Bombril (agora velho). Envelhecer com dignidade parece ainda um privilégio de Adélia Prado e outros poucos.
*****
Falo dos velhos. Mas – e os jovens? O que dizer dos batalhões de jovens, em seus uniformes coloridos, perseguindo os passantes para fazer fichas de crédito, crédito, crédito? O martírio do subemprego leva esses meninos aos limites do bizarro. Alguns até decidem engolir fogo na esquina para ganhar uns trocados. Pirofagia: fogo é alimento?
*****
E o que dizer dos hippies, herdeiros maltrapilhos de um vago ideal de paz e amor, perdido em algum lugar dos anos 60, entre baganas de maconha, horríveis peças de artesanato em Durepox, um punhado de marmitas em alumínio, um cachorro doente. O que dizer desses personagens de Robert Crumb em carne, osso e pelanca?
*****
O homem de boné estende uma colchão na calçada, em frente às Pernambucanas. Sobre o tecido, a fina-flor do lixo musical brasileiro: Skank, Ivete Sangalo, Capital Inicial, Cidade Negra, Preta Gil. Se o fiscal se aproximar, o homem faz uma trouxa com o lençol e sai correndo.
*****
As lojas de R$ 1,99 (grande realização do governo FHC!). Os sebos onde a trilha sonora é de Bruno & Marrone. Os relatórios de CPIs. Denise Stoklos e sua cara na TV: “Viveeeeer é uma artxxxiiiiii!” A bolsa de valores dos fodidos da vida, numa esquina do bosque, atrás da catedral; ali, o personagem mais típico é um tiozinho esquelético que vive com dez relógios em cada braço.
*****
Não dormi a noite passada. Dor de dente. Hoje fui ao dentista, sofri um bocado na cadeira de torturas odonto-medievais, mas a dor passou. É assim que funciona. Até com as piores dores. A dor de viver, por exemplo.
****
Tudo somado, deveríamos entregar os pontos. Mas não. Por princípio ou por inércia, por Deus ou por Newton, seguimos adiante. A certeza de ter perdido o maior amor da vida não é suficiente para afogar um homem. Sim, sou fraco. Mas da fraqueza retiro a força. É uma lei do universo, escrita não sei onde.
*****
Sei que, cedo ou tarde, vou virar um mendigo, um escravo como os tipos que acabo de descrever. Nunca terei carro, casa própria, dinheiro para ir à Itália, rendas, móveis bonitos, obras de arte. Mas é assim que funciona, Janaína. Me aguarde na Noite Latina!
O vilão sempre deve sofrer no final
October 19, 2005Enquanto sua irmã se casava, eu estava a alguns metros dali, numa mesinha do Bar Madalena.
Você, de braços dados com um belo futuro.
Eu, bebendo sozinho meu passado – a quarta Skol.
O livro que eu lia na mesa de metal: “De amor e trevas”.
Imagens esclarecedoras.
Por sinal, onde fica o outro lado do oceano?
*****
Minha é a vingança, e a recompensa.
(Deus, no Deuteronômio, XXVII, 235, e na epígrafe de Anna Karênina.)
Aniversário de crônica
October 18, 2005
A coluna Carta de Londrina, onde escrevo minhas sandices e parvoíces, completa cinco anos. Leia a crônica de aniversário.
Reforma
October 18, 2005Reformar o tempo
para que ele volte,
para que ele avance
como o nosso humor
e o nosso sangue.
Reformar os dias,
fazer com que as tardes
gerem as manhãs,
e a noite e a madrugada
não mais sejam irmãs.
Reformar as horas,
pra que não mais tenham
60 minutos,
pra que sejam menos
se parecem muitos.
Reformar a morte
pra que o vento fresco
dê voz aos fantasmas,
e não fiquem presos
dentro das mortalhas.
Pra que o tempo todo,
ao nosso controle,
deixe em nossas mãos
o que nunca houve.
Mesmo se acordarmos
sem sabermos onde,
reformar o tempo.
Sobre o horário de verão
October 17, 2005O horário de verão é falso. Sabemos que a hora oficial está uma hora adiantada em relação à hora real. E a hora real, por sua vez (se é que hora tem vez) é apenas uma convenção baseada numa síntese entre os ritmos da natureza e os ritmos do corpo humano. O relógio é um medidor de espaços; ou, no caso da tela digital, um acendedor de luzes.
*****
Quando começa o horário de verão, o corpo humano imediatamente sofre as conseqüências. Alterar o tempo cronológico equivale a mudar o tempo biológico. E o tempo fica assim pairando sobre nós, indiferente às tolas convenções humanas. O que resta é sono.
*****
Nesta primeira noite de horário de verão, um sonho recorrente. Participei do assassinato de alguém. Estou cheio de culpa. Um bandido – culpado por outros crimes, mas inocente no crime em questão – foi preso no lugar do grupo que cometeu o homicídio – e do qual eu faço parte. Há um pacto de silêncio, mas a verdade pode vir à tona. Sofro. Peço perdão a Deus. O que foi que eu fiz? O que foi que nós fizemos? E a resposta é silêncio.
*****
Que horas são? O tempo é aquilo que não tem horas.
vida de nego é difíci
October 14, 2005
todo dia
compro um pedaço
da minha alforria
Há algo
October 13, 2005Morre a sétima testemunha-chave no caso Celso Daniel: o médico legista Carlos Delmonte Printes. Ele sustentava que o prefeito foi torturado antes de morrer, o que afastaria a hipótese de crime comum, defendida pela cúpula do PT, Lula incluído.
Há algo de podre, muito podre, em tudo isso.
E mais não digo porque você pode ler aqui.
*****
- Calor, né?
- Quentíssimo.
- Calor lembra o quê?
- Cerveja.
- E cerveja lembra o quê?
- QSL.
- Então, vê se aparece, condenado!
Surpresa
October 13, 2005No jornal, recebo um envelope.
Abro.
Surpresa: o envelope tem um livro sobre Mário de Andrade e um CD duplo de João Sebastião (“Obras para órgão”).
Os presentes inesperados vêm de meu amigo e professor Carlos Okawati.
Ele – e só ele – lembrou que hoje, em plena QSL, minha coluna de crônicas, a Carta de Londrina, completa cinco anos de existência.
Há cinco anos, ou um lustro (como diriam os antigos), eu escrevo semanalmente minhas bobagens. E o Carlinhos não deixou passar em branco.
Obrigado, Carlinhos, por ser esse amigo-mestre. Obrigado pelo livro, pelos discos e pela paciência de leitor.
Memórias de um viciado em mulheres - 2
October 13, 2005ESPONTANEÍSTAS E FALSIFICADAS
As primeiras, com a desculpa de serem “espontâneas”, falam tudo que vem à cabeça. Nada escondem, nada amenizam, nada omitem. Julgam-se as rainhas da verdade; confundem sinceridade com estupidez; o despojamento costuma redundar em histeria. É a mendacidade às avessas.
*****
Já as falsificadas são atrizes permanentes. Para cada situação, têm um papel a representar; uma frase feita a pronunciar; uma expressão calculada; um comportamento calculista. Como um pé de alface, têm várias camadas. Como heroínas de Oscar Wilde ou Proust, representam a vitória da aparência sobre a essência.
*****
Como a extrema-esquerda e a extrema-direita, as espontaneístas e as falsificadas são muito parecidas: transparentes de tanto representar; fingidas de tanto exibir. Na minha longa vida de viciado, tenho sido vítima constante de umas e outras.
Memórias de um viciado em mulheres - 1
October 12, 2005
AMANDA
Minha amiga Janaína disse: “Você é um viciado em mulheres”. Talvez ela tenha razão. Aqui vão algumas notas sobre o assunto. A começar por Amanda.
*****
Desde o princípio, a loucura – toda ela – podia ser vista nos olhos de Amanda. O brilho inconfundível estava lá, quando a vi pela primeira vez. O ano era 1990. Foi uma noite de sábado, talvez de sexta-feira; eu estava com dois ou três amigos numa mesa do Clube da Esquina. Tomávamos cerveja. O namorado de Amanda – um guitarrista que ainda hoje cruzo pela cidade – conhecia um de meus amigos, e se aproximou para falar com ele, arrastando-a pelo braço. A impaciência de Amanda com aquela breve conversa já era um indício de insanidade essencial: os olhos da garota percorriam as três dimensões do espaço, na tentativa de acelerar a quarta. Mas o tempo, caprichoso, não passava: os três minutos da conversa do namorado de Amanda com meu amigo se estenderam por alguns anos, e na verdade duram até hoje – até o momento em que escrevo isto. Durante um alentado segundo, as vistas de Amanda cruzaram as minhas – foi quando eu vi a face da loucura – a loucura plena e primordial que nos unia. Amanda foi embora com seu namorado, mas deixou comigo a senha da perturbação, da impaciência com a vida, de um irresistível desequilíbrio.
*****
E como o desequilíbrio podia ser belo. A segunda coisa que mais brilhava em Amanda era a beleza. Certa época eu acreditei – e quem sabe estivesse certo – que Amanda era a mulher mais bonita da cidade, talvez estivesse entre as cem mais bonitas da superfície da Terra. Os olhos eram grandes, um pouco rasgados; o cabelo era esvoaçante, com um corte estranho; os seios eram do tamanho das minhas mãos (e tenho as mãos grandes); a bunda era uma obra helenística; as pernas poderiam ser um pouco mais grossas, mas terminavam em pés de intensa delicadeza. Era incrível que Amanda se interessasse por um cara tão ordinário quanto eu.
*****
Desse embate entre loucura e beleza, nascia uma inimitável voluptuosidade. O fato simultâneo de ser bonita e louca provocava-lhe espasmos crônicos na boca e no ventre. O esporte predileto de Amanda era me agarrar em festas, principalmente quando havia outras mulheres por perto. Isso não contribuía muito para sua reputação entre o público feminino.
*****
Usávamos uma cama de solteiro. No início, procuramos reforçar o estrado com uma pilha de tijolos, mas assim mesmo ele veio abaixo. A solução foi desmontar a cama e dormir no colchão. O solo era mais resistente aos nossos impulsos.
*****
Encontrar Amanda às vezes era uma tarefa complicada. Eu estava proibido de entrar no edifício de Amanda por ordem expressa de um síndico que havia feito sexo pela última vez durante o Estado Novo. Ela estudava sociologia, e eu nunca sabia onde eram suas aulas; quando encontra o local, ela havia faltado. Vale lembrar que não existiam e-mail, nem celular, nem Orkut, nem blog. E só eu tinha telefone em casa. Isso facilitava as traições, das duas partes.
*****
Foi grande a surpresa numa fria madrugada. Eu tinha viajado para Curitiba e, na volta, encontrei Amanda deitada em minha cama. A casa estava vazia; meus colegas de república tinham saído. Acendi a luminária de leitura e vi o sorriso de Amanda dentro da noite.
*****
À parte nossa vida na cama (ou melhor, no colchão), estávamos quase sempre brigando. Com Amanda, pela primeira vez na vida, e talvez a última, eu levantei a voz diante de uma mulher. Brigávamos aos gritos, em público. Uma vez trocamos ofensas e tapas na mesa de bar e depois fomos embora, bêbados. Amanda se deitou no meio da Avenida Higienópolis. Na mesma esquina em que eu a encontraria, muitos anos depois. De vez em quando eu penso que Amanda está deitada ali, no cruzamento da Higienópolis com a Rua Humaitá. E quando acendo a luminária de leitura – vejo aqueles olhos de tanta loucura e beleza. A isso podem chamar de amor, se quiserem.
Minha amiga Janaína disse: “Você é um viciado em mulheres”. Talvez ela tenha razão. Aqui vão algumas notas sobre o assunto. A começar por Amanda.
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Desde o princípio, a loucura – toda ela – podia ser vista nos olhos de Amanda. O brilho inconfundível estava lá, quando a vi pela primeira vez. O ano era 1990. Foi uma noite de sábado, talvez de sexta-feira; eu estava com dois ou três amigos numa mesa do Clube da Esquina. Tomávamos cerveja. O namorado de Amanda – um guitarrista que ainda hoje cruzo pela cidade – conhecia um de meus amigos, e se aproximou para falar com ele, arrastando-a pelo braço. A impaciência de Amanda com aquela breve conversa já era um indício de insanidade essencial: os olhos da garota percorriam as três dimensões do espaço, na tentativa de acelerar a quarta. Mas o tempo, caprichoso, não passava: os três minutos da conversa do namorado de Amanda com meu amigo se estenderam por alguns anos, e na verdade duram até hoje – até o momento em que escrevo isto. Durante um alentado segundo, as vistas de Amanda cruzaram as minhas – foi quando eu vi a face da loucura – a loucura plena e primordial que nos unia. Amanda foi embora com seu namorado, mas deixou comigo a senha da perturbação, da impaciência com a vida, de um irresistível desequilíbrio.
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E como o desequilíbrio podia ser belo. A segunda coisa que mais brilhava em Amanda era a beleza. Certa época eu acreditei – e quem sabe estivesse certo – que Amanda era a mulher mais bonita da cidade, talvez estivesse entre as cem mais bonitas da superfície da Terra. Os olhos eram grandes, um pouco rasgados; o cabelo era esvoaçante, com um corte estranho; os seios eram do tamanho das minhas mãos (e tenho as mãos grandes); a bunda era uma obra helenística; as pernas poderiam ser um pouco mais grossas, mas terminavam em pés de intensa delicadeza. Era incrível que Amanda se interessasse por um cara tão ordinário quanto eu.
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Desse embate entre loucura e beleza, nascia uma inimitável voluptuosidade. O fato simultâneo de ser bonita e louca provocava-lhe espasmos crônicos na boca e no ventre. O esporte predileto de Amanda era me agarrar em festas, principalmente quando havia outras mulheres por perto. Isso não contribuía muito para sua reputação entre o público feminino.
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Usávamos uma cama de solteiro. No início, procuramos reforçar o estrado com uma pilha de tijolos, mas assim mesmo ele veio abaixo. A solução foi desmontar a cama e dormir no colchão. O solo era mais resistente aos nossos impulsos.
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Encontrar Amanda às vezes era uma tarefa complicada. Eu estava proibido de entrar no edifício de Amanda por ordem expressa de um síndico que havia feito sexo pela última vez durante o Estado Novo. Ela estudava sociologia, e eu nunca sabia onde eram suas aulas; quando encontra o local, ela havia faltado. Vale lembrar que não existiam e-mail, nem celular, nem Orkut, nem blog. E só eu tinha telefone em casa. Isso facilitava as traições, das duas partes.
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Foi grande a surpresa numa fria madrugada. Eu tinha viajado para Curitiba e, na volta, encontrei Amanda deitada em minha cama. A casa estava vazia; meus colegas de república tinham saído. Acendi a luminária de leitura e vi o sorriso de Amanda dentro da noite.
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À parte nossa vida na cama (ou melhor, no colchão), estávamos quase sempre brigando. Com Amanda, pela primeira vez na vida, e talvez a última, eu levantei a voz diante de uma mulher. Brigávamos aos gritos, em público. Uma vez trocamos ofensas e tapas na mesa de bar e depois fomos embora, bêbados. Amanda se deitou no meio da Avenida Higienópolis. Na mesma esquina em que eu a encontraria, muitos anos depois. De vez em quando eu penso que Amanda está deitada ali, no cruzamento da Higienópolis com a Rua Humaitá. E quando acendo a luminária de leitura – vejo aqueles olhos de tanta loucura e beleza. A isso podem chamar de amor, se quiserem.
O monstro da Cacilda Becker
October 11, 2005
Moro na Rua Cacilda Becker, mais conhecida como “Cacilda quem?” – os entregadores de pizza em geral não conhecem a atriz. Mas o fato é que moro lá, e uma curiosa (para não dizer bizarra) transformação se deu. Eu me transformei naquilo que sou. Naquilo que eu já era: o monstro da Cacilda Becker.
*****
À primeira vista, não pareço um monstro. Sou cordato, gentil, quase almofadinha. Alguns diriam que eu sou quase viado: fodam-se. O único aspecto monstruoso que se percebe ao primeiro contato é a esfericidade de minha barriga. Ela, garanto, não tem dobras: é lisa como a superfície de Saturno (e vocês estão cansados de saber que Saturno não tem superfície, pois é um planeta gasoso; mas é que eu não encontrei outra comparação).
*****
No entanto, sou um monstro. A barriga significa que estou grávido de mim mesmo. O bebê nunca nasce, ou nasce todos os dias, em forma de trocadilhos e piadas infames. Quando bebo, o monstro põe as asas de fora. E se alimenta de saudade, angústia, amnésias etílicas, memórias gozosas, filé de tilápia à milanesa. É uma beleza.
*****
Quando acordo de roupa (às vezes, de sapato), olho para o espelho e vejo, nas pequenas hemorragias dentro de meu globo ocular, o mapa de nações há muito extintas pela devassidão de seus habitantes.
*****
Os papéis espalhados sem o mínimo critério pelo quarto-escritório; as contas empilhadas em padrão tão caótico que nem 6 mil Stephen Hawkings desvendariam; os prazos já tão vencidos que nem 54 mil redatores poderiam cumprir; as páginas de sacanagem da Internet, a mulher mais brava do mundo – tudo isso faz parte de mim, e está em mim, e por isso eu sou o monstro da Rua Cacilda Becker. Cacilda quem?
Perguntas de criança (versão remix)
October 08, 2005
– Pai, por que você trabalha?
– Pra ganhar dinheiro.
– E por que ganhar dinheiro?
– Pra pagar as contas, meu filho.
– E depois de pagar as contas?
– Se sobrar alguma coisa, eu guardo.
– Onde?
– Ué, no banco.
– E até quando você vai trabalhar?
– Até me aposentar.
– E depois que se aposentar?
– Não sei, ainda falta muito tempo, filho.
– Quanto tempo?
– É tanto tempo que você já vai ser adulto.
– E o que eu vou fazer quando for adulto?
– Vai trabalhar.
– E trabalhar por quê?
– Ah, menino, me deixa ler o jornal e vá perguntar pra sua mãe.
*****
– Mãe, por que eu nasci?
– Porque eu e seu pai quisemos.
– E por que vocês quiseram?
– Quando você for adulto, vai saber.
– Mas isso leva tempo. Eu queria saber agora.
– Por falar em agora: você já fez sua lição?
*****
– Pai, o que é corrupção?
– É uma coisa muito feia, meu filho.
– Então eu não posso saber?
– É melhor você saber quando for adulto.
– Mas ficar adulto demora muito.
– Tá bom, eu explico: corrupção é quando uma pessoa compra a outra.
– Igualzinho a gente faz no supermercado? Gente tem preço?
– Dizem que todo homem tem seu preço. Mas corrupção não é igual ao supermercado.
– O senhor tem preço, pai?
– Que é isso, menino? Lógico que não!
– Ué, mas você não falou que todo homem seu preço?
– Não fui eu que disse, foram as pessoas.
– Mas você não é pessoa, pai?
– Claro que sou. Mas quem disse aquilo foram outras pessoas.
– Quer dizer que corrupção é uma coisa que acontece com as outras pessoas, né, pai?
– É, filho.
– Mais uma pergunta, pai.
– Hum.
– O que é mensalão?
– Olha aqui, menino. Toma estes cinco reais pra você comprar sorvete e me deixa ler o jornal em paz.
– Pra ganhar dinheiro.
– E por que ganhar dinheiro?
– Pra pagar as contas, meu filho.
– E depois de pagar as contas?
– Se sobrar alguma coisa, eu guardo.
– Onde?
– Ué, no banco.
– E até quando você vai trabalhar?
– Até me aposentar.
– E depois que se aposentar?
– Não sei, ainda falta muito tempo, filho.
– Quanto tempo?
– É tanto tempo que você já vai ser adulto.
– E o que eu vou fazer quando for adulto?
– Vai trabalhar.
– E trabalhar por quê?
– Ah, menino, me deixa ler o jornal e vá perguntar pra sua mãe.
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– Mãe, por que eu nasci?
– Porque eu e seu pai quisemos.
– E por que vocês quiseram?
– Quando você for adulto, vai saber.
– Mas isso leva tempo. Eu queria saber agora.
– Por falar em agora: você já fez sua lição?
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– Pai, o que é corrupção?
– É uma coisa muito feia, meu filho.
– Então eu não posso saber?
– É melhor você saber quando for adulto.
– Mas ficar adulto demora muito.
– Tá bom, eu explico: corrupção é quando uma pessoa compra a outra.
– Igualzinho a gente faz no supermercado? Gente tem preço?
– Dizem que todo homem tem seu preço. Mas corrupção não é igual ao supermercado.
– O senhor tem preço, pai?
– Que é isso, menino? Lógico que não!
– Ué, mas você não falou que todo homem seu preço?
– Não fui eu que disse, foram as pessoas.
– Mas você não é pessoa, pai?
– Claro que sou. Mas quem disse aquilo foram outras pessoas.
– Quer dizer que corrupção é uma coisa que acontece com as outras pessoas, né, pai?
– É, filho.
– Mais uma pergunta, pai.
– Hum.
– O que é mensalão?
– Olha aqui, menino. Toma estes cinco reais pra você comprar sorvete e me deixa ler o jornal em paz.
Desarmamento
October 07, 2005
Dá licença de não ter opinião sobre o assunto?
Dá licença de votar nulo?
Dá licença de me incluir fora dessa?
Dá licença, dá licença, meu sinhô?
A única opinião inteligente sobre o tema é a do mestre Tanga.
Dá licença de votar nulo?
Dá licença de me incluir fora dessa?
Dá licença, dá licença, meu sinhô?
A única opinião inteligente sobre o tema é a do mestre Tanga.
Quando morre uma puta
October 06, 2005
Quando morre uma puta,
o céu todo fica em festa:
– Vem aí mais uma santa!
– Enfim chega uma que presta!
A mulher de vida fácil
é a que a tem mais amarga:
a pena do fogo do inferno
foi na terra sua carga.
Quando morre uma puta,
estranha dor no baixo ventre
sentem seus velhos clientes.
A mulher amada na noite,
ou mesmo no canto da tarde,
talvez tenha sido por quem
o coração ainda arde.
Quando morre uma puta,
choram meninas pequenas
pela alma da madalena.
E um vazio mais triste que a lua
se cava na terra crua.
o céu todo fica em festa:
– Vem aí mais uma santa!
– Enfim chega uma que presta!
A mulher de vida fácil
é a que a tem mais amarga:
a pena do fogo do inferno
foi na terra sua carga.
Quando morre uma puta,
estranha dor no baixo ventre
sentem seus velhos clientes.
A mulher amada na noite,
ou mesmo no canto da tarde,
talvez tenha sido por quem
o coração ainda arde.
Quando morre uma puta,
choram meninas pequenas
pela alma da madalena.
E um vazio mais triste que a lua
se cava na terra crua.
Bang bang
October 05, 2005
Na propaganda do plebiscito, que acabo de ver, tem o pessoal do sim e o pessoal do não.
Falta a terceira via: VÁ PRO INFERNO!
Que é a minha.
*****
A maior preocupação, no caso, é fazer o estoque de cerveja para a lei “seca”. Vou mandar bala.
*****
As trufas me parecem um assunto mais importante.
Falta a terceira via: VÁ PRO INFERNO!
Que é a minha.
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A maior preocupação, no caso, é fazer o estoque de cerveja para a lei “seca”. Vou mandar bala.
*****
As trufas me parecem um assunto mais importante.
Bom dia
October 05, 2005
Acordo com a chuva. Chuva forte, convicta, imensa. Chuva antiga e primordial. Chuva que andava escondida, mas chovia nalgum lugar, talvez do outro lado do oceano, em forma de neve. Chuva: pranto e mijo santo de Deus. Chuva que caiu sobre o Rei Noé. Chuva que me mantém pequeno e mudo nesta manhã de sempre renovada culpa. De sempre renovado medo. Chuva que amanhã será meu sangue. Chuva que caiu sobre meu tataravô e sobre João Sebastião. Chuva que inspirou Beethoven a compor um adagio com molto sentimento d’affetto – para cello e piano. Que faz a pequena e linda Natália dormir em paz. Chuva que faz meu vizinho tossir mais uma vez – e tossiria mesmo sem chuva. Chuva que me faz acordar inexplicavelmente com você, mulher. Bom dia, chuva.
Solidão
October 03, 2005
Pela primeira vez, em anos, estou completamente só. O jeito é escrever uma crônica para a solidão.
E mais não digo porque não sei.
E mais não digo porque não sei.
Fim das coisas
October 02, 2005Há árvores que intuem o fim das coisas.
Anêmonas. Grãos. Ferrugens. Congros.
Há surtos que avançam no fim das coisas
e desfilam sua coleção de malárias.
Tempestade sob as amnésias,
o fim das coisas está no prelo
A par de teus olhos cansados, Veridiana – extenso ar.
É câncer cavalar, o fim das coisas,
Abstraído de selas, trotes e sangues.
Apenas um resfriado e uma revolução, o fim das coisas,
apostasia de edição extraordinária,
maleita insana dos computadores pessoais.
Naturalmente cai o céu ao fim das coisas,
mas não pensem – vocês incrédulos –
que o fim tornará fáceis as coisas.
Há de se urdir uma fé mais dócil,
uma paciência de Jó,
e sobretudo uma resistência a espasmos.
Nada importamos ao fim das coisas.
Anêmonas. Grãos. Ferrugens.
Estaremos congros, na vermelha sequidão do mar,
avanço do fim das coisas à Terra do Maná.
Dá tua mão, Veridiana. Goza comigo.
A felicidade humana não foi prevista no fim das coisas.
Espera e goza, Veridiana. Dá tua mão.
Repara que as árvores não balançam mais.
O Mar Vermelho está morto, perecem os congros.
No fim das coisas, tudo reina sobre nós.
Anêmonas. Grãos. Ferrugens. Congros.
Mal menor
October 01, 2005
Hoje não vou à grande festa.
Será difícil, será triste. Ainda mais quando sei que meus amigos estarão por lá, fazendo o que eu tanto gosto de fazer. Em certa época eu fui da esquerda festiva. Hoje sou só festivo.
Mas, se eu resolvesse ir à festa, a opção seria bem mais dolorosa: encontrar você e me comportar como um estranho.
Fico em casa, ou no bar da esquina, construindo minha própria solidão. É uma engenharia caótica.
“Nem mesmo todo o oceano pode apagar esta culpa.” Foi Homero que disse? Acho que foi. Nem mesmo todo o oceano. E ainda dizem que Homero era cego.
E a solução talvez ser seja ler alguma coisa do Herberto Helder, alguma coisa que eu já te mostrei um dia...
Será difícil, será triste. Ainda mais quando sei que meus amigos estarão por lá, fazendo o que eu tanto gosto de fazer. Em certa época eu fui da esquerda festiva. Hoje sou só festivo.
Mas, se eu resolvesse ir à festa, a opção seria bem mais dolorosa: encontrar você e me comportar como um estranho.
Fico em casa, ou no bar da esquina, construindo minha própria solidão. É uma engenharia caótica.
“Nem mesmo todo o oceano pode apagar esta culpa.” Foi Homero que disse? Acho que foi. Nem mesmo todo o oceano. E ainda dizem que Homero era cego.
E a solução talvez ser seja ler alguma coisa do Herberto Helder, alguma coisa que eu já te mostrei um dia...