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Archive for August of 2005

Por que não me casar com Luciana Genro

August 31, 2005
- Papai, eu quero me casá! - Ô minha fia, ocê diga com quem!

Podem dizer que tenho mau gosto – o que não é verdade, o Chefe é testemunha –, mas, observando bem as fotos da deputada Luciana Genro, chego à conclusão meramente técnica de que ela não é feia, e que até daria para um lesco-lesco.

Porém (aaaaah, porém...) acho que não me casaria com ela.

Em primeiro lugar, porque ela já deve ser casada, e a bigamia é crime neste nosso País em que todas as leis são respeitadas. Depois, porque seria difícil agüentar as discussões políticas na hora do jantar, ou em hora ainda menos adequada.

Enquanto os homens casados do Brasil se defrontam com reunião de tupperware ao chegar em casa, o príncipe consorte (sorte?) de Luciana Genro deparar-se-ia com uma reunião do Psol (também conhecido como Pinho Sol), presentes Babá e a coisa-ruim-Deus-te-crie Heloísa Helena (esta, por sinal, dando palpites em questões domésticas; e aquele tomando das minhas latinhas de Skol).

E imagine (“there´s no heaven...”) os gritos enquanto eu tento ouvir meu João Sebastião. Sem contar o fato de ser genro do Tarso Genro.

Eu penso que... eu penso que.. eu penso que... melhor continuar solteiro.

*****

Um pulinho no Sebo Capricho antes de almoçar com Janaína e encontro o Diário de Kafka por 15ão. Pequenas alegrias – que de mim sem elas?

*****

Aí podem perguntar: “Mas você não está triste, Briguet?”.
Triste, é claro. Sem humor? Nunca.

*****

E uma faltinha de enxada, pra variar:

POEMA DOS PRECONCEITOS

Conversa de surdos-mudos,
confesso, me dá aflição.
E vejo algo de espúrio
nos michês do Calçadão.

As moças da Tiradentes,
expostas à luz do dia
me causam, freqüentemente,
estranha melancolia.

É que o tempo anda passando,
as horas têm feito marcas.
Com trinta e tantos anos
ficamos ranzinzas pacas.

Relatório do Sr. Fiasco

August 30, 2005

Foi um fiasco a conversa com os calouros da UEL. Falei muitíssima besteira, como de costume. Peço desculpas a eles. Acho que só fiz duas coisas úteis.
Citei, mais ou menos no contexto, a bela frase de Hipócrates que vinha querendo citar há tempos:

“A vida é breve, a arte é grande, a ocasião é fugaz, a experiência é perigosa, o julgamento é difícil.”

Segunda coisa boa: elogiei (merecidamente, é claro) o mestre Tanga.

*****
Hoje me lembrei do post mais nonsense de todos os tempos no Tipos. Não; incrivelmente não é do Moraes. É do Marcelo Rocha. É este.

*****

No ponto de ônibus, bolei uma paródia para os versos de Djavan:

Mais fácil aprender japonês em braile
Do que você decidir se dá ou não.


É assim:

Mais fácil prender o Janene e o Hauly
Do que o Dirceu decidir se sai ou não.


*****

Besta. Bem besta. Hipócrates é bem melhor. E Rocha. E Tanga.

Marmotas, trutas e Severinos

August 30, 2005
Há 16 anos, numa segunda-feira chuvosa, eu pegava o ônibus 305 para o campus da UEL. Procurava a sala 623 do Centro de Educação, Comunicação e Artes. Eu era um calouro de Jornalismo.
Hoje, daqui a meia hora, nesta noite chuvosa de terça-feira, eu procuro a mesma sala do mesmo campus para falar com os calouros de Jornalismo. A impressão é que estou preso no tempo - algo assim como o Dia da Marmota.

*****

Por falar em Dia da Marmota, imagine o inferno que seria acordar todos os dias com aquele verso de Djavan:

São Jorge por favor me empresta o dragão!

*****

Como diz o truta Galão:

- Brinca sadio, Briguet!

*****

Uma terça-feira sem tilt não é a mesma coisa. Minha camisa social já estava até passada.

*****

A prova que Severino quer:

Venho por meio desta, para os devidos fins, declarar que recebi, a título de “mensalão”, leia-se propina, a quantia de R$ 50 mil sacados da conta do sr. Marcos (não o Kareka, mas o careca), para votar favoravelmente em matérias de interesse do governo.
O referido é verdade e dou fé.
Sem mais, subscrevo-me,

Paulo Briguet
Deputado federal pelo PI (Partido dos Idiotas)
Firma reconhecida pelo cartório da esquina.


*****

O que a CPI está esperando para me ouvir?

*****

Mais fácil aprééénder japonês em brailee.
Duquê você dicididisidáónão.


*****

É uma arrtxxxxi! É uma arrrrtxxxxi!

Não, não, de novo nãããããããããõooooooooooooo!

Crônica

August 30, 2005

Na coluna Carta de Londrina, o diário de um homem só. De um homem clichê. Leia aqui.

Definição

August 29, 2005

Hoje entrevistei Domingos Pellegrini, que lançou o livro de sonetos “Gaiola Aberta (1964-2004)”.
Na página 26, entre os “Sonetos de Separação”, encontrei os versos que reproduzo aqui:

Jamais esperaria sofrer tanto:
tinha esquecido de como se sofre
e de repente o coração é um cofre
abrindo cheio de dor e de espanto

Jamais esperaria sofrer tanto
ao ver a minha sombra emagrecer
sem achar a tua no entardecer
e sobreviver é meu grande espanto

É como acordar sem perna ou braço:
tropeço tanto para dar um passo
e no trabalho me atrapalho tanto

A vida virou muleta quebrada
e desconfio ser, dê uma olhada
um inválido que vejo com espanto

(Domingos Pellegrini)

Eterno retorno

August 26, 2005

Um dia
eu sei
Plutão vai virar Mercúrio
as florestas
vão virar carvão
e o carvão
vai ser
diamante puro.

Um dia
eu sei
o relógio sem ponteiros
estará sempre certo
e a voz do vento
será nosso dialeto.

Um dia
nossos mundos
tão diferentes
vão criar
um terceiro ente.

Um dia
o Bar Kotovelo´s
e o palácio do luxo
como espelhos
eu sei
vão viver
no mesmo fluxo.

Um dia
não sei que dia
bem ao certo
o amor vai voltar a você
do jeito que o Sol nasce
no outro lado
do universo.


Preso por um cidadão

August 26, 2005
Você tem o direito
de permanecer calado.
Tudo que disser
pode ser usado contra você
no tribunal.

Você pode fazer
um telefonema
e tem direito
a um advogado
indicado pela Justiça.

Passageiros
idosos, portadores
de deficiência
e grávidas
têm preferência.

Observe os avisos
de atar cintos,
não fumar
e não usar aparelhos
eletrônicos e
telefones celulares.

Se os sintomas
persistirem,
o médico deverá
ser consultado.

Por ocasião
do lançamento
verifique a classificação
indicativa
do filme.

Este medicamento
não deve ser usado
em caso de
suspeita de dengue.

Paulo, pacote.
Paulo, pacote.

Atenção, passageiros
da Viação Garcia
procedentes de São Paulo
com horário de embarque
vinte e três horas,
dirijam-se a seus assentos
e tenham uma
boa
viagem.

Atenção, proprietário
do veículo Corsa
de placas
A
T
J
zero
três
sete
cinco:
compareça
ao local
es-ta-
cionado.

Em caso
de número comercial
constante em lista,
será cobrada
a taxa de...

Este atendimento
está sendo gravado.

Oito horas.
Vinte e três minutos.
Quinze segundos.
(Pim.)
Oito horas.
Vinte e três minutos.
Trinta segundos.

O telefone chamado
está desligado
ou encontra-se
fora da área
de serviço.

Sua chamada
está sendo
encaminhada
para a caixa de mensagens,
e estará sujeita
a cobrança
após o sinal.

Esta é a caixa postal de...

Você tem o direito
de permanecer calado.

*****

FRASE DO DIA

“A vida é breve, a arte é grande, a ocasião é fugaz, a experiência é perigosa, o julgamento é difícil.”

(Hipócrates)

Desaniversário

August 23, 2005

Hoje faz um ano que aconteceu aquilo – como você pode relembrar aqui e aqui.

Irônico: dizem que a antiga sede vai virar uma boate. Quando a casa abrir as portas, faço questão de ir, só para dizer: “Já trabalhei nesta pista de dança”.

E mais preciso dizer?

*****

Por falar no assunto, as poupanças que fazem aniversário hoje renderam 0,2%. Mas ninguém cantou parabéns pra elas. (Posso ouvir o estrondoso som de suas gargalhadas, Cláudio Yuge!)

*****

Efemérides para 24 de agosto:

- 51 anos do suicídio de Getúlio;

- Nascimento de Paulo Coelho (1947);

- 13 anos do relatório da CPI que incriminou Collor;

- 13 anos em que eu resolvi tomar uma Skol no Aperitivos do Paulinho.

Como diria minha mãe, Pai Jacó!





Fuja das rimas

August 23, 2005
Fuja das rimas em ão,
com elas não há solução.

Fuja das rimas em á,
nenhuma resistirá.

Fuja das rimas em ente
– imediatamente.

Fuja das rimas em ó,
elimine-as sem dó.

Fuja das rimas que gosta,
pois elas são uma bosta.

Fuja das rimas toantes,
são todas irritantes.

Fuja das rimas ricas,
quase sempre ridículas.

Fuja das involuntárias,
escondidas nas palavras.

E a rima mais infeliz
é aquela que nada diz:

a rima fria e letal
que rima consigo, e mal.

Fuja – e boa sorte –
como quem foge da morte.

A natureza da alegria

August 22, 2005

– Deus, faça-me capaz de alegria – disse Bach.

E Deus fez. Basta colocar no toca-discos um tema do velho João Sebastião, mesmo os mais tristes e melancólicos, para entender a natureza da alegria. Não é aquela alegria estúpida dos risos forçados e egos inflados; é a alegria sutil da revelação. Bach é de uma leveza extraordinária, é quase uma assunção em forma de música; mas também sabe ser sereno e grave como a liturgia.

Hoje meu grande amigo disse que vai ser pai. Tive o privilégio de ser o primeiro a receber a notícia; ele estava com os olhos úmidos e as mãos trêmulas de uma alegria autêntica e luminosa. Saiu andando pelas ruas da tarde – meu amigo adora o Sol.

Sim, meu amigo disse que vai ser pai. E é como se Deus dissesse, por intermédio dele:

– Vê. Olha. Percebe.

Nesta hora, meu medo é chegar a um tempo e dizer, como o poeta Joseph Brodsky: Eu fui tudo que restou da minha família.

Sei também que minha outra amiga já foi mãe, lá na capital. Infelizmente, não posso estar ao lado deles agora – porque estou tentando ser capaz de alegria. Eu não sou digno de entrar em sua morada.

Este silêncio pede João Sebastião. Felicidade, amigo. Felicidade, amiga. Logo estarei de volta, com o pouco de alegria que ainda exista em mim.

Um coração na minha culpa

August 21, 2005
Nenhum sarcasmo pode ser maior que a minha culpa. Nenhuma decepção. A Muralha da China e o Caminho de Santiago (Tiago Maior ou Tiago Menor?); a Via Appia e os arranha-céus de Manhattan; o planeta Júpiter e a constelação de Órion – são menores que a minha culpa.

*****

O dragão de Komodo, quando imobiliza suas vítimas com um veneno letal, antes de devorá-las, não causa maiores estragos que a minha culpa. As secóias e as figueiras brancas, as quaresmeiras e os carvalhos-santos, todos eles juntos, os vivos e os mortos, não seriam suficientes para o madeiro da minha culpa.

*****

É como se Deus tivesse criado a culpa antes de mim, para só então me colocar dentro dela. A culpa é mais forte que meu próprio nome.

*****

E mesmo que todas as gerações de aranhas existentes sobre a face da Terra se unissem, a elaborar uma teia que cobrisse os quadrantes do Sistema Solar, ainda assim o espaço resultante seria menor que a minha culpa.

*****

A culpa já estava no gene dos meus ancestrais, aqueles do povo eleito e aqueles do gentio, mas nunca se manifestou com a mesma precisão que no meu caso.

*****

Não há um milímetro cúbico do meu sangue que não seja feito de culpa. A culpa é minha artéria e minha senhora. A culpa é meu demônio e minha glória.

*****

Ainda que eu matasse todos os recém-nascidos do mundo, e oferecesse o sangue a uma deusa inexistente, a aleivosia não seria do tamanho desta culpa.

*****

Minha culpa é mais pungente que a hidrofobia de 600 cavalos; que a eclosão de sete mil Guerras da Rosa; que o orgasmo de um milhão de iguanas.

*****

Minha culpa, ao mesmo tempo, é tão diminuta quanto o som de uma formiga despencando da Sistina; quanto a voz de uma girafa ou a dança de um bolero; quanto uma luta de lontra em 1276 antes de Cristo.

*****

Se todos os automóveis que cruzassem o Minhocão desde 1971 me atropelassem; se todos os tiros disparados no cerco a Stalingrado me atingissem; se todas as flechas desperdiçadas na Guerra do Peloponeso me alvejassem – ainda assim minha culpa seria maior e, com ela, sua dor.

*****

Minha culpa leva-me ao décimo círculo do Inferno – onde serei esquecido após o Dia. Onde serei esquecido após o Tempo. E a culpa de quem é? É minha.

O último dos homens

August 20, 2005

Então um dia você se sente o último dos homens. O mais vil, o mais covarde, o mais vicioso, o mais pusilânime, o mais corrupto, o mais feio, o mais doente, o mais louco, o mais perdido. E você pensa que, no Dia, seu caso não vai consumir mais que alguns centésimos de segundo para o veredicto: CULPADO. Antes que a última sílaba da palavra seja pronunciada por Deus, você será lançado às trevas exteriores, onde há choro e ranger de dentes.
Então um dia você sofre como se um arranha-céu houvesse desmoronado sobre sua alma. E o pior é que você merece. Merece sofrer, merece ouvir as palavras mais rudes e sarcásticas de lábios que já o amaram tanto. Você é uma farsa, cara.
É hoje esse dia, esta noite. É uma dor tão intensa que o compele a escrever, para provar que ainda vive, apesar de ser o último dos homens. Para provar que ainda é capaz de linguagem. Para provar, sabe-se lá por quê, a existência de carne, pele, osso, alma, vírgula e ponto.
Um dia você foi minha linguagem, mulher. E pelo fato de ter sido, continuará sendo, ainda que eu seja o último dos homens. E sou.

Poema da Vó Maria

August 20, 2005
Minha Vó Maria morreu,
e eu já não sou mais eu.
Morreu com dor minha vó,
e agora eu sou eu só.

Maria, morreu Maria.
Mais nenhuma morreria
com aquele tipo de olhar
que por toda a minha vida

seguirá a me espreitar.
Minha vó morreu tão doce
quanto mil quilos de açúcar.

Mas, impossível que fosse,
minha prece mais ouvida
é que não morresse nunca.

Meu nome é agosto

August 20, 2005

Meu nome é agosto,
meu nome é setembro.
Não tenho mais rosto,
nem tronco, nem membros.

Meu nome é inverno
e fui inflamado.
O verão eterno
se pôs ao meu lado.

Meu nome é paixão,
meu nome é amor.
Já fiz do silêncio

meu grande impostor.
O agosto em questão
já virou setembro.

Das graças

August 20, 2005
Ao Moraes e Suas providências.

Dou graças por várias coisas. Dou graças por ter nascido (mesmo sem consulta prévia). Por ser feio (assim, todos vêem melhor o quanto você é bonita). Por acordar e dormir. Por me lembrar dos sonhos bons, por não me lembrar dos sonhos ruins. Mas, se tenho um pesadelo, dou graças por acordar e ver que tudo não passou de um sonho. Por aquele intervalo entre sono e vigília, quando não separamos a consciência e a imaginação, dou graças todas as horas. Dou graças pelas horas. E pelos minutos que compõem as horas. E pelos segundos que compõem os minutos. E pelo tempo acima das subdivisões do tempo.

*****

Porque finalmente resolveram me pagar por aquele serviço. Por ter conseguido comprar um ingresso para a peça do Mário Bortolotto. Porque Londrina existe, porque Curitiba existe, porque São Paulo existe, porque a Matrix não existe. E se existir, dou graças.

*****

Dou graças por várias coisas. Até mesmo por usar, de vez em quando, a palavra cousas no lugar de coisas. Por haver loiras e louras, sobretudo por haver morenas. (O cronista Leon Eliachar, por sinal, quando lhe perguntaram qual era sua cor preferida, respondeu: “Morena”.)

*****

Ô loco, bicho! Dou graças por meu amigo Marcelo Rocha, minha amiga Janaína, meu amigo Preto, meu amigo Pafu. Dou graças por esses moços e moças, esses Tipos. Graças por meu pai, cronista como o filho. Dou graças por ter tantos prazos e mesmo assim não enlouquecer. E, quando a cerveja está gelada e o dia foi duro, eu agradeço ao Céu e peço a segunda ao Mauro, lá no Kotovelo´s.

*****

O Céu nada tem a ver com o céu. Mas pelo céu também dou graças. E até pelo Inferno dou graças. Pelas lesmas. Pelo gozo solitário. Pelas manhãs de ressaca. Pela existência da Neosaldina. Pela vontade de ver Crimes e Pecados, do Woody Allen, pela décima vez. Pelo copo de água brilhando às cinco da tarde, dou graças. Pela vizinha moça (filha do pastor) que me viu de cueca pegando o jornal e reclamou à síndica.

*****

E dou graças pelo Tipos ter ressuscitado. Amém.

É hora de dar o fora

August 12, 2005

Depois do depoimento de Duda Mendonça, e de tantas provas convergentes de que o governo era o principal mentor e beneficiado por dinheiro sujo em quantidades espantosas, o que todo mundo está esperando para gritar FORA LULA!?

Espero sinceramente que Lula tenha um resto de dignidade e renuncie ao mandato no seu depoimento à nação, que ele deve fazer a qualquer momento. Mas acho que isso não vai acontecer. Continuaremos tendo um não-presidente - e mesmo assim, graças a Deus, a vida prosseguirá.

E mais não digo porque meus advogados assim orientaram.

Amor

August 11, 2005
1.
O amor não é o suficiente, mulher.
Nunca será o amor o bastante.
Nem toda música do mundo
conseguirá vencer a morte.

2.
O amor nunca bastará:
a morte vai arrastar a tempo
esse rio de inconseqüências.
Não somos o jovem judeu.

3.
Não adianta fugir nem chorar, meu velho.
Nem mil quintas-feiras sem lei
vão nos fazer esquecer
que tudo virá a seu tempo.

4.
O amor não paga as contas,
não apaga as luzes, o amor
não dá de comer às crianças,
nem faz o calor esfriar.

5.
O amor não passa com cerveja,
não se rende à Neosaldina,
é tão difícil amar o amor
quanto fazer, de um Paulo, São Paulo.

6.
Mesmo que seja tudo,
e sabemos que ele é tudo,
não há pureza em nosso amor
tão falaz e prostituto.

7.
Não há verdade a não ser o amor,
mas o amor jamais virá puro:
além do beijo, do riso e do rumo,
traz angústia e absurdo.

8.
O amor não-amor nos persegue
como a bolha no caos da artéria.
Como o sopro em silêncio malvado
na falsa paz do coração.

9. O amor é aquele que é:
a metáfora do mundo
no corpo do mundo.
Símbolo e coisa em si.

10.
Verbo e verdade.
O amor é Deus e mais nada.
Nas letras, o acento está acima.
No amor, o acento está ao lado.

11.
Por isso, em nós,
nunca é o bastante.
O amor é aquilo
que éramos antes.

Assessores, genros e Bukowski

August 11, 2005

Podem falar o que quiserem dos políticos, mas existe um ser mais deprimente do que eles. São os assessores de políticos: indivíduos de má catadura, geralmente resfolegando a um celular, pisando firme atrás do chefe, ouvindo-lhes as imprecações, suportando-lhes o mau hálito e o mau hábito. Melancólicos subalternos da escória humana, como que saídos de um programa humorístico de quinta categoria.

*****

Por falar em quinta categoria, aqui vai uma piadinha (nem sei se merece o nome). Na verdade, é uma charada.

– Sabe qual o problema de casar com a deputada Luciana?

– Não.

– É que você vai ser genro do Genro!

(Posso ouvir os espasmos da multidão ensandecida. É uma das piores piadas de todos os tempos.)

*****

Ueba. Acabo de receber, pelo correio, o livro “Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém”, poemas de Charles Bukowski traduzidos por Fernando Kroposki. A orelha é do bravo Mário Bortolotto. Vou ler e escrever sobre. Enquanto isso, seguem trechos de um poema do Bukowski. Quando eu for gente grande, quero fazer 1% disto.

Nem precisa gostar de poesia para gostar do que o velho escreveu:

RESSACAS

já tive provavelmente mais delas
do que qualquer outra pessoa viva
e elas não me mataram
ainda
embora algumas manhãs parecessem
muito próximas
da morte.

(...)

as piores ressacas são quando você
desperta percebendo que fez
algo completamente detestável, ignorante e
possivelmente perigoso na noite anterior
mas
você não consegue se lembrar direito
o quê

(...)

tudo tem sido tão bestial
e adorável,
esse rio insano,
essa loucura
roubada à mão armada
que não desejo a
ninguém
a não ser a mim mesmo,
amém.


Charles Bukowski (1920-1994)

*****

E daí? Daí que depois de uma dessa eu penso que... eu penso que... eu penso que... QSL na veia!

E mais não digo.

My life, my wife

August 10, 2005

Minha querida Neosaldina:

Não tenho como lhe agradecer. Tantas manhãs você permitiu, tantos dias você salvou, tantas dores você debelou, que já perco as contas da minha dívida.

Às vezes penso que meu verdadeiro vício é você. Bebo para poder tomá-la no dia seguinte, ou mesmo para ingeri-la antes de dormir. Meus sonhos são mais tranqüilos se sei que meus neurotransmissores estão sob seus cuidados.

Como pode uma esfera escura, pequena como um Plutão dos medicamentos, fazer tanta diferença na vida de um mortal? Se não tenho você por perto – no bolso ou na cabeceira –, sinto-me entregue aos fantasmas do mundo hostil; sou um planeta perdido e sem sol.

Neosaldina, minha menina. Quero me casar com você. E passar o resto da vida sem dor de cabeça.

Fora!

August 09, 2005

Lula tem hoje dois grandes esteios: os muito ricos e os muito pobres. Aqueles, porque não querem perder nada; estes, porque não têm nada a perder.

*****

Amanhã, aqui em Londrina, tem manifestação contra a safadeza no governo. Vão lavar a calçada dos Correios. Mas, acredite, até aqui há o risco de “blindagem”: tem neguinho disposto a melar o protesto, transformando-o em ato pelo “passe livre dos estudantes”.

*****

Passe livre é meu pinto de óculos!

*****

Hoje uma garota me procurou no jornal, por indicação de um estudante de jornalismo que me conhece.

*****

Ela está indignada com a roubalheira. Estudante secundarista, educada, simpática, português correto, banho tomado. Também está revoltada com os pelegos do chamado “movimento estudantil” - aqueles que só falam por clichês esquerdistas antediluvianos, idioma que aprenderam nos manuais dos manuais dos manuais ou em alguma assembléia hedionda.

*****

Essa garota está sabendo agora como um ser humano pode se tornar um filho da puta. É uma das mais terríveis capacidades da espécie. Espero que ela não sofra muito. A garota – pois a espécie já vem sofrendo há milênios.

Batuque na cozinha sinhá num qué

August 09, 2005

Não sei quanto a você, mas eu não me empolgo com exotismos, principalmente quando se referem à comida.

*****

E não é que aqui perto do meu trabalho tem um restaurante, comandado por uma bela moça, que resolveu colocar pratos exóticos (muitas vezes, só eles) no cardápio do dia-a-dia?

*****

Para se ter uma idéia, na segunda-feira foi servido um tal strogonoff de berinjela. É brincadeira!

*****

Outros pratos igualmente estranhos, para não dizer bizarros, para não dizer esdrúxulos, têm aparecido dia sim, outro também. Aqui tem escondidinho de lombo (definitivamente, a palavra escondidinho não combina com algo que se vai comer); arrumadinho de pernil; batata de gala (de gala!); lasanhas que nós apelidamos de Kursk (submersas em um mar de molho branco) e outras iguarias igualmente estarrecedoras.

*****

Quequéisso! Alguém sabe onde eu posso encontrar arroz, feijão, salada e bife? Escondidinho, não, moça!

*****

E só lembrando: strog-on-off é a única comida que liga e desliga. (Posso ouvir o som das gargalhadas.)

Seo Briguet e a loteca

August 08, 2005
Ih, deu eu!

Vejo a fila de apostadores na lotérica. Parece que a Mega Sena acumulou de novo. De minha parte, nunca vou ficar milionário, pelo simples fato de que não aposto nunca.

*****

E a fila da lotérica me fez lembrar o seo Briguet. Toda santa semana ele fazia fé na loteca (aquela dos 13 pontos e da Zebrinha do Fantástico).

*****

Seo Briguet acertou os 13 pontos uma vez. Só que, justamente naquela semana, havia se esquecido de ir à lotérica. É bem verdade que não ficaria milionário: naquela semana, houve número recorde de acertadores, e o prêmio foi pouco maior do que o valor das apostas.

*****

Seo Briguet não ficou milionário, mas ganhou minha simpatia pra sempre. Os motivos são maiores que este blog.

*****

Nova série:

PAPAI NOEL EU QUERIA...

... pelo menos uma vez escrever um poema curto tão bom quanto os da Dorothy Parker e do Millôr Fernandes.

PAPAI NOEL EU QUERIA...

... que a imprensa nacional começasse a falar em impeachment sem papas na língua, e que algum ser (não precisa ser hippie de DCE, é até melhor que não seja) resolvesse gritar a frase mais necessária do momento: FORA, LULA! (Com vírgula e tudo.)

Soneto de doer

August 06, 2005

A vida dói como um dente.
A vida dói como um som
agudo e persistente.
A vida dói como um dom.

A vida dói como um talho
de faca no supercílio.
A vida dói pra caralho,
dói sem nenhum empecilho.

A vida dói como um sonho
no meio da noite fria.
A vida dói em silêncio

no seu barulho medonho.
A vida dói como sangria
em cada segundo que penso.

Terminal urbano

August 04, 2005
Aqui estamos nós, fodidos,
na companhia das pombas e das pedras,
ruídos e fumaça são nossa canção.
Aqui estamos, a um minuto de ficarmos loucos,
a um passo de estarmos mortos,
daqui a pouco seremos os mesmos
pobres e tortos – fodidos.

Aqui estamos nós, cansados
de esperar por um sonho sem nome.
Aqui estamos nós, esperamos
por um número que não chega:
208, 201, 215, 303.
Não temos face, nosso nome é um algarismo,
nosso ânimo é o silêncio.

E em cada pedra do calçamento
há um pecado, um grito, um fantasma.
Somos como as lojas da Rua Sergipe:
coloridas na fachada, cinzentas nos fundos.
Em nossos olhos há um ônibus sem rodas
correndo para a Vila Sem Dúvida.
E cada um de nós também é terminal.

*****

E o pior é que, chegando em casa, quem eu vejo na TV? Quem? Quem?

É uma arxti! É uma artxi! É uma artxi!

Problemas, problemas, problemas

August 04, 2005

Problema 1:
Essas malditas musiquinhas que tocam na televisão e não saem da cabeça.

“Pra aprender a leeeeer... Pra isso não tem hora... Pode ser de dia... Pode ser à noite... Pode ser agoooooora!!!”

E o pior é que a gente paga.

Problema 2:

Os nativos devem invadir a nossa Quinta Sem-Lei, por causa do Palmeiras x São Paulo. Seria prudente que chegássemos ao nosso balcão um pouco mais cedo que o habitual, lá pelas oito.

“Pra aprender a leeeeeeeeeeeer!”



É por isso que viver... é uma artxi.

Errando até resposta de cupom

August 03, 2005
Ando tão besta que ultimamente não consigo acertar nem charada de cupom. Aquelas do tipo:
O refrigerante mais gostoso é GUARANÁ ANTARCTICA.

*****

Pois é. Dia desses fui almoçar com minha amiga Janaína, a Ávida, no Restaurante Dá Licencinha. Na saída, ganhamos um cupom da tal promoção Londrishow. A frase para completar era a seguinte:
Minha cidade é _______.
Eu fui lá e preenchi:
Minha cidade é LONDRINA.
Só que a resposta correta era:
Minha cidade é SHOW.
Quer dizer: se eu for sorteado, vou perder o prêmio porque errei a resposta. Resposta de cupom!
É. A coisa tá feia.

*****

Se o sono é um ensaio para a morte, acordar é um ensaio para a ressurreição.

*****

Estilo é a manifestação involuntária de uma qualidade.

******

Ponto de vista é meu pinto de óculos. (Vidal Corporations – Todos os direitos reservados.)

Diário de um figurante

August 03, 2005

É. Realmente eu fiz um (pequeno) papel no filme do Grota. E fiz uma crônica sobre a minha (curta) experiência no cinema. Leia aqui.

Três

August 02, 2005

E para quem não agüenta mais ver depoimento de Zé Dirceu na TV Senado, uma saída: a total alienação na subjetividade. Seguem três poemas bem alienados:

1. FRACASSO

Meu nome é Fracasso,
meu sobrenome é Fucking Loser.
A máquina de lavar tá quebrada,
acabou o açúcar, porra,
atrasei o condomínio,
o telefone só recebe ligações,
tentei andar sobre as águas
e afundei.

Ando bebendo sozinho, todas,
meu colesterol anda alto,
pago o mesmo plano médico duas vezes,
mas não marquei hora no cardiologista.
Não encerrei a conta do Bradesco,
estou morrendo nos juros,
deu pau no computador, acho que é vírus,
não terminei de ler o Conrad,
não escrevo nada que preste.
Meu senhor e meu Deus,
meu senhor e meu Deus.

Na verdade,
eu agora deveria cuidar
dos meus inúmeros problemas,
e não ficar aqui tomando cerveja
e escrevendo poesia barata.
Por isso eu aqui termino e assino: Fracasso.

2. POSSESSÃO

A quem eu pertenço?,
eu me pergunto.
Só sei que não – mesmo –
a este mundo.

3. CEGO, SURDO, MUDO

Eu sou cego:
nunca vi tua pele,
nem essas mãos pequenas,
nem o bosque dos pêlos,
nem o desespero.
Muito menos o cerne
do teu corpo inteiro.

Eu sou surdo:
nunca ouvi tua voz,
teus apelos silvestres,
nem o riso sutil
e o cair das tuas vestes.
Nem o grito de fome
a mostrar o teu nome.

Eu sou mudo:
nunca disse palavra,
nem mesmo uma letra;
nunca disse uma frase
que é vera ou se inventa.
Nunca soube uma paz,
uma luz, uma senda.

Sou cego, surdo e mudo:
e quem quiser, entenda.