página inicial do tipos

Receba por e-mail os posts de Repórter das Coisas: RSS - Assine os feeds deste blog

Archive for July of 2005

A morte da morte

July 31, 2005

E o último inimigo a ser vencido será a morte.
A morte, puta de todas as formas, contemplará o que fez,
e o que ela fez será nada.
Nessa hora a morte há de chorar
como a criança chora ao nascer,
mas ninguém lhe dará ouvidos – pois será a morte.

E o último inimigo a ser vencido será a morte.
O medo, a culpa, a dor e o desespero
vão caminhar como sombras
para o limbo, acompanhados do tempo.
Nunca mais verão Belém, Nazaré, Cafarnaum,
nunca mais verão Sião.

E o último inimigo a ser vencido será a morte.
Ela que teve pai sem nome, mãe sem nome,
que teve mais de mil milhões de filhos, agora todos mortos,
a morte, numa última esperança, tentará amar,
mas será tarde: nada encontrará no limbo de si mesma.
E a morte será vencida – o último inimigo.

Comentário de um leigo

July 31, 2005

Acabei de ver Sin City. Diversão de primeira, além de Clube Irmão Caminhoneiro Shell (Bronson style, no dizer dos amigos curitibanos). E mais não digo porque nada entendo de HQ.

O escritor

July 30, 2005

Um escritor nada tem a perder.

Se tem algo a perder, não é um escritor.

Se o escritor ama a mulher, e a mulher o deixa; se um escritor perde a mãe, o pai, o irmão, o emprego, a reputação, a saúde – nada disso importa.

Tudo que ele perde será objeto de sua escrita.

O escritor é um vampiro de si mesmo.

A profissão do escritor é se perder.

O escritor está perdido de saída; o escritor é um coitado.

Retorno ao mar de lama (já estivemos longe dele?)

July 30, 2005

Londrina, mais uma vez, é vergonha nacional. Juro (já havia jurado, e lamentavelmente quebrei o juramento) nunca mais votar em ninguém, sobretudo se o argumento for aquele de “sempre há um menos pior”.

Não há.

*****

É incrível como São Francisco de Assis, um dos santos mais queridos do cristianismo, tem sua memória afrontada por salteadores de todos os tipos. Quando querem dizer que uma campanha gastou pouco, chamam-na de “franciscana”. Franciscana, como diria o Vidal, é meu pinto de óculos! A não ser que se retire de contexto aquele verso da oração de S. Francisco, mais uma vez conspurcado pelos demônios: “É dando que se recebe”.

Não há, não há.

Nomes para o meu bar

July 28, 2005
Charles Bukowski (1920-1994)

Estou pensando em abrir um bar, assim que deixar de beber (pois, como ensinou meu velho, “o dono do boteco não bebe”).

Procuro nomes para o estabelecimento. Em colaboração com amigos, já pensei em alguns:

– Bar Baridade
– Bar Ulho (hardcore)
– Bar Bitúrico
– Bar Ata
– Bar Riga (por motivos óbvios)
– Bar Ganha (para políticos)
– Bar Guilha (com strip)
– Bar Mitzvah (com porções kosher)
– Bar Ato (atrairia tanto os duros quanto os hippies e a classe teatral – hein, hein? Hã, hã?)
– Bar Anga (slogan: “Onde beleza não põe mesa” – poderia substituir certos bares de Londrina)
– Tin Rá Bar
– Bar É (patrocinado pela Baré Cola)
– Bar Batana (especializado em peixes e frutos do mar)
– Bar Bante (slogan: “Nesse eu me amarro!”, com a imagem de uma bela praticante de bondage)
– Bar Cafurada
– João Sebastião (infelizmente já existe um Johann Sebastian Bar...)

E o que mais me agradou até agora:

Inferninho do Briguet

E aí? Tenho chance no ramo? Aguardo novas sugestões. Mas, enquanto não largo a bebida, vamos a mais uma Quinta Sem-Lei no Bar Brasil. E mais não digo porque não sei.

De quatro

July 28, 2005

Quatro versos são suficientes para falar sobre várias coisas: Brasília, cultura, ruídos, política, fama, consumo, retórica, julgamento, CPI, linguagem.

Por exemplo:

Exemplo é bom,
ninguém duvida.
O mau exemplo
é que fode a vida.


Leia mais aqui.

E assim pelo erro eu rumo

July 27, 2005
Durmo nas horas erradas,
nas horas erradas desperto.
Falar, falo tanto e tão alto
nos minutos equivocados.
Do erro moro tão perto,
do fundo estou a um passo.

Escrevo naquele tempo
– pretérito mais que imperfeito –
nada mais que inoportuno.
E assim pelo erro eu rumo
como quem é cego,
como quem é surdo,
como quem anda ao léu pelo mundo.

O importante não vejo,
tampouco o essencial.
E, quando acordo, meu sono
é forte, pesado, irreal.
E, quando acordo, meu sono
é da natureza do mal.

Já não acho mais que o erro
é apenas meu vizinho.
Agora ele é habitante
do cerne de meu caminho.
Durmo nas horas errantes
em busca do sonho perdido.

Elogio à memória

July 25, 2005
Aos amigos de Curitiba.
O referido é verdade e dou fé.


Sem você, memória, o que eu seria? O ar ocupado por um corpo. Móvel, porém mais condenado que o rabo da lagartixa sem a lagartixa.

Sem você eu seria um suco de sangue. Um dia útil perdido entre o feriado e o sábado. Eu seria o gole de pinga amarela, o veneno do jabuti, a mão amputada de um manequim, a churrasqueira na casa de um vegetariano radical.

(E você sabe o que um radiologista disse para o outro? OI, MEU CHAPA!)

Sem você eu não tiraria a soneca na mesa da sala do Yuge, diante das bebidas (inclusive aquele rum Bacardi que tem o pirata no rótulo), enquanto faltava eletricidade. Bzzz. Bzzz. Yuge não gosta de piada, mas tudo bem.

Sem você, nada de feijoada no Jabuti com Janaína, a Ávida. Nem chuva, chuva, chuva. Nem nada.

Sem você não haveria cor nos gramados de Curitiba, nas cercas de Curitiba, nas janelas de Curitiba, nas águas-furtadas de Curitiba, nem no céu cinza de Curitiba. Nem mesmo o frio de Curitiba teria cor não fosse você.

Sem você eu não sonharia ser um homem que desembarcou na Normandia, 95% de chances de mortalidade, conforme o Spielberg mostrou.

Sem você eu não passaria de um 386 abandonado no depósito à fúria e ao mijo de 16 ratazanas.

Não imitaria crianças, não invocaria o Mr. M, mestre de todos os mágicos, príncipe dos sortilégios, paladino mascarado.

Dificilmente ouviria o Robin dizendo ao Batman interpretado pelo Adam West que ele é um filho da puta. Tampouco presenciaria o seguinte diálogo entre a dupla dinâmica:
– De onde você tirou esse escudo dobrável, Batman?
– Não banque o engraçadinho, Robin. É lógico que foi do cu.

Quê? Paulo? Antônio? Briguet? Lourenço? Hã? Quê?

– Quem é você?
– O Chiro.
– Quem?
– O Chiro, caralho!

E Marcelo Rocha acorda, ainda nem lavou o rosto e diz, antes de bom-dia:
– Eu sou bonito.

Não iria à escola para ver as pernas morenas da Adrianaça da Alameda Barros, muito menos para me masturbar na toalete pensando na Gislaine Coqueirinho e na Simone Peituda.

Sem você – isto que está – eu não escutaria claramente as vozes de Tia Celina, Tio Alcides, vô Briguet, vó Maria no natal de 1978, na sede de uma fazenda onde havia uma piscina cheia de lodo.

Sem você eu não seria mais do que um carbono solto na galáxia do Pilarzinho menor. E nunca andaria de Galaxy – aquele carro bebia que era uma desgraça.

Onde a fábrica abandonada? Onde as barrigas de chope e de nenê? Onde eu preso no anfiteatro com a Marienne gostosona? Onde a russa Alessandra, Alejandra, Alexandra, sei lá? Onde bucet, bucet, bucet?

Sem você eu seria um ator cujo papel é fazer parte de uma multidão, sem você eu seria uma colisão entre dois parafusos cegos.

Não fosse você a vida teria o peso de um piolho sobre um oceano, e de um oceano sobre um rabo de lagartixa sem a lagartixa.

Sem você eu não beberia uma gota de álcool durante a discotecagem da Paula Schütze (namorada do Aitel, alemão grandão) em Curitiba, Paraná, Brasil, América do Sul, Terra, Sistema Solar, Via Láctea, Universal Pictures, versão brasileira Herbert Richers, a chance... to surviiiiiive (treme tudo, tudo, tudo).

Não fosse você não me daria conta de quão sou tosco. E não animaria festinhas.

Sem você não tentaria ouvir um telefone mudo – ou não leria um poema de Cecília Meireles no banheiro – ou não imitaria um cachorro com sentimentos ambíguos (choro & rosnado, choro & rosnado, rosnado & choro).

Sem você eu não teria amigos nem diria que ainda não chegamos a Londrina.

Um ministro sem pasta, um doente sem sintoma, um rei sem reino, um bêbado sem birita, um profeta sem anjo, um analfabeto diante da máquina de escrever – tudo isso aê sem você.

E então o sorriso da morte. Um pássaro voando até morrer dentro de um baú de amianto. Um pássaro morto, as marcas de sangue, o suco de sangue. Um burro morto. Um cavalo entre as máquinas da morte. Sem você eu seria a morte. Em Curitiba, em São Paulo, em Londrina, em Sabáudia, eu seria pedra o resto da vida. Vida, sem você?

E ainda perguntaram o que eu fui fazer em Curitiba. Ora, ora, é muito simples: fui lembrar do que não havia. Mas havia.

O tempo do tempo

July 22, 2005
O tempo não é a história.

É preciso retirar toda a história do tempo.

Ele deve ficar puro como o enigma.

*****

O tempo não é uma sucessão de acontecimentos.

Quem pensa assim está hipnotizado pela realidade.

(Realidade, ou aquilo a que damos tal nome.)


*****

O tempo real não existe, muito menos o tempo virtual.

*****

Comunismo, nazismo e fascismo foram crimes cometidos em nome de um falso tempo.

*****

É preciso separar aqui o tempo real do tempo de verdade.

*****

É preciso também separar aquilo que entendemos por tempo do tempo de verdade.

*****

O tempo não é feito de horas, dias, segundos, minutos, milênios.

*****

No tempo do tempo, um centésimo de segundo pode durar mil anos; um minuto pode consumir duas semanas e três dias e vinte e duas horas, voltando ao passado; um milênio pode ser um átimo inapreensível até mesmo por cronômetros quânticos.

*****

E o tempo do tempo não tem essa circularidade que lhe atribuímos, enganados pela cegueira dos sentidos. Ele tem uma ordem, mas esta é inapreensível pela inteligência humana. Só é vislumbrada, mesmo assim de relance, nos atos de fé, de morte ou de amor. As palavras estão gastas; o tempo, não. O tempo é a linguagem. O tempo é o idioma de Deus.

******

O tempo do tempo é o eternamente mesmo. Pensam que ele é um caos; tolos. O tempo do tempo tem uma linearidade diante da qual a nossa geometria não passa de um rabisco, desses que fazemos quando as reuniões estão chatas (e estão sempre chatas).

*****

O tempo. E mais não digo.

Hoje acordei disposto a algumas considerações apolíticas

July 22, 2005
Se havia algum restolho de confiança em nosso mandatário, esvaiu-se. Levei cinco dias para digerir a vergonhosa mutreta das respostas “coincidentes” de sua “entrevista” com as declarações dos dois vigaristas mais evidentes da hora. Temos aí um não-presidente com um ano e meio de não-mandato.

*****

Alguns acreditam que a reforma política vai resolver alguma coisa. Não me digam bobagens! A reforma será feita e continuaremos o mesmo país de excremento, com os mesmos políticos de excremento. Não há fórmula razoável para comer um quilo de merda.

*****

Alguém tinha dúvida quanto ao Duda?

*****

Ontem não fui à Quinta Sem-Lei. Mas havia motivo.

*****

Eu vou pra Maracangalha, eu vou...

A mãe (e o filho) de todas as crises

July 20, 2005

Desde que nasci, escuto falar em crise. Um dia, passei a entender que a crise era a própria vida. E passei a me chamar Homo crisis.

Direto dos anos 70...

Balangar... é uma arte

July 18, 2005
Leiam isto, que saiu hoje na “Ilustrada” (FSP), sobre o artista americano Bruce Nauman:

“Coxando (Azul)”, de 1967, sua primeira obra individual, um neologismo a partir do título em inglês “Thighing”, mostra o artista manipulando, por dez minutos, sua própria coxa, como se fosse uma massa a ser transformada em objeto escultórico. Outro trabalho, “Batendo Bolas”, apresenta Nauman manipulando seus testículos, aproximando-os do chão.”

Mestre Tanga, eu sei que cometo as minhas faltas-de-enxada, mas isso que acabamos de ler está além de qualquer medida. Nem mesmo um pelotão de camponeses, munidos de uma frota de tratores Massey Ferguson, daria conta de tanta data para carpir.

Como diria Denise Stoklos: “Viver é um artxxxiiiiiiiiiiiiii”.

Balangar o saco, também.

Restos e sobras

July 18, 2005

De restos e sobras
é composta
a coisa que sou
e está viva, agora.

Sou o que restou
dos paulos e briguets
que não falavam
minha língua,
mas tinham meu olhar
de peixe morto
inconfundível.

Sou o que sobrou
de algum carbono,
alguma pele,
alguma angústia
há muito sepultada
na fina argúcia
da madrugada.

De restos e sobras
eu sou feito.
Por isso é que sou só:
só um defeito.

Se o elefante voasse

July 16, 2005
Hoje quem assopra as velinhas (não as velhinhas...) é Preto, também conhecido como Ranulfo Pedreiro, companheiro de trabalho, de casa, de estudos, de bar e, agora, de Tipos. Durante seis dias do ano, ele tem a mesma idade que este escriba. Ocorre que ele é 359 dias mais velho. Parabenzaço, que ele merece. Aliás, stop wells!

*****

Curiosa canção que meu pai me ensinou na infância:

Se a papoula cheirasse,
seria a rainha das flores.
Se a papoula cheirasse,
seria a rainha das flores.
Mas, como a papoula não cheira,
não é a rainha das flores.

Se o elefante voasse,
seria o rei dos insetos.
Se o elefante voasse,
seria o rei dos insetos.
Mas como o elefante não voa,
não é o rei dos insetos.


*****

Depois perguntam.

*****

Fui ao show do Roupa Nova. Ordens da chefia – coisa que não se discute, cumpre-se. Os caras são velhos. Começaram em 1970 (ano em que este escriba conheceu a luz). Uma coisa eu posso dizer: eles são bem melhores (e menos pretensiosos, e mais assumidamente bregas) que o Skank. Nem a chefia conseguiria me levar a um show do homenzinho Playmobil (“são diversas aventuras no mundo Playmobil...”).

*****

Mas que foi puxado, foi. Bom que hoje tem uma combinação de coisas que este escriba acha ducas: churrasco à tarde e João Sebastião à noite. Belesma.

*****

E passemos à enxada.

O RATO

pois não há destino
mais ingrato
que o do rato
perseguido pelos cantos
por todos meninos
mercê das ratoeiras
mestre das sujeiras
rato entre os vivos

condenado para sempre
a viver no esgoto
odiado e ignoto
condenado para sempre
a morte ao veneno
bicho tão pequeno
e tão repelente

não há ser entregue
a tão ingrata sorte
o que todos querem
é causar-lhe a morte

foco de doenças
alvo de rancores
e fúrias intensas
falto de amores
e de recompensas

ouso aqui dizer
em voz clara e alta
que duro é viver
esta vida rata!

sinceramente foda-se

July 15, 2005
já passa da hora
de apertar a tecla do foda-se
de deixar
como um sonâmbulo cego
tudo pra trás
e que tudo se foda

já passa da hora
de gritar não tem mais jeito
de acabar de uma vez por todas
com o bom senso
o bem mais partilhado
foda-se

foda-se tudo
foda-se a rima foda-se o verso
foda-se o estilo foda-se o mérito
foda-se a noção foda-se a nação
foda-se a vírgula foda-se o ponto
foda-se o universo

foda-se o homem a mulher se foda
foda-se a humanidade
sinceramente foda-se

e tudo de belo que eu tinha a dizer
foda-se
e a obra magna que ousei prometer
foda-se
o pensamento a coerência a lucidez
e principalmente
a verdade fodam-se
até o fim dos tempos foda-se
fodam-se todos de uma só vez

foda-se a sexta neosaldina
fodam-se os 35 anos
e a paixão não consumada
e o telefonema no meio da noite
e a carta por responder
e o trabalho por fazer
e o livro a escrever
e o prazo e o dinheiro
e a conta e a justiça
e o encanador e o entregador
de gás e de pizza
e a dor também foda-se

foda-se tudo
meu amor
foda-se o mundo
que não passamos de fodidos
todos nós
no fundo

e antes tarde
do que nunca
foda-se você
briguet!

Questã de ordem

July 14, 2005
Ontem um leitor do blog deu uma interessante definição para este que ora escreve: “Paulo Briguet é poeta falido de quinta”.

Supimpa!

Falido, é inegável. Há vários anos freqüento os patamares mais baixos do saldo negativo. Não fosse a esmola do cheque especial, eu já teria morrido de fome e, logicamente, de sede.

De quinta, sem dúvida. Quinta-feira é o meu dia predileto, como todos estão Marcos Valério de saber (foi fraca, mas não resisti). Quinta é o melhor dos dias da Criação. É como diz o muro em frente ao Bar Brasil: “Moro na favela e não me invergonho disso”.

Só não concordo com uma parte: esse negócio de chamar neguinho de poeta só porque ele escreve em linhas separadas é de uma breguice ímpar. Até o Peixoto e o Alvarenga sabem que eu sou cronista e trocadilhista.

*****

Por falar em quinta, uma questã prática. Recomendo aos vagabundos e garotas espertas da QSL que cheguem hoje ao local de trabalho com algumas horas de antecedência - por volta das sete e meia. Ocorre que tem final da Libertadores e os nativos ameaçam ocupar nosso balcão. Não vamos esmorecer, mestre Tanga! Dom Corleone, força máxima!

*****

Hoje vou levar algumas letras completas da introdução ao Hino Nacional Brasileiro, que, como diria uma operadora de telemarketing, foram “disponibilizadas” pelo amigo Kadu, sempre atento.

*****

Se alguém tiver aê uma letra do Hino em kaingang (eu sei que existe), peço a gentileza de ma emprestar, para que possamos cantar alegres e felizes.

*****

Se alguém quiser ensaiar a letra da Introdução ao Hino, ela está aqui no

Read more

Compaixão

July 13, 2005

Sinto uma enorme compaixão de tudo
na solidão das circunstâncias várias.
Dos que se pensam fortes, vis, astutos,
e não se cansam das catilinárias.

Dos que se afundam, compaixão crescente;
dos vigilantes nos museus vazios;
dos que se esquecem, dos que lembram sempre;
de um devedor do Banco do Brasil.

Se pedem beijo pelo telefone,
ou contam rugas na hora tardia;
se estão obesos ou se passam fome
– a compaixão me ocupa todo o dia.

Se vestem meias pretas lasseadas
para que o tempo assim se dilacere,
as mesmas pernas seguirão, coitadas,
pelo caminho de uma só miséria.

Se os sapatos foram para o asilo,
um dia o doador também irá;
e a solidão do natimorto filho
a compaixão não deixará sem par.

Samba do exemplo

July 13, 2005

Exemplo é bom



E ninguém nega



Dê um bom exemplo



Essa moda pega



Redondilha da bunda

July 12, 2005
Persigo aquela bunda
aonde que ela vá:
no Brás, na Barra Funda
ou mesmo em Bagdá.
Andança absurda
que nunca vai parar.

Persigo aquela bunda
e o ar que ela ocupa.
Persigo-a sem culpa,
no sono ou desperto.
O que mais me preocupa
é não estar por perto.

É linda, a vagabunda.
Maior que meu tesão.
É feita de colinas,
curvas e um desvão.
Persigo a bela bunda
até nas duas Chinas.

Venero aquela bunda
de forma sem igual.
Jamais é a segunda:
é sempre a maioral.
(No fundo, lá no fundo,
quer encontrar meu mal.)

Então consigo vê-la
tal qual constelação,
que, assim tão parelha,
no céu não tem mais não.
Meu medo é perdê-la
sem lhe passar a mão.

De suportar a vida

July 12, 2005
Para Paula


Há algumas coisas que nos fazem suportar a vida.

Um bom gole d’água quando se acorda de ressaca no meio da noite.

Um prato fumegante de arroz e feijão (o feijão tem que ter caldo grosso).

Ir ao cinema com o Zé e a Carla em São Paulo. Depois tomar um chope com eles, num dos botecos da Vila Madalena.

Passar um domingo com você, mulher.

Reler um poema do Herberto Helder.

Reler um conto do velho conde Tolstói.

O braço de uma bela moça – arrepiado de frio.

Um papo com a Janaína Ávila no Magdalena, fim de tarde.

Quando se vê Londrina de longe, na estrada.

Uma piada bem contada pelo mestre Tanga.

Brincar com minha prima de um ano.

Tirar uma daquelas músicas-chiclete da cabeça ouvindo o Concerto Brandenburgo número 3, do João Sebá.

Mulher bonita acordando.

Um Fusca azul em bom estado de conservação.

Dormir na mesa quando se está cansado.

Dormir na sala – cobertor e TV ligada.

Ler um salmo.

A partir de hoje, uma dessas coisas que nos fazem suportar a vida não poderá mais ser feita: ler o blog da Paula Schütze. Digo três vezes: é uma pena, uma pena, uma pena. A vida se torna um pouco menos suportável. O jeito é afogar (um pouco) as mágoas (nem tantas) nma Terça Tilt (de camisa social).

É brincanagem!

July 12, 2005

Tiraram o doce da minha boca. Fui pra ouvir o João Sebastião. Mas o maestro, com a maior cara de pau, disse que houve problemas de repertório e eles trocariam João Sebastião por Villa-Lobos. É brincanagem!

****

Pra quem gosta de rock, eu faço uma comparação: é a mesma coisa que você ir a um show do Weezer e aparecer o Ira. Ou você ir a um show do Morrissey e aparecer o Wander Wildner (é assim que se escreve?). Não dá.

*****

Depois teve o Beethoven. A Quinta. Belesma, Beethoven é ótimo, mas é a mesma coisa que você ir a um estádio para ver o Pelé (Bach) jogar com o Maradona (Beethoven), e descobrir que o Pelé não pode jogar, sendo substituído pelo... Adriano! Villa-Lobos é legal, coisa e tal, mas não passa de um discípulo, aplicado, porém incomparável, do João Sebastião.

*****

É inútil chamar a polícia quando tem gente saindo pelo ladrão.

*****

– Gaúcho, qual é o seu compositor predileto?
– Bach, tchê!

*****

O cara era tão educado que, antes de dar uma banana, descascou-a.

*****

ÁRVORE SECA

árvore seca
da rua da lapa
não vês que da morte
jamais se escapa?

não vês que teus galhos
coroa de espinhos
não são mais que pedras
em meio aos caminhos?

não vês que não medras
nem tens mais as folhas
que sem primavera
não há mais escolhas?

não vês que és bússola
com mais de mil nortes
e todos apontam
pra tua má sorte?

árvore seca
maldito lugar
em que o cachorro
se nega a mijar

árvore muda
no mesmo local
que de corpo verde
se fez mineral

árvore nada
que em pé se recusa
a ouvir o silêncio
do canto da musa

árvore ave
de graça irrisória
na rua da lapa
da minha memória

Magdalena 35

July 11, 2005
Fazer 35 anos não dá emoção alguma. Isso porque ter 35 anos é absolutamente igual a ter 34. É claro que, quando completei 30, houve um certo abalo pela dupla mudança de algarismo, mas, na prática, um homem de 29 anos em nada difere de um homem com a chamada idade da razão (ou balzaquiana). Interessante mesmo seria ter a capacidade de viajar no tempo à vontade. Por exemplo: eu gostaria de ter a mente que tenho hoje – mente nada recomendável, mas é a única disponível – com 15 anos de idade, estudando no Anglo de Araçatuba. Também gostaria de saber, agora, como se sente um homem de 70 anos – se é que estarei vivo aos 70, o que no meu caso seria uma hipótese bem otimista. Eu gostaria de ter 35 anos em 1996; acho que saberia me comportar um pouco melhor diante de certa mulher. Mas a dura verdade é que só podemos ter 35 anos quando chegamos aos 35 anos. E, quando temos 15 anos, nossa idade não passa de sete lustros. A última vez em que comemorei uma idade divisível por sete foi em 1998 – e eu era um tanto diferente do que sou agora, embora as mudanças já fossem previsíveis (abandonar completamente a política, por exemplo). E tudo foi só para dizer que, depois do concerto da Orquestra do Paraná (oba, tem João Sebastião no programa), seria legal o povo amigo tomar uma cerveja no Magdalena, ou no Bar Brasil, para discutir outras questões menos matemáticas. Até porque a única forma disponível de viagem no tempo ainda é a música.

35? 35.

July 11, 2005

Hoje acordei, de caso pensado, às 7h35. É que já tenho 35 anos. Completei-os ontem. Mas só me sinto com uma nova idade hoje, dia útil. O domingo foi apenas um sonho que atravessei ao teu lado. Não foi por acaso que escolhi o filme “Sonhos”, do velho Kurosawa, para ver.

*****

35 é um número estranho. Agora estou mais próximo dos 50 que dos 20; só agora me dou conta dessa realidade matemática.

*****

É o primeiro aniversário que passo sem Maria, que praticamente me criou. Fiquei adulto sem querer.

*****

Achei que depois dos 30 eu estaria livre das espinhas e teria uma barba de verdade. Nem uma coisa, nem outra. Ainda tenho espinhas e minha barba, se a deixo crescer, é de Jeca Tatu, coisa deprimente.

*****

Meu pai disse que agora já posso me candidatar a senador, governador e presidente. 35 é a idade mínima para esses cargos. Para a tranqüilidade de todos, não me valerei de tal direito. Gosto de passar vergonha de outras maneiras.

*****

Mudou alguma coisa, de verdade? Guerra e Paz continua sendo meu livro preferido. João Sebastião continua sendo minha trilha sonora. Mas hoje, estranhamente, acordei ouvindo Haydn. Sinal dos tempos? Não: sinal da falta de enxada, mestre Tanga.

*****

35 anos. Sou um punk de camisa social e colarinho, a ouvir Bach e Haydn.

*****

Com a minha idade, Mozart já havia composto a maior parte de sua obra, e estava para morrer. Mas Mozart era Mozart – e começou com 5 anos. Se eu não me engano, Tolstói já tinha escrito Guerra e Paz. Mas Tolstói também era Tolstói. Deixemos de megalomania.

*****

Paulo, o são, diz que, no Dia do Juízo, vamos todos renascer com 32 anos – a idade que ele julgava ser a de Cristo na ressurreição. Talvez Paulo estivesse errado, ou talvez Cristo tivesse 33 anos incompletos naquela Páscoa. Seja qual for o caso, só sei que vou renascer mais novo. Haverá perdão?

*****

Sim, haverá perdão. Principalmente se lermos um belo post como este, do Zero. Obrigado, cara.

*****

E aí, Grota, você vai chamar um ator amador de 35 anos para seu novo filme? Se a resposta for não, tudo bem. Não posso olhar para a câmera.

*****

Agora vou tomar banho e sair para o mundo, pela primeira vez um homem de 35 anos. Desparabéns para mim.

Piada de mau gosto e desagravo

July 09, 2005
Enquanto os velhos militantes discutem o “patrimônio ético” do PT, o assessor do irmão de Genoíno é preso com dólares na cueca. Deu a louca no roteirista das coisas. Vivemos numa piada de mau gosto.

*****

Não sou de responder nem polemizar, meu caro Guilherme Mendes da Costa, e você sabe que eu o defendo quando acho que tem razão, mas quero aqui deixar um desagravo: Paula Schütze é dona de um dos textos mais brilhantes e criativos, não só do Tipos, como da atual safra de escritores virtuais. Só a vi uma vez pessoalmente, na Esva, em novembro de 2004, quando a presenteei com um filtrado doce de Campo Largo, e posso garantir que ela foi a moça mais agradável e simpática do mundo. Antes mesmo de conhecê-la, eu já sentia saudades dela - mais ou menos como as saudades do céu de Camões em “Sôbolos rios que vão”. Converso com a Paula por e-mail, e ela sempre é espirituosa, educada e sensível. A ironia dos seus escritos é uma qualidade literária, não uma afronta, muito menos a manifestação de qualquer patologia. Caso essa ironia tenha incomodado alguém, a réplica poderia ser irônica (como você é capaz de fazer), e não simplesmente grosseira, como você fez em seu post “Incidente diplomático”. Não temos que concordar em tudo, Guilherme, e não pretendo voltar ao assunto - mas, pronto, falei.

Criança feliz quebrou o nariz

July 08, 2005
Quando eu era criança, contava os dias para chegarem as férias. Quando chegavam as férias, contava os dias para chegarem as aulas.

*****

Criança, eu queria ser empresário. Hoje não sei nem o que é uma duplicata.

*****

Eu queria voltar no tempo, quando criança. Até o tempo em que eu não existia, e daí nascer.

*****

Eu também queria ir para o futuro, tão adiante no tempo a ponto de ultrapassar a minha própria morte. E então não morrer.

*****

Quando eu era criança, chorava se o Palmeiras ou a Seleção perdiam.

*****

Criança, eu imitava o Guilherme Arantes e o Oswaldo Montenegro, que estavam no auge. Auge?

*****

Criança, certa vez perguntei: “Mãe, o que é buceta?” Ela ficou brava.

*****

Criança, perguntei ao meu pai o que era “orgia”. Ele respondeu que orgia era “uma festa onde as pessoas cometiam excessos”. No Natal, eu vi toda aquela gente comendo e bebendo, felizes da vida, e gritei: “Que orgia!”

*****

Quando eu era criança, eu queria fazer parte do Queen. Depois, do King Crimson. Depois, do... deixa pra lá.

*****

Quando eu era criança, era muito egoísta.

*****

Quando eu era criança, tinha muito medo de Deus.

*****

Criança, não sabia que o Freddie Mercury era gay.

*****

Eu queria namorar a Adriana mas não sabia o que era namorar. Depois eu aprendi.

*****

Paulistano, brincava de elevador. E tinha medo do Homem Elefante (David Lynch dirigiu o filme em 1980).

*****

Era bom ser criança porque eu não tinha ressaca.

*****

Criança, não sentia muito calor nem muito frio. Essas fragilidades vieram depois.

*****

Ouviram do Ipiranga à Barra Funda
Dom Pedro abaixa a calça e mostra a bunda
De longe longe longe ouve o grito
Dom Pedro abaixa a calça e mostra o pinto

*****

Salve o lindo peidão da esperança...

*****

Apanho o sabonete
Escorrego na bacia
Levo um tombo do cacete
Puta piranha biscate sem-vergonha
Num mundo de (piiiii!) quente

*****

Mamãe pediu que nos amássemos, não que nos amassemos.

nova letra de rock (1996)

July 07, 2005

se eu soubesse o que é onde
se eu soubesse o que é quando
tentaria dizer ao mundo
o que é minha paixão
o que é o sangue
dentro dos gêiseres cavalares
do meu sangue

se eu soubesse o que é uno
se eu soubesse o que é vero
tentaria pedir a Deus
um pouco mais de tempo
um dom de Sol
dentro das flores corrosivas
do meu sono

se eu soubesse o que é verbo
se eu soubesse o que é luz
tentaria cantar à turba
o nome desta mulher
a mão de mulher
dentro das formas destruídas
do meu rosto

se eu soubesse o que é paz

Camisas sociais e colarinhos

July 07, 2005



Diante da lama e do sangue, até que as minhas camisas sociais são um mal menor, não é mesmo? Leia mais na crônica. É um texto dedicado a certa garota que me viu na Terça Tilt.

Hã? Hã? Hein? Hein?

July 07, 2005

O mais recente personagem do caso do mensalão se chama Jacinto Lamas. Precisa dizer mais alguma coisa?

O horror, o horror

July 06, 2005
Queres sofrer um pouco, meu amigo Fábio Galão? E aí, Rubão, andas meio masoquista? Janaína Ávila, topas uma sessão de tortura? Então, meus amigos, vejam a lista dos vencedores do Prêmio Multishow de Música Brasileira 2005:

MELHOR CANTOR
Marcelo D2

MELHOR CANTORA
Pitty

MELHOR INSTRUMENTISTA
Júnior Lima (Sandy & Júnior)

MELHOR CD
Marcelo D2 - “Acústico MTV”

MELHOR SHOW
O Rappa

MELHOR CLIPE
Pitty - “Semana Que Vem”

MELHOR GRUPO
O Rappa

MELHOR MÚSICA
“Vamos Fugir” - Skank (AAAAAAH!!!)

MELHOR DVD
Ivete Sangalo - ''Ao vivo''

Eu penso que... Eu penso que...

Eu penso que... Eu penso que... Eu penso que... se o Inferno fosse um canal de TV, seria o Multishow. Mas talvez o coisa-ruim não seja tão sádico.

Blog é cultura

July 06, 2005
Pororopororopopó. Pororoporororopopó.

Mestre Tanga, ouviram suas preces! Acabo de ler na Folhapress que o DVD “O Melhor de Chaves” chega às locadoras brasileiras no dia 26 de agosto. O pacote inclui episódios como “Baldes com Água”, “O Refresco do Chaves” e “Barquinhos de Papel”. Também tem galeria de fotos e filmografia do elenco. A dublagem será igualzinha à do SBT. “Seo Coração, o sr. tem uma grande barriga!”


Ilusões (há muito) perdidas

July 05, 2005
Fui perdendo as ilusões
assim como guarda-chuvas.
Eram ratos as raposas,
eram verdes todas uvas.

Fui deixando a utopia,
que não é flor de cheirar:
tanto que seu endereço
é mesmo nenhum lugar.

Minha ilusão se foi antes,
bem antes da CPI.
Mandei-as para um lugar
longe, bem longe daqui.

Tanto é que não votei
na piada socialista.
Há muito tempo já sei:
eles querem é avalista.

Mensalão, ó mensalão,
onde estás que não respondes?
Voltaste aos intestinos
ou viraste alguma ONG?

Os assaltantes do céu
em pouco estão diferentes:
antes assustavam bancos,
agora assaltam a gente.

Tem dias

July 04, 2005
Tem dias em que nada resolve. Nem poema, nem bebida, nem comida, nem Neosaldina. Nem amigos, nem namorada, nem pai, nem mãe. Nem trabalho, nem diversão, nem uma crônica do Rubem Braga. Tem dias em que nem o sexo, nem o futebol, nem um copo d’água. Tem dias em que nem o antidepressivo, o suco de maracujá, o Madalena com Janaína. Tem dias em que nem o Paulinho da Viola, nem o Amadeus – meu Deus! –, nem o João Sebastião. Tem dias em que só o tempo.

Poema anoréxico fashion

July 01, 2005
Garota, garota,
que fim vai levar
seu dom de viver?
Pra que essa roupa
se a carne é tão pouca
no que é você?

Por que este rosto
bonito e perfeito,
se já o seu osso
se expõe ao relento?

Por que tantos flashes,
garota da capa,
se o tempo lhe falta
e o corpo padece?

A fama e a grana
são folhas ao vento.
Eu sei que magreza
dá bom caimento.
Mas você se engana,
garota estelar,
ao antecipar,
com feia beleza,
o próprio esqueleto.

Camisa social (tempus fugit)

July 01, 2005

Noto que a minha nova empregada, filha da anterior, faz muito bem o serviço doméstico, mas não sabe passar direito os colarinhos das minhas camisas.

Eis a prova definitiva de que estou velho. Só um homem velho (e um tanto fútil) pode se preocupar com colarinhos, ainda mais numa sexta-feira.