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Archive for June of 2005

Vó Maria

June 30, 2005

A crônica da semana é uma homenagem. A ela, Maria.

Enxada!

June 30, 2005

Hoje cedo eu não conseguia achar o livro de Walt Whitman, que comprei em 1986 (isso mesmo: em 1986!). Comecei a chamar: Walt Whitman! Walt Whitman! E o livro imediatamente apareceu bem diante do meu nariz.

*****

Os taxistas acharam o Totó. Pelo menos uma boa notícia. Além dos 4 x 1 na Argentina, é claro.

*****

Que puxa, como diria meu ídolo, Charlie Brown.

*****

Amanhã à noite, São Paulo aqui vou eu.

*****

É. É Quinta Sem-Lei. Que Nossa Senhora dos Bêbados nos proteja – e mais não digo.

Desaparecimento de Totó

June 29, 2005

Algum vagabundo, salafrário, sem-vergonha roubou Totó, o cachorro vira-latas adotado pelos taxistas do ponto da esquina.

Os taxistas levaram o Totó ao veterinário, botaram roupa, construíram casinha, deram comida e até fizeram tratamento dentário no bichinho. E agora vem um vagabundo e rouba o Totó.

É claro que os taxistas, entre eles o Boa-Gente, estão inconsoláveis.

Por isso eu faço um apelo: Sr. Vagabundo, devolva o Totó. Há tantos cachorros no mundo. Por que logo o Totó?

Poesia no Kutuvas

June 29, 2005

Até mesmo o Kotovelo´s Bar - o velho e bom Kotovelo´s Bar! - virou espaço cultural.

Acredite quem quiser: amanhã (quinta-feira), às 21h15, a atriz Nancy Macedo vai recitar poemas de Sylvia Plath, Neuza Pinheiro, Paulo Leminski, Márcio Américo e Leonardo Leon.

Onde? Onde? Onde? No Kotovelo´s.

É brincadeira! Já não sei mais de nada.

*****

Pensando bem, o Kutuvas combina com Bukowski.

*****

Quase me candidatei a uma vaga de ator no filme do Grota. Pronto, falei.

*****

A colunista da Folha de S.Paulo diz que a tendência pede modelos com “cara de passarinho” na São Paulo Fashion Week. Na próxima temporada, quem sabe, a moda pedirá moscas e moluscos. Anoréxicos, é claro.

Serra visita a São Paulo Fashion Week

June 28, 2005
Bento Carrneiro. Vampiro brasileiro!

Não bastassem os esqueletos na passarela, eis que surge... o mordomo da Família Adams!
É o horror, é o horror.

Mínimas

June 28, 2005

Nada em excesso, meu velho. Nem a moderação.

*****

Falcão era o rei do futebol de salão. Foi para o São Paulo e virou o mendigo do futebol de campo. Decidiu voltar a ser rei no futsal.

*****

Isso me lembrou aquela reflexão de Pascal. Quem é mais feliz: um rei que sonha todas as noites ser um mendigo ou um mendigo que sonha todas as noites ser um rei?

*****

Hölderlin dizia que um homem é um deus quando sonha e não passa de um mendigo quando pensa. (Esse trema do Hölderlin tá no lugar certo?)

*****

Falcão era um rei no futsal; queria ser um deus do futebol; virou mendigo e teve que contentar-se com o seu reino anterior. Será que Falcão sonha todas as noites ser um deus do futebol de campo e, quando acorda, torna-se “apenas” um rei do futebol de salão? Isso é triste? Isso é triste – ou inevitável?

*****

Quando a Terça Tilt começou a fazer sucesso, sujeitos que usam camisa social (como eu) passaram a frequentá-la. Mas quando sujeitos que usam camisa social (como eu) passaram a frequentá-la, os freqüentadores da Terça Tilt passaram a dizer que ela está decadente. Daí que a decadência parece ser uma conseqüência inevitável do sucesso. Isso é triste?

*****

Moderação. Mas não em excesso.

Prosseguimento do mundo

June 27, 2005
O que me assusta – a ponto de me revoltar – é o prosseguimento das coisas. Maria morreu, Maria morreu, será que o mundo não entende? Mas os faróis amarelos continuam acendendo depois dos verdes. Mas a tabela do Campeonato Brasileiro não foi alterada. Mas os humoristas continuam fazendo piadas toscas na Rede TV. Mas a Marcele Bittar e a Ana Claudia Michels continuam desfilando seus raquitismos na Fashion Week. Mas a Bovespa continua operando em leve queda. Mas a apresentadora continua falando bobagens sobre a recente parceria entre Zezé Di Camargo e Caetano Veloso. Mas o mundo continua em pleno funcionamento – isso é que me assusta e revolta! Infame prosseguimento do dia, infame prosseguimento da noite. Maria nasceu em 1918, viveu 86 anos, era boa, era justa, amava e era amada – não bastaria isso para uma transformação irreversível na ordem das coisas? Agora mesmo, neste momento, no exato instante em que eu digitei a penúltima vírgula antes desta, morreu mais um justo no mundo. Um justo da mesma cepa que Maria. E, no entanto, nada aconteceu! Os relógios e as rodovias, os prostíbulos e os seminários, as máquinas de videopoker e as incubadoras de negócios teimam em funcionar com precisão religiosa. O planeta segue em velocidade de cruzeiro, como se nada tivesse acontecido. E aconteceu.

*****

Porém, numa curva do minuto, dentro do ônibus, observando uma senhora com cabelos ensebados e sandálias havaianas, que carregava uma sacolinha plástica de conteúdo indefinido (mas prudentemente fechada com um nó nas alças), eu me acalmo e me tranqüilizo com a própria voz de Maria em meus pensamentos: “Deixa disso, filho. Eu não quero incomodar. Deixa disso. Não se preocupa comigo!” A humildade de Maria, a simplicidade de Maria. Tudo que ela menos queria era mudar o mundo.
E o infame prosseguimento das coisas, aquele que até poucos segundos atrás era meu susto e minha revolta, passa a ser o meu consolo.

Claro dia clara noite

June 27, 2005
Claro dia clara noite,
hoje não vou mentir.
O que direi é tão simples,
sem ouros, sem requintes,
que se explicará por si.
Claro dia clara noite.

Claro dia clara noite,
me deixe falar um pouco.
A morte me orienta
como a pulga cinzenta
no pêlo do cachorro louco.
Claro dia clara noite.

Claro dia clara noite
é antes mais o depois,
é o dentro, é o fora,
a estória ou a história,
é o feijão com arroz.
Claro dia clara noite.

É bem fácil de entender
claro dia clara noite:
não é de verso o açoite
pra sangrar até morrer,
é apenas um só jeito
de conversar com você.

Claro dia clara noite
não bebeu nem endoidou:
descansou por oito horas,
bem almoçou e jantou,
e agora um bom trabalho
tenta fazer com amor.

Claro dia clara noite
já se despede em Maria.
Mas, na hora apropriada,
uma outra vez surgiria
pra terminar a empreitada,
clara noite claro dia.

Adeus, vó Maria

June 23, 2005

Amigos:
Este repórter cumpre o dever de dar a notícia mais triste de sua vida.
Maria Costa Briguet, sua querida avó materna, morreu hoje, por volta das 8h50, aos 86 anos, em Araçatuba (SP).
Não se preocupem, estou bem.
Ficarei uns dias fora do ar.
É isso.

*****

“...meu Deus, que é a morte? Até quando, longe de mim, já sob a terra que agasalhará seus restos mortais, terei que refazer neste mundo o caminho do seu ensinamento...?” (Primeiras palavras de “Crônica da Casa Asssassinada”, de Lúcio Cardoso, o romance que eu estava lendo.)

Carta ao estudante Paulo Briguet, 20 anos

June 21, 2005
Se eu voltasse 15 anos no tempo, é quase certo que eu brigaria comigo mesmo. Então, resolvi escrever uma carta. Está aqui. Se alguém me encontrar com 20 anos de idade, é favor entregá-la ao destinatário.

Sem ódio

June 21, 2005

Hoje acordei sem ódio.
Não quero mal ao mundo,
não quero mal à gente.
Não quero mal ao Delúbio
nem ao pífio presidente.

Hoje acordei sem mágoa.
Não me afeta o José,
não me afeta o Roberto.
Que me chamem de mané:
nunca fui mesmo esperto.

Hoje acordei sem fúria.
Curioso humor, o meu,
sem de raiva um objeto:
amo muito o Dirceu
e a mulher do Costa Neto.

Hoje acordei sem fel.
Podem roubar milhões,
podem cortar cabeças.
Que espetem os corações
na ponta das baionetas.

Hoje acordei sem mal.
Mas não pensem que é indolor
este meu triste estado.
Pois se amo o pecador
ainda odeio o pecado.

Notas da UTI

June 20, 2005
E chove. Chove tanto. Quando é que a chuva vai passar?

O médico já não tem esperanças. Eu tenho.

Ontem à noite, 11 horas, senti alguma coisa forte no peito, e achei que era você se despedindo, Maria. Não era. Talvez fosse algo morrendo dentro de mim mesmo. Estamos sempre morrendo.

A UTI é um lugar frio, inverno de luz artificial. É uma caverna de higiene, tubos, drenos e marcadores de ritmo. E você no meio de tudo isso, minha avó.

Você não abria os olhos há 72 horas. Mas hoje você os abriu, Maria.

Aqui sou eu, Maria. Seu neto mais velho. Vim de Londrina para visitar você. Andei bebendo demais e fazendo bobagens comigo mesmo, Maria. Venha, levante. Vamos pra casa. Sou eu, Maria, seu neto. Não chore. Vamos comigo pra Londrina. O resto é chuva, Maria. É chuva.

Eu não posso

June 19, 2005
Eu não posso imaginar
um cachorro ingrato.
Eu não posso imaginar
uma flor sem forma.
Eu não posso imaginar,
no cair da tarde,
um amor de milênios
e uma estrela morta.
Eu não posso pensar
no que vi três vezes:
o medo de Pedro
no passar dos meses.
Este galo inútil,
animal sem par,
hoje me recuso
a imaginar.

O que é que eu fiz comigo?

June 18, 2005

Deus, o que é que eu fiz comigo?
Por que é que eu fiz assim?
Por que, fazendo a barba,
o que eu vejo é um cara
tão diferente de mim?

E o que dizer das roupas,
sujas, rasgadas, tortas,
mortalhas quase tão rotas
quanto mil línguas mortas?

O que é que eu fiz comigo?
Por que é que eu faço isso?
Por que não me internam
no mais próximo hospício?

Meu Deus, e esses livros,
que deixo no criado-mudo
e me encaram, impassíveis,
quando retorno do mundo?

Me corto fazendo a barba;
danço em pleno cabaré;
arrumo briga no bar.
Meu Deus, como é que é?

Senhor, mas que tortura,
que puta dor de cabeça,
onde é que se encontra a cura
pra tão suicida doença?

Deus, o que eu fiz comigo?
Deus, por que eu vivo assim?

Mundo dos mortos

June 18, 2005

Quando eu acordar do mundo dos mortos,
não terei este rosto nem esta voz,
não terei esta letra, nem esta língua,
esta cicatriz de nascença, estes nós
das mãos, estes joelhos malferidos,
estes pés que de andar estão perdidos.

Verei uma luz, mas não com estes olhos,
que a terra há de arrancar e comer.
Não terei esta cor, não terei estes ossos,
pelo chão os meus trapos não vou recolher.
Não terei este gosto e o zumbido medonho
que me acorda na última parte do sonho.

Quando eu acordar do mundo dos mortos,
não terei casa, trabalho ou dinheiro.
O mar vai apagar os fogos
que acabaram com meu corpo inteiro.
Não terei mais a dor, a febre, a doença:
serei só uma forma suspensa.

Letra de rock (1992)

June 16, 2005
Eu podia estar aí roubando,
eu podia estar aí matando,
mas estou só implorando
um beijo
- um beijo e uma noite em minha cama.

Se dão a mão quero o braço,
se dão o braço quero as pernas,
se dão as pernas quero a alma.
Eu sou daqueles.

Eu podia estar aí mentindo,
eu podia estar aí fingindo,
mas estou só insistindo:
um beijo
- um beijo e a verdade para sempre.

Eu sou daqueles.

Memórias do gozo 1996

June 16, 2005

Você refez
meu gozo e meu tempo,
altíssima puta,
com carne e silêncio.

Meu sono é imenso,
dulcíssima Sara.
Sua boca me engole,
sua mão me ampara.

Você me deixou
sozinho na rua,
puríssima dama.
Mas agora a luta
vai ser nesta cama.

Quanto mais boa-noite,
mais é madrugada.
É aí que se esconde
meu hoje meu nada.
Altíssima fonte.
Putíssima fada.

Considerações errantes

June 15, 2005

Quando Lula deixar o cargo (seja agora, seja em alguns meses, seja no final do mandato), o PT passará pelo mesmo ostracismo que o Partido Trabalhista inglês viveu a partir de 1979. Ficará uns 25 anos fora do poder, até aparecer um Tony Blair da vida (à moda brasileira, é claro; ou seja, bem pior que o original).

*****

E eu vi a mulher gorda. Comia pastel e tomava vitamina no shopping. Conheço várias gordinhas que vivem bem, muito obrigado. Mas aquela mulher, não. Mais de 120 quilos. Os olhos tristes; as mãos vagarosas; o cabelo pintado, seco e ralo. Eu vi a mulher gorda debaixo de um imenso vestido azul-claro, carregando uma bolsa melancólica de tão pequena. Quase escutei os movimentos internos de seu corpo. Eu vi a mulher gorda. E por ela senti um estranho, indefinível amor.

*****

Até que eu gostava da Daniela Cicarelli. Mas, agora, quando passo por uma das dezenas de fotos que a retratam nas revistas, não consigo mais ver uma garota bonita.

*****

Ah, esses músicos peruanos do Calçadão! Alguém já notou que eles não tocam mais? Tudo que eles fazem é botar o CD no aparelho e ficar olhando para o povo com aquele jeito de músicos peruanos do Calçadão. É tudo playback!

*****

Longa vida ao Vidal!

*****

Paulinho da Viola, o príncipe em pessoa, toca neste sábado em Londrina. Não é preciso gostar de samba para gostar dele. É um cara que está muito acima das circunstâncias mundanas. Louvado seja.

*****

Hoje tem Noite Latina. Deus me proteja.

*****

Madrugada sem sono, liguei a TV. Estava passando um documentário sobre o Rubens. Não era o Rubens de Falco, nem o Rubens Bueno, nem o Rubens Ewald Filho, nem o Rubens Barranquelo. Era o Rubens pintor.

*****

Focalizando alguns detalhes das telas de rubens, o documentário dizia que ele antecipou, de certa forma, os movimentos futuros das artes plásticas. Como mensagens subliminares, os quadros de Rubens carregam em si elementos do que viria depois: impressionismo, cubismo e até as fotos astronômicas do telescópio Hubble. Confesso que senti medo. Há muito tempo não sentia tanto medo.

*****

Se isso for verdade, a música de Bach é como a pintura de Rubens. João Sebastião tem dentro de si toda a música que veio antes e toda música que viria depois. Mozart, Beethoven, Debussy, Duke Ellington, Miles Davis, os Beatles, o Weezer – estava tudo lá. Se puder, um dia (uma noite, madrugada, sei lá), ouça.

Vide bula

June 15, 2005


Na crônica da semana, minhas notas de hipocondríaco. Como diria o Yuge, vai lá e desenvolve.

Comentário político com óbvias intenções fisiológicas

June 14, 2005
Por que o Lula não renuncia logo?

Pouparia a gente de muita chateação. O governo já não está governando nada mesmo (se é que algum dia governou).

O Alencar pediria o chapéu na mesma hora, já que o partido dele também freqüenta o lamaçal.

Governabilidade? Eta palavra feia. Coisa de tucano. Nada me tira da cabeça que esse termo foi inventado pelo Artur Virgílio (meu Deus, meu Deus).

Com Lula e Alencar fora do baralho, Severino subiria ao trono e nomearia José Janene como ministro da Fazenda. O ministro da Cultura poderia ser o Samuel Rosa.

Nós simplesmente esqueceríamos Brasília e tocaríamos as nossas vidas em sossego e desobediência civil (não pagar impostos, por exemplo).

No ano que vem, Garotinha ou César Maia na cabeça. Ou o próprio Severino; afinal, ele fala a linguagem do povo.

Alguém acha que seria muito pior?

A propósito: hoje é Terça Tilt.

A bunda

June 14, 2005

Doze anos depois, ele viu Susana atravessando a rua, e notou que aquela bunda ainda era boa. Uma bunda imune à passagem do tempo, duas formas esféricas e andantes, na dança azul do velho jeans apertado. Pela bunda de Susana, ele atravessaria o Canal da Mancha a nado; a Faixa de Gaza com uma metralhadora de brinquedo; a sede da Gaviões da Fiel aos gritos de Palmeiras! Palmeiras! Palmeiras!
Mas não pôde fazer nada disso: foi atropelado.

Antigênesis

June 13, 2005

Acaso você estava lá
quando eu não criei o mundo,
quando eu não fiz o céu nem a terra,
quando não dei nome aos animais
nem separei as águas das águas?
Acaso você estava lá
quando eu não disse “Faça-se a luz”
e a luz, por sua vez, não se fez,
e quando acabou o primeiro dia
e nasceu o segundo, e eu nada presenciei?
Acaso você estava lá
quando, ao sétimo dia, eu não descansei?
Não? Nem eu. Mas é tudo verdade.

Poema dos intervalos

June 13, 2005
Quem sabe o que há
entre a palavra e a boca,
a idéia e o oposto,
a letra e a folha,
e, no fundo da mente,
entre o impulso desperto
e a pureza do verbo?

Quem diz o que há
entre a voz e a língua
entre a luz e o escuro,
a forma e o conteúdo,
e separa
a letra da letra,
o vento do vento,
o sapato e seu par,
continente de mar
e som de silêncio?

Entre as línguas
vai alguém mostrar,
sábio de plumas,
o que não é, de resto,
expresso nem oculto,
latente ou manifesto,
separado ou junto?

Entre a mulher e a outra,
entre o doutor e o monstro,
entre o animal e a coisa,
haverá uma lacuna
por demais procurada,
múltipla e una,
sem areia uma duna,
sem caminho uma estrada
– haverá ou é nada?

Entre e o erro e o acerto,
entre o erro e outro erro,
entre o erro mais crasso
e a certeza de aço,
haverá um tempo que não é tempo,
um átomo que não é átomo,
galáxia que, de tão próxima,
não pode ser vista no ato?

No mesmo intervalo
onde as coisas flutuam,
as mesmas perguntas
já se perpetuam.
Um dia haverá
o que existe entre.
E então nós veremos
o que houve sempre.

Poema do anonimato

June 13, 2005

Este nome que penso ser o meu
não é nada.
Este nome ao qual sempre respondo
não é meu.
Meu nome não está no Livro,
não é o nome de um ser vivo.
Nome que não é nome de fato
- a expressão do anonimato.

Poema dos 6 mil anos

June 11, 2005
Culpa e arrependimento,
culpa e arrependimento.
Há 6 mil anos é assim.
Bebi o sangue do homem,
comi a carne do cordeiro,
e, mesmo assim, Yaweh,
mereço o anjo exterminador.
Sou um judeu convertido,
escrevo como quem pede
desculpas por ter nascido.

Corpo de Cristo? Amém.
Corpo de Cristo? Amém.
Trago mirra e aloés
para aplacar o medo
do inferno dentro de mim.
Por palavras, atos,
omissões, pensamentos,
há minha miséria em silêncio.
Quebrei a tábua de Moisés,
vendi as cabras no Templo.

Yaweh tudo vê no mundo,
Yaweh tudo vê no mundo.
Até mesmo os pensamentos
que acabamos de esquecer,
Yaweh os sabe de cor, salteado,
muito antes de o mundo existir.
Yaweh sabe quantos copos tomei,
há quantas horas durmo no bar.
Yaweh é aquele que é,
e um dia eu vou acordar.

Estupidez urgentemente

June 10, 2005
Estou cansado de idéias,
farto de linguagem,
cheio de gente falando bonito.
Não agüento mais ver
pessoas inteligentes,
figuras sensíveis,
cabeças abertas, pensantes,
mentes brilhantes.

Quero um pouco de burrice,
estupidez urgentemente,
piadas sem graça, tosquice,
risadas, rimas pobres, putarias
e palavras vazias.

Quero bolinar a morena
imaginária no cantinho
e dormir de roupa,
sapato, sozinho.

Quero erros de gramática
e falta de educação.
Quero ir pro bar escuro,
beber cachaça, rum e conhaque,
vinho doce e cerveja argentina,
e na sexta-feira, meu Deus,
morrer: overdose de Neosaldina.

Dinheiro

June 09, 2005
(Em homenagem à Daslu)


Dinheiro com dinheiro se paga.

*****

O preço do dinheiro anda pela hora da morte.

*****

Respirar tem um preço.

*****

Ricos não usam dinheiro.

*****

Dinheiro na mão atrai pobreza.

*****

Todo dinheiro é sujo. Lave as mãos.

*****

O dinheiro é a comunhão do diabo.

*****

Falta de dinheiro não traz felicidade.

*****

O lastro é uma ilusão. Todo dinheiro é falso.

*****

Dinheiro é aquilo que à noite trocamos por cerveja.

*****

Pode ficar com o troco do dinheiro que eu não tenho.

*****

Pago em espécie. Humana.

*****

O dinheiro não é real. O dinheiro é a pílula azul do Matrix. Ô, remedinho caro.

*****

No Céu não há moeda.

*****

Economia é o que me impede de economizar.

*****

Trinta dinheiros fazem até o tempo começar de novo.

*****

Tempo é dinheiro. Dinheiro é a mola do mundo. Logo, o tempo é a mola do mundo.

Pássaro preto da manhã

June 09, 2005
Pássaro preto da manhã,
comentário da noite,
memória do copo de ontem,
cerca viva do desterro,
testemunha do crime inteiro
pelo qual não fui julgado na manhã,
pássaro preto.

Pássaro preto da manhã,
doença da linguagem
que é a própria linguagem,
telhado da casa demolida,
palavra solta em si mesma,
ferida ao sol, fígado exangue,
pio dodecafônico,
miséria, enredo, sangue,
tende piedade de nós,
pássaro preto da manhã.

Poema da receita médica

June 08, 2005
(Um oferecimento de Organizações Neosaldina & Pondera)


Com quantas pílulas se é feliz?
Com qual princípio ativo,
ou mesmo paliativo,
a gente engana a gente
e assim parece contente?
Vamos, doutora, me diz.

Há uma pílula para dor,
outra para o humor,
uma terceira para a vontade.
Há tantas pílulas no mundo
quanto luzes na cidade.

Comprimidos de várias cores
pra deprimidos e opressores.
O remédio do sofrimento
está no medicamento.

A pílula evita o inferno,
é a salvação dos incréus.
Felizes os frascos de espírito:
deles é o reino dos céus.

Dez razões para detestar a política

June 08, 2005

Não tem algo de errado num país em que até o filho do rei está em cana sob acusação de tráfico?

*****

O que fazer? Talvez ler o texto que um grande amigo meu fez:

DECÁLOGO DA DESESPERANÇA POLÍTICA

Read more

June 08, 2005
Uma crônica para Maria, internada na UTI.

Sem medo de ser infeliz

June 07, 2005
1. O nome diz tudo. Esse Delúbio é um dilúvio sobre o Planalto. Não é só uma chuvinha por cima.

2. Você daria um cheque em branco a Roberto Jefferson, Valdemar Costa Neto e José Dirceu? Eu daria. Não tem fundo mesmo.

3. Jefferson (Airplane? Starship?) saiu atirando a Torto e a direito.

4. Boa hora para conversar sobre voto nulo, não acha?

5. Parabéns, Simoni Saris, pelo seu aniversaris. (Já diria o saudoso Mussum.)

De costas, necas

June 07, 2005

A assessoria da Universidade mandou hoje um e-mail para a imprensa com a seguinte linha de assunto:

UEL debate sistema de costas.

Nem faço idéia do que seja o tal “sistema de costas”. Só sei que eu não vou!

*****

Comentário de um amigo: “Os anos 80 e o comecinho dos 90 eram uma época em que a gente tinha que ter jeito de viado pra pegar mulher”.

Lucidez.

O povo gosta, o povo quer

June 06, 2005

No dia em que faço um comentário político, por mínimo que seja, o ibope deste blog sobe à estratosfera. Os comentários se multiplicam.

Se publico um poema, a reação é um grande silêncio. Pouquíssimos se aventuram a comentar. Nem os detratores se animam a mostrar as facas.

Mas não adianta: eu continuo detestando política.

*****

Acabo de encontrar a Regiane Alves no restaurante. Ela é bem bonita, embora não faça meu tipo. E acredite: boa atriz. Mandou bem em “Dança lenta no local do crime”.

Apenas o óbvio

June 06, 2005

O governo Lula acabou hoje.

(...)

Havia começado?

Um enigma e um poema

June 05, 2005

Quem é mais feliz: um rei que sonha todas as noites ser escravo ou um escravo que sonha todas as noites ser um rei?

****

Temos um pouco do cego,
temos um pouco do mudo.
Temos algo do possesso,
um pouco temos de tudo.

Temos um pouco do porco
lançado à corredeira
mas não fomos ao encontro
no Jardim das Oliveiras.

Sempre às manhãs ouvimos:
“Vai, levanta e anda.”
E quase como um destino
tropeçamos na esperança.

Temos um pouco do coxo,
temos um pouco da puta.
E na paz o nosso esforço
degenera sempre em luta.

Temos um pouco de Herodes,
de Tiago, o Menor.
Temos um pouco das hordas
e da doença de Jó.

Um pouco até do demônio,
príncipe deste mundo.
E só vivemos em sonho,
em sono, sono profundo.

Temos um pouco de Judas,
temos um pouco de Pedro.
Temos as mãos imundas
que lavamos com o medo.

Na alma temos Batista.
No corpo, um fariseu.
E o que mais salta à vista
só o cego percebeu.

A Falha nossa de cada dia

June 03, 2005

O dono do melhor texto jornalístico do Paraná encontra-se atualmente desempregado.

Se alguém com esse talento é demitido, tudo é possível.

Eu fico pensando se a decisão de demiti-lo é mais uma estupidez ou mais uma burrice. Acho que as duas coisas, em igual medida.

Não tem Neosaldina que cure. Esperança zero.

Decepção

June 02, 2005

Nada feito, nada disso.
O homem não é aquilo
que estava previsto
no plano da criação.

Agarra-se à certeza
de nascer o Sol todo dia,
mas nada o salvaria
se um dia nascesse não.

Nada feito. Nada, nunca,
ninguém, jamais, impossível.
O homem não está ao nível
do sonho da redenção.

O homem vai cair em si
quando acordar bem cedo
para ver que o segredo
estava tão perto daqui.

*****

Se é verdade o que acabei de ficar sabendo... a burrice humana é realmente capaz de tudo.

Conversa

June 02, 2005

– A gente vive matando o tempo. Somos serial killers do tempo.
– É verdade, mas no final é ele que mata a gente.

Canção da UTI

June 01, 2005

1918 é longe, muito longe.
Você poderia estar cansada,
mas acho que não.
Ainda não é hora de ir, Maria.
Ainda não é hora.
Em 1918 terminou a Guerra,
morreu Debussy,
era o Ano 1 da Revolução.
Sei que é longe, bem longe.
Mas fique mais um pouco, Maria.
Ainda não é hora.
As filhas esperam na sala.
Os netos esperam de longe.
A bisneta chora, tem sonhos de nenê.
Não sabe falar, mas também diz:
– Ainda não é hora.