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Archive for April of 2005
April 30, 2005
O mundo estava ali e nós não vimos. Matisse viu por nós. Ele traduziu a vida para a língua dos olhos.
Perto de Matisse, eu me sinto cego. Cego e analfabeto.
A ilusão de ótica está em nossos olhos. Fomos condicionados a não ver. Mas Matisse nos liberta.
Ninguém sabe o que pode haver por trás das janelas de Matisse. Só ele.
As mulheres de Matisse são como esfinges a lançar um enigma eterno e irrespondível.
Há uma mulher na parede da minha sala. Com uma expressão de infinita serenidade e paciência, ela me desafia a descobrir seu nome. Não sei.
Matisse tem predileção por mulheres, aquários e janelas. Tudo aquilo que pede para ser decifrado é a matéria-prima do pintor.
Em 1894, Matisse já era bom. Ele destrói a picaretagem da maioria dos artistas “pós-modernos” e “conceituais”. Como Mondrian e Picasso, ele só destruiu aquilo que sabia construir. Ele só deformou aquilo que sabia desenhar. Ele só foi ao extremo daquilo que sabia moderar.
Matisse está para o olho humano assim como a fé está para o espírito. Ou melhor: ele transforma a visão em fé e a pintura em espírito.
Matisse flagra o que há de eterno no temporal.
*****
Seria bom morar nos quadros de Matisse.
Nós, que vemos a ditadura do feio no mundo, podemos encontrar a paz em Matisse.
*****
Deus não é só a natureza. Matisse não é só a natureza. Matisse está mais próximo de Deus do que nós.
Esse homem, como Bach, deu alegria ao mundo. Não a alegria obrigatória da mídia, da estupidez, “todo mundo batendo palma!” Nada disso. Ele nos deu a alegria de viver e contemplar o milagre.
******
“Em todo poema de Matisse há a história de uma partícula de carne humana que rejeitou a consumação da morte.”
(Henry Miller, em “Trópico de Câncer”)
E mais não digo.
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April 29, 2005
Os anos 90
foram meio a esmo,
foram meio à toa.
Eram coisa muito boa.
Quando foram mesmo?
Nos anos 90
eu tinha 20 e poucos,
não me sentia jovem.
Aqueles dias loucos
ainda me comovem.
Nos idos de 90
eu era estudante
um tanto vagabundo:
sujeito irritante,
achava saber tudo.
Ah, anos 90,
terra devastada
de riso e esquecimento.
Hoje não sei de nada,
só sei que passa o tempo.
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April 28, 2005
Hoje, na Quinta Sem-Lei (QSL para os íntimos), este escriba e o mestre Júlio
Tanga vamos interpretar uma nova canção. Tem tudo para virar um hit da grandeza de As Véia e As Hippie. Desta vez, porém, a música e a letra não são de nossa autoria (quem dera fossem!). É o jingle do Unipax (Plano de Assistência Familiar). Na verdade, é um plano de assistência funerária, mas cuidadosamente omite qualquer referência direta à indesejada das gentes. Vejam que primor de poesia e concisão:
Tem coisas na vida da gente
Que é preciso dar muito valor
Saúde, carinho, família
E amparo na hora da dor
Unipax, Plano de Assistência Familiar!
Convênios médicos com especialistas
Pra quando você precisar...
Unipax, comodidade pra sua famíliaaaaa.
Que Weezer, nada, rapá! Que mané João Sebastião! Negócio é Unipax. Eu gosto particularmente do verso
Convênios médicos com especialistas
Outro detalhe interessante é a bela regência verbal na primeira estrofe:
Tem coisas na vida da gente
que é preciso dar muito valor
É verdade: vamos dar valor à quinta-feira, essa noite sagrada. Espero todo mundo na sua, na nossa QSL. E mais não digo – só canto.
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April 27, 2005
Muito melhor o escuro do bar
do que as claridades urgentes do dia.
A ambulância leva alguém para um lado
da cidade em que é vida ou morte.
Nada no agudo da sirene me diz
se o paciente está em agonia ou salvação,
ou se – muito pior – já entregou os pontos.
Muito melhor o escuro do bar.
Muito melhor o escuro do bar
do que fazer contas na madrugada
ou preparar um relatório ao supervisor.
Melhor, bem melhor o escuro do bar
do que as mãos frias de um garoto
a espalhar pólvora quente pelos quartos
onde a lágrima já tem gosto de sangue.
Muito melhor o escuro do bar.
Deixe-me ficar, sozinho e alienado,
no fundo do escuro do bar.
A vida mora nos lugares menos previstos.
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April 27, 2005
Morrer é fácil.
Basta um tranco,
um pico, um baque.
Basta haver sangue.
Morrer é fácil,
muito fácil.
É só um momento
no meio da rua
e a morte,
em movimento,
logo senta a pua.
É só um descuido
e foi pro espaço
aquilo tudo.
Aquilo tudo
que chamávamos
de braço, de pulso,
de coração,
que chamávamos
de mundo.
E o mundo
não era nós.
Morrer, a sós,
é fácil
como carregar
um travesseiro.
Morrer parece
coisa atroz,
mas é algo
corriqueiro.
Morrer é simples,
morre-se
no mundo inteiro.
Morrer está tão
perto quanto a mesa.
Morrer é certo,
a única certeza.
Mas se morrer
é assim tão fácil
e estamos vivos;
se o milagre
de sobreviver
é então possível;
depois de tudo
acho que a vida
será eterno círio.
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April 26, 2005
Somos fracos, somos frágeis, somos vulneráveis. Somos os seres mais fracos da natureza. Não temos a astúcia da raposa, a visão da águia, o odor do gambá, o poder do leão, a beleza do tigre, o peso do elefante, a disciplina da formiga, o estômago do urubu, a fidelidade do cão, a sinuosidade da cobra, a meticulosidade da aranha, a mandíbula do tubarão. Somos as pulgas da Terra.
*****
Qualquer paixão nos arrebata, qualquer queda nos aleija, qualquer pedra nos mata. Um filósofo antigo morreu quando a águia que carregava uma tartaruga soltou-a sobre a cabeça do pobre homem. Sempre rimos da lentidão da tartaruga, mas esquecemos a dureza do seu casco. Somos o único animal que ri, como disse outro filósofo. Rimos por quê? Para sobreviver. A duração de nossa vida é um milagre estatístico. Mesmo que seja apenas um piscar de olhos da poeira do universo.
*****
Criamos deuses, anjos, super-heróis e personagens para contornar a verdade crua de nossa fraqueza. Embora o nosso destino seja o mesmo, somos diferentes, também: alguns choram diante de uma pequena amigdalite; outros resistem à tortura; um velho padre aparece na janela do Vaticano e tenta articular algumas palavras, sem conseguir. Enlouqueceríamos, não fossem essas imagens de sonho; mas o sonho é, ele mesmo, uma forma de loucura diária.
*****
Veja o meu amigo Marcelo. Foi abrir uma gaveta, a gaveta caiu sobre seu pé. Sentiu tanta dor que precisou ir ao hospital. Até agora está mancando. Marcelo não é diferente de nós. Somos fracos, somos frágeis, somos vulneráveis. Sentimos dor a cada movimento dos dedos, a cada fio de cabelo que se despede, a cada ruído que ouvimos na tarde, a cada cerveja metabolizada no dia seguinte.
*****
Para nascer, precisamos de um milagre de Deus: habitar um planeta nem muito quente, nem muito frio, situado numa franja da Via Láctea, ela própria um grão de areia na praia de um oceano cósmico. Nossa pequenez chega a ser cômica. E ainda escrevemos em blogs!
*****
Qualquer imprevisto e os ossos quebram, a carne se dilacera, a pele é arrancada. Um simples barbear pela manhã e o sangue já brota, como um poço de petróleo vermelho, das mínimas escoriações provocadas por uma lâmina ridiculamente pequena. Sem contar as bactérias, os vírus, os insetos venenosos, as ameaças invisíveis e fatais por todos os lados – freqüentemente na água que se bebe, no prato em que se come, na roupa que se veste.
*****
E mesmo assim sobrevivemos – sobrevivemos! Hoje, no ônibus, eu vi uma criança equilibrando-se no colo da mãe; um ano de idade, não mais que isso. Ela sorria para o vazio, e colocava as minúsculas mãos sobre os ombros da mãe, numa tentativa desesperada de agarrar-se à única chance. E conseguia. Abandonada ao mundo, por dois dias que fossem, aquela criança não teria a menor possibilidade de sobreviver.
*****
Depois, no mesmo ônibus, vi um homem de uns 80 anos. Seu olhar parecia distante de tudo que acontecia em volta. Os olhos ocupavam o fundo das órbitas, como se retrocedessem diante do próprio ar. A boca estava fechada para dentro. E as pequenas pontas de barba branca cresciam em velocidade imperceptível ao olho humano. Sua face era um deserto. E estava ali, era um homem vivo. Estava no mesmo ônibus dos apressados e dos angustiados; dos otimistas e dos perdedores; das donas-de-casa tristes e das estudantes em flor; e de um jornalista que não sabia para onde olhar.
*****
Somos fracos, somos frágeis, somos vulneráveis. Nossa única saída é conversar com Deus. Em um monólogo sem fim, todas as noites e todos os dias, conversar com o Homem e agradecer pelo milagre estarrecedor da vida – a vida, essa partícula do universo onde encontramos nossa inexplicável força.
*****
É. Acho que hoje eu não vou à Terça Tilt.
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April 26, 2005
Às vezes não há nada
melhor que uma cagada:
pontual no serviço,
qual relógio suíço;
ou aquela de surpresa,
que mendigo ou princesa
já tiveram um dia
na sarjeta ou na abadia.
Seja em Paris ou Tóquio
o mesmo solilóquio:
a paz muda e sentada
no templo da privada.
E atire a primeira pedra
quem nunca fez essa merda.
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April 25, 2005
Olha, eu gosto da solidão.
Gosto de ficar aqui bebendo,
olhando pro nada,
e de ficar no quarto,
olhando pro teto,
olhando pro cão.
Eu adoro a solidão.
Olha, é bom estar sozinho.
Me acostumar com a mudez
da minha própria boca,
rezar em voz bem baixa,
com a fúria do espanto
– e Deus, Deus a me ouvir
em seu silêncio santo.
Olha, adoro esta parede.
Esta parede que pintaram
de branco e de azul,
adoro este vazio,
adoro a chuva forte,
adoro o vento sul,
adoro até a morte.
Olha, me deixa estar calado.
Me deixa ouvir as vozes
da mesa aqui ao lado.
Não quero conversar,
não quero mais amigos.
Me deixa estar bebendo
Aqui junto comigo.
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April 25, 2005
Já percebeu como somos escravos das pequenas coisas do cotidiano?
Sou um animal doméstico. Mas até hoje não consegui entender o significado da enigmática frase presente em todas as embalagens:
Não contém glúten.
Mais detalhes na
crônica.
*****
Notícia em primeira mão: Péricles Chamusca não é mais técnico do Goiás. Saiu queimado.
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April 24, 2005
Sei que fico muito tempo sem ligar. Minha relação com o telefone não é das melhores; vivo deixando de atendê-lo. Mas acredite: penso sempre em você. Sei que isso não é desculpa, assim como não é desculpa o fato inconteste de você viver trocando o número do celular; contudo é a verdade.
Minha relação com a verdade não é das melhores. Sou escritor – seja lá o que isso queira dizer –, e escritores vivem inventando coisas. Uma coisa, porém, eu não posso inventar, por mais que me esforce: isso que você está gerando no enigma do seu ventre.
Nós, homens, nunca vamos compreender inteiramente o mistério da maternidade. Seremos sempre meros espectadores do drama da vida. O que nos torna mais solitários.
A solidão é um exílio andante. Não sabemos por que estamos aqui, e qual o sentido disso tudo. A cada segundo, tentamos descobrir por que Deus nos criou, qual era o objetivo do Homem. E só conseguimos obter uma resposta quando paradoxalmente se dá o maior enigma – quando um ser cria outro ser.
A essa estranha capacidade de gerar a vida, deu-se o tão usado e tão incompreendido nome de amor. Você tem hoje o amor dentro de si mesma; e a contemplação desse enigma me faz mais forte para procurar meu próprio sentido.
Então, Silvia, sem saber você me ajuda. Esperança é outra palavra muito usada e pouco entendida, quando nos bastaria, para compreendê-la, um simples truísmo: esperança é a qualidade de esperar. Hoje você nos faz exercer tal qualidade. Esperamos com você. De certa forma, o enigma que você carrega no ventre, de tão simples, nos faz menos solitários, menos entregues ao absurdo das coisas.
Isto eu queria dizer, Silvia, do fundo do meu silêncio: obrigado.
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April 23, 2005
o cachorro é meu amigo
disso eu tenho certeza
estará sempre comigo
na alegria e na pobreza
o cachorro é meu irmão
dele não sinto vergonha
ele é mais parecido
com aquilo que se sonha
o cachorro é meu chapa
sempre está bem por perto
um parceiro tão perfeito
tão humilde tão esperto
o cachorro tá chegando
tá chegando à minha mesa
vou lhe dar um pouco d´água
e lingüiça calabresa
o cachorro é bacana
sua mordida não me assusta
é melhor um filho do cão
que qualquer filho-da-puta
*****
Esta eu não poderia deixar sem registro:
Qual é a única comida que liga e desliga?
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April 21, 2005
Na verdade, não sei o nome que tenho no Livro da Vida.
É um nome diferente do meu: Paulo.
Esse nome – Paulo – não mereço.
Sou muito ignorante, não falo línguas,
sobre mim não desceu o Espírito.
Aguardo a Parusia,
quando se mostrará quem sou.
Mas já sei que não sou justo,
que não sou bom, que não sou santo.
Já sei que sou miséria, medo e pranto.
Sem contar que gosto de fazer a barba
com a torneira aberta.
Meu caso no Juízo Final não consumirá
mais do que cinco minutos.
Faltam-me sabedoria, humildade, bom senso.
Perco a alma sem jamais perder a piada.
Sobra-me ódio.
Descartes, você estava errado:
do mundo, o ódio é o bem mais partilhado.
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April 20, 2005
Eu já desconfiava que esse papa era sósia.
Carla, minha chefe, acaba de dizer que Bento XVI tem uma considerável semelhança com Fester (o Tio Funéreo da Família Addams). Tirando o cabelo, é claro. Comparem e tirem suas conclusões.
Vou logo avisando: nada tenho contra alemães. Pode ser a terra de Hitler (embora, como bem observa
Ariadne, ele tenha nascido em solo austríaco), mas também é a de Johann Sebastian Bach, o homem que, a meu ver, mais perto chegou de Deus. Sem contar Goethe, Beethoven, Rilke.
É que eu perco a alma, mas não perco a piada (principalmente se for infame).
Desejo um excelente pontificado a Bento XVI.
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April 20, 2005
Quando eu era pequeno
pensava que a doença de Chagas
fazia feridas por todo o corpo.
Hoje, mais crescido um pouco
– nestes tempos em que o bicho barbeiro
largou de chupar sangue para chupar cana –,
já sei que a doença de Chagas
corrói por dentro,
não por fora.
As chagas pertencem
ao Filho do Homem.
E a culpa é minha.
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April 19, 2005
Robert De Niro, Al Pacino, Robert De Niro, Al Pacino, Robert De Niro, Al Pacino, Robert De Niro, Al Pacino, Robert De Niro, Al Pacino, Robert De Niro, Al Pacino, Robert De Niro, Al Pacino, Robert De Niro, Al Pacino, Robert De Niro, Al Pacino,
Robert De Niro, Al Pacino, Robert De Niro, Al Pacino... NUNCA sei quem é um que é outro.
Eis que na matéria de terça-feira, no JL, escrevo: “ O tango ‘Por uma cabeza’, de Carlos Gardel, que ROBERT DE NIRO dança em cena antológica de ‘Perfume de Mulher’”.
É lógico que errei. Foi AL PACINO que dançou. Merda.
*****
E a primeira atitude do papa Bento XVI foi chamar o pessoal do fumacê.
– Seus incompetentes! Não sabem nem fazer fumaça branca direito. Podem passar no RH – e rua!!!
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April 19, 2005
Ratzinger.
Não é pra me gabar, mas eu te disse, eu te disse, eu te
disse.
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O duro é que eu não ganhei um centavo com isso.
*****
Dom Cláudio Hummes vai voltar cantando (ao ritmo de “bom-chim-bom-chim-bom-bom-bom”), braços dados com Rubinho Barrichello:
– Sempre atrás do alemão! Sempre atrás do alemão!
*****
Na Fórmula 1 e na Igreja Católica, Alemanha.
No futebol, Brasil, ainda. Mas a Copa é lá. E agora com um torcedor ilustre.
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April 19, 2005
Aproveitando a data de hoje, sei lá, resolvi fazer umas confissões.
Em 1987, quase hospedei o grupo Tarancón em minha casa. (Tarancón é muito pior do que vocês podem imaginar. Como diz o amigo Preto, só sabe quem viu de perto, quem viu a mulherada feia, quem conheceu aquelas calças amarradas com cordinha, quem ouviu aqueles violõezinhos e aquelas flautinhas de peruano, quem já usou a palavra “latinidad”.)
Em 1986, eu usava colarzinho do Jim Morrison.
Em 1985, fazia parte do grupo teatral Cromossomos, que encenou a peça “Dádiva da Vida”, criação coletiva. Meu papel era o de um maestro mutcholoco.
Em 1990, eu estava no carro de som durante uma passeata estudantil.
Em 1985, eu usava macacão sem camisa. E cabelo comprido, muito comprido, a ponto de ser chamado de Urso pela minha própria mãe.
Pronto, falei. Mas juro – juro! –, sempre fui maníaco por banho.
Trilha sonora, adequadíssima: “Todo dia era dia de índio! / Todo dia era dia de índio / Mas agora eles só têm o dia 19 de abril...” (Baby Consuelo)
Sacou, Rubão? Hã? Hã? Hein, hein?
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April 18, 2005
No centro das cidades, há um tipo de comércio que cresce sem parar. São as lojas que vendem dinheiro.
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Já faz algum tempo que o dinheiro passou a ser o artigo mais caro da praça.
*****
As lojas que vendem dinheiro prometem felicidade instantânea e tristeza em suaves prestações.
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A venda de dinheiro se torna ainda mais fácil se você é funcionário público ou aposentado (essas duas categorias não correm o risco de demissão, a não ser demissão da vida). O desconto em folha é crédito com retorno garantido – para quem empresta.
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Leonardo, Netinho e outros luminares da cultura brasileira são garotos-propaganda das lojas que vendem dinheiro. Todas têm som ligado em alto volume. Uma delas até oferece algodão doce. (Milton Friedman dizia que não existe almoço de graça; tampouco algodão doce.)
*****
Nos anúncios publicitários, o principal personagem da festa passa a ser um detalhe. Ganha singular e diminutivo.
Juros? Um jurinho deste tamanho! (Acompanhado do gesto de cafezinho com os dedos.)
*****
Quando éramos crianças, pedíamos às nossas progenitoras:
– Mãe, compra aquele brinquedo pra mim!
– Não tenho dinheiro, menino.
– Então, compra dinheiro!
*****
O tempo provou que estávamos certos.
Mãe, eu quero comprar dinheiro!
*****
– Et zâmbou?
– $márni, $márni!
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April 17, 2005
Eu deveria andar com um bottom escrito assim:
Quer perder alguma coisa agora? Pergunte-me como!
E mais não digo porque está na
crônica.
Uma boa semana a todos.
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April 16, 2005
Aqui está morto um homem
que perdeu tempo, amou mulheres,
bebeu bebida e fez uns versos.
Aqui está morto um homem
tão imperfeito
que o lado esquerdo e o direito
lhe pareciam
contra-sensos.
Aqui está morto um homem
que ouvia Bach
como a mãe ouve o riso do filho,
como o cachorro ouve o mínimo silvo.
Aqui está morto um homem
que teve excessos,
que viu uns filmes, leu uns livros
– sua derrota foi um sucesso.
Aqui está morto um homem
sem elegância e nem bom senso.
Na mão direita, levava um copo.
No bolso esquerdo, levava um lenço.
Aqui está morto um homem:
morreu de amor e de egoísmo.
Mais de soberba, que de alcoolismo.
A sua casa
era também abismo.
E tinha tanto medo, o homem,
que ocorreu algo incrível:
depois de morto,
estava vivo.
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April 15, 2005
Hoje acordei bem cedo. Acordei com o galo. Hoje acordei com telefone e sonho. Vontade de comer peixe, pensamentos de buceta. Hoje acordei a fim de dar uma volta pelos sebos do Centrão. Lá em São Paulo, o Centro é chamado de Cidade. Para onde você está indo? Para a Cidade. Hoje acordei paulistano bagarai.
Hoje acordei com medo. É que olhei pra mim mesmo e não gostei do que vi. Uma dose de crueldade, duas doses de soberba, três fatias de ódio. Hoje acordei com medo de mim mesmo.
Hoje acordei ouvindo Beethoven. Acordei a fim de ler os livros nunca lidos. Preciso terminar O Vermelho e o Negro. Preciso encarar o Lord Jim. É tão difícil entender o Faulkner. Hoje acordei com vontade de comer arroz e feijão e conversar com a Lygia Fagundes Telles.
Hoje acordei e fui conversar com a minha empregada, a dona Santina. O filho dela morreu na semana passada, aos 45 anos. Acho que ela vai largar o emprego, depois de 12 anos. Hoje eu tomei um coquetel de Neosaldina com Coca-Cola. Minha empregada é gente boa.
Acordar, como você já sabe, é difícil. Abrir os olhos é um tormento. Os dias andam tão quentes, não existe mais inverno nesse mundo. Hoje acordei com vontade de viajar para um lugar desconhecido, onde ninguém fale meu idioma, onde faça frio. Hoje acordei solipsista – é assim que se escreve? Hoje acordei autista.
Acordar é uma arte inominável. Em novembro de 1991, se não me engano, eu acordei bem. Não lembro mais como foi. Acordar às sextas-feiras deveria ser proibido por lei. E mais não digo – porque não sei.
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April 14, 2005
Requião no Valentino.
Qual será o próximo passo?
Lula no Bar Brasil?
Bush no Kotovelo´s?
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Comentário (anônimo, é claro) no blog do
Leijoto:
Leijoto, o que vc escreveu parece piada. Por que? Porque jornalistas amigos seus fazem parte dessa gentalha que emporcalha o Valentino e outros bares de Londrina. Vc bem sabe de quem estou falando. O engracado eh que na hora de berrar e espernear os jornalistas sao os primeiros. A limpa tinha que comecar com esses hipocritas que vivem enchendo a cara, puxando fumo e cheirando po' seja no Valentino, no Bar Brasil, no Kotovelos, nos banheiros da Folha, do JL, da Coroados ou do inferno. Chega! Esse pessoal eh tao bandido quanto todo o resto.
*****
É pessoal, acho que o cara está falando da gente! Apesar de que eu não uso dlogas (além da Skol). Muito menos em ambiente de trabalho (seria chato demais beber em serviço).
*****
O indignado poderia acrescentar que nós conspurcamos os símbolos nacionais quando cantamos hinos no BB.
*****
Quer perder tempo? Pergunte-me como.
E vá à
Quinta Sem-Lei, daqui a três horas. Mesmo que você seja o indignado.
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- E mais não digo porque não sei, et zâmbou?
- Smárni, smárni.
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April 14, 2005
esse sol que se despede
essa boca que se cala
essa voz que sentencia
mea culpa, mea maxima culpa
esse livro que se fecha
terça-feira que se perde
essa luz que faz a curva
mea culpa, mea maxima culpa
esse bar que não se fecha
essa cor que não se pinta
esse homem que se julga
mea culpa, mea maxima culpa
essa roupa que se troca
esse nome que se chama
essa frase que se escuta
mea culpa, mea maxima culpa
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April 13, 2005
Antes eu achava que Mário de Andrade e Oswald de Andrade eram irmãos.
Antes eu achava que Ortega y Gasset era uma dupla de pensadores.
Antes eu achava que o Frei Chico, irmão do Lula, era padre mesmo.
Antes eu lia o Sartre.
Antes eu achava que o nome do Anande das Areias era Anândidas Areias. E que o cantor Zeca Baleiro era Zé Caballero.
Antes eu achava que poderia fazer uma versão churrascaria daquele famoso soneto do Camões: “Alma minha gentil que te partiste”. (AlMA MINHA, Rubão! Hã, hã? Hein, hein?)
Quando eu era mais jovem, achava que não era jovem. Agora, eu acho que isso era um sintoma da juventude.
Antes eu achava que Mozart era melhor que o João Sebastião. E que o rock progressivo era o melhor por se aproximar da música clássica (meu Deus, meu Deus).
Antes eu acreditava na Revolução Socialista (caixa alta, por favor). A dita iria resolver tudo: do abastecimento à angústia.
Antes, eu odiava o liberalismo.
Antes, eu odiava.
Minha frase predileta antes era de Karl Marx: “O homem não cria problemas que não possa resolver”. Hoje, é de Groucho Marx: “Não posso fazer parte de um clube que me aceite como sócio”.
Antes eu tive caxumba, catapora e petê.
Antes eu usava palavras como “cidadania” e “ética”. Sem aspas.
Trabalhei num sindicato em que as pessoas tratavam umas às outras por “companheiro”. Exemplo: “O companheiro é um filho-da-puta”.
Antes eu gostava de ganhar discussões. Uma vez tentei converter uma estudante de biologia ao trotskismo num churrasco na casa da Renata.
Antes eu assistia a filmes do Godard. E participava do debate depois!
Antes eu fingia entender poemas obscuros.
Antes eu achava que a psicanálise era bem mais que literatura.
Antes eu jamais confessava ignorância.
Resumindo, antes eu era chato bagarai. Agora também devo ser, mas de outro jeito.
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April 12, 2005
E eu aqui perdido, pensando se vou ou se não vou ao Kotovelo´s Bar.
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A dúvida de Hamlet era bem mais simples. Fácil entender a perplexidade entre ser ou não ser, pois a existência é um enigma, sobretudo na Dinamarca. O Kotovelo´s, não. O Kotovelo´s fica ali na esquina.
*****
Você não gosta que eu vá lá. Outro dia teve tiro. Mas é que o Mauro faz um churrasquinho de gato bem bom, e tem uma certa cor do início da noite, uma cor ainda não dicionarizada.
*****
Cerveja é imprescindível neste calor. Dezembro já está durando cinco meses. O frio não vem nunca. Até esqueci como é o frio.
*****
Vou ficar igual àquele roedor da fazendinha. O roedor que põe a cabeça embaixo de uma torneira gotejante, para se refrescar.
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Amanhã à noite, Requião vai ao Valentino. Isso mesmo, não estou brincando. A assessoria do Palácio Iguaçu já confirmou. Graças a Deus, governador nenhum nunca vai pisar no Kotovelo´s. Assim espero.
*****
Quando vou ao banheiro do Kotovelo´s, pela janela quebrada vejo o prédio que construíram no lugar antes ocupado pela minha república. Vejo luzes acesas, indecisão entre os cômodos de cada apartamento; não é só a mim que a noite confunde.
*****
Mas vou dizer: eu amo. Amo você, e amo a noite profunda. Pronto, falei.
*****
Hoje, pouco depois do meio-dia, encontrei uma amiga – a Airam – que eu julgava só existir à noite. Vestida de preto e usando óculos escuros, ela se dirigia ao trabalho. Airam é Maria ao contrário. Talvez eu tenha encontrado só a Maria. Airam é do outro mundo.
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Você, longe. E a noite profunda. Vou ao Kotovelo´s. Mas não se preocupe. Amanhã estarei ao seu lado. Como estou sempre. Não estou?
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April 12, 2005
Ontem lavei o banheiro
com Veja Multiuso,
e me diverti muito.
O simples fato de existirmos
(dentro do caos)
é o milagre absoluto.
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April 10, 2005
Começa com um alarme,
termina com o garçom
cutucando as minhas costas:
“Já estamos fechando, seu bosta”.
Levantar e
ir pra casa:
já é noite
lá em Gaza.
Depois, a TV ligada a esmo
e o urro da geladeira
– sempre o mesmo –
em duo com o Polishop.
Já não sei mais minha sina,
já não sei mais o meu nome,
já não tenho mais paciência.
Duas pedras neosaldinas,
um corpo que se consome,
um objeto que pensa
brilham no tempo da sala.
(Para sempre vou amá-la.)
Dormir pelo menos três horas,
dormir de qualquer maneira,
que amanhã é segunda-feira.
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April 10, 2005
Ao mestre
Tanga, que não gosta muito de poemas
Farei menas poesia no meio do ano que vem.
Tomarei menas cerveja.
E a memória (ora veja) pode vim que aqui não tem:
quanto mais tiver estórias, menas delas lembrarei.
Seje a vida mais ou menas,
fazem horas que eu já sei.
Quanto menas rimas ricas,
menos dela exigirei.
Mas, ao menos, rogo ao tempo:
não se faz de meu sinhô,
não rela no meu espaço,
não correja o que eu sou.
Se menas poesia faço,
também quero menas dor.
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April 08, 2005
Para Paula Schütze
Minha palavra preferida é tudo.
Tudo é sangue. Tudo é pão.
Tudo que move, tudo que não.
Tudo é ser. Tudo é silêncio.
Minha palavra preferida é tempo.
Tudo na noite, tudo na sombra.
Tudo em que tudo se esconda.
Minha palavra preferida é tudo.
Onipresente como a forma
que encerra o conteúdo.
Tudo que fala, tudo que é mudo.
Minha palavra preferida é mundo.
Tudo na carne, tudo no sopro.
Em tudo tudo eu encontro.
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April 08, 2005
Há erros que dão vergonha.
No jornal de hoje, cometi um deles.
A
matéria não chega a ser ruim. Fala de um violinista londrinense, Roney Marczak, que tocou 5 horas em missa celebrada pelo papa.
Lá pelas tantas, escrevo:
“Por volta das 5 e meia da manhã, Roney foi conduzido pela guarda suíça à capela situada junto aos
aposentados do papa”.
BOMBA! BOMBA! APOSENTOS VIRARAM APOSENTADOS!
É, Moacir Japiassu. Os críticos do papa vão sair dizendo que Karol transformou o Vaticano em trem da alegria.
Perdão, mestre Tanga. Perdão, João Paulo. Perdão, Roney Marczak. E – sobretudo – perdão, leitores.
– Et zâmbou?
– Smárni, smárni.
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April 07, 2005
No Céu todo dia é Quinta Sem-Lei. Leia a
crônica para saber o que tem mais por lá.
Pergunta:
- Et zâmbou?
Resposta:
- Smárni, smárni!
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April 06, 2005
É. Os tempos andam sombrios. A indesejada das gentes levou agora Saul Bellow, autor de “Herzog”, “O Planeta do Sr. Sammler”, “O Legado de Humboldt”, “Tudo Faz Sentido” (ensaios), “Ravelstein”, livros que me deleitaram ao longo dos anos 90 e 2000.
Bellow foi um dos (acidentais?) acertos do Prêmio Nobel, em 1976.
Tinha 89 anos e uma filhinha de quatro. Mente ativa e lúcida (como a de um outro velhinho que morava em Roma).
Era, na minha modestíssima, um dos maiores da literatura americana no século 20. Seu irmão literário – também judeu – foi Bernard Malamud. Seu filho, Philip Roth (18 anos mais novo).
Eu fico imaginando as conversas no Céu.
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April 06, 2005
O comandante pede autorização para pouso no Aeroporto Internacional de Londrina.
Como é dia claro, a torre diz que está OK.
A aterrissagem é efetuada sem maiores percalços.
Descem os passageiros. O piloto se prepara para deixar a cabine, quando ouve uma batidinha na janela.
- E aí, tio, posso cuidar? É três real.
*****
Todo mundo sabe que eu fiquei chateado com a morte do papa - basta olhar as tentativas de poemas abaixo -, mas não tem como deixar de pensar na sucessão.
Estou longe de ser um vaticanista, mas acho que a barbada é Ratzinger. Ou algum italiano com quase 80 anos.
*****
Et zâmbou? Smárni, smárni.
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April 05, 2005
A rima é a amizade das palavras. Por isso mesmo, deve ocorrer com naturalidade. Rima forçada é tão abominável quanto amizade por interesse.
*****
Bárbara, a gentil e eficiente secretária do Scalassara, perguntou se autorizaria que passem o meu número de celular a quem pedir. “Pode passar”, disse eu. “Até porque os malas encontram a gente de qualquer maneira.”
*****
Programa de TV reúne Hebe, Galisteu, Kajuru e Cacá Rosset. Palmas para a produção; é difícil reunir um time de malas desse naipe.
Sugestão para o próximo quarteto: Clodovil, Samuel Rosa, Marta Suplicy e Fernanda Young.
*****
Mais um pecado venial. Mais algumas horas no Purgatório. Sendo otimista.
*****
Sinto saudade de bares. Hoje, por exemplo, senti saudade do Magdalena. Sete horas e não se fala mais nisso?
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April 05, 2005
Formou os filhos. Onde estão os filhos?
Comprou uma casa. A casa está vazia.
Trocou de carro. Não dirige nunca.
Aposentou-se. Já não faz mais nada.
Casou de novo. A mulher fugiu.
Deu-lhe uma jóia. Foi para o penhor.
Melhor matar-se. Acabou o gás.
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April 03, 2005
Percorro istmos, vales, oceanos,
percorro baías, taludes, rochedos,
percorro planaltos, platôs, penedos,
arquipélagos, lagos, arcanos.
Já fui ao retiro, ao mosteiro, ao atol.
Karol, Karol, Karol.
Onde é que tu andas, Karol?
Procuro em bosques, ribeiras e nuvens,
procuro em terreiros, capelas e mesas,
procuro nas retas, nos planos, nas curvas,
procuro nas coisas de nunca e nas mesmas.
Já busquei na fonte, na sombra e no sol.
Karol, Karol, Karol.
Onde é que te escondes, Karol?
Caminho nas pedras, nos ventos, recifes,
caminho nos deltas, ns ar, no sertão,
caminho até onde, por bom alvitre,
não caminharia, ouvisse a razão.
Já chamei três vezes, já chamei demais.
Karol, Karol, Karol.
Por que não respondes, rapaz?
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April 02, 2005
Eu tinha 10 anos quando meu pai me levou para ver o papa na Avenida Tiradentes, em São Paulo.
*****
Pai, eu quero ver o papa.
Quero ver João Paulo de perto.
Quero ouvir aquela voz
falando português gozado.
Pai eu quero cantar a música
de João de Deus. Quero dizer adeus.
Pai, se puderes, afasta o cálice,
o cálice da nova aliança.
O vinho está amargo e a noite avança.
Pai, a luz do quarto se apagou e estou só.
Em mim há uma angústia tão profunda,
Pai, mas não imensa como a tua.
Pai, eu quero salvar judeus.
Quero lembrar, com eles, a primitiva aliança.
Não deixes que eles morram, Pai.
Quero andar o mundo todo
e aprender todas as línguas.
Quero beijar todos os solos
e contemplar todos enigmas.
Pai, quando acabar o mundo, me avise.
Deixei a César o que era de César.
O mais não quero, tampouco preciso.
Pai, eu quero ver Karol vencer o muro
e superar o último inimigo.
Não foste tu quem nos mandou amá-lo?
É a tua voz que guardo hoje comigo.
Pai, eu quero ver o rosto e o tempo de João
quando o cordeiro surgir no milênio.
Quero entregar a alma em tuas mãos
e me juntar à dor do mundo inteiro.
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April 01, 2005
Não venham com pedras na mão.
Venham com lírios, venham com peixes,
venham com pombas e ramos de oliveira.
Ou tragam as mãos vazias.
Não falem muito alto agora.
A fumaça que sobe ao céu
não vai voltar para contar a história.
A última viagem terminou.
O último calvário.
Fechada a cortina, extinta a luz,
o coração das pedras
silencia com a Terra.
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