Soubesse ela que venho aqui todas as noites só para vê-la. Soubesse ela que tomo aqui meu vinho barato para dormir, dormir com ela, ou ficar acordado a noite inteira, observando a codorniz da sua antítese. Soubesse ela que pele e carne moram em cada centímetro do meu quarto, e que ao ler o Livro de Catulo penso nela em todas as formas visíveis e invisíveis. Soubesse ela que seu corpo, sua floresta, vive, lua nova insana, lua sem crateras, nos fundos da minha máquina de viver. Soubesse ela que tenho a sua idade, que desconfio de seu nome no Livro dos Nomes, que tudo baixo em mim avança quando escrevo estas palavras. Soubesse ela a mão, a boca, o piercing do umbigo, a epidemia de saudade e grito, o placebo de um telefonema, a multidão de belas moças antigas e novas, prenúncios do que ela é no tempo, como se prevista fosse no plano da Criação. Soubesse ela a ausência, como pesa e sangra, oh mulher feita de outras mulheres, oh linguagem das coisas, coração dos gozos, voz que sobreviverá a mim. Soubesse ela.
Publicado em 15 de março de 2005 às 09:42 por briguet
BJOS