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Archive for March of 2005

Museu do esquecimento

March 31, 2005
Vou contar. Peguei a Janaína Ávila hoje. Liguei para ela me identificando como Márcio, diretor da Ules (União dos Estudantes daqui). E quase disse:
– Você aí parado, também é explorado!
– Estudante na rua, prefeito a culpa é sua!

*****

Azulivre.
Eu sou bem mala.
Pronto, falei.

*****

Eu vi o pior filme de todos os tempos no Canal Brasil. “Cinema Falado”. Diretor: ele mesmo, Caetano Veloso. É preciso muita vontade para filmar um negócio tão tosco. Cara chátôu!

*****

Já parou para pensar na quantidade de coisas esquecidas nos porões da sua própria mente? Se você pudesse parar e olhar de uma só vez para tudo aquilo que não lembra, talvez sua reação fosse parecida com a do russo que viu a Terra pela primeira vez do espaço: – É azul.

*****

Olhe bem para tudo que não está aqui.
Ouça as vozes que jamais.
Sinta o cheiro sem o odor,
o toque sem atrito,
o gosto sem gosto,
a cor da cor incolor.
A intuição daquilo
que não se consumou.
Oráculo incapaz de antever.

Dia menos dia,
noite noite adentro,
lusco-fusco, momento,
sem riso, sem dor.
Vento que nem chegou.
Chuva prevista
e não ocorrida.
A morte em vida,
o Sol sem pôr.

(Ei, que história é essa?
Não lembro o álcool,
quanto mais a amnésia.)

Lembre o rosto não visto
o ombro amigo de quem
não é amigo, nada feito.
O mundo sem defeito,
A Lua sem luar,
o mar jogado ao mar.

A carta sem autor,
o autor sem texto,
o texto sem vigor,
o pulso zero por zero,
o amor sem tempo,
a mãe sem filhos,
estrada sem caminho,
água sem vinho.
Silêncio.


*****

E mais não digo porque é QSL.

Naquele tempo eu era ateu

March 31, 2005

Naquele tempo eu era ateu.
Nascia, vivia, morria.
Naquele tempo eu era crente
de que nada existia. (Só a gente.)

Naquele tempo Deus falava hebraico
e Cristo era demais pro meu latim.
Naquele tempo eu defendia ensino laico,
nem mesmo sei como sobrevivi a mim.
Naquele tempo eu não tinha a menor chance
de viver, por um instante, com princípio, meio e fim.
Naquele tempo eu era errante.

Naquele tempo eu era triste.
Eu era aquele para quem
o nada existe. Naquele tempo
eu era o cara mais triste do mundo.
Naquele tempo eu não sabia, cara,
mas, mesmo ateu, eu cria, lá no fundo.

Terça Tilt e Quarta Generosa

March 30, 2005

Chegou. Abraçou Janaína. Pagou cinco cervejas. Foi tomando uma a uma, com notável rapidez. O que tá tocando, Rubão? Iggy Pop.
Marcelo vem? Disse que não vem. Mas olha ele chegando. E aí, salafrário. E aí, vagabundo. Cê sabe o que virou a entrevista da reitora? Não sei nem quero saber. O que tá tocando, Fernandão? Dinosaur Jr.
Você é o Paulo Briguet? É o que dizem. Paga uma cerveja pra gente. Skol, tudo bem? Skol, você é rico. Rico nada, Kaiser não é cerveja, quem não sabe disso não sabe de nada. E o que é que tá tocando, Rubão? Strokes.
Amanhã tenho uma entrevista com o Paulo Menten. Paulo Menten? Ele deu aula pra minha irmã. Mandava ela pintar garrafa. Garrafa, como essa aqui? É, ele dizia que assim a pessoa conseguia o detalhismo e a perfeição. O Paulo Menten é bom, sabe o que faz, não é como esses picaretas que mijam na tela e dizem que é arte. Falando nisso, preciso ir mijar naquele banheiro impraticável. E o que tá tocando, Fernandão? The Who.
Esta festividade chamada Terça Tilt foi inventada pelos jornalistas Nelson Sato e Fábio Galão, e é responsável pelo alto índice de absenteísmo nas quartas-feiras. Eu queria ser como você, Dom Diego, ou como você, Dr. Leijoto, que nunca bebem. Entre a Terça Tilt e a Quinta Sem-Lei, sempre há uma Quarta Generosa. Quarta Generosa? Nem. Vou fugir pra Maringá. Mas volto para a QSL. E aí, Rubão, que é isso tocando? Pixies.
Acredita que eu tô na malha fina da Receita? Acredito. Acabei de pensar num título de poema: Museu do esquecimento. Gostou? Não entendo nada de poesia. Museu do esquecimento, museu do esquecimento, museu do esquecimento: diz muito sobre a minha vida. Que calor! Que fumaça! Não consigo enxergar mais nada. Vou embora, tchau. Não preciso de carona, moro perto do Valentino, vou tomando ar, pra chegar um pouco mais são. Detesto a cara do meu porteiro quando eu chego. Pelo sorriso irônico, ele deve adorar a minha. E o que é que tá tocando, Briguet? João Sebastião.

A festa da quebradeira

March 28, 2005
Francis Bacon

Fim de festa. Pedro, Paulo e Tomé bebiam na varanda. De repente, decidiram quebrar tudo. Leia mais aqui na crônica.

Matilde Mastrangi na noite em claro

March 28, 2005
De segunda para domingo, sempre me dá insônia.

E a programação de TV, nem preciso dizer, é braba.

Ontem, para pegar no sono, botei o colchão na sala e fiquei zapeando. Parei no Canal Brasil, onde passava o filme “Porno!” (isso mesmo: “Porno!”), uma daqueles longas “eróticos” do início dos anos 80, quando a Censura maneirou um pouco e permitiu a inclusão de alguns nus frontais, porém ainda sem tolerar o sexo explícito. (Para desespero do público masculino, caro Rubão, foi nessa maldita época que pinto começou a aparecer na tela.)

Mas o melhor mesmo foram duas falas de Matilde Mastrangi (a musa que contracena com o galã David Cardoso).
Matilde se vira para David e diz:

– Vai me comer logo ou vai ficar enrolando?

Quando David se retira de cena, Matilde comenta em voz alta, para si mesma:

– Acho que esse cara gosta mesmo é de vara.

Que preciosidade poética! Que sutileza! Que epifania da linguagem!

Nem mesmo o roteirista Paulo Bucet conseguiria escrever tais pérolas.

Por falar em Páscoa

March 27, 2005

Por falar em Páscoa, parece que a qualquer hora o seo Briguet vai tocar a campainha e me oferecer umas mexericas bem maduras. A qualquer hora, acho que Franco Montoro vai ser novamente candidato a governador no Estado de São Paulo. A todo instante me vem a impressão de que escutaremos de novo a buzina do Chacrinha – “Abelardo Barbosa, está com tudo e não está prosa!”.

A qualquer momento, parece que vou conversar com ela à beira do córrego, enquanto cai o Muro de Berlim, ocorre o massacre da Praça da Paz Celestial e a inflação chega a 80% no Brasil. E Sarney com seu bigode preto: “Brasileiros e brasileiras”. A qualquer momento parece que Tancredo Neves não vai ser internado às pressas antes de tomar posse; e que Oscar vai acertar aquela cabeçada no Estádio Sarriá, empatando o jogo: Brasil 3 x 3 Itália.

Não precisa de muita coisa; basta um sono leve no domingo para eu acreditar que ainda moro na República, e que hoje tem uma festa que combinaram às pressas. Já me chamam para tocar umas músicas horríveis ao violão, e eu vou. A qualquer minuto parece que vou acordar com uma ressaca de 1990; parece que vou entrevistar aquele senhor que perdeu um terreno – tudo que tinha na vida – e me olhava com tanta tristeza; parece que não vou inventar uma desculpa, que não vou mentir, que não vou pecar, que não vou ser um estúpido.

Qualquer hora é hora para pensar que eu não preciso escrever tanta coisa que já escrevi; passar tanta raiva que já passei; falar tanta bobagem que já falei. Qualquer hora é hora para telefonar para dois irmãos, menino e menina, e avisar: “Não, não saiam de casa hoje!” Qualquer minuto é minuto para achar que vou ligar para um amigo, mesmo que ele tenha cometido um erro, e dizer: “Desculpa, cara”. A quem importa estar certo ou errado em coisas mundanas? Qualquer hora é boa para não magoar. Qualquer hora é boa para abaixar a cabeça e olhar a própria miséria. Qualquer hora é boa para ser melhor.

Qualquer hora eu sinto que perdi tanto tempo em nada, com a vida já caminhando para cinco lustros, e é preciso encontrar um Pessach no tempo. Não por acaso, Páscoa quer dizer passagem. Qualquer hora eu sei que vou procurar o túmulo, e o Homem não estará mais lá, porque seu reino não é deste mundo. Qualquer hora eu sei o povo da Primitiva Aliança vai acordar e deixar o Egito. Qualquer hora eu sei que tudo vai ressurgir e eu terei que prestar contas sobre o que não fiz.

Qualquer hora eu poderia ter tomado um outro ônibus; poderia ter escolhido outra cidade; poderia ter mudado de emprego; poderia ter saído a andar pelo mundo; poderia falar as línguas do Espírito; poderia ter virado pregador ou marceneiro; poderia abandonar meu barco e partir para o deserto; poderia ter doado todos os meus bens aos pobres; poderia buscar a salvação da menina que virou prostituta; poderia pensar mais uma vez, dobrar a esquina e plantar um pé de qualquer fruta comestível; poderia ter um nome além do que me foi dado; poderia me jogar ao chão e agradecer, agradecer, agradecer.

A qualquer hora, a estrada está diante de mim, mas eu não caminho. A qualquer hora, o caminho está claro à minha frente, mas eu não me levanto. A qualquer hora, o enigma se descortina, mas eu fecho os olhos para não ver.

Por falar em Páscoa, dizei uma só palavra.

Abrem-se as cortinas, começa o espetáculo!

March 26, 2005

Beira-Rio e Olímpico. Arena da Baixada. Do Café. Morumbi, Pacaembu, Palestra Itália, Parque São Jorge, Vila Belmiro, Rua Javari. Maracanã, Caio Martins, General Severiano. Moisés Lucarelli, Brinco de Ouro da Princesa. Fonte Nova. Aflitos. Defensores Del Chaco. La Bombonera. Sarriá.
Como são bonitos os nomes dos lugares em que os 22 marmanjos correm atrás da bola.
E mais não digo.

Saco de espantos

March 24, 2005
Para Gabi Canale, aniversariante, antes de ir para a QSL.


Meu Deus, como latem os cães.
Como falam os homens.
Como surgem em cena,
e depois logo somem.
Como soam os alarmes,
como vagam os hippies.
E as lesmas sem karma,
meu Deus, sempre as mesmas,
como silenciam.

Como brilham os tangas,
os rochas e os lúcios,
como tocam as violas
e amam as buças.
Como bebem os caras,
como escrevo bobagens.
E as panças, então, como crescem.
Meu Deus. E não desaparecem.

A figueira e o orvalho,
meu Deus, como secam.
Como lotam os bares
e voam os insetos.
Como doces os lares
e frágeis os fetos.

Meu Deus, como dói a cabeça,
como cheira a chuva,
como cai a maçã.
Como a mão é da luva
e o ar, da manhã.
Como passam os meses,
bem mais de mil vezes,
como dizem adeus.
Meu Deus, como saem os versos,
como gritam as letras,
como latem os pontos,
os cães e as lesmas.

Meu Deus, como amam as moças,
como contam piadas,
como fazem essas coisas
que vão dar em nada.
Como quebram as louças
e dão gargalhada.

Como nadam os peixes.
Como andam as mulas.
Como são adoráveis
as frutas maduras.
Como acordo de noite,
bem mais de três horas,
com fome e com sede,
com dor e luxúria,
a olhar a parede.

Como morro e acordo
no dia seguinte,
como penso e existo
e descarto meu Nietzsche.
Como falo sozinho,
meu Deus, como bebo
dessa água e vinho,
meu Deus, com que medo.
Como é tarde demais,
oh meu Deus, como é cedo.

Guia político de bolso

March 23, 2005
“Precisando o príncipe saber utilizar bem o animal, deve tomar como exemplo a raposa e o leão; pois o leão não é capaz de se defender das armadilhas, assim como a raposa não sabe se defender dos lobos. Deve, portanto, ser raposa para conhecer as armadilhas e leão para espantar os lobos.”
(Maquiavel)


Procure dizer o contrário do que pensa; a mentira é controlada com maior proveito do que a verdade.

Esconda suas impressões.

Jamais se arrependa.

Combata sem piedade o amigo que se mostrar condescendente com o inimigo.

Faça inimigos, mas não os acumule. Destrua-os antes que eles se unam.

Cobiçar, verbo intransitivo.

Não se preocupe com o remorso. A satisfação provém da energia vital resultante da vitória.

Dedique-se à mentira como um cão de guarda protege seu território.

Não tenha reações impulsivas. Espere o inimigo virar as costas.

Quando se sentir entediado, puxe o tapete do próximo passante.

Desenvolva a malícia de tal maneira que você não consiga mais lembrar como era a vida antes dela.

Não acredite em valores absolutos, mas, sempre que puder, invoque-os.

Procure ser o que você não está.

Procure estar o que você não é.

Diga que fez quando não fez.

Diga que não fez quando fez.

Finja que sabe o que não sabe.

Finja que não sabe o que sabe.

Diga que o mesmo é diferente.

Diga que o diferente é o mesmo.

E mais não diga.

Teoria e prática da política

March 22, 2005
Por um momento – breve que seja – este blog deixa de ser crônico para ser jornalístico.
Segue no “leia mais” uma entrevista de arrepiar com a professora Janete El Haouli, demitida do cargo de diretora da Rádio Universidade-FM (Londrina).
Minhas perguntas são simples:

1. Por que você deixou a diretoria da Rádio Universidade-FM?
2. Quais as perspectivas da emissora? Há o risco de que ela se torne um veículo chapa-branca, repetindo o que Requião fez com a TV Educativa?
3. O que os ouvintes da Rádio podem fazer para evitar que ela se torne um órgão de propaganda?


As respostas são longas, mas interessantíssimas. Vale a pena ler. Um verdadeiro curso de terror político (sob o ponto de vista da vítima, não do algoz) – e uma lição de coragem. Bravo, Janete.

(PS: Os grifos são meus - PB)

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Adeus, Zé Bento

March 21, 2005

Estava eu no balcão da Quinta Sem-Lei, quando toca o celular.
Era uma amiga avisando que José Bento Faria Ferraz, o secretário de Mário de Andrade, havia morrido aos 92 anos, em São Paulo.

Zé Bento era ótimo. Esteve aqui em Londrina, no ano passado, a convite do professor e bibliófilo Carlos Okawati, para dar uma palestra e receber homenagens.

Figuraça. Simpático, generoso, simples. Uma pena não ter levado o homem ao Kotovelo´s.

Bem, a notícia me deixou triste. E escrevi esta crônica aqui.

Redentor? Cruz Credo!

March 21, 2005

Leio uma boa definição para o gênio e a ruína de Mozart: “Foi adulto quando deveria ser criança; foi criança quando deveria ser adulto”.
De um biógrafo do homem.

*****

Movido apenas pelo faro, eu jamais locaria o DVD do filme brasileiro “Redentor”. Mas, influenciado pela opinião de um crítico da minha confiança, resolvi conferir.
Mesmo com a opinião do amigo (aviso: não é o Grota), fui com o pé atrás. E a decepção resultou completa, avassaladora. Um dos piores filmes que vi nos últimos tempos.
Engraçado. A qualidade técnica do filme é boa; a trilha sonora é competente; os atores são talentosos (Pedro Cardoso, Fernanda Montenegro, Fernando Torres, a belíssima Camila Pitanga); o roteiro é bem “amarrado” (uma fato leva ao outro, uma cena leva à outra, o personagens têm uma razão para estar ali), mas o resultado é simplesmente uma bosta. Vazio. Tolo. Um besteirol em formato de cinema, com algumas fumaças de defesa da “ética” contra a “corrupção”. Touché, Mr. Clichê.
Vocês vão dizer que eu tenho mania persecutória, mas “Redentor” é exatamente igual ao Skank. Nessa abominável banda das Altaneiras, o cantor canta; o guitarrista, o baixista, o tecladista e o baterista tocam. Tudo muito direitinho. Tudo muito certinho. Tudo muito ridículo.
Se o Skank fizesse cinema, faria “Redentor”.
Deus me livre!

*****

Moral do post:
Até os críticos sérios erram. E, às vezes, erram feio.

Dois poemas temporais

March 20, 2005
A duas amigas distantes.


Você já viu um disco de vinil?
Já teve um elepê, com furo no meio,
com capa de papelão, com agulha,
com o lema “Disco é cultura!”,
com riscos que fazem o cantor gaguejar,
com faixas censuradas a dedo?
Já teve um disco, ou tem medo?

Ei, você sabe o que é um long play?
Disco a gente lavava com água e sabão;
disco tinha chiado e, de vez em quando,
uns andamentos estranhos. Voz mais fina,
voz mais grossa, piano rouco,
baixo retumbante, violão desafinado
– ah, disco era engraçado.

Pode crer, tinha lado A e lado B,
tinha uns pequenos, compactos;
outros, mais velhos, em 78,
como o disco de casamento
da minha tia-avó. Disco de criança
vinha a cores. A série “Disquinho”,
até parece que eu ouvi sozinho.

*****

Um grego dizia que o rio sempre é o mesmo.
O outro dizia que o rio nunca é igual.
Um dizia que tudo flui. O outro, que tudo fica.
E eu e você, diante do córrego, há 20 anos,
a gente pensava o quê? dizia o quê?
Já não lembro, e ao mesmo tempo
lembro cada palavra.

O rio, grande rio, é o tempo.
E o córrego, minha memória
– que carrega tudo, e mais nada.

Quase sempre eu penso

March 19, 2005
Publiquei esta crônica em janeiro do ano passado, em outro lugar. E agora, neste sábado diferente de outros sábados, achei que seria legal republicá-la. Não me perguntem por quê.

Ei-la:

Quase sempre eu penso nas grandes lojas vazias, como aquela que vejo ao ir para o trabalho, milhares de roupas em oferta e nenhum comprador, calças de tergal que jamais conhecerão uma perna humana, e um gerente gordo e melancólico a olhar os passantes indiferentes na calçada.

Numa mulher feia, sem graça e sem par, assistindo a um programa de fofocas no sábado à noite e comendo toneladas de Fandangos, eu penso quase sempre. Nos olhos súplices da atriz pornográfica simulando o enésimo orgasmo do dia, e no silêncio entediado, nem um pouco romântico, de um casal no restaurante, que nada fala por não suportar a própria voz, eu penso quase sempre.

Às vezes penso no cachorro abandonado à própria sorte pelos donos, e que não tem a esperteza dos vira-latas para procurar comida; e no pianista que perdeu o movimento das mãos. De vez em quando eu penso no homem gordo que faz exercícios físicos dentro da quitinete, mas logo depois abre a geladeira. No guarda noturno que lê o mesmo gibi do Tex há três anos, tanto que já decorou quase todas as falas, eu penso com uma certa freqüência.

Uma construção abandonada. Um bêbado caído. Um relógio parado. Uma estudante com enxaqueca. Um velho padre com Alzheimer. Um policial depressivo. Um radialista rouco. Uma caneta sem tinta. Um LP riscado. Um livro sem páginas. Uma canção sem letra. Um médico doente. Um psicólogo louco. Um dentista com dor de dente. Penso neles.

No garoto que apanha diariamente dos colegas da sétima série B e na mulher que confunde balões de sinalização com óvnis, eu penso regularmente. Na garota que namorou o político e hoje tenta a sorte no programa de TV, eu penso um pouco; acho que penso mais no vendedor que não vende nada há cinco semanas, na mãe do viciado que não dorme há cinco dias, no executivo de uma grande empresa que não ri há cinco anos.

Cinco vezes pensei na tristeza de uma churrasqueira deserta no domingo à noite, e na gastrite de um polemista sangüíneo. Cinco vezes cinco vezes eu pensei nas dificuldades de um jovem que não aceita opiniões contrárias, e nas agruras de um senhor que não admite deixar nada sem resposta. Cinco vezes cinqüenta vezes eu pensei no irmão da garota que matou os pais.

Muitas vezes eu pensei na solidão do homem que demite seus empregados por vaidade, por sede, por algum motivo obscuro. Outras tantas vezes eu pensei que ele poderia ser feliz em sua fazenda. E tantas vezes eu pensei que na alegria de um menino que não pediu para nascer – como todos nós.

No proprietário de um som automotivo ultra-potente, que já começa a ter problemas de surdez, e no provador da fábrica de cerveja que virou alcoólatra, eu penso quase sempre. No velho entrevado que adora viajar mas saiu de casa pela última vez em 1985; na modelo que vomita seu jantar; no pintor alérgico a tintas – neles eu costumo pensar.

Quase sempre eu penso nas coisas. Visíveis e invisíveis. E quando a loja de roupas pegar fogo; quando a mulher feia resolver viajar para o Uzbequistão; quando a atriz pornô se apaixonar por um rapaz ingênuo de 19 anos; quando o casal resolver pedir divórcio; quando o cão encontrar comida e companhia; quando o pianista voltar a tocar, mas para ninguém; quando o homem gordo ficar magro; quando o guarda noturno trabalhar de dia e comprar um novo gibi – quando acontecer alguma coisa no mundo, eu estarei pensando naquele que estava pensando. Em tudo.

Contradição em termos

March 18, 2005

A compaixão faço do tempo,
e o tempo faço da compaixão.
Não lembro as coisas como elas são,
mas sou as coisas como elas lembram.

Tudo que vejo é invisível,
tudo que é visível não vejo.
Minha linguagem é o silêncio,
e o silêncio me é impossível.

Se dão a mão quero o braço,
se dão o braço quero a perna,
se dão as pernas quero o mundo.

A compaixão se faz eterna,
e me ultrapassa num segundo.

Por que bebemos tanto?

March 17, 2005
Respondendo à questão formulada acima, o grande Paulo Mendes Campos escreveu uma bela crônica; bem-escrita, como soía, mas equivocada. (Gostou do “soía”, professor Tanga?). Dizia PMC – numa explicação meio marxista, meio romântica – que a bebedeira do pessoal, inclusive a dele, se explicava pela injusta distribuição de felicidade no mundo. Cito de memória; não sei se era exatamente isso, mas era por aí.
Ouso, de joelhos, contestar o mestre. Penso que bebemos porque não é mole encarar o mundo a seco; e também porque gostamos de ficar trelelés. Outras explicações me parecem silogismos forçados; sofismas, sofismas.
Estou lendo um interessante livro de Brenno Silveira – “A Arte de Traduzir” – em que ele oferece duas interessantes definições de linguagem. A primeira, de Talleyrand, diz que a linguagem serve para ocultar os pensamentos. A segunda, de Kierkegaard, defende que muita gente se serve da linguagem para esconder o fato de que não pensa.
Mas este post está ficando intelectualóide demais. O que eu quero mesmo é falar do Kotovelo’s Bar. Como diria o Ser Barbudo, “estou convencido de que” o Kotovelo’s, nosso querido Kutuva, só existe para comprovar a inexistência de quem o freqüenta. Quando estou lá, tenho a absoluta certeza de que não sou ninguém.
Corroborando Kierkegaard (desculpe, eu sempre quis dizer isso: “Corroborando Kierkegaard”...), submeto os pacientes leitores deste blog a mais uma letra de minha autoria, prova cabal do vazio que habita meu sistema nervoso periférico (o central, como já disse, foi perdido na lareira dos Balarotti). Ei-la (a letra, não a lareira):

CANÇÃO DO KOTOVELO’S BAR

Salvai o Kotovelo’s, salvai o Kotovelo’s,
Senhor, dos malas e dos traficantes,
dos chatos de agora, dos chatos de antes,
dos líderes de massa, dos ex-estudantes,
Senhor, por Nossa Senhora, ouvi nossos apelos,
– salvai o Kotovelo’s!

Salvai o Kotovelo’s, salvai o Kotovelo’s,
o bar mais fino do planeta,
Senhor, dos pérfidos, dos proxenetas,
fazei-o sempre cheio de ninfetas,
Senhor, estes pedidos, não deixeis de atendê-los,
– salvai o Kotovelo’s!

Salvai o Kotovelo’s, salvai o Kotovelo’s,
sujinho mais limpo do mundo,
salvai-o de frente, salvai-o de fundo,
salvai-o dos tiroteios e dos vagabundos,
nem mesmo deixei-nos um dia sem vê-lo,
salvai o Kotovelo’s.

Salvai o Kotovelo’s, salvai o Kotovelo’s,
salvai-nos na noite escura,
pra vivermos sem frescura,
no meio da luta dura,
abrandai o desespero
– salvai o Kotovelo’s!

Salvai o Kotovelo’s, salvai o Kotovelo’s,
manés e vendedores, tirai-os do caminho,
fazei-nos merecedores
do bom pão e do bom vinho,
enquanto quiserdes provê-los
(sem crimes e desmazelos)
– mas salvai o Kotovelo’s!


*****

Adendos:
1. Assassinei a métrica.
2. Conjugar verbo em segunda pessoa do plural é uma dureza, Tanga! Devo ter errado fragorosamente.
3. E, depois de tantas loas ao Kotovelo’s, ouso-lhes convocar para uma indefectível Quinta Sem-Lei... no Bar Brasil!

Mais luz!

March 16, 2005

Luz.
Eu batia à máquina o trabalho da faculdade.
Luz.
Eu brincava sozinho no quarto da empregada.
Luz.
Fomos visitar um apartamento à venda no Brooklyn Paulista.
Luz.
Achei engraçado quando Daniela, 11 meses, disse: “Puta merda”.
Luz.
O dia em que pegou fogo na barraca do Falcon.
Luz.
Campeonato de punheta no acampamento. Perdi.
Luz.
Torneio de futebol de salão. Os perdedores fugiram com grana.
Luz.
Marcelo Locaço, ao som de Tim Maia, dormindo no chão frio da república.
Luz.
Cruzeiro FM, badabadabadabaiá. Cruzeiro FM, badabadabadabaiááááá!
Luz.
Copos amarelos cheios no famoso bar Aperitivos do Paulinho.
Luz.
Ligando para meu amigo Barroso, depois de uma brochada provocada por uso de maconha.
Luz.
Eu e Jackie comemos um belo filé de peixe no hotel em Santos.
Luz.
Eu não mereço tanta mulher assim! Eu não mereço tanta mulher! Eu não mereço! Eu não! Eu! Eu! Eu!
Luz.
Londriiiina. Looooove. Niiiiight.
Luz.
Um Opala capotado. Um homem morto dentro.
Luz.

Últimas notícias do Brasil

March 16, 2005
Confirmado: Fabinho Assunção estrangulou a namorada com um fio dental depois de ser trocado pelo Marcelo Rocha.
Luana Piovani matou o companheiro inoculando-lhe veneno ofídico de fabricação própria, depois que o gajo declarou sua preferência por Flávia Renata.
Samuel Rosa irrompeu armado numa queijaria e matou 18 pessoas em Belo Horizonte, transtornado por ler minhas considerações sobre o Skank.
Carlinhos Brown entrou ensandecido no James e seqüestrou Helena Cogumelo, exigindo em troca que Groo e Vidal fizessem elogios rasgados à música baiana nos respectivos blogs.
Reinaldo Giannecchini – filho de Patão, meu ex-professor de Química – espalhou gás sarin pelo metrô carioca, cego e louco de paixão (não correspondida) por Paula Schütze e Karla Matida.
Em contrapartida, Marília Gabriela canalizou sua crise de ciúmes atacando um bando de populares com um exemplar das facas Ghimso e um par de meias Vivarina.
Viviane Araújo declarou que, Belo por belo, prefere o Pafu, aquele ser tão feinho que chega a ser bonitinho. E tão desaparecidinho que chega a estar pertinho.
Ivete Sangalo ameaçou jogar uma bomba de nitrogênio caseira sobre o Bar Brasil, caso Tanga não responda imediatamente a seus e-mails e recados na secretária eletrônica.
Agora, eu quero ser processado por toda essa gente! Mas precisarei de um defensor pago pelo Estado, OK?

PS: Politicamente correto não é somente o ser incapaz de compreender uma ironia. É também o indivíduo que não percebe uma inverossimilhança.

Respostas que eu gostaria de ouvir para as perguntas de sempre

March 15, 2005

– O que a prefeitura está fazendo para resolver o problema?
– Nada. Estamos enrolando.

*****

– O que o sr. tem a dizer sobre as acusações de desvios de recursos?
– Nada. Eu roubei mesmo.

*****

– Como o sr. pretende armar o time?
– Pretendo armá-lo para ganhar o jogo. O empate seria pouco interessante. A derrota, menos ainda.

*****

– O sr. aceita essa senhora como legítima esposa?
– Não. Mas toca o barco, seo padre, que o pessoal tá esperando a festa.

*****

– Dá uma passadinha lá em casa pra tomar um café.
– Não. Você é chato e seu café é horrível.

*****

– Tudo bem?
– Não. Mas não me pergunte por quê.

*****

– Você gosta de poesia?
– Seu nome é Carlos Nejar?
– Não.
– Então, eu não gosto.

*****

– Gás da Ultragás?
– Não. Gás mostarda.

*****

– Bom-dia, o sr. já levou seu prêmio?
– Não. O Nobel não saiu ainda.

*****

– O sr. conhece o Mário?
– Esse em que você está pensando, não. Só o outro Mário.
– Que Mário?
– Aquele que te comeu atrás do armário.

Soubesse ela

March 15, 2005

Soubesse ela que venho aqui todas as noites só para vê-la. Soubesse ela que tomo aqui meu vinho barato para dormir, dormir com ela, ou ficar acordado a noite inteira, observando a codorniz da sua antítese. Soubesse ela que pele e carne moram em cada centímetro do meu quarto, e que ao ler o Livro de Catulo penso nela em todas as formas visíveis e invisíveis. Soubesse ela que seu corpo, sua floresta, vive, lua nova insana, lua sem crateras, nos fundos da minha máquina de viver. Soubesse ela que tenho a sua idade, que desconfio de seu nome no Livro dos Nomes, que tudo baixo em mim avança quando escrevo estas palavras. Soubesse ela a mão, a boca, o piercing do umbigo, a epidemia de saudade e grito, o placebo de um telefonema, a multidão de belas moças antigas e novas, prenúncios do que ela é no tempo, como se prevista fosse no plano da Criação. Soubesse ela a ausência, como pesa e sangra, oh mulher feita de outras mulheres, oh linguagem das coisas, coração dos gozos, voz que sobreviverá a mim. Soubesse ela.

Trapalhadas do tempo

March 14, 2005

Didi acordou com vontade de ligar pro Dedé.
Ligou. E disse:
– Cadê Mussum? Cadê Zacarias?
Leia mais na crônica.

Auto-entrevista

March 13, 2005
Pergunta: Por que você publica tantos posts?
Resposta: Sei lá. Acho que estou num período meio compulsivo. Quantidade não é qualidade, diz o velho chavão, mas quem sabe vez por quando não sai alguma coisa que preste? O Poema da Buceta eu achei até bonzinho.

Pergunta: Qual a diferença entre o Falcão, do Rappa, e o Carlinhos Brown? E entre o Samuel Rosa e o cantor do J. Quest? E entre o Oswaldo Montenegro e Inri Cristo? E entre Zélia Duncan e Simone? E entre Tina Turner e Macy Gray?
Resposta: Nenhuma, nenhuma, nenhuma, nenhuma e nenhuma.

Pergunta: Por que você não responde a comentários negativos no seu blog?
Resposta: Não respondo a críticos e polemistas de ocasião por absoluta falta de vontade. Desde a infância, sou avesso a brigas. Físicas e verbais. E o silêncio é a melhor arma contra a estupidez. Tanto que não há mais comentários idiotas neste blog.

Pergunta: Qual é a sua posição política?
Resposta: Pela milésima vez: sou apolítico, alienado assumido. Não gosto da esquerda, nem da direita, nem do centro. Não sou anarquista; ser anarquista, de algum modo, é participar da política. E não estou disposto a acreditar no horrível axioma segundo o qual tudo é política. Pretendo ignorar a existência do poder o quanto puder. No dia em que aparecer um Hitler, Stálin, Lênin ou Fidel Castro, eu vou para o exílio, ser alienado e escrever no Paraguai, na Bolívia.

Pergunta: Mas os escritores não devem tomar partido?
Resposta: Exigir compromisso político de escritores é reeditar Jdanov e Goebbels.

Pergunta: Tem algo a falar sobre o jornalismo contemporâneo?
Resposta: Não. Aliás, tenho uma coisa só: acho que o meu amigo Márcio Leijoto deveria relaxar um pouco.

Pergunta: Já foi filiado a algum partido?
Resposta: Eu já tive catapora, sarampo, caxumba e petê.

Pergunta: Professa alguma religião?
Resposta: Sou cristão, sem participar ativamente de nenhuma igreja. De vez em quando vou à missa. No entanto, concordo com Adélia Prado quando ela diz que os ritos modernos – católicos e evangélicos – carecem de mistério. A fé exige meditação. Meditação exige serenidade e silêncio. Só assim pode-se contemplar o enigma.

Pergunta: Por que escreve?
Resposta:: Eu escrevo para voltar ao Verbo.

Pergunta: O que é poesia, para você?
Resposta: Poesia, no sentido amplo, é o caminho da compaixão através da linguagem. No sentido estrito, é o melhor jeito de colocar as palavras na página (ou na voz).

Pergunta: Por que gosta tanto do Kotovelo´s Bar?
Resposta: Porque lá não tem frescura.

Pergunta: Mas não andaram dando uns tiros lá perto?
Resposta: É. Deram. Mas o bar não tem nada a ver com isso. Aliás, eu poderia ter recebido um desses tiros, mas meu anjo da guarda foi mais rápido. Azulivre.

Pergunta: Por que não diz mais nada?
Resposta: Porque não sei. Bu!

Teletransporte

March 13, 2005
Vida longa e próspera!

Garota, você não está aí.
Você está em outro lugar.
O chuveirinho do Dr. Spock
já lhe fez passar para longe,
a 300 mil quilômetros por segundo.

Ei, moça, você não esta aí.
Não está lendo as palavras na tela.
O computador nem mesmo está ligado.
Quando estas letras forem impressas,
o papel não estará em suas mãos. Longe disso.

Ninguém está onde você acha que está. Ninguém.
Nem mesmo o átomo, nem mesmo o cão,
nem mesmo Ursa Maior. Você muito menos.
O chuveirinho do Dr. Spock levou tudo
e você não está nem aí.

Forma de um uísque com gelo!

Cuidado!

March 12, 2005
É que todas as coisas estão povoadas.
No papel colado na parede,
na régua esquecida no fundo da gaveta,
na dobradura abandonada ao vento,
na revista pornô que durou um só número,
almas individuais ocultam
os segredos do universo.
Mesmo o canudinho que você rejeitou
depois do refrigerante,
mesmo o sapato que nunca mais,
mesmo a lata de ervilhas
que corta a mão do nosso irmão lixeiro,
pensam e falam, pensam e falam,
sem o consolo de morrer.
A vida, esse objeto eterno, está espalhada
como um oceano de vozes;
espalhada como um vinho
da vindima infinita;
espalhada em tudo que o desprezo entristeceu.
A coisa toda vive,
como um soco de Teseu
em nosso Minotauro manco.
E tudo que não é coisa é Deus.

Deus

March 11, 2005

– Deus vive deitado nas manhãs de domingo – ele disse.
– Deus suporta serenamente as dores do mundo – ela disse.
– Deus espera com paciência aquilo que ele já sabe que é.
- Deus não gosta de camisetas de Che Guevara.
- Deus não pede a palavra nas reuniões do Conselho Universitário.
- Deus não vai ao ar.
– Deus avisa por intermédio das pausas.
– Deus caminha por sobre as águas onde não há água.
– Deus pratica o jogo das adivinhas nos bosques desabitados.
– Deus manifesta-se um segundo antes do teu gozo.
– Deus pensa simultaneamente em todas as línguas.
– Deus toma conta de teus velhos amores.
– Deus tem na memória todos os segredos das chaves.
– Deus escreveu este texto milhões de anos antes da invenção das letras.
– Deus infiltrou-se naquilo que já era Deus.
– Deus é silencioso porque isso é mais eloqüente.
– Deus chora sem parar, rindo da minha burrice.
– Deus realiza milagres tão perfeitos quanto cartesianos.
– Deus sabe que não existe nada além do milagre.
– Só de pensar em Deus, eu... Só de pensar no que pensa Deus, eu... Só de imaginar o que consome e preocupa Deus, eu...
– Deus proteja aqueles que durante o tempo de 20 anos terrestres não acreditaram em Deus.
– Eu vi Deus na mesa de plástico do Kotovelo´s Bar.
– Eu vi Deus na Rua Sem Saída.
– Eu vi Deus no copo de Gatorade.
– Deus fala tão alto que não consigo ouvi-lo.
– Deus está tão perto que não se enquadra na visão.
– Deus ruma.
– Deus some.
– Deus espirra.
– Deus te crie.
– Deus te ouça.
– Graças a Deus.

Ser mortal

March 11, 2005
Vieram contar ao sábio Xenofonte que seu filho havia morrido no campo de batalha. Ele só fez um comentário: “Eu sabia que meu filho era mortal”.

A ser mortal pertencem muitas coisas.

A ser mortal pertence ferir um amigo sem intenção de fazê-lo.

A ser mortal pertence alimentar a culpa como um cardume de predadores.

A ser mortal pertence escrever para não morrer.

Engolir as Neosaldinas, ter medo de enfrentar o Sol, lembrar um só verso de um velho poema – tudo isso pertence a ser mortal.

A sexta-feira. O cronograma. A agenda. O plantão de sábado. A distância dos elementos. Tudo isso, abominavelmente, pertence a ser mortal.

A ser mortal pertence copiar a si mesmo.

A ser mortal pertence saber que nada é eterno. A não ser a vida.

(E hoje eu ouvi Mozart, em vez de João Sebastião. Mozart morreu com 36 anos. Ele era mortal.)

Tchau, truta (parte 2)

March 10, 2005
A palavra tchau tem um sentido bem preciso: ela não é adeus, mas também não é aquele aviso que a balconista deixa na porta do bazar na hora do almoço: volto já. Tchau significa uma certa distância; uma distância de 380 quilômetros.
O Fábio Galão não sabe, mas eu já o conhecia por texto antes de conhecê-lo por balcão. Carina Paccola, minha namorada em 2000, era professora do Galão e, de vez em quando, me entregava uma página escrita: “Leia esse texto”. Eu lia, elogiava, e ela informava: “É do Fábio Galão. Ele tem cara de mal-humorado, mas é gente fina”.
Depois eu conheci o Galão pessoalmente. O texto, eu já sabia que era bom; a cara, eu logo vi que era de mal-humorado; rapidamente, vi que ele também era gente fina. Minha polidez diplomática (amiúde exagerada) foi bem aceita pelo mau humor cáustico, ou melhor, o mau humor galônico. Por galônico, entenda-se aquele que só cultiva sentimentos genuínos (na maior macheza, pô, qualquié, tá me estranhando?).
Galão é um homem livre de frescuras e sorrisinhos hipócritas. O sorriso dele é o que nasce no canto da boca, depois de uma olhadela desconfiada, como brilhantemente observou o Marcelo Rocha.
É costume pedir conselhos e dicas a pessoas mais velhas. Pois, com o Fábio Galão, acontece o contrário. Dez anos mais velho, eu é que peço conselhos a ele. Agora isso vai ficar mais difícil. Temos o blog, temos o jornal, temos o e-mail – mas não teremos mais, ou teremos muito raramente, o Galão da Quinta Sem-Lei e da Terça Tilt.
Comecei falando da palavra tchau; agora devo falar da palavra truta. Antes de conhecer o Fábio Galão, amigo para mim era chapa, camarada, parceiro, ô seu viado, ô viadão, ô salafrário. Amigo que conheci através das palavras – “Leia esse texto”, dizia Carina –, Galão me presenteou com mais este termo, até então desconhecido para mim: truta. Hoje, quando eu penso em amigo, eu penso em truta. E, conseqüentemente, penso na cara soturna do Galão – lembre-se: homem é feio! – ao balcão da QSL.
Conversamos menos do que poderíamos ter conversado; trocamos menos idéias do que poderíamos ter trocado; eu ouvi menos Radiohead do que deveria ter ouvido. Mas continuaremos por aí, embora 380 quilômetros sejam 380 quilômetros.
Tá bom, Galão, tá bom. Eu sei que você não gosta que eu imite o Ivan Lins, nem o Roberto Carlos, nem o Eduardo Judas Barros cantando Legião Urbana. Sei que você não gosta de ouvir o Raulzito nem os Titãs em castelhano. Sei que você não suporta a letra de “A Turma do Galão Mágico”. Mas hoje, na QSL, vou esquecer um pouco da minha polidez diplomática (depois da quinta Skol, ela fica bem prejudicada) e desfiar um repertório infame em sua homenagem.
Boa sorte em Curitiba, Galão. Agora teremos mais um excelente motivo para visitar a capital (e já os temos de vários tipos). Amigos curitibanos, tomem conta do rapaz.
A vida lhe será leve, truta. Tão leve quanto a palavra já é.

Tchau, truta (parte 1)

March 09, 2005
– É. Galão vai.
– E a gente fica.
– Vai pra Curitiba.
– Nós, Londrina.
– Galão é bom?
– É.
– É hooligan?
– Bagarai.
– Tem mau humor?
– Hum.
– É truta?
– Vixi.
– É gente fina?
– Ducas.
– Ir vai ser bom?
– Pra ele, vai.
– E cá pra nós?
– Pra nós é chato.
– E o que fazer?
– QSL.
– É amanhã?
– É claro, truta.

!

March 09, 2005
!



Ah! Exclamação! Sinal de susto, ira, dor, alegria, advertência, morte, salvação, tudo!



Nasce-se e morre-se exclamando!



Biologia, antigamente, era história natural!



Há uma história natural da exclamação!


Nas histórias em quadrinhos antigas, todas as frases terminam assim!



Não existe motivo para ser revolucionário!



Pelo simples fato de que tudo – tudo! – é revolução!



Receber um telefonema na madrugada!



A insanidade (nome bem melhor que loucura) impera!



Por isso vou protestar!



Vou protestar porque a abelha produz mel, a vesícula produz fel, Ourinhos produz pinga e a Coca-Cola produz Kaiser!



Vou protestar porque o mundo não é o Kotovelo´s Bar!



Vou protestar porque os dias teimam em não ser a Quinta Sem-Lei!



Vou protestar porque amo a brincadeira acima de tudo!



Vou protestar contra o silêncio dos espaços infinitos!



Vou protestar contra o silêncio metálico das secretárias eletrônicas!



Vou protestar porque não temos bibliotecas abertas de madrugada!



Vou protestar porque não temos um sistema protetor contra malas!



Vou protestar contra as hediondas diferenças entre os reinos animal, vegetal, mineral e funghi!



E – acima de tudo – vou protestar porque não temos dois pontos de exclamação – um para cima e outro para baixo –, como na língua espanhola!



Deixe aqui também o seu protesto!



!

A situação é alarmante

March 08, 2005
Já notou o excesso de alarmes que há no mundo? Os alarmes disparam tanto que ninguém mais se alarma com eles. O disparo de um alarme só serve para causar irritação. Leia mais na nova crônica.

*****

Ela para ele:
- Não quero brincar mais.
Ele para ela:
- Mas para mim a brincadeira é mais importante que a vida.
Ela para ele:
- Não tenho nenhum comentário a respeito.

*****

Um repórter da BBC de Londres acabou de dar uma barriga monumental, dizendo que a jornalista italiana, e não o segurança dela, foi assassinada pelas tropas americanas no Iraque.
E disse duas vezes.

*****

Dom Quixote de Londrina,
Dom Quixote de Londrina,
vá lá ver se estou na esquina.

*****

Passando pela Rua Hugo Cabral, esquina com Calçadão, vejo o nome que deram a um restaurante por quilo: COMEDORIA GERAL. Detalhe irônico: é o mesmo lugar em que funcionou o saudoso, legendário e sem-vergonha BAR SECRETO.

*****

E mais não digo. Preciso?

Anotações de um homem ridículo (em três movimentos e uma crítica)

March 07, 2005

FÁBULA DA ROTINA

Quando fui passar pela roleta do ônibus hoje, a máquina engoliu meu cartão-transporte. Foi preciso que um fiscal abrisse as entranhas do monstro para devolver meu cartão. Exatamente como o caçador tirou a vovozinha da barriga do lobo.

O SONHO DE UM HOMEM RIDÍCULO

Há um conto de Dostoiévski que não posso começar a ler: já estou relendo. Para mim, é um dos melhores começos da literatura:

Eu sou um homem ridículo. No momento dizem que estou louco. Seria um título excelente, se para eles eu não permanecesse nada mais que ridículo. Mas de agora em diante não me zango mais; todo mundo é muito gentil comigo, mesmo quando caçoa de mim, e, dir-se-ia, mais gentil ainda naquele momento. Eu riria de bom grado com eles, não tanto de mim mesmo, quanto para lhes ser agradável, se não sentisse tal tristeza ao contemplá-los. Tristeza de ver que não conhecem a verdade, esta verdade só eu conheço. Como é duro ser o único a conhecê-la! Porém, eles não compreenderão. Não, não compreenderão.

Ah, o meio e o fim do conto também são ótimos. Mas não vou contar. Sou chato, mas para tudo há um limite.

A VERDADE ABSOLUTA

Sim, eu acredito na existência de uma verdade absoluta. Mas acho que ela é inacessível para o homem. Só Y. a contém.
Para o ser humano comum, a única forma de compreender certos aspectos da verdade (não a verdade inteira; ela é tão luminosa quanto a face do Criador) é a poesia, no sentido mais amplo do termo.
Poesia não quer dizer a verso. Você pode detestar poesia no sentido estrito, mas sempre terá a sua poesia pessoal no sentido lato.
Poesia é a aproximação máxima com o Verbo. Pode ser a fé pura e simples; a contemplação do enigma; música; um livro; a manhã de sábado; o vento; o umbigo da menina da mesa ao lado. É como disse Paulo, o são:

Porque o nosso conhecimento é limitado,
e limitada é a nossa profecia.
Quando porém vier o que é perfeito,
o que é limitado desaparecerá.

Quando eu era menino,
falava como um menino,
pensava como um menino,
raciocinava como um menino.
Depois que me tornei homem
desisti das coisas de menino.

Agora vemos em espelho,
e de maneira confusa,
mas, depois, veremos face a face.
Agora meu conhecimento é limitado,
mas, depois, conhecerei como sou conhecido.


CRÍTICA

Comentário de um leitor sereno:
– Você não se decide, não, Briguet? Um dia é Piranha, Piranhinha – no outro é o Apóstolo Paulo?

Síndrome do coração partido

March 05, 2005
Acabo de ver dois programas na televisão. Quer dizer, ver inteiros eu não vi; dormi em boa parte. É assim que eu vejo televisão: dormindo. As you know, faço muitas coisas dormindo nesta vida.

O primeiro programa era a entrevista de um médico. Cardiologista. (Falar nisso, preciso ir ao cardiologista para ver meu colesterol. Mas tenho adiado com medo de que ele me proíba a Quinta Sem-Lei e me impeça de entrar no Kotovelo´s Bar. O Kotovelo é a parte mais importante do meu organismo. Muito mais que a espinhal dorsal, já que o céleblo eu perdi numa lareira aí.)

Perdoem a digressão. Vou recomeçar a frase. O primeiro programa era a entrevista de um médico. Cardiologista. O cara falava sobre uma tal de síndrome do coração partido. Uma síndrome que ataca as pessoas que sofrem uma forte emoção negativa (perda, decepção, despedida).

O problema foi que eu dormi na hora em que o médico estava explicando melhor a tal síndrome. Quer dizer: eu dormi com a síndrome. E sonhei que a humanidade inteira estava padecendo da síndrome do coração partido. Uma espécie de Madrugada dos Mortos da melancolia. Todo mundo chorando, sofrendo e morrendo – era o caos, Rubão! O caos. Como se todo mundo estivesse com ressaca de Kaiser (e olha, quem já teve uma ressaca de Kaiser não esquece mais. O travesseiro cheira Kaiser, cosdilô.)

Depois teve o outro programa. National Geographic (nome que algum marqueteiro viado agora está tentando abreviar para Nat Geo). Era um documentário sobre implosões de grandes prédios: arranha-céus, ginásios, estádios. Pressionante, pressionante. Cosdilô.

Aí eu também dormi. Dormi e sonhei que todos os habitantes do planeta (ei, isso inclui você e o autor das mal digitadas) eram prédios em implosão. Mas nós somos obras de uma engenharia sádica (masoquista? O Dr. Sugismundo dizia que era tudo a mesma coisa), vamos implodindo por partes. Primeiro, o céleblo, na lareira. Depois, o fígado, no Kotovelo´s Bar. Depois o coração.

Me perdoe por ajudar a implodir seu coração, como tudo na vida. Agora é acordar, que a noite está começando.

Allegro ma non troppo

March 05, 2005

Marcelo Rocha informa que a Caraguatatuba Chopp, cerveja lançada em Londrina na última quarta-feira, tem cheiro de bosta de vaca.

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Triste é concluir que eu mereço tomá-la.

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Meu vizinho agora deu para imitar o Tim Maia.

Ilha deserta

March 05, 2005

O Gauguin foi para uma ilha. E olha o que ele encontrou por lá.

Eu levaria para a ilha deserta Guerra e Paz, talvez Anna Karênina. Levaria o Cântico dos Cânticos, o Eclesiastes, as Cartas de Paulo. Sexus, do Henry Miller. E será que pode levar um Machadão?

Para a ilha deserta, eu levaria esta manhã de sábado, e o disco de Glenn Gould tocando João Sebastião. Um almoço do Dá Licença. Quem sabe o Kotovelo´s Bar pudesse abrir uma filial por lá. Minha mesa ficaria numa sombra gostosa, debaixo da árvore. Eu levaria o Marcelo Rocha, o Tanga e o Rubão pra bater papo e dar risada. E eu levaria também umas estudantes bonitas para a gente ficar olhando. E aí, Grota, Lúcio Flávio, Zé, Preto, Gaetaninho: vocês também topam? É claro que eu não esqueceria minhas amigas Neosaldina, Janaína e Ester. Flavinha! Karla Matida! Siiiilvia Rooocha! E todos os amigos que esqueci – desculpem, mas o blog é pequeno, e eu tenho que continuar o texto. (Por sinal, eu levaria uma sacola de desculpas; outra, de espantos.)

Eu levaria um celular da Vivo sem carregador; assim que a bateria acabasse, eu teria o prazer de jogar aquela porcaria no mar. Minha declaração de imposto de renda, minha pasta marrom, meu calendário da Ultragás, a convocação para a reunião de condomínio: outras coisas que eu jogaria no mar, com grande prazer.

Levaria aquele colchão que eu sempre coloco na sala. Umas piadas novas e bem infames para contar. Umas imitações legais. Uns conselhos. Umas broncas, que eu mereço.

Eu levaria sorvete napolitano para ilha deserta. Sorvete e cerveja. Skol. Eu levaria o grande monstro marrom e o grande monstro azul (chefe de fase) para a ilha deserta. Vivi e Bala, Daniel e Paula – é claro que vocês estão convidados. E todo mundo que eu esqueci, mas guardo no coração.

Eu levaria um outro coração para a ilha deserta. Um coração mais forte, mais corajoso, mais prudente. E também levaria um fígado sobressalente. (Aliás, uma dúvida daquelas que me acordam à noite, professor Tanga: por que temos dois olhos, dois rins, dois ouvidos, dois pulmões e apenas um fígado?)

Eu levaria Prometeu e o abutre, sem dúvida.

Eu levaria um Sol mais fraco, um vento mais fresco, uma noite agitada. Eu não levaria camisinha nem senha de banco. Não levaria cartão-transporte nem crediário das Americanas. Eu não levaria Kaiser, nem Skank, nem livro de poesia concreta.

Eu levaria lápis e papel para a ilha deserta. Quando o lápis chegasse ao fim, eu escreveria poemas e posts na praia, com uma vareta, igual ao Padre Anchieta. Eu levaria umas rimas bem pobres no bolso.

Eu levaria a mãe pra fazer espaguete à francesa. Levaria a Vó Maria pra contar histórias de mil novecentos e nunca. Levaria o pai pra conversar sobre literatura. Levaria a Orelha pra chamá-la de Orelha na frente de todo mundo. Levaria o Danilo – faz tanto tempo que eu não vejo meu afilhado; ele já está falando; que saudade.

Eu levaria umas paixões e uns desassossegos. Levaria carvão pro churrasco e o Pafu, esse desaparecido (será que ele já não foi pra lá?). Levaria escova de dente e fio-dental. Levaria desodorante. Levaria os supermercados Viscardi (“Amigos que a gente tem / e bons vizinhos também”). Levaria a Juliette Binoche, é claro que eu levaria.

Para a ilha deserta, eu levaria o mundo, tirando as coisas muito chatas. Levaria o passado. Levaria o ego e o id. Levaria o sonho e a insanidade. Levaria o absurdo, um copo d´água e um daqueles plásticos com bolinha pra gente apertar. Levaria este blog, talvez. Levaria você, mulher, antes e depois de tudo. E com você descobriria que eu mesmo sou a ilha.

Elegia de Londrina

March 04, 2005
Não sei por que vim parar nesta cidade,
esta cidade sem consolo e pequenina.
Tantos quilômetros, parábola de tudo,
longe de ti, longe do mar, longe do mundo.

Não sei por que vim morar nesta cidade,
e fui ficando, fui ficando, fui ficando.
Pois tantos anos não parecem um segundo,
longe de ti, longe do mar, longe do mundo.

Não sei por que vim amar esta cidade,
que tem um bar denominado Kotovelo´s.
Sem apelo, vou ficando aqui no fundo,
longe de ti, longe do mar, longe do mundo.


Como de costume, um poema e uma paródia

March 03, 2005
Antes, porém, uma advertência.

O poema é liberado; qualquer um(a) pode ler sem medo. O único perigo é o tédio.

Já a paródia que vem em seguida, aviso, é uma incursão na vulgaridade completa.

Por isso, meninas de fino trato, eu recomendo que não leiam o leia mais. É coisa de clube irmão caminhoneiro shell, bem de moleque mesmo.

Moças, não digam que não avisei. E não aceito reclamações.


*****

Lavoura dizimada

O que sobra disso tudo
é a noite de geada
e a lavoura dizimada.

Disso tudo, o que resta
é uma conta na pindura
e um sabor de fim de festa.

Da colheita, da vindima,
não ficou nenhuma galha.
Não há vinho que redima
esta seca, esta falha.

Se vieram ventos fortes,
se perderam no espelho.
Se caíram chuvas mansas,
já secaram por inteiro.

Chuva minha que partiste,
não foi Deus quem te levou.
O amor que tu me tinhas
era pouco e se acabou.

O amor que tu me tinhas
era pouco e se acabou.

*****

Piranha, piranhinha


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Ensaio para a QSL

March 03, 2005
É como um cara disse hoje:
– O pato anda, voa e nada. Mas não faz bem nenhuma das três coisas.
De fato, o pato é um renascentista do fracasso. Um Da Vinci que não dá nem três.

*****

Ah-rá! Por isso que o pato é pato!

*****

Fui à Embrapa hoje, conhecer os diversos cultivares de soja. Um deles tinha um nome legal: Viçoja.

Se alguém me perguntar o que fui fazer na Embrapa, direi:

– Vi soja!

Hã? Hã? Hã? Hein? Hein? Entendeu? Entendeu?

*****

Também vi girassóis na Embrapa. E uma belíssima panorâmica de Londrina.

Paulo Leminski dizia que os girassóis nunca mais foram os mesmos depois de Van Gogh.

Nem os campos de trigo; nem as estrelas; nem os quartos; nem as orelhas.

Desculpem pelo mau gosto. Mas é dele que eu gosto.

Hã? Hã? Entendeu? Entendeu?

*****

Pior é pensar que na QSL propriamente dita será muito pior.

*****

E mais não digo porque cansei.

As piores ressacas de todos os tempos -1

March 02, 2005

Vocês aí que reclamam de ressaca, é porque não conhecem a história do Inácio.

A turma percebia que o Inácio nunca, jamais tomava vinho. Podia ser o melhor vinho francês; necas.

Se perguntavam por quê, ele desconversava.

Até que um dia, aliás, uma noite, depois de umas quatro ou nove cervejas, Inácio resolveu falar.

Inácio, aos 18 anos, fazia universidade em Cuiabá. Morava com mais quatro estudantes, numa edícula, nos fundos de um sobrado. Na casa principal, moravam Mercedes e Givanildo, casal respeitável e simpático, sem filhos.

Numa sexta-feira, Mercedes foi até a edícula e anunciou que ela e o marido viajariam no final de semana. “Vamos deixar a chave do sobrado com vocês, tá bom?”

Assim que a Belina de Givanildo dobrou a esquina, Inácio teve uma idéia. E comunicou-a aos companheiros de república.

– Vamos dar uma festa no sobrado, cambada. A FESTA DO VINHO!

O plano de Inácio era o seguinte: cada um dos moradores da república compraria 10 garrafas de Sangue de Boi (daquelas de cinco litros). Esvaziariam a caixa d’água do sobrado (que também servia à edícula) e despejariam ali o Sangue de Boi. Uma versão trash do primeiro milagre de Cristo.

A festa aconteceu na sexta-feira mesmo. E foi, como seria de esperar, um arraso. O primeiro convidado (dos mais de 100; a notícia se espalhou pela universidade rapidinho) perguntou:

– Cadê a bebida? Cadê o vinho?

Inácio apontou a torneira da cozinha:

– Sirva-se.

Vocês podem imaginar como é que foi.

Porém – aaaahh, porém! – vocês agora imaginem o dia seguinte. Inácio e os companheiros de república numa avassaladora, inominável ressaca de vinho. Dirigindo-se ao banheiro, para a primeira mijada, o conteúdo da patente era – vinho. Lavar o rosto? Vinho. Tomar banho? Vinho quente. Beber água na cozinha? Vinho. Lavar a sujeira da festa? Vinho. Vinho. Vinho. Vinho impregnado no chão. Vinho melado nas paredes. O mundo cheirava vinho. E aquele calor insuportável de Cuiabá.

No domingo à noite, chegaram Mercedes e Givanildo. Ela foi concisa:

– Você e seus amigos não precisam nem acertar o aluguel. Peguem suas coisas e rua.

E pensar que naquele tempo nem existia Neosaldina.

(História relatada por Marcelo Rocha – que não é o protagonista, bom ressaltar – ao autor desde humilde blog, no Kotovelo’s Bar.)