Desculpe ligar a essa hora,
mas é que não posso esperar até amanhã,
quando a idéia, mesmo que eu a anote,
não será a mesma, não será mais não.
Algumas coisas devem ser ditas na hora,
na hora mesma em que nascem.
Há um tempo para viver, um tempo para morrer
e um tempo para falar. Esse tempo é agora.
Desculpe ligar a essa hora,
em quantos dias, quantas tardes e manhãs
eu poderia ter ligado,
mas não seria a mesma coisa, nem a mesma dor,
nem a mesma voz, nem o mesmo caso.
Por isso eu liguei agora.
A essa hora, eu sei que todos estão dormindo,
o que talvez seja bom, pois eles não precisam ouvir
aquilo que estou dizendo a você,
depois de seqüestrá-la do sonho,
de raptá-la em meio à noite de aço
que desce sobre todos nós,
guilhotina de todos os sonos,
pena capital dos lençóis suados.
Desculpe ligar assim à noite,
esta noite que já chamam de manhã,
como se o escuro fosse indesejado,
o indesejado de todas as gentes.
Desculpe ligar assim inesperadamente,
acordando seu pai, sua mãe, sua irmã,
acordando, quem sabe, seu cão,
acordando você de tal modo,
com as minhas palavras de insone,
que ninguém haverá de saber
se foi o sonho ou se foi telefone.
Desculpe ligar a essa hora,
de outra forma seria impossível.
Sei que é chato ouvir homem ébrio
com a voz embargada de vinho,
mas o que eu falei é tão sério,
não havia outro caminho.
Mas, meu Deus, que serventia
terá este telefonema,
que o sono fez virar vigília
e a certeza fez virar dilema?
Desculpe ligar a essa hora,
a rigor sem nada a dizer,
e vou desligar agora
- um bom sono pra você.
Publicado em 28 de fevereiro de 2005 às 10:41 por briguet