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Archive for February of 2005

Não dou meu braço a torcer: prefiro o Kotovelo´s

February 28, 2005
Sim, sim, sim. Estou com o Kotovelo´s Bar e não abro.

O hooligan Marcelo Rocha, em fim de férias, me liga e pergunta o que vamos fazer amanhã à noite (terça-feira, 1º de março).

Eu lembro que lá no jornal recebi um convite para o lançamento de uma cerveja amanhã no Empório Guimarães (a boate dos bacanas aqui em Londrina).

Boca-livre, é claro.

No convite, nem dizem qual é o nome da tal cerveja. Estratégia de márquetim. Só colocam as advertências costumeiras: “É indispensável a apresentação deste.” “Confirmar presença.” “Traje: esporte fino.” (Quer dizer, no mínimo eu teria que botar um blazer. Com este calor, arrepia só de pensar.)

Marcelo informa que também recebeu o convite. Pondero:

– Sabe de uma coisa? Eu acho muito melhor o Kotovelo´s.

– Eu também. – é a resposta inequívoca.

Pois é. O convite está feito. Amanhã à noite, no bom e velho Kutuva.

Paro e penso (às vezes acontece): essa escolha é praticamente um resumo sobre a minha visão de mundo.

Um milhão de vezes me convidariam para um boca-livre no Empório Guimarães; um milhão de vezes eu preferiria pagar a minha cerveja no Kotovelo´s Bar.

É. Devo ser uma besta. Mas gosto de ser.

Ah, para quem preferir o Empório ao Kotovelo´s, meu convite está à disposição. Pega quem chegar primeiro.

(Cada gosto...)

Desculpe ligar a essa hora

February 28, 2005
Desculpe ligar a essa hora,
mas é que não posso esperar até amanhã,
quando a idéia, mesmo que eu a anote,
não será a mesma, não será mais não.
Algumas coisas devem ser ditas na hora,
na hora mesma em que nascem.
Há um tempo para viver, um tempo para morrer
e um tempo para falar. Esse tempo é agora.

Desculpe ligar a essa hora,
em quantos dias, quantas tardes e manhãs
eu poderia ter ligado,
mas não seria a mesma coisa, nem a mesma dor,
nem a mesma voz, nem o mesmo caso.
Por isso eu liguei agora.

A essa hora, eu sei que todos estão dormindo,
o que talvez seja bom, pois eles não precisam ouvir
aquilo que estou dizendo a você,
depois de seqüestrá-la do sonho,
de raptá-la em meio à noite de aço
que desce sobre todos nós,
guilhotina de todos os sonos,
pena capital dos lençóis suados.

Desculpe ligar assim à noite,
esta noite que já chamam de manhã,
como se o escuro fosse indesejado,
o indesejado de todas as gentes.
Desculpe ligar assim inesperadamente,
acordando seu pai, sua mãe, sua irmã,
acordando, quem sabe, seu cão,
acordando você de tal modo,
com as minhas palavras de insone,
que ninguém haverá de saber
se foi o sonho ou se foi telefone.

Desculpe ligar a essa hora,
de outra forma seria impossível.
Sei que é chato ouvir homem ébrio
com a voz embargada de vinho,
mas o que eu falei é tão sério,
não havia outro caminho.

Mas, meu Deus, que serventia
terá este telefonema,
que o sono fez virar vigília
e a certeza fez virar dilema?
Desculpe ligar a essa hora,
a rigor sem nada a dizer,
e vou desligar agora
- um bom sono pra você.

Ser Humano - Manual de Instruções

February 27, 2005
– Faça três refeições por dia.
– Durma oito horas por noite.
– Arranje um trabalho e ganhe dinheiro.
– Não seja viciado em dinheiro. Pague as contas.
– Use roupas.
– Faça sexo. Nesse caso, não use roupas.
– Leia o jornal, mas não precisa ler inteiro.
– Leia dois ou três livros por semana. Se for livro ruim ou chato, não precisa ir até o fim. Pode também ler revistas, quadrinhos, blogs, catecismos. Mas leia.
– Vá ao cinema. Pergunte antes ao Grota sobre os filmes. Ou a si mesmo.
– Aprecie com moderação. Como diz o rótulo.
– Às vezes, exagere. Mas volte pra casa de táxi.
– Faça exercícios físicos.
– Converse com velhos e crianças.
– Escove os dentes.
– Use fio dental.
– Tome banho.
– Quando o Bar Brasil fechar as portas, vá direto para casa, sem passar no posto ou no Kotovelo´s. E vá de táxi.
– Dê esmolas.
– Só dê conselhos se pedirem.
– Não aceite uma carona que você não pediu.
– Conheça Matisse.
– Ouça João Sebastião (ou Radiohead, ou Paulinho da Viola. Mas não Skank!).
– Tenha sempre Neosaldina em casa.
– Ame as mulheres (ou os homens, se você for mulher – cada gosto).
– Não considere nada eterno, exceto a vida.
– Pense na morte, mas tenha bom humor.
– Quando for ao Kotovelo´s ou à Cantina do Nonoca, pegue leve.
– Conte piadas. Se não souber contar, escute. Se não gostar de piadas, arrume um jeito de dar risada.
– Compaixão. Sempre.
– Não se leve muito a sério.
– Beba água.
– Beba água mineral, se o bar vender só Kaiser. E nunca mais volte a ele.
– Não exagere na conduta. Só de vez em quando.
– Não maltrate os animais.
– Trate os mendigos por senhor.
– Seja educado com a faxineira.
– Seja educado.
– Seja malcriado quando a situação exigir.
– Faça a coisa certa. Hã, hã? Entendeu? Entendeu?
– Dê descarga.
– Não mije fora da privada.
– Não seja como aquelas mulheres que só dizem sim.
– Elogie – mas só se o elogio for merecido.
– Odeie o pecado, ame o pecador.
– Peque. Às vezes.
– Reze.
– Peça perdão.
– Diga bom-dia.
– Suma de vez em quando.
– Pratique o silêncio.
– Fale sozinho.
– Não leve ao pé da letra essas instruções.

Confissões de um blogueiro

February 26, 2005

O que é um blog?
Cada vez mais, eu acho que ter um blog é a arte de falar sozinho em público.
Leia mais na crônica.

Vontade de ser vagabundo

February 25, 2005


De vez em quando dá
uma vontade grande de ser vagabundo.
De largar casa, siso e compromisso
e me largar no Kotovelo´s Bar, no mundo.

De vez em quando bate
o impulso de tomar sete cervejas.
Depois mais oito, quatro, sete ou nove:
a quantidade que a loucura almeja.

De vez em quando acordo
bem decidido a me lançar no caos.
E no terror da alma ser feliz
como um marquês em meio ao bacanal.

De vez em quando vejo
como é inútil a constante luta.
Que o melhor é não pensar em nada
e ser apenas um filho da puta.

A falta que Jana faz

February 25, 2005
Há gente que faz. E gente que faz falta. Janaína Ávila é um exemplo. Hoje, sei que ela está feliz, junto ao seu Andrea, do outro lado do mundo. Mas não consigo deixar de sentir sua falta. Assim, de longe, parece que a minha vida segue normalmente, sem reparo nem agrura. Mas Janaína Ávila faz uma falta lascada – como um braço que foi amputado mas continua coçando.

Quando minha irmã Orelha era pequena, bem pequena, estranhava quando eu dizia: “Meu braço está dormindo”. Ela pensava que braço tinha olho, e eu ria. Hoje eu sei que braço tem olho, tem ouvido, tem nariz, tem boca. Hoje eu sei que as feições ausentes são as mais fortes. Bastou-me passar alguns dias – 30? 40? – sem Janaína e ela já faz falta, como se meu braço direito estivesse dormindo na terra de ninguém.

A falta de Janaína corporifica todas as outras faltas que me assolam. Jana, essa menina bacana, simboliza todos os amigos que estão longe: Zé, Carla, Barroso, Gaetaninho, Silvia, Calula, Ângela, Ester, Beto, Ã, Ernesto Borgnine, os tipos curitibanos (esses, pelo menos, eu vejo aqui). E também as distâncias de pai, mãe, Orelha, Vó Maria, Beatriz (a pequenininha), Seo Briguet (esse que partiu há 20 anos e não voltou mais). Eu poderia ficar escrevendo nomes até este blog acabar...

Todos temos nossas ausências. E, neste momento, Janaína Ávila simboliza o conjunto da saudade. Falta Janaína para ouvir minhas queixas neosaldínicas de sexta-feira. Falta Janaína para me contar os detalhes que perdi. Falta Janaína para aturar minhas imitações (“Leeeegal, leeeegal!”). Falta Janaína para socorrer minhas amnésias. Falta Janaína para ir almoçar no restaurante da Patrícia Selonk. Falta Janaína para uma QSL perfeita. Falta Janaína para ouvir minhas declarações de amor ao tempo. Falta Janaína para abrandar minha dangerosíssima vaidade.

(Não fica com ciúme, não, Andrea; não fica com ciúme, não, Rô; vocês sabem do que estou falando.)

Janaína é ouvir João Sebastião. É assistir ao sono da moça bonita. É balcão cheio de Skol gelada. É vento que desfaz o calor. É um copo d’água no sábado de manhã. É muito melhor que dor de dente, cólica renal, política, Ivan Lins e movimento estudantil. Janaína, enfim, é boa menina.

Falta Jana, pô. E mais não digo. Ou digo: volta, Jana. Pode trazer o Andrea. Essa terra está vermelha de tanto sentir falta.

A perseguição

February 24, 2005
Adoro perseguir livros. Há alguns que busquei por vários anos, como “Os Últimos Anos de Bukharin”, de Roy Medvedev; “Pergunte ao Pó”, do John Fante’; e, principalmente, “A Longa Viagem”, do Jorge Semprun.

Eu já estava quase desistindo de encontrar este último – um pequeno romance que Semprun escreveu quando deixou o campo de concentração de Büchenwald –, quando, numa passagem despretensiosa por um minúsculo sebo no começo da Rua Augusta, em São Paulo (eu estava fazendo hora para esperar uma sessão de cinema), achei o livro por míseros R$ 10.

Agora estou lendo o livro de um tarado por livros – infinitamente mais tarado, mais culto e mais rico do que eu. O nome dele é José Mindlin. Tem 91 anos de lucidez e é uma figura rara. “Uma Vida Entre Livros – Reencontros com o Tempo” traz histórias dugarai.

João Cabral de Melo Neto, o poeta, foi visitar a biblioteca de Mindlin e estranhou que ele tivesse três exemplares do mesmo livro – “Poesias Completas”, de Machado de Assis, edição Garnier de 1907.

A razão é simples. Quando Machado publicou a coletânea, escreveu uma apresentação que continha a palavra “cegara”, do verbo cegar. Só que, por erro do autor, do revisor ou do tipógrafo – quem sabe dos três... –, o “e” foi trocado por “a”. Machado percebeu o erro antes do lançamento, e corrigiu à mão os exemplares que haviam sido impressos. Daí em diante, só rodaram a versão correta. Mesmo assim, sobraram alguns exemplares sem correção.

Pois é. Mindlin tem as três versões do livro: com o erro, com a correção manual e sem o erro.

Isso é para a gente lembrar como uma letra pode fazer diferença: mãe/mal, amor/amora, urna/urina.

Além de perseguir livros, também aprecio a perseguida. (Eu não poderia deixar de fazer esta “piada”, diante da qual vocês podem “rir”.)

Minha biblioteca é modesta, e ainda preciso ler muitos livros da estante. Uns 40%, confesso, numa estatística conservadora. Tenho edição de “O Afeto que se Encerra”, memórias de Paulo Francis, com páginas truncadas e autógrafo do Quatrolho. Nunca fui ligado em autógrafos – bobagem, meninos, bobagem –, mas, como gosto muito do Paulo Francis, e como a chamegada do autor aumenta o valor do exemplar, fiquei meio orgulhoso. Meio.

Ah, o livro autografado foi presente da querida Calula, uma escritora de talento que conheceu o Quatrolho em Nova York. Diz que era gente boa.

E eu aqui, na caipiríssima Terra Vermelha, vermelha de tanto calor. Me resta a Quinta Sem-Lei – para refrescar o sistema nervoso periférico (central, não tenho mais, perdi na Esva) e espantar os fantasmas do verão. Prometo não cantar Raulzito em castelhano (até porque estou meio rouco ainda). Quanto ao Ivan Lins, não garanto nada. Lá pelas duas, pode ser que bata uma vontade de imitar o autor de “Vitoriosa” quando de sua abrupta rouquidão, no Rock in Rio de 1985.

“Quem beber, berá”, já dizia o livre-pensador Lúcio Flávio. E mais não digo porque ele sabe.

Voxê naum léu méuxx téxxxxtus!

February 23, 2005
Esta notícia vai para os amigos de Londrina (especificamente, os que estudaram ou estudam na UEL). Que me desculpem os leitores de outras cidades...
Pois bem, lá vai:

Eduardo Judas Barros não é mais o coordenador do Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos da UEL.

Azulivre, virge nossa!
A informação é quente, e foi repassada sem maiores detalhes pela própria assessoria da UEL.
Esse mundo está perdido! Eu simplesmente não consigo imaginar Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos sem pensar em Eduardo Judas Barros!
A quem vamos imitar agora? A substituta de Barros, a professora Maria Nilza da Silva, não nasceu em Gôa, não veste safári, nem tem aquele sotaque inconfundível que tanto adoramos reproduzir. O que aconteceu?
Azulivre, virge nossa! Marcelo Rocha, faça alguma cooooooooisa.

O Verão de Vivaldi

February 23, 2005

Das Quatro Estações, do Vivaldi, só me interessa o Verão. Detesto a Primavera; é até bonitinha, mas foi batida demais, para mim lembrará eternamente o comercial do sabonete Vinólia. Tornou-se a Andanças, o Maluco Beleza, O Bêbado e o Equilibrista da música clássica. Se o Skank fizesse música de concerto, tocaria a Primavera. (Isso não acontece sempre: Jesus Alegria dos Homens, do João Sebastião, toca em todos os casamentos, mas permanece interessante. Saturou um pouco, é verdade, mas continua audível.)
Voltando às Quatro Estações. O Outono é chato. O Inverno só vale pelo primeiro movimento. Mas no Verão, meu amigo, baixou o santo no rapaz (ele era padre; mas parece que deu umas puladas de cerca e deixou a batina).
No Verão, Vivaldi chega perto de João Sebastião. É um Concerto para Violino em Sol Menor. Os três movimentos – mas principalmente o último, presto – são magistrais. Aqueles 2min40s que encerram o Verão equivalem a uma cena de sexo selvagem entre a natureza e o tempo.
Vivaldi foi um dos poucos homens a compreender a essência do verão. Nos clichês da sociedade moderna, especialmente no Brasil, o verão é visto como uma estação de alegria, descontração e futilidade: é só dar uma olhada no besteirol das propagandas.
Porém – aaaaah, porém! –, o calor, esse calor dos infernos causa uma série de efeitos brutais sobre a alma. Para mim, o verão é uma estação tensa, dramática, quase infernal; um campo de batalha em que homem tenta sobreviver à adversidade. Vivaldi faz a trilha sonora dessa guerra entre o indivíduo e o meio, que travamos todos os dias. Mas no verão é pior.
O Verão de Vivaldi é rock’n’roll puro, um som daqueles que não podem deixar ninguém indiferente, e nem precisa gostar de música clássica. Aquele terceiro movimento, meu amigo, minha garota, é puxado bagarai!
O universo geralmente é muito quente ou muito frio. A vida humana só existe porque a Terra é morna. Enfrentando o verão – e ouvindo o Verão –, lembramos que a vida está por um triz. Mas amanhã tem Quinta Sem-Lei, está tudo resolvido.

PS: Rubão, Lúcio Flávio, Rocha, Tanga e a cambada em geral. Eu não poderia encerrar este post sem dizer que o VIVALDI ERA VIVO! Buahahahahahaha. (Riso de vilão acompanhado de movimentos circulares do polegar e do indicador. Hã? Hã? Hã? Hein? Hein? Hein?)

Alguém tem um pouco de vinagre aí?

February 22, 2005

Estou afônico. Deve ter sido castigo de Deus, porque ontem cantei versões em castelhano de “Cowboy Fora da Lei” (isso mesmo, Raulzito; eles pediram toca Rauuuul e eu toquei) e “Sonífera Ilha” (“Letargica Isla”) no Kotovelo´s Bar.
Perdi a voz igualzinho ao Ivan Lins no Rock in Rio (alguém aí era nascido?). Ainda bem que eu não sou cantor. Aliás, cantor eu sou; ainda bem que eu não sou O IVAN LINS. (Já pensou em abrir este blog e dar de cara com “Queeeeeeeeero / Sua risada mais gooostoooooooosa / Esse teu jeito de achaaaaaaaaaaaaaaar / Que a vida pode ser maravilhooooooooooosa!”?)
Reformulando o exemplo (afinal, devemos brincar sadio, né Galão?): estou com a voz igualzinha à do roteirista de quadrinhos em “American Splendor” (gostei do filme). Por falar em quadrinhos, quando fico afônico me lembro sempre daquela história em que o Cebolinha fica rouco e tenta dizer isso ao Cascão. Mas o Cascão fica desesperado: “O Cebolinha tá louco! O Cebolinha tá louco!” (Será necessário explicar, ó Coração Gelado, que o Cebolinha disse “louco” por “rouco”, já que não pronuncia de forma correta o fonema R, ou vou precisar fazer um desenho?)
Estou afônico, não sou o Ivan Lins, mas sou repórter. E em 15 minutos começarei a fazer uma entrevista que promete durar duas horas. Será um espetáculo deprimente (da minha parte, é claro).
Por falar em espetáculo deprimente, eu estava pensando em ir à rádio amanhã cedo para gravar minhas crônicas, o que não irá acontecer por motivos bastante óbvios de força maior. Cronista louco, pode; cronista rouco, não pode. Minha coluna de crônicas na rádio anda tão desatualizada que eu ainda falo sobre o rebaixamento do Palmeiras para a segunda divisão (bem, talvez não esteja tão desatualizada assim).
E imagine a cena bizarra: eu, na Quinta Sem-Lei, tendo acabado de compor uma paródia legal, e sem voz para cantá-la. Imagine-me a noite inteira, mudo e calado no balcão, sorvendo uma Skol que só irá piorar as coisas. Dificultoso. Dificultoso, mas necessário. Homem que é homem, etc.
É, Cascão. Estou louco. Novidade?

R.I.P.

February 22, 2005
O escritor cubano Guillermo Cabrera Infante morreu ontem aos 75 anos. Vivia exilado em Londres desde 1965.
Adolescente, li “Três Tristes Tigres”. Romance engraçado, tenso, interessantíssimo.
Cabrera Infante também era crítico de cinema e um frasista dugarai.
Ninguém amou tanto um país como ele amava Cuba. Por isso mesmo, foi um dos maiores opositores de Fidel Castro (que continua lá; vaso ruim não quebra).
Que a terra lhe seja leve, Don Guillermo.


Cláudia gozando

February 22, 2005

Pedro conheceu Cláudia no Bar 20V, numa noite de segunda-feira.
Ela, 18 anos, era estudante de 2º colegial no Colégio Linhadura Gonçalves. Estava matando aula e bebendo cerveja Conti. Morena, tatuada e peituda.
Pedro convidou Cláudia para conhecer sua coleção de vinil.
Assim que entraram no apartamento, Cláudia ficou nua da cintura para cima e da cintura para baixo. Começou a gozar. Não parou.
Pedro havia esquecido de comprar Neosaldina. Foi à farmácia do bairro e deixou Cláudia gozando no apartamento.
Assim ela ficou a noite inteira. Pedro dormiu, acordou, sonhou com Matilde Mastrangi, acordou – e Cláudia gozando.
Chegou a hora de ir trabalhar. Pedro foi. Deixou Cláudia. “Fique à vontade, a casa é sua, tem Coca Light Lemon na geladeira.”
Ela ficou. E ainda está lá. Gozando.

Temas para uma segunda-feira

February 21, 2005
O homem que decidiu morar no Supermercado Viscardi (empresa cujo slogan é “Amigos que a gente tem – e bons vizinhos também”).

A relação entre andar em ônibus lotado num dia de verão e as idéias de suicídio.

As razões que levam meu vizinho a assobiar freneticamente quando alguém se aproxima da entrada do edifício.

A mudança da vizinha do 11 (foi no sábado; ela levou o cachorro; eu sempre achei complicado criar um dálmata em apartamento).

Psicologia da moça do restaurante por quilo (como fazer a garota sorrir uma vez na vida).

Memórias de um anjo da guarda aposentado por invalidez.

Como Severino Cavalcanti e Hugo Chavez forjaram a expulsão da modelo no casamento Ronaldo-Cicarelli.

As diversas formas da paranóia política (versões esquerda, direita e centro).

O vínculo entre o excesso de masturbação e a tendência a fazer comentários “provocativos” em blogs.

Resposta a uma questão formulada por crianças: “Por que não existe primeira-feira?”

DOSSIÊ – O plano da mídia para transformar os assinantes de TV paga em metrossexuais que adoram drinks com guarda-chuvinha roxo.

Gelo

February 20, 2005

Passei pela copa
antes de trabalhar
e o gelo estava lá
na pia.

Um bloco
tão bonito e denso
que talvez só Deus
esculpiria.

E ali ficou
castelo belo e bom
que sem fazer um som
morria.

Deixei
o gelo em estertores,
chamado aos favores
do dia.

Voltei
quando era tarde
à copa onde o mártir
partia.

Então
já era água
que o tempo em sua calha
perdia.

E eu
na mesma cela,
até que venha ela
um dia.

(Não há
liquefação que esgote
este corredor da morte,
sangria.)

(E
nada nestes pulsos,
caídos em desuso,
valia.)

E assim
se vai a água,
2/3 deste cara
perdidos
no desvão
da pia.

O dia com duas meias-noites

February 20, 2005
Fim do horário de verão.
Que contentamento!
Uma hora a mais de sono.
Uma hora a mais de farra.
Uma hora a mais de noite.
E uma hora a mais de tempo.

Adoro putas

February 18, 2005
Adoro putas. Nunca usei o serviço profissional da categoria, com exceção de uma vez (e não foi bom), mas adoro conversar com elas, saber de onde vieram, o que fazem, o que pensam. Adoro fazer putas me contarem seus sonhos, para que eu possa interpretá-los de maneira falsamente psicanalítica. Adoro recitar monólogos inventados de Hamlet para putas. Adoro perguntar às putas se elas já amaram alguém (e adoro ouvir a resposta, trajetória do vento na campina dourada). Adoro putas como personagens bíblicos, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, mas principalmente no Novo, em que elas são heroínas. Quando vi “Despedida em Las Vegas”, o melhor do filme para mim foi a puta interpretada por Elizabeth Shue. Adoro encontrar a mulher dentro da puta, e a puta dentro de cada mulher. Porque toda mulher digna do nome, toda grande mulher, tem uma puta dentro de si. A mulher livre de toda e qualquer putaria é tristemente inócua e vazia. Não gosto da palavra prostituta, nem da palavra meretriz, nem da expressão mulher de vida fácil. Nenhuma vida é fácil, quanto menos a do ser mais importante do mundo, que é a mulher (e digo isso sem nenhum medo de parecer demagógico, pois à mulher cabe o dom de assegurar a continuidade, em todos os sentidos possíveis). Gosto da palavra puta porque abrevia uma idéia simples em si, uma das idéias mais antigas do mundo. Por isso, digo quando quero demonstrar meu afeto e minha amizade a alguém: “Você é um grande filho da puta!”. Adoro putas. E adoro os filhos da puta. E quem se ofender é tolo.

Procurei por Deus no Google

February 18, 2005

Procurei por Deus no Google.
Achei só propaganda.
Sites pagos, coloridos,
coalhados de pop-ups.
Num deles pediam login,
no outro Credicard.
Procurei por Deus no Google,
achei Cavalo de Tróia.
Dizem que Deus não tem blog.

Procurei por Deus no Google.
Mas Ele não está on-line.

O cão de Hilda Hilst

February 17, 2005

Hilda Hilst morreu.
Que fim levaram os cães de Hilda Hilst?
Os cães, os cães doentes, os cães famintos
que apareciam com cara de dó
e língua de fora,
que apareciam com latidos estridentes
e rabos em pirueta
– lá na chácara de Hilda Hilst.

Que fim levaram os poemas de Hilda Hilst?
Os romances, as novelas, os contos pornôs
de Hilda Hilst, que fim levaram?
Quem haverá de alimentar os cães,
de dar-lhes água e banho e remédio,
desde que Hilda Hilst pulou para o outro lado?

Ou foram sacrificados, os cães de Hilda Hilst?
Oferecidos em holocausto?

Quando estou muito bêbado,
penso que não passo disto:
um cachorro de Hilda Hilst.
Um cachorro abandonado por Hilda Hilst.

*****

Assusta-me o hábito enciclopédico (por vezes, jornalístico) de colocar, depois do nome do capiau, as datas de nascimento e morte. Quando o elemento já morreu, tudo bem. Exemplo: João Sebastião (1685-1750).
Porém – aaaah, porém! – quando o indivíduo encontra-se por aí, perigando aparecer no Magdalena, no Kotovelo´s Bar ou até mesmo – virge nossa! – na QSL, a coisa complica. Virge nossa!, digo mais uma vez. Paulinho da Viola (1942-), Woody Allen (1933-), Herberto Helder (1930-) – esse hífen, esse “-” apontando friamente para o nada, rapá, é de arrepiar. Não me comparo, nem de longe longe longe, aos supracitados (sempre quis usar essa palavra: supracitados), mas só de escrever me gela a alma: Paulo Briguet (1970-).
Experimente fazer o mesmo com o seu nome, meu chapa (ou minha garota). É Drury´s.

*****

QSL, sinsinhô. Que Sejamos Leais.

Notas do baixo clero

February 17, 2005
Eu iria escrever sobre o Sèvèrino (seis anos pro Barba, cascata de mamatas na Tartaruga de Cimento, virge nossa, azulivre!) mas a vontade passou. Contudo todavia, já que ele é inimigo da pornografia, aqui vai uma dica para seus assessores: o Poema da Buceta.

*****

Green Argh seria ainda pior, acreditem. É um país triste.

*****

Hoje acordei meio polêmico. Ridículo.

*****

Vendo tantas metáforas, eu me pergunto que fim levaram as coisas mesmas.

*****

Quando eu era moleque, caríssimo professor Tanga, embora não conhecesse gramática, eu já intuía que um mesmo verbo não pode contrair próclise e ênclise ao mesmo tempo (quer dizer que o verbo contrai “pró” e “em” – note a intimidade, hã? hã? entendeu? entendeu? –, da mesma forma que a gente contrai sarampo, caxumba, gripe, comunismo ou movimento estudantil?).
Porém, aaaah porém!, com o conhecido habito infantil de ouvir letras de música erradas, eu imaginava que o Chico Buarque de Hollanda (que, na época, eu considerava filho do dicionarista Aurélio) era um tremendo analfabeto, por causa daquela letra em parceria com Gilberto Gil:

Pai, afasta de mim e “se cale-se”
Afasta de mim e “se cale-se”
Afasta de mim e “se cale-se”
De vinho tinto de sangue.


*****

Foi infame? Foi.
Tem mais? Tem.
Quando? Na Quinta Sem-Lei.
E quem aniversaria? Galão (ontem) e Ester (hoje).
E o que você diz? Parabéns.
E mais alguma coisa? Não.
Por quê? Porque não sei.

Os reinos sem rei

February 16, 2005
(Escrito no Kotovelo's Bar, em ócio.)


REINO MINERAL
A ciência já sabe que viemos de longe, das estrelas. Lá onde se produz carbono (o Sol só fabrica hidrogênio e hélio). Viemos de fornalhas, buracos e cismas galácticos que brilham no alto, tão longe que talvez nem existam mais (piscar sem existir; uma forma curiosa de estar aqui). Viemos do líquido, do sólido, do gasoso, do plasma – a vida em estado mineral é nossa irmã. Mineral não é só pedra – é tudo aquilo que descansa e dorme, mesmo vivo e incandescente, sem se reproduzir como tal. (Zé, meu amigo geólogo, esclareça alguma coisa!)

REINO VEGETAL
Pobre de quem não fala com as plantas. Pobre de quem não deita raízes. Pobre de quem não brota do chão. De quem não procura o Sol. De quem não perfuma a noite. Pobre de quem não respira e não cresce para o alto e para os lados. Pobre de quem não germina e não amadurece. (Ai, ai, ai, olha a falta de enxada: isso está até parecendo aquele laboratório teatral da sementinha! Aridez, por favor! Socorro, João Cabral! Carpir uma data ninguém quer.) Pobre de quem não morre. Querida, aceita um copo de clorofila?

REINO ANIMAL
Nem o leão, nem o homem: que me perdoem. Tampouco o dinossauro: desculpe a ausência. Nem mesmo Noé, o patriarca: ainda chove. O que move os animais é algo em comum entre fim e princípio. A força de Eros e Tanatos. O signo e o ascendente em contradição. A lua pequena sobre as marés do grande mundo. Um cavalo louco, de uma loucura que consiste na insistência simultânea de ficar e parar. Heráclito e Parmênides. Idéia e matéria. Claro-escuro. E sempre o cavalo louco, de Tróia, de Napoleão, de Noé: e o rio que corre, que fica: sempre o mesmo, nunca o mesmo. Ainda chove.

REINO FUNGHI
Terrível problema para os cientistas: os fungos não são deste mundo. Foram deslocados. Um erro. Uma falha. Uma abençoada falha da Criação, assim como o joelho e o ornitorrinco. Os fungos transitam, sem vergonha, entre os reinos da Criação. Nada de clorofila, nada de sexo (nada?). Os fungos não têm nexo. Os fungos. Os fungo. Os fung. Os fun. Os fu. Os f. Os. O. . “Meu reino não é deste mundo.”

O lugar mais triste da cidade

February 15, 2005

O lugar mais triste da cidade não é o cemitério, nem a UTI, nem o terminal de ônibus, nem o lixão, nem o orfanato. Conheça o lugar mais triste da cidade nesta crônica.

Um poema e uma paródia (quem gostar de um, lê um; quem gostar da outra lê a outra; quem gostar dos dois, lê os dois; quem não gostar de nada, por que entrou?)

February 15, 2005

O QUÊ?

(Da Editoria de Metafísica Barata)

Terças-feiras não existem para pensar.
Se é preto na folhinha, que me aproveita o ser?
Trabalho. Reuniões. Telefone. E-mail. Agenda.
Interfone.
Vai gás hoje? Não, obrigado.

(Por favor, srs. condôminos,
não se esqueçam de trancar
a porta do edifício.
Grata. A síndica.)

Jornal sem notícias.
Café sem açúcar.
Relógio sem corda.
Ser – o quê?

Mas eu já disse que as segundas não existem para pensar.
Que me aproveita o ser?

Vai gás hoje?
Sim, vai gás.
Mas venha antes que eu perca a coragem.

*****

THE CACHAÇA

(Da Editoria de Versões Macarrônicas)

Do you think that cachaça is water?
Cachaça is not water, no.
Cachaça cames from alambique
And water cames from riverun.

(Perceberam a homenagem velada a James Joyce, hein, hein? Riverrun, hã, hã? Dedinhos em movimento de encaixe.)

Jogo dos sete erros

February 14, 2005


E não é que o Gilberto Gil está cada vez mais parecido com o Grande Otelo?

O perdedor de tempo

February 14, 2005
Quando penso em quanto tempo perdi na vida com coisas que se revelaram inúteis e ridículas, mas ainda assim me pareciam importantes, calculo que elas consomem pelo menos duas décadas. Tirando 1/3 da vida que passamos dormindo – no meu caso, 11,33 anos –, acho que na verdade tenho apenas um ano de idade de vida útil, se tanto. E é precisamente à idade de um ano que eu regrido quando bebo muito – in vino veritas ou, no meu caso, in Skol veritas.
Tempo perdido em reuniões de todo tipo (especialmente as políticas – meu Deus, eu participei de reuniões políticas quando poderia estar lendo o Homero que eu nunca li! Alguns têm malária, outros toxoplasmose, eu tive movimento estudantil); tempo perdido em divagações sem sentido (talvez como esta que você lê agora); tempo perdido atrás de mulheres erradas que se revelaram víboras sem sentimento, ou cubos de gelo sofisticados; tempo perdido em bares ruins; tempo perdido atrás de entrevistados insípidos para fazer matérias desinteressantes que ninguém leu; tempo perdido em conversas que fariam uma boiada inteira cair no mais profundo sono; tempo perdido em discussões sobre futebol; tempo perdido em filmes ruins, peças de teatro ruins, músicas ruins; tempo perdido em negociações diplomáticas em torno de ninharias; tempo perdido em poemas sem comentários; tempo perdido em pornografia e gastronomia de péssima qualidade. E não falo inglês, e não conheço Florença, e não li quase nada, e não ouvi quase nada, o que estou fazendo aqui parado?
Tempo é dinheiro? Mais: tempo é vida. É por isso que sou um pobre loser. Mas felizmente ainda tenho meu disco do João Carlos Martins tocando João Sebastião. Felizmente, de vez em quando, há uma Esva, ou Mil Latas, ou conversas que a gente não esquece no minuto seguinte. Bom.

Haikai para meu amigo Marcelo Rocha (e outras observações)

February 12, 2005
E ela insiste
em fazer o urubu
comer alpiste.

*****

O financiador é um cara que dá dinheiro para você fazer alguma coisa. Se dá certo, o mérito é dele. Se não dá certo, a culpa é sua.

*****

Mil latas. Umas 12 eu garanto.

*****

Humorista impagável é aquele cara tão ruim de piada que é impossível remunerá-lo.

*****

Rafael, amigo, irmão. Você, certamente, será um grande historiador e escritor. O prefácio do seu primeiro livro, eu quero fazer, se você permitir tamanha ousadia de um reles cronista. Seu talento é de sangue e de fenótipo. Mas “pra lá de Araraquara” é meio puxado, vai ser difícil ir. Estou ficando ranzinza para formaturas. Mil desculpas. Um milhão.

*****

Woody Allen para Jason Biggs, em “Igual a tudo na vida”:
– Que me interessa a física quântica? Que me interessa saber que o espaço e o tempo são a mesma coisa? Você chega para um cara, pergunta as horas e ele responde: “9 km”!? Esqueça.

*****

Todo mundo fala de mico-leão dourado, de baleia isso, de golfinho aquilo. Mas ninguém dá trela para a extinção do tatuzinho de jardim. Ninguém faz documentário sobre a extinção do pequinês. Haverá bichos corretos e outros nem tanto? Com a palavra, um especialista no assunto, meu amigo Preto.

Três reflexões de Sexta Neosaldina

February 11, 2005
Como diria o Tanga:
Ê, falta de enxada!



PÍLULAS
(Para Ranulfo Pedreiro)

A que se toma antes de dormir, para a dor de cabeça.
A que se toma depois de acordar, antideprê.
A que impede nascimentos, pequena bolinha diária.
A que o nazista tomou em Nuremberg.
A que se dá ao paciente desenganado, placebo.
A que faz o velho homem voltar a se divertir.
A que tenta diminuir a gastrite constante.
A de simancol, tão rara.
A que, quando crianças, chamamos de “pírula”.
A que se doura.
A que modera o apetite.
A que liberta as entranhas.
A do dia seguinte.
A da noite anterior.
A que se dissolve embaixo da língua.
A que faz dormir, depois de tudo.



ONTEM DESCOBRI
(Para Carina Paccola)

Ontem descobri que todas as coisas são de isopor.
Que meus ossos são de vidro.
E que as vozes das pessoas são apenas guinchos,
ruídos resultantes da fricção
de objeto inanimado contra objeto inanimado.

Ontem descobri que somos todos cegos.
Que enxergamos apenas
a sombra da sombra da sombra.
E que o Sol, sem sombra de dúvida,
foi extinto há milhões de anos.

Ontem descobri que escrever é inútil
pois todas as letras
são consumidas no fogo ritual
presidido por um xamã que já morreu
e foi enterrado no oceano.
Ontem descobri.



NOSSA SENHORA DA MORTE
(Para Gabi Canale)

Nossa Senhora da Morte,
Nossa Senhora da Dor,
protegei-nos dia e noite,
protegei-nos, por favor.

Na noite, dai-nos o claro.
No dia, sombra e frescor.
No ocaso matai o medo
do escuro que retornou.

Nossa Senhora do Tempo,
consorte da própria vida:
escrevei nosso enredo,
cicatrizai a ferida.

Nossa Senhora do Vento,
lembrai-nos que tudo passa,
não deixai o belo revolto
atiçar nossa desgraça.

Nossa Senhora da Chuva,
lavai as culpas de todos:
dos judeus e dos cristãos,
dos gregos, dos visigodos.

Nossa Senhora da Rua,
guardai a nossa esquina,
onde os carros se destróem
e onde sofrem as meninas.

Nossa Senhora da Água,
guardai-nos do estulto ódio,
fazei dissipar-se a mágoa
em bicarbonato de sódio.

Nossa Senhora do Sal,
Nossa Senhora do Céu,
lembrai-vos do nosso apelo
na hora em que formos réus.

Nossa Senhora do Sangue,
perdoai este pecador,
protetora mais querida,
senhora do meu amor.

QSL Urgente!

February 10, 2005
Não chorem, meninas. Não se desesperem, rapazes. O Bar Brasil fechou esta semana, mas nem tudo está perdido. Mudança de planos. A QSL pode muito bem ser realizada no Armazém (na frente do Colégio Delta), sem maiores prejuízos. A partir das 22 horas, espero vocês por lá!
E mais não digo porque não sei.

PS: Bar Brasil não poderia tirar folga. Bar Brasil é serviço essencial. Humpf.

Providências para a Quinta Sem-Lei

February 10, 2005
Não sei quanto a vocês, mas para mim uma boa Quinta Sem-Lei demanda um preparo meticuloso. Algumas providências:

1. Não beber na quarta-feira. É de um amadorismo terrível aparecer no balcão da QSL com eflúvios da noite passada anuviando a atividade mental. (Exceto se o dia anterior for uma Quarta Latina ou Quarta Rock – aí não tem jeito, mermão).
2. Dormir um pouco no final da tarde (sono de cachorro, não mais que 45 minutos).
3. Tomar muito suco.
4. Fazer duas ou três refeições leves ao longo do dia.
5. Ouvir um pouco de João Sebastião e ler um Carlos Nejar de leve (esses podem ser substituídos por músicos ou escritores da preferência de cada um).
6. Adiantar o trabalho do dia seguinte. Nada pior do que uma Sexta Neosaldina sobrecarregada.
7. Ensaiar no chuveiro alguns hits – As Véia, As Hippie, A Cabeleira do Mané, Quando Eu Pago um Mico – para melhor performance.
8. Ligar para o Marcelo Rocha e ver se está tudo certinho.
9. Conferir o arquivo de piadas sem graça (quanto mais sem graça, melhor, porque essa história de piada engraçada é coisa de diletante).
10. Checar a quantidade de fichas de cerveja não consumidas na semana passada, para utilizá-las antes de qualquer transação financeira com o bar.
11. Certificar-se de que há Neosaldinas em quantidade suficiente. (Óbvio, óbvio, óbvio.)
12. Esconder os CDs do Beethoven para que não sejam encontrados na manhã seguinte. É conhecida a tendência masoquista de ouvir músicas muito intensas e depressivas durante a ressaca. Tendência que deve ser evitada a qualquer custo (substituir Beethoven por qualquer outro músico porrada – sei lá, Dead Kennedys – caso a sua preferência musical seja outra).
13. E rezar. Rezar bastante.
Você vai? Eu vou. E mais não digo. Ou digo: que falta você faz, Janaína Ávila!

Diário Neurótico de Londrina - 4

February 09, 2005
A cada dia, as letras grandes ficam médias. As pequenas, sempre menores. E as menores migram para a terra do invisível. Já não consigo entender de longe o que está escrito no mural de recados. Se não chegar perto, meu próprio nome (Paulo? Carlos? Fábio?) se perde na escala de domingo. Cada vez mais os textos parecem subcláusulas de contratos. A moça que parecia moça, no outro lado da rua, ganha mais 30 anos quando chega à minha calçada. A grande ironia é fechar os olhos para poder ver melhor. A lógica não diria o oposto?
A lógica, não sei, mas os amigos diriam:
- Procure um doutor.
Mas vou protelando, porque só sairei de lá com mais um par de olhos, cantando: Eu sou o pirata da perna de pau, do olho de vidro, da cara de mau.
Só consigo ver um fato claramente: estou ficando velho. Aos 34 anos.

Diário Neurótico de Londrina - 3

February 09, 2005
Quarta-feira de Cinzas é o único meio feriado que existe. Um feriado voltado à ressaca (etílica ou moral). As ruas ainda meio sonolentas; as lojas quase todas fechadas. Mas é hora de trabalhar (escrevo isso para me convencer).

*****

Tudo bem, eu não gosto de Carnaval, mas aquela história da Portela foi triste, não acham? Barrar a entrada da Velha Guarda só por causa de uns pontinhos. E o pior é que a escola deve ser rebaixada por isso. Espero que não aconteça, gosto do Paulinho da Viola, uma grande figura (quem não o conhece direito, pode assistir ao filme “Meu Tempo é Hoje”, bom mesmo para quem não é do samba, meu caso).

*****

E já posso ver as manchetes do jornal Hoje, hoje:
– É Quarta-Feira de Cinzas, mas na Bahia a folia não termina...
– Em Recife, o Galo da Madrugada animou a multidão...
Depois, no Vale a Pena Ver de Novo:
– Acadêmicos do Salgueiro. Dez... Nota deeeeez.

*****

Sei que vai provocar polêmica (da qual, aviso, não vou participar) mas vou dizer antes que o homem bata com as dez: esse papa aí é um grande cara, uma das maiores personalidades do século XX.

*****

Quarenta dias no deserto. De jejum. Incomodado pelo coisa-ruim. E o Cara ainda é difamado.

Diário Neurótico de Londrina - 2

February 08, 2005
Viver no Paraná e não gostar de Carnaval é mole. Ganhamos um feriado e fugimos da folia sem o menor problema. Mas eu fico pensando no BAIANO que não gosta de Carnaval. No CARIOCA que não gosta de Carnaval. Esses, de fato, são mártires da causa.

Diário Neurótico de Londrina - 1

February 08, 2005
E hoje cedo me lembrei do episódio em que eu e Marienne, a bela Marienne, ficamos presos no teatro do colégio. Não. não é um conto erótico. Eu tinha apenas 16 anos, era um magricela, e Marienne, com toda aquela saúde, seria capaz de me quebrar ao meio com um golpe de karatê (sim, ela lutava). Mas fiquei preso no teatro com ela, fomos suspensos por dois dias. Por onde andará Marienne?

*****

Tem duas coisas boas nos feriados de terça-feira. Primeira: as ruas estão vazias. Segunda: a semana de trampo vai durar apenas três dias (quatro, porque eu tenho plantão no sábado). Andar pelas ruas vazias e silenciosas é um programa dos deuses.

*****

E quer saber? A melhor coisa de 2005 até agora foi descobrir a poesia da Adélia Prado. Li “O Pelicano”, adorei imediatamente; quero achar outros títulos.
Leia a mulher, se estiver a fim. Se não gostar de poesia, leia outra coisa. Poesia é igual a uísque e ópera: nem todo mundo gosta. E não se é melhor ou pior por isso. Eu, por exemplo, não gosto de uísque nem de ópera.

*****

Fui ao shopping e estava tocando Ivete Sangalo nas Lojas Americanas. Me deu vontade de ir ao banheiro. E no banheiro tocou Skank.


*****

Aquele K de vocês-sabem-o-quê no sambódromo do Rio diz tudo sobre o Carnaval. Quanto riso, ó quanta alegria.

Ao pé da letra

February 08, 2005
Entre amor e amora, há apenas uma letra – e, no entanto, há o mundo. Mundo, que se torna imundo com facilidade: basta que um esquálido i e seu pingo se aproximem. O mesmo i que transforma a urna, funerária ou eleitoral, em urina. De modo parecido, um mito pode virar mijo, ou pagar um mico. Gosto e rosto possuem algo em comum: cada um tem um. Idiomas, podemos ter vários, mas sempre haverá um único materno. Mãe só há uma (e mão, duas).

Mesmo os que sabem vários idiomas podem ser rematados idiotas. Por sinal, eu fico cara de idiota sempre que me lembro de um fato assustador: a morte difere apenas um sinal gráfico da sorte. Assim eu perco o meu norte. O que será de mim quando o fim pronunciar a palavra sim? Irei para o céu, ou irei tomar no cu? A diferença é só um é. Hoje, terça de Carnaval, será um dia certo para pedir um aval da carne? Não sei. Só sei que a palavra não está próxima da mão, e que não há nada de novo sob o Sol. Tão longe do mar (esse animal sem par) tão longe na terraterça), só tenho medo que a última letra chegue cedo. Há um mundo de coisas entre a rua e a lua, entre a mãe e o mal, mas todos os caminhos conduzem a Roma. Ter não quer dizer ser, mas Roma me tem amor. Até que eu morra por comer uma amora.

Parodiomania

February 06, 2005
(Da Editoria de Versões Infames)

É não é que eu estava no shopping, agora mesmo, e juro ter ouvido o Samuel Rosa cantar:

Eu vou deixaaaaaar
a Rone me levar
pra onde ela quiseeeer...


Depois, foi a vez de Zezé Ducarai e Lucicrano cantarem uma versão bastante suspeita de Yesterday, dos Beatles. Eles começam assim:

Yes, eu dei...

Meu Deus, o negócio das paródias já está ficando obsessivo. E tem também aquela versão do Fagner:

Quanto eu pago um mico
depois de uma pinga
é duro agüentar

(...)

Quando a gente peida
de toda maneeeeeira
tenta disfarçar
Olha pro outro lado
conta uns trocado
diz que vai esfriar
ôôôôôôô
(repeat chorus)


Isso não acaba nunca. E mais não digo porque não cantei.




O milagre

February 06, 2005
Para meu filho ainda sem nome


Meu filho, aprenda que tudo é milagre.
Você mesmo, que ainda não nasceu,
e com quem eu falo antes do tempo,
é um milagre tão admirável quanto o Sol.

Assim Y. se manifesta a cada segundo,
traçando a grande teia dos milagres.
Milagre é a moça que passa,
de peitos muito firmes,
que não olha para ninguém
e ignora os falsos deuses.

A manhã de domingo é um milagre!
Ler um livro legal na cama é um milagre!
A Arte da Fuga é um milagre!
A cerveja é um milagre!
A Neosaldina é um milagre!

O prodígio de acordar pelas manhãs da morte,
mesmo depois das noites intermináveis,
é o mesmo de saber um idioma,
enchendo o mundo de ex-votos em forma de palavras.

O milagre nunca acaba,
e o fato de não acabar
é ele, também, um milagre.

A repetição do sopro,
em que buscamos imitar
o fôlego de Y.,
é miraculosa e obrigatória.

Inexplicável é clareza
de que o corpo habita o corpo,
e de que a alma é um sangue de vinho
em tudo consagrado.

O prodígio sem igual da santidade nas mínimas coisas,
das veias fluentes onde não há veias
e do coração onde não há carne.

Ancestral enigma da carne prosaica e profana,
que a cada desejo ou pensamento nos convoca
ao supremo carnaval do instinto.

Milagre, milagre foi, milagre será.
Milagre, meu filho, o de deixar minha presença
nas letras que você lê agora.
Letras captadas junto ao instante,
perdidas no dicionário como um líquen no oceano,
para fazer sentido, para fazer sentido,
eu que não sou digno de entrar na morada.

Milagre até mesmo o sorriso do demônio,
aquele que se revoltou inutilmente,
pois que ele, demônio, também é milagre,
como a nossa miserável carne tépida.

Respire mais uma vez, meu filho,
e sinta o seu domínio sobre as águas,
o seu nome que ainda não existe
e paira acima das trevas exteriores.

Respire mais uma vez, meu filho,
e saiba que esse fôlego
é um milagre maior que a travessia do mar,
que as sete pragas, que a noite do Pessach.
Há o sangue de um cordeiro sobre a nossa porta, filho,
e a vida – esta hora em que são lidas as palavras –
é o mais louco e santo milagre, amém.

Tipo assim

February 04, 2005
(Da Editoria de Frases Feitas)

A vida é isso que acontece entre um post e outro.

*****
MINICONTO
Pedro foi ao bar na noite de terça-feira e conheceu uma socióloga. Bateram um papo aranha e resolveram ir ao apartamento dela. Na penumbra do bar, a moça parecia apetecível. Na claridade do elevador, longe disso. Pedro ficou receoso de um fiasco na cama. Mas, quando chegou ao quarto da socióloga, a brochada se tornou inevitável. Havia um quadro de Charles Chaplin bem acima do leito nupcial, com a frase: Não sois máquinas, homens é que sois. Ele - Pedro, não Chaplin - pretextou uma dor de cabeça, um “trabalho amanhã cedo”, vestiu-se e picou a mula.
Como diz Yuge, cada coisa.

*****

Não há Neosaldina para a dor de viver. (É que hoje estou para aforismos.)

Antes da QSL

February 03, 2005
Acabei de compor, no chuveiro, uma boa marchinha para o nosso Carnaval, e pretendo lançá-la no decorrer da próxima Quinta Sem-Lei, dentro de instantes.
Eis a canção:

A CABELEIRA DO MANÉ
(Briguet)

Olha a cabeleira do Mané
será que ele é, será que ele é
hippie!?
Olha a cabeleira do Mané
será que ele é, será que ele é
hippie?!
Será que ele é Bob Marley,
será que ele é chaminé?
Parece que tá maconhado,
mas duro é agüentar o chulé

Lava o cabelo dele!
Lava o cabelo dele!

(repeat chorus)


Moraes, o Preto tem blog mas não tem senha. Tá doido pra postar, mas não consegue. Por que tu não mandas uma senha pra ele, no e-mail certo?
Onde estás que não respondes?

*****

Se o cara usa gírias como chocrível, rapeize e pirou na transa, tem mais de 130.

*****

O Marcelo Rocha não sabe fazer link. Encontrei, finalmente, um cara mais analfabeto em computador que eu.

*****

Estou caminhando no Zerão. Pronto, falei.

*****

Quinta Sem-Lei. E mais não digo porque não sei.
(É tão bom que até rima.)

Poema da buceta

February 02, 2005
Para Leônidas Pellegrini, il miglior fabbro.



Com o perdão da palavra,
eu gosto mesmo é de buceta.
Há palavras que não se encaixam
no verso ou na prosa,
mas buceta se encaixa,
buceta é gostosa.

Buceta é uma beleza,
buceta é a palavra mais linda
da língua portuguesa,
buceta é a coisa mais bonita do mundo.

O que seria de mim sem ela?
Nem sequer eu nasceria.
Buceta, via de regra, é a via.
A via estreita.
Somos todos filhos da buceta.

Sou um bucetófilo,
com o perdão da palavra.
A palavra é feia,
mas a buceta, não.
A buceta é bela.
O que seria de mim sem ela?

Repetirei tanto a palavra buceta
que você vai se acostumar.
Pois até mesmo as garotas mais recatadas,
de boca limpa e pensamentos sérios,
têm buceta.
Até mesmo os homens mais cheios de siso,
para quem a palavra buceta não deve entrar no poema,
vieram da buça.

De menino, sou da buceta.
A buceta me intriga
desde os tempos imemoriais.
Não se passou uma hora em minha vida
sem pensamentos de buceta.
A buceta é meu princípio, meu fim:
eu me acabo na buceta.

Por isso eu falo, por isso eu penso,
por isso eu canto: bu-ce-ta.
Nunca mais direi uma frase
que não inclua a palavra buceta.
A ela renderei todos os meus sins,
todos os meus ais, todas minhas odes.
Com a buceta ninguém pode.
(Disse.)

Buceta é outra civilização,
vou-me embora pra buceta.
Todas as coisas, meu amigo,
são bucetas disfarçadas.
O pinto, esse ridículo,
não passa de um ensaio,
muito mal-feito, aliás.

A buceta, não: a buceta é sutil,
pertence ao lado de dentro,
delicada como um lírio de carne,
um tamarindo fêmea,
uma usina de pêlos e músculos,
como é linda a buceta.

Irmã da boca, caminho das mãos, amiga do peito,
senhora dos meus pensamentos,
com o perdão da palavra,
eu te amo, buceta.

O fazedor de imortalidade

February 02, 2005


Para Ester, nova colega de Tipos


Comprei um badulaque hoje:
é o fazedor de imortalidade.
Com ele, ninguém empacota,
nem veste o pijama de madeira,
nem empirulita.

Nunca vi coisa tão inútil.
Perdi minha grana, minha cabeça,
meu maior patrimônio.

Se não me livrar desta geringonça,
periga eu viver pra sempre.
Jesusmarijosé!
Troço chato. Deprimente.

Sei que poema não é classificado,
Mas eu queria anunciar o bregueço assim:

Vendo um fazedor de imortalidade
seminovo, em bom estado, quase zero,
primeiro dono, sem multas
e com IPVA quitado.


Só depois de me livrar dessa droga,
dessa máquina feia e falaz,
poderei dormir em paz.

As garotas de Londrina

February 01, 2005
A ex-celebridade. A gandula. A musa do Bar Brasil. A loira do terminal. A garota de programa. A hippie. A recepcionista. A engolidora de fogo. A italiana. Essas e outras garotas de Londrina estão na minha nova crônica.