Archive for January of 2005
Papo de segunda
January 31, 2005
Em Maringá, neste domingo, aconteceu algo no mínimo engraçado, que eu nunca tinha visto antes. Fomos almoçar às duas da tarde, em um restaurante de massas. A comida até que estava boa, mas na hora de pagar a conta, foi inacreditável. Todos os garçons estavam almoçando! Não apenas os garçons, mas também as cozinheiras e a moça do caixa. Todo mundo. Não tínhamos a quem pedir a conta. Tivemos que esperar um dos garçons terminar. E entregamos o dinheiro a um garçom que levava, na mão direita, um pote de sobremesa. Parecia coisa de filme.
*****
Está mais do que provado: a maior parte dos crimes está ligada ao tráfico. Pintou sangue, sujeira, violência da grossa, pode crer: tem traficante na parada. Essa idéia de jerico de fechar os bares não passa de uma desculpa demagógica e burra para deixar de combater o verdadeiro problema. Fechados os bares às 11 horas, as pessoas - incluindo os traficantes - não irão dormir feito cinderelas; só um estúpido ou um demagogo não vê. Os traficantes vão continuar operando e o terror vai só mudar de endereço. Fechar os bares equivale à clássica solução do português que pegou a mulher no sofá com o amante: livrou-se do sofá.
*****
Closer é um grande filme. Clive Owen está muito bem (como um médico do Clube Irmão Caminhoneiro Shell) e Natalie Portman, bem, Natalie Portman é uma digna sucessora de Juliette Binoche no meu rol das indiscutíveis.
Não deixe de assistir. Esse Mike Nichols (já nos 73) é um diretor bom bagarai.
*****
Obrigado pelo fim-de-semana. Foi ótimo. E por tudo o mais que não se enquadra no tempo.
*****
Está mais do que provado: a maior parte dos crimes está ligada ao tráfico. Pintou sangue, sujeira, violência da grossa, pode crer: tem traficante na parada. Essa idéia de jerico de fechar os bares não passa de uma desculpa demagógica e burra para deixar de combater o verdadeiro problema. Fechados os bares às 11 horas, as pessoas - incluindo os traficantes - não irão dormir feito cinderelas; só um estúpido ou um demagogo não vê. Os traficantes vão continuar operando e o terror vai só mudar de endereço. Fechar os bares equivale à clássica solução do português que pegou a mulher no sofá com o amante: livrou-se do sofá.
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Closer é um grande filme. Clive Owen está muito bem (como um médico do Clube Irmão Caminhoneiro Shell) e Natalie Portman, bem, Natalie Portman é uma digna sucessora de Juliette Binoche no meu rol das indiscutíveis.
Não deixe de assistir. Esse Mike Nichols (já nos 73) é um diretor bom bagarai.
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Obrigado pelo fim-de-semana. Foi ótimo. E por tudo o mais que não se enquadra no tempo.
A lei quer acabar com a Quinta Sem-Lei – parte 2
January 28, 2005
Mais uma vez, a estupidez humana me surpreende.
O vereador Glaudio Renato de Lima (PT) encaminhou projeto de lei para limitar o funcionamento dos bares em Londrina das 6 às 23 horas.
*****
Falência de bares, desemprego de garçons, psicose de massas, bebedeira generalizada (pois nunca se bebe tanto como durante a lei seca, vide o exemplo americano).
É mais uma visão do Inferno.
******
Enquanto a lei não é aprovada - Flávio Vedoato, faça alguma coooooooooisa! -, eu, Rubão, MRocha, Preto e outros (as) indignitários vamos ao Riomori, lá pelas sete. E mais não digo.
O vereador Glaudio Renato de Lima (PT) encaminhou projeto de lei para limitar o funcionamento dos bares em Londrina das 6 às 23 horas.
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Falência de bares, desemprego de garçons, psicose de massas, bebedeira generalizada (pois nunca se bebe tanto como durante a lei seca, vide o exemplo americano).
É mais uma visão do Inferno.
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Enquanto a lei não é aprovada - Flávio Vedoato, faça alguma coooooooooisa! -, eu, Rubão, MRocha, Preto e outros (as) indignitários vamos ao Riomori, lá pelas sete. E mais não digo.
Especulações
January 27, 2005E que bom seria
ter destino certo:
viver como feto
por 300 dias.
E que aventura
não pensar em nada:
boiar como lula
lá na alvorada.
Mas que alegria
tornar-me invisível:
um casco de vidro
e melancolia.
E que bom virar
de vez uma pedra:
no fundo do mar,
no leito de treva.
E que bom seria
ter destino certo:
tão longe do dia,
da noite tão perto.
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Agora, carpir uma data, pintar uma guia, varrer uma calçada ninguém quer, né?
*****
Depois de tamanha falta de enxada (com a devida licença do mestre Tanga), o Clube Irmão Caminhoneiro Shell informa a todos que hoje é QSL. Portanto.
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Uma das minhas frustrações: não ter participado de uma Quarta Rock curitibana até hoje. Raios. Deve ser legal bagarai.
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Como diria a surda-muda que Tanga abordou próximo ao terminal urbano:
– Inháááááá!
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E mais não disse porque não sabia.
Quero ser pequeno
January 26, 2005
Há um filme chamado “Quero ser grande”; eu quero ser pequeno. Descobri, já faz algum tempo, que nunca atingirei a grandeza. Não fui feito para ela. Só o fato de lembrar que, um dia, pensei em ser grande me enche de vergonha e humilhação. Meu destino é a pequenez. Leia o resto da crônica aqui.
Vamos tomar a última
January 25, 2005
Vamos tomar a última no Bar do Zambow?
Lá tem cerveja escura, luz fraca, petiscos
de anteontem, um banheiro bem sujo (não
tem problemas, estamos bêbados).
A última, na Cantina do Zé,
que fica na Rua de São Nunca,
a saideira, a caideira, a última e mais nada,
juro pelo que há de mais sagrado,
a derradeira antes de não dormir.
Ou então vamos tomá-la no posto,
no Posto Fecha Nunca, pertinho da minha casa,
no posto que vende mais álcool que gasolina.
E já estamos ficando chatos,
nossas barrigas crescendo,
não guardamos dinheiro no fim do mês,
mas amanhã, juro, vou começar a correr
e fazer 72 abdominais.
Antes, porém, vamos tomar a última
ao ar livre, na casa do Pafu,
que não é mais do Pafu, ele não mora mais lá,
mas tudo bem, vamos mesmo assim.
Vamos tomar a última no jardim,
no quintal onde você comeu aquela garota,
aquela de olhos amendoados,
lembra? Não lembra, mas não tem importância.
Estamos ficando velhos.
Vamos tomar a última antes do fim.
Lá tem cerveja escura, luz fraca, petiscos
de anteontem, um banheiro bem sujo (não
tem problemas, estamos bêbados).
A última, na Cantina do Zé,
que fica na Rua de São Nunca,
a saideira, a caideira, a última e mais nada,
juro pelo que há de mais sagrado,
a derradeira antes de não dormir.
Ou então vamos tomá-la no posto,
no Posto Fecha Nunca, pertinho da minha casa,
no posto que vende mais álcool que gasolina.
E já estamos ficando chatos,
nossas barrigas crescendo,
não guardamos dinheiro no fim do mês,
mas amanhã, juro, vou começar a correr
e fazer 72 abdominais.
Antes, porém, vamos tomar a última
ao ar livre, na casa do Pafu,
que não é mais do Pafu, ele não mora mais lá,
mas tudo bem, vamos mesmo assim.
Vamos tomar a última no jardim,
no quintal onde você comeu aquela garota,
aquela de olhos amendoados,
lembra? Não lembra, mas não tem importância.
Estamos ficando velhos.
Vamos tomar a última antes do fim.
Fome Zero Fashion Week
January 25, 2005O Clube Irmão Caminhoneiro Shell (versão londrinense para o Bronson Style) tem a honra de apresentar sua primeira incursão no mundo da moda: FOME ZERO FASHION WEEK.
É a nossa forma de protesto contra essa mania de achar que mulher raquítica/desnutrida/anoréxica é bonita. Mania essa criada por estilistas que, digamos assim, não estão entre os maiores apreciadores da beleza feminina.
Na FOME ZERO FASHION WEEK, só entra modelo de Juliana Paes pra cima. E para os lados também. Caso alguma Mariana Weickert ou Ana Paula Michels compareça em pele e osso, será submetida a uma intensa dieta de arroz, feijão, batata e bife à cavalo.
E mais não digo porque não sei (a minha linda namorada – que felizmente poderia desfilar na FOME ZERO FASHION WEEK – sabe, mas eu não).
*****
“Diários de Motocicleta”, de Walter Salles, recebeu duas indicações para o Oscar: melhor roteiro adaptado e melhor canção. Como são categorias menos prestigiadas, a chance de premiação é considerável.
Belesma! O primeiro Oscar do cinema brasileiro irá para um argentino (o autor do roteiro) ou para um uruguaio (o autor da canção).
*****
Hoje vou levar meu amigo João Sebastião à Terça Tilt.
*****
Janaína Ávila, irmã, amiga, rainha da serenidade: estes 50 dias vão passar muito devagar para todos nós. Volte logo. Felicidades e abraço no Andrea (estou treinando meu francês).
Aventuras de João Sebastião
January 25, 2005
Estava eu andando pela Avenida Paulista, na seleta companhia de João Sebastião.
Conversávamos, não sei em que língua.
Eis que surgiu, não sei de onde, um camelô furioso, que vendia CDs piratas do Skank e da Ivete Sangalo. Sem motivo algum, o indivíduo tentou agredir João Sebastião.
Interferi:
– Nesse aqui você não bate, campeão. É gente minha.
E olha que eu nem sou de briga. Mas, sacumé, mexeu com o João Sebastião, mexeu comigo.
*****
Minha amiga Ângela, do outro lado do oceano, pergunta:
– Você só ouve João Sebastião?
– Não. Só 80% do tempo.
*****
Estou, eu que não jogo cartas, jogando cartas com João Sebastião, no Bar Kotovelo’s.
Pergunto a ele:
– J. S., cuma que foi compor aquele Concerto de Brandenburgo número 3?
No exato instante em que formulo minha questão, passa um belo exemplar do sexo oposto. Ele desconversa em português claro:
– Morenaça, hein?
Eu, besta:
– E o concerto, João Sebastião?
Ele:
– Que mané concerto, Briguet? Não me fale em trabalho.
Depois perguntam por que o J. S. teve 20 filhos.
*****
Levo João Sebastião à Terça Tilt. Ele adora Strokes. Bom alemão que é, o homem pede uma Skol ao Márcio. Diz:
- Não é hoje que o Fábio Galão tá discotecando? Preciso falar com ele.
*****
João Sebastião bebe e começa a cantar:
– As véia / quando elas goza / é foda. / De cara cheia / as véia / é feia...
Ele vê a morenaça no meio da pista. E vai dançar com ela. Some na noite.
Vagabundo, salafrário, sem-vergonha.
*****
No dia seguinte, ligo para o hotel em que João Sebastião está hospedado. A recepcionista diz:
– O sr. Bach acertou todas as contas e foi embora sem deixar vestígios.
É a arte da fuga.
Todo mendigo tem um cão
January 22, 2005Se tua casa for destruída pela chuva ou fogo,
se teus filhos e teus pais morrerem de uma hora para outra,
se tua mulher te abandonar ao léu,
se teus amigos te voltarem as costas e esquecerem teu nome,
se torrares o último centavo inutilmente,
se fores julgado e condenado pelo crime mais sujo,
se os venenos corroerem teu corpo e tua memória,
se nem mesmo nome ou apelido tiveres,
se te chamarem, um dia, apenas com um grunhido
e teu vocativo se tornar um coice gutural,
se a força das marés e o temor dos eclipses
te roubarem os últimos fios de sanidade,
lembra que todo mendigo tem um cão.
Se, mesmo entre os mendigos, fores o mais baixo,
o mais fraco, o mais burro, o mais largado,
se tua pele for apenas uma constelação de chagas,
se não puderes andar senão pulando sobre uma só perna,
e nem mesmo esquina tiveres para implorar um tostão,
se mesmo das escadas das igrejas fores escorraçado,
lembra que Deus criou um cão para cada mendigo deste mundo,
e que este cão será teu anjo, mais que um anjo,
e que este cão será teu guarda, mais que guarda,
e que este cão será teu cão.
E se passares fomes e te encheres de tremores,
se esqueceres a língua materna e a existência passada,
se te acometeres de uma estranha conjunção de câncer, caspa, lepra e marasmo,
se te caírem os dentes por febre tifóide e escorbuto,
não esqueças que teu cão estará junto,
com olhos feros de amor e patas de longo curso.
Não esqueças que haverá um cão, um cão tão triste,
quando encontrarem o teu corpo insepulto.
(Escrito em São Paulo, 22 de janeiro de 2005, pouco antes do meio-dia.)
OK, pequena, agora vou beijá-la!
January 20, 2005Conviver comigo tem alguns problemas (além do fato de que eu sou homem e, portanto, feio). Há, por exemplo, a questão da imitação. Todos estão cansados de saber que, bem ou mal, eu gosto de imitar certas figuras (Guilherme Arantes, Belchior, Ivan Lins, o papa João Paulo II, Roberto Carlos, Silvio Santos, Jânio Quadros, John Wayne dublado, Wilson Gasino, Eduardo Judas Barros, Nedson Micheleti). O grande temor é que eu venha a empacar numa delas. Imagine, falar a vida inteira como a dublagem do John Wayne? Brabo.
*****
Janaína Ávila é mulher forte. Foi abrir a porta da redação, quebrou o trinco. Agora mesmo.
*****
Faça chuva ou faça estrela, QSL. E mais não digo.
Santa hipocrisia!
January 19, 2005
O atual prefeito de Curitiba, Beto Richa, autor dessa lei que quer proibir os bares noturnos, esteve, há menos de seis meses, no Bar Brasil, de Londrina, tomando umas e outras depois das dez da noite. Eu vi com estes olhos que a terra há-de. Ah, e também esteve, no mesmíssimo bar, um membro do primeiro escalão do governo Requião, do qual não direi o nome porque me pareceu gente boa.
*****
Há uns dez anos, quando o tal do Beto Richa foi candidato a deputado estadual, entrevistei o cidadão para a Folha de Londrina, e me impressionou a sua vacuidade de idéias, aterrorizante mesmo no mundo da política. Eu gostava bem mais do pai, José Richa (que era até amigo do Covas).
*****
Para quem tem grana como o deputado Plauto Miró, ou como o prefeito Beto Richa, é fácil proibir os botecos da noite, né? Se eles sentirem vontade de beber, basta ir a um restaurante de hotel cinco estrelas, ou chamar os amigos para um uisquinho em casa. Os pobres e a classe média que se lasquem.
*****
Stevenson diz que o medo deve ser guardado dentro de nós. E a inspiração, compartilhada. Mas o que fazer se o medo É minha inspiração?
*****
Marcelo Frazão perguntou:
- Você tem medo da morte?
Respondi:
- Não. Só tenho medo da dor.
À morte, guardo grande devoção. Ela é meu maior assunto.
No dia em que eu não tiver mais a morte, nada direi.
*****
Há uns dez anos, quando o tal do Beto Richa foi candidato a deputado estadual, entrevistei o cidadão para a Folha de Londrina, e me impressionou a sua vacuidade de idéias, aterrorizante mesmo no mundo da política. Eu gostava bem mais do pai, José Richa (que era até amigo do Covas).
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Para quem tem grana como o deputado Plauto Miró, ou como o prefeito Beto Richa, é fácil proibir os botecos da noite, né? Se eles sentirem vontade de beber, basta ir a um restaurante de hotel cinco estrelas, ou chamar os amigos para um uisquinho em casa. Os pobres e a classe média que se lasquem.
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Stevenson diz que o medo deve ser guardado dentro de nós. E a inspiração, compartilhada. Mas o que fazer se o medo É minha inspiração?
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Marcelo Frazão perguntou:
- Você tem medo da morte?
Respondi:
- Não. Só tenho medo da dor.
À morte, guardo grande devoção. Ela é meu maior assunto.
No dia em que eu não tiver mais a morte, nada direi.
A lei quer acabar com a Quinta Sem-Lei (ou Estou puto com o Pluto)
January 19, 2005
Beber ou não beber não quer dizer nada. O cara pode beber e ser um santo, um gênio ou simplesmente um cara normal. Abstêmio, também pode ser todas essas coisas. Genialidade, santidade e normalidade não brotam da garrafa.
*****
É possível tomar umas e outras e ser trabalhador; é possível beber só água e ser vagabundo.
*****
Tem gente que bebe e sai espalhando presuntos madrugada afora. Tem gente que não bebe e faz a mesmíssima coisa. E vice-versa, vice-versa. O sujeito não bate na mulher PORQUE bebe: ele bebe e bate na mulher. Ele bate na mulher porque... bate na mulher! O bêbado que não bate na mulher nada tem a ver com isso. A bebida não transforma ninguém naquilo que já não é.
*****
Edmund Wilson escrevia (bem) enquanto bebia seus cálices de gim. Mas a maioria dos escritores diz, com razão, que isso é raro.
*****
Passando para o nível dos reles mortais, declaro: Meus pouquíssimos textos escritos sob influência do álcool, de madrugada, têm quase sempre o mesmo destino: a lata de lixo. O brilho da bededeira se evapora com o álcool.
*****
Mitificar a bebida ou cercá-la de glamour é tão ridículo quanto demonizar o bebedor. Se o álcool é um problema, é um problema de saúde. Não de polícia. Não de caráter.
*****
Por sinal, se alguém quer conhecer o lado perigoso do álcool, basta ler o livro “Transplante”, de Jota Oliveira. Um repórter e editor incansável, talentoso, o primeiro cara que chegava à redação de manhã, bom pai, bom marido. Mas bebia todas. E esse “mas” o obrigou a um transplante de fígado, felizmente bem-sucedido. Hoje, Jota não bebe mais. E continua escrevendo (bem).
*****
Hitler era abstêmio. Churchill era bebum. E o primeiro tinha verdadeira obsessão pelo alcoolismo do outro.
*****
É óbvio que o fígado faz mal para a bebida; ninguém está discutindo isso. A marvada ferrou a vida de muita gente, e roubou décadas de sujeitos que, sóbrios, produziriam mais e melhor. É triste ver um cara com o talento do Paulo Leminski morrer pouco depois dos 40 anos. Dylan Thomas, Fernando Pessoa, Fitzgerald... todos esses beberam muito e mal.
*****
Não dirija bêbado, não dê pinga para as crianças, não dê cerveja para os cachorros, não tente assassinar ninguém, não grite além dos 580 decibéis – tudo isso a gente já sabe. Não precisa dizer. Tentaremos ser bons garotos.
*****
Mas não adianta: os manés da política andam pensando em proibir os bares depois das 23 horas. Toque de recolher, manja? Uma espécie de mini-Buchenwald. Afinal de contas, gente boa não passa a madrugada em bar, não é mesmo?
*****
Só faltava essa. Pisotear um dos direitos mais básicos: o de escolher se a gente vai encher a cara no boteco ou não!
*****
Paulo Francis dizia, com aquela voz de bebum (mesmo tendo parado de beber nos últimos vinte anos de vida): “Nunca se bebeu tanto nos Estados quanto na época da Lei Seca”. Mas, meu caro Francis, onde quer que você esteja, o que a história significa para o deputado Pluto (e assim que se escreve?)?
*****
Querem fechar o meu boteco. Pois que fechem o deles! Eu acredito infinitamente mais nos meus amigos da Quinta Sem-Lei – os que bebem e os que não bebem – do que na tal Segurança Pública ou na dita “Casa das Leis”. Decretar ponto facultativo permanente no palácio seria bem menos danoso do que fechar o bar da esquina.
*****
Nesta Quinta Sem-Lei, vou propor um brinde aos luminares da inteligência humana que defendem o toque de recolher:
– Saúde, senhores! Saúde física e mental.
*****
É possível tomar umas e outras e ser trabalhador; é possível beber só água e ser vagabundo.
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Tem gente que bebe e sai espalhando presuntos madrugada afora. Tem gente que não bebe e faz a mesmíssima coisa. E vice-versa, vice-versa. O sujeito não bate na mulher PORQUE bebe: ele bebe e bate na mulher. Ele bate na mulher porque... bate na mulher! O bêbado que não bate na mulher nada tem a ver com isso. A bebida não transforma ninguém naquilo que já não é.
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Edmund Wilson escrevia (bem) enquanto bebia seus cálices de gim. Mas a maioria dos escritores diz, com razão, que isso é raro.
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Passando para o nível dos reles mortais, declaro: Meus pouquíssimos textos escritos sob influência do álcool, de madrugada, têm quase sempre o mesmo destino: a lata de lixo. O brilho da bededeira se evapora com o álcool.
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Mitificar a bebida ou cercá-la de glamour é tão ridículo quanto demonizar o bebedor. Se o álcool é um problema, é um problema de saúde. Não de polícia. Não de caráter.
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Por sinal, se alguém quer conhecer o lado perigoso do álcool, basta ler o livro “Transplante”, de Jota Oliveira. Um repórter e editor incansável, talentoso, o primeiro cara que chegava à redação de manhã, bom pai, bom marido. Mas bebia todas. E esse “mas” o obrigou a um transplante de fígado, felizmente bem-sucedido. Hoje, Jota não bebe mais. E continua escrevendo (bem).
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Hitler era abstêmio. Churchill era bebum. E o primeiro tinha verdadeira obsessão pelo alcoolismo do outro.
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É óbvio que o fígado faz mal para a bebida; ninguém está discutindo isso. A marvada ferrou a vida de muita gente, e roubou décadas de sujeitos que, sóbrios, produziriam mais e melhor. É triste ver um cara com o talento do Paulo Leminski morrer pouco depois dos 40 anos. Dylan Thomas, Fernando Pessoa, Fitzgerald... todos esses beberam muito e mal.
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Não dirija bêbado, não dê pinga para as crianças, não dê cerveja para os cachorros, não tente assassinar ninguém, não grite além dos 580 decibéis – tudo isso a gente já sabe. Não precisa dizer. Tentaremos ser bons garotos.
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Mas não adianta: os manés da política andam pensando em proibir os bares depois das 23 horas. Toque de recolher, manja? Uma espécie de mini-Buchenwald. Afinal de contas, gente boa não passa a madrugada em bar, não é mesmo?
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Só faltava essa. Pisotear um dos direitos mais básicos: o de escolher se a gente vai encher a cara no boteco ou não!
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Paulo Francis dizia, com aquela voz de bebum (mesmo tendo parado de beber nos últimos vinte anos de vida): “Nunca se bebeu tanto nos Estados quanto na época da Lei Seca”. Mas, meu caro Francis, onde quer que você esteja, o que a história significa para o deputado Pluto (e assim que se escreve?)?
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Querem fechar o meu boteco. Pois que fechem o deles! Eu acredito infinitamente mais nos meus amigos da Quinta Sem-Lei – os que bebem e os que não bebem – do que na tal Segurança Pública ou na dita “Casa das Leis”. Decretar ponto facultativo permanente no palácio seria bem menos danoso do que fechar o bar da esquina.
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Nesta Quinta Sem-Lei, vou propor um brinde aos luminares da inteligência humana que defendem o toque de recolher:
– Saúde, senhores! Saúde física e mental.
Estatísticas. Ah, estatísticas
January 18, 2005
Há 25 anos eu brincava de Falcon. Faz 13 anos que eu trabalhei no Sindicato dos Professores. Há 20 anos fiquei interessado na Giane Coqueirinho; não virou nada. Dez anos atrás comecei a trabalhar na Folha de Londrina. E há 15 convidei o Fábio Silveira – que era magro bagarai – pra escrever um artigo no Jornal da Condessa. Você pode não acreditar, mas faz 9 anos que a Luciana (a Japinha, amiga da minha irmã) me deu um pé na bunda. E faz 9 anos que o Marcelo Rocha me perguntou durante a formatura da Jacqueline: “Ei, você é o Paulo Briguet?”. E eu devo ter respondido: “É o que dizem”. E você, Pafu, há quanto tempo, mané?
Fiz as contas e concluí: 21 anos se passaram desde que tomei meu primeiro porre, de chope e Martini, na Lanchonete Rangão, em Araçatuba. Faz 14 anos que eu caí numa piscina, louco de lança-perfume e vodca, gritando: “Eu tô zu! Eu tô zu!” E ninguém entendia nada. Eu queria dizer que estava “zuzo bem”, quer dizer, muito chaparral, envolvido em doudas idéias.
Há 19 anos agarrei a Gisele; namoramos um pouquinho, não mais que duas semanas, e ela me trocou pelo diretor de grupo de teatro, um baixinho barbudo que conseguia ser mais feio que eu. Há 14 anos viajamos em grupo de estudantes de Jornalismo para São Paulo, e você estava ali bem perto, quando eu convidei o Lúcio e a Cassiana para almoçarem na casa da minha avó. Há 19 anos, também, Marcelinho e Marcão morreram num acidente de carro na Castelo. Depois o pai deles morreu também. Há 17 anos desisti de estudar Filosofia na USP, e não quis ficar com as duas moreninhas do Bexiga.
Hoje o Fábio Silveira está gordo, trabalho com ele no jornal, estou barrigudo e bem menos infeliz que antes (teria sido, de fato, infeliz, ou isso foi algo que eu inventei só para dar graça ao enredo?).
Nunca soube, nem saberei de nada quantos aos números que mudam, os números que ficam maiores a cada dia.
Só sei que estou ficando mais velho do que costumava ser. Faz mais de 30 anos.
Fiz as contas e concluí: 21 anos se passaram desde que tomei meu primeiro porre, de chope e Martini, na Lanchonete Rangão, em Araçatuba. Faz 14 anos que eu caí numa piscina, louco de lança-perfume e vodca, gritando: “Eu tô zu! Eu tô zu!” E ninguém entendia nada. Eu queria dizer que estava “zuzo bem”, quer dizer, muito chaparral, envolvido em doudas idéias.
Há 19 anos agarrei a Gisele; namoramos um pouquinho, não mais que duas semanas, e ela me trocou pelo diretor de grupo de teatro, um baixinho barbudo que conseguia ser mais feio que eu. Há 14 anos viajamos em grupo de estudantes de Jornalismo para São Paulo, e você estava ali bem perto, quando eu convidei o Lúcio e a Cassiana para almoçarem na casa da minha avó. Há 19 anos, também, Marcelinho e Marcão morreram num acidente de carro na Castelo. Depois o pai deles morreu também. Há 17 anos desisti de estudar Filosofia na USP, e não quis ficar com as duas moreninhas do Bexiga.
Hoje o Fábio Silveira está gordo, trabalho com ele no jornal, estou barrigudo e bem menos infeliz que antes (teria sido, de fato, infeliz, ou isso foi algo que eu inventei só para dar graça ao enredo?).
Nunca soube, nem saberei de nada quantos aos números que mudam, os números que ficam maiores a cada dia.
Só sei que estou ficando mais velho do que costumava ser. Faz mais de 30 anos.
Samba da Neosaldina
January 17, 2005Em homenagem a Bezerra da Silva (1927-2005)
Acabou a Neosaldina,
acabou a Neosaldina!
E, pra piorar minha dor,
Tá fechada a farmácia da esquina...
(repeat chorus)
O malandro que é malandro
não se esquece da cabeça.
Se andou se acabando
e a ressaca é dureza,
não se entrega à guilhotina:
compra logo a Neosaldina!
Mas eu hoje vacilei
e fiquei sem comprimido.
Depois da Quinta Sem-Lei,
acordei desprevenido,
com ressaca de elefante.
Que coisa de diletante!
Acabou a Neosaldina,
acabou a Neosaldina!
E, pra piorar minha dor,
Tá fechada a farmácia da esquina...
(repeat chorus)
Mas quem é da malandragem
só vacila uma vez,
e não fica de bobagem
com cara de pequinês:
dá um pulo na esquina
compra logo a Neosaldina!
Mas a coisa não foi fácil
pelo seguinte motivo:
o gerente da farmácia
deu ponto facultativo.
Depois desse drama todo
vou ficar no chá de boldo...
Acabou a Neosaldina,
acabou a Neosaldina!
E, pra piorar minha dor,
Tá fechada a farmácia da esquina...
(repeat chorus)
Acabou a Neosaldina
January 17, 2005Acabou a Neosaldina. Que fazer, se é manhã de domingo, e o mundo está em ponto facultativo, inclusive a farmácia do bairro?
Sobrevivem alguns ruídos do sábado: são os farristas para quem a diversão ainda não acabou. O sol já vai alto, mas eles insistem em prolongar a noite. E gritam, cantam, bebem os últimos goles de cerveja morna. Cerveja Sol.
Olho para o alto – o ventilador de teto gira na velocidade máxima, mas é pouco. Consigo ler um ou dois versos de Walt Whitman, mas a cabeça impede o prosseguimento da leitura. Acabou a noite, a Neosaldina. Começou o domingo, este dia contaminado de segunda-feira. O mundo em ponto morto; maré baixa sem litoral à vista; o Mar Morto.
Não há remédio: tudo passa, até a dor de cabeça. Acabou a Neosaldina, eu preciso da tua mão.
As hippie
January 16, 2005Caro Vidal, ontem compus uma nova canção, que deve ser cantada com a melodia de “I Wanna Hold Your Hand”, dos Beatles. Mais uma vez, recomendo às moças de fino trato que não leiam.
January 15, 2005
Vamos fazer uma lista dos livros mais trash que todo mundo tem em casa? Eu já estou bolando a minha. E tem coisa ruim, santa mãe!
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Frase do Heidegger para o Romário usar na próxima declaração de Pelé:
O silêncio é o modo autêntico da palavra.
Por sinal, a única frase do Heidegger que eu entendi até hoje (mesmo assim, mais ou menos).
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Romário, a propósito, é o Drummond da pequena área. Foi?
*****
- Inhaaaaaaám!
Foi o que disse a surda-muda ao Tanga.
*****
Com 76 anos, Adriana Galhosteus ainda irá apresentar o novo namorado em Caras?
*****
Aquela indiazinha do BBB lembra a irmã de uma ex.
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Aos 90 anos, Hebe Camargo estará na ativa?
*****
Eu disse ontem à Jana Ávila, senhora da serenidade:
- O mundo é um concerto de Bach que não deu certo.
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Por falar no homem, esse Concerto de Brandenburgo número 3 é do garai!
*****
Amigos, o que o Gustavo/Unsleeper, esse rústico apaixonado, está fazendo na capa da Folha de Londrina de hoje, andando de bicicleta?
*****
Por fim, aqui vai a letra de “As Véia” na íntegra, conforme Vidal pediu. Leitura não recomendada para moças de fino trato.
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Frase do Heidegger para o Romário usar na próxima declaração de Pelé:
O silêncio é o modo autêntico da palavra.
Por sinal, a única frase do Heidegger que eu entendi até hoje (mesmo assim, mais ou menos).
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Romário, a propósito, é o Drummond da pequena área. Foi?
*****
- Inhaaaaaaám!
Foi o que disse a surda-muda ao Tanga.
*****
Com 76 anos, Adriana Galhosteus ainda irá apresentar o novo namorado em Caras?
*****
Aquela indiazinha do BBB lembra a irmã de uma ex.
*****
Aos 90 anos, Hebe Camargo estará na ativa?
*****
Eu disse ontem à Jana Ávila, senhora da serenidade:
- O mundo é um concerto de Bach que não deu certo.
*****
Por falar no homem, esse Concerto de Brandenburgo número 3 é do garai!
*****
Amigos, o que o Gustavo/Unsleeper, esse rústico apaixonado, está fazendo na capa da Folha de Londrina de hoje, andando de bicicleta?
*****
Por fim, aqui vai a letra de “As Véia” na íntegra, conforme Vidal pediu. Leitura não recomendada para moças de fino trato.
Homem é feio (poema lésbico)
January 14, 2005Já notou que homem é feio?
Repare: homem é mais feio
que a necessidade, a morte.
Homem é feio de morrer.
Imagem e semelhança? Conversa!
Deus não podia criar coisa assim,
feia pra diabo. Homem é brabo.
Repare: homem tem que fazer barba
todas as manhãs. Isso deve pinicar.
Homem tem barba, tem saco, tem chulé
tem cabelo no sovaco e pelinho no nariz;
homem só não é mais feio porque Deus não quis.
Mulher deve ser louca pra gostar de homem.
Louca!
Homem dormindo, homem roncando, homem falando,
homem até pensando é deprimente.
Homem é feio pra cacete.
Homem vestido de mulher no Carnaval.
Homem brigando com homem no futebol.
Homem bêbado no churrasco,
xingando homem no trânsito,
paquerando a secretária,
homem lutando sumô. Que horror!
Homem tem uns nomes estranhos:
Astolfo, Odracir, Maicon, Elvis
Bush, Zapatero, João Lennon, Dostoiévski.
Homem é chato na entrada e na saída
– e, de manhã, homem é mais feio ainda.
Homem, de Costinha a Gianecchini, nada o redime.
De vez em quando, homem tem um troço e grita:
“Anauê! Somos todos os irmãos!”
Olha o papelão. Homem é feio que é o cão.
Homem é peste, já reparou que homem tem asa?
E nem me venha dizer o contrário.
Tá com pena, leva pra casa!
Biografia do nunca
January 13, 2005Nunca é tempo demais,
ninguém sabe quanto tempo é nunca.
Quantos anos há em nunca? Quantos dias?
De séculos ou sístoles é feito jamais.
Nunca, jamais se define a duração
do que não é, do que não foi, nunca será.
O certo é que há dias que são nunca,
mas não sabemos quantos ou quando.
Oremos à estrela-guia do nunca.
Faz tanto tempo que nunca aconteceu,
cometa invisível a voltar de sempre em sempre.
Nunca deixou o amor dentro da morte:
a morte é nunca dentro do amor.
Nunca não existe – então existe.
Nunca é a substância do tempo,
o vento que faz o vento ventar,
o mesmo relógio de sempre
na parede inexistente,
adiantado às gerações.
Pois nunca – nunca – é o momento.
Nunca é o momento de.
Quê? Nunca direi.
Nunca há tempo para sempre.
O maior cometa é nunca,
e depois de nunca há Deus.
Aconteceu agora mesmo
January 13, 2005
– Por gentileza, eu quero falar com o Nicanor.
– O Nicanor está em férias.
– E quem ficou no lugar dele?
– O Leocádio.
*****
Por onde andará Pafu?
Como diria Didi Mocó, é um eniga!
*****
Esta semana vem sendo uma perdição. Terça Tilt, Quarta Latina e, logo mais, Quinta Sem-Lei. Esses dias com sobrenome ainda me matam.
*****
Estou pensando em vender os direitos autorais de “As Véia” para a Nova Schin. Mas desde que eu possa continuar tomando Skol.
*****
E mais não digo porque não sei.
– O Nicanor está em férias.
– E quem ficou no lugar dele?
– O Leocádio.
*****
Por onde andará Pafu?
Como diria Didi Mocó, é um eniga!
*****
Esta semana vem sendo uma perdição. Terça Tilt, Quarta Latina e, logo mais, Quinta Sem-Lei. Esses dias com sobrenome ainda me matam.
*****
Estou pensando em vender os direitos autorais de “As Véia” para a Nova Schin. Mas desde que eu possa continuar tomando Skol.
*****
E mais não digo porque não sei.
Mão só tem duas
January 13, 2005
A mão é um dos objetos mais perfeitos da natureza. Materialmente, ela é o nosso ponto de contato mais próximo com Deus. Ali tem dedo de Deus. Leia aqui o resto da crônica.
*****
Taí uma coisa que eu não entendo. Você é da família real britânica. Tem tudo na mão. Pode viajar o mundo inteiro, comer nos melhores restaurantes, jamais vai tocar numa maçaneta. A única coisa que te pedem: não dar baixaria. Não comparar a amante com um absorvente interno, não bater em fotógrafo, não se vestir de nazista. E você faz tudo isso. É brincadeira.

Tristeza não tem fim
January 12, 2005Agora à noite, antes de ir para a Quarta Janaína, revirei os CDs e achei mais três preciosidades. Pela ordem, pela ordem.
1. Coral Sercomtel. Pra quem não é daqui, Sercomtel é a companhia telefônica de Londrina. Tem Cio da Terra, Tiro ao Álvaro e Vira, Virou (esta, do Kleytonkledir - sempre achei que eles fossem uma só pessoa).
2. Oswaldinho do Acordeon. Comprei porque tinha que escrever um texto sobre o cara. E falando bem. É um bom instrumentista, mas... O problema é esse mas.
3. Cazuza - Homenagem. Sandra de Sá, Barão Vermelho, Calcanhoto, todos alegres e felizes cantando as músicas do “Caju para os íntimos”. É o capeeeeta!
Agora, como diz o taxista Júlio, “tranqüilo e calvo”! Vou reproduzir as preciosidades que o Preto enviou em forma de comentário. Veja o que o meu amigo tem na casa dele:
Cuchi Cuchi (Charo & Salsoul Ochestra)
Vamp Internacional
Chá Dançante (Valdir Calmon e seu conjunto)
Rock in Rio Festival Internacional (este é muito ruim)
Hear'n'Aid (tipo um Live Aid do heavy metal)
Ora pro Nobis (Baby Consuelo)
Burguesia (Cazuza)
Bilu Tetéia (Mauro Celso - compacto)
Nordeste Já (Chega de Mágoa - compacto)
Nikka Costa (compacto)
Menina (Claudio Cavalcanti - compacto)
Antonio Carlos & Jocafi (compacto)
Desculpe o grito, mas O HOMEM É UM HOOLIGAN!
Eu não tenho mais idade
January 12, 2005
A idade é uma lança
com que a alma pune
a carne, o sangue, o osso
que só vivem sem rumo.
A idade é uma vingança
de mim contra mim mesmo,
um indício que define
o meu espaço-tempo.
A idade é uma doença
sem nenhum motivo.
E mesmo assim me sinto
estranhamente vivo.
com que a alma pune
a carne, o sangue, o osso
que só vivem sem rumo.
A idade é uma vingança
de mim contra mim mesmo,
um indício que define
o meu espaço-tempo.
A idade é uma doença
sem nenhum motivo.
E mesmo assim me sinto
estranhamente vivo.
Pronto, falei
January 12, 2005Meus parabéns ao Rubão pela idéia de listar os piores discos que a gente já comprou. Idéia tão boa que eu faço questão de copiar. Lembrando de cabeça (porque estou no jornal):
1. “Cores e Nomes”, de Caetano Veloso, com aquela pérola: “Ele me deu um beijo na boca e me disse / A vida é oca como a touca de um bebê sem cabeça / E eu ri à beça”. Comprei nas Americanas, e nem tenho a desculpa de que “eu era adolescente na época”. Foi há uns 6 meses. Tava em promoção. (E daí?)
2. Vinil do Raulzito, muito rodado nos anos 80, com a “Mosca na Sopa”: “E não adianta vir me dedetizar / Pois nem o DDT pode assim me exterminar / Porque cê mata uma e vem outra em meu lugaaaaaar”. Pior: tá riscado, prova cabal de que escutei.
3. “Meus momentos”, com Vinicius de Moraes. A pergunta que não quer calar: por que um bom poeta vira hippie depois de velho?
4. “Mágico”, de Alceu Valença. Obra-prima! Obra-prima! “Aaaaaah! É pra te envenenaaar / Meu batuque é brasileiro e a pitada de estrangeiro boto pra te envenenaaaar (é pra te envenenar)”. E eu cantava junto, batucando nas costas do violão.
5. Sacrilégio, meu Deus, sacrilégio: uma dessas orquestras de elevador (tipo Spot Light ou Hooked on Classics) assassinando as melhores do Cole Porter. Desse disco, que comprei na mais pura manezice, eu tenho tanta vergonha que até escondo no armário.
Hour concours: “Araçá Azul”, o disco experimental do Caetano Veloso. NÃO EXISTE DISCO PIOR DO QUE ESSE. Vocês perceberam que o sujeito é minha especialidade? E quer saber? Ainda ouço pra dar risada e lembrar dos agitados anos 80. Me salva, João Sebastião!
Por sete anos ela não ligou pra ele
January 11, 2005Por sete anos ela não ligou pra ele.
Ficou então essa vazio na vida de ambos,
silêncio que separa dois movimentos
numa partita de Bach.
Sete anos são 84 meses,
são bem mais que mil dias, bem mais.
Em sete anos um menino se torna homem
e encontra o amor de sua vida;
um ditador cai em desgraça;
um carniceiro mata milhares
e já ordena a morte de milhões.
Por sete anos ela não ligou pra ele.
Mas, todas as vezes que o telefone toca,
ele atende sozinho no quarto,
ao terceiro chamado
- porque ao sétimo
pode ser tarde demais.
“É o capeta!”*
January 11, 2005Adriana Esteves aparece na TV. Recitando – eu disse RECITANDO! – a “Metamorfose Ambulante”, de Raulzito.
Tem coisas que chegam a ameaçar a supremacia do Skank e da Kaiser no índex das coisas insuportáveis.
E o pior é que repetem toda hora.
Remédio: Terça Tilt. Eu vou.
___________________________
* (ROCHA, Marcelo. 2004. Todos os direitos reservados.)
Cânone pessoal
January 11, 2005
Já que estamos nesta febre de listas, aqui vai mais uma contribuição, a pedido da Gabi. Meus poetas do coração (em língua portuguesa). Escolher já foi difícil; colocar em ordem de preferência, então nem pensar:
* Herberto Helder
* Bocage
* Camões
* Glauco Mattoso
* Alexei Bueno
* Drummond
* Fernando Pessoa (Álvaro de Campos, principalmente)
* Mário Quintana
* Mário Faustino (como poeta; crítico, não)
* Paulo Mendes Campos (é engraçado colocar um ao lado do outro; Faustino detestava os poemas do PMC)
* Ferreira Gullar
* Carlos Nejar
* Cecília Meireles
* Ivan Junqueira
* José Paulo Paes (concisão admirável)
* Vinicius de Moraes (acreditem: antes de virar sambista e hippie da terceira idade, foi um grande poeta; já suas músicas com Toquinho estão entre as piores de todos os tempos)
* Manuel Bandeira (quando o velhinho acertava, era bom)
* Herberto Helder
* Bocage
* Camões
* Glauco Mattoso
* Alexei Bueno
* Drummond
* Fernando Pessoa (Álvaro de Campos, principalmente)
* Mário Quintana
* Mário Faustino (como poeta; crítico, não)
* Paulo Mendes Campos (é engraçado colocar um ao lado do outro; Faustino detestava os poemas do PMC)
* Ferreira Gullar
* Carlos Nejar
* Cecília Meireles
* Ivan Junqueira
* José Paulo Paes (concisão admirável)
* Vinicius de Moraes (acreditem: antes de virar sambista e hippie da terceira idade, foi um grande poeta; já suas músicas com Toquinho estão entre as piores de todos os tempos)
* Manuel Bandeira (quando o velhinho acertava, era bom)
Coisas que ninguém me explica
January 10, 2005 Responsabilidade social.
Agregar valor.
Mistura de linguagens.
Criação coletiva.
Livremente inspirado em...
Agora, redução de danos, eu já entendi o que é: Neosaldina!
Dois poemas para um hooligan
January 10, 2005
Meu querido Marcelo Rocha, depois de ler seu post de domingo (e que domingo), perco as palavras. Tenho que recorrer aos mestres. Na última quinta sem-lei, Gabi perguntou-me quais seriam os meus top five entre os poetas de língua portuguesa (deixa o Ariano Suassuna ouvir esse negócio de top five em língua portuguesa).
Achei muito difícil elaborar a lista, mais sei que o Carlos Nejar teria grande chance de figurar entre os poetas que mais me falam ao coração (arrítmico) e a inteligência (residual).
E é com dois poemas de Carlos Nejar que eu falo a você nesta hora, meu amigo. O primeiro poema fala do desespero e da fragilidade da condição humana. O segundo arremessa-nos a um plano mais sutil do que a linguagem, próximo ao Verbo.
Meu Deus, como estou solene hoje. Vamos corrigir essa viadagem tomando uma Skol no Magdalena ou no Riomori, certo? A Jana Ávila vai junto.
É, seus hooligans. Eu gosto de poesia, mas sou do Clube Irmão Caminhoneiro Shell, falô?
Seguem os dois poemas:
1. Nossa é a miséria
Nossa é a miséria
nossa é a inquietação incalculável,
nossa é a ânsia de mar e de naufrágios,
onde nossas raízes se alimentam.
Em vão lutamos
contra os grandes signos.
Seremos sempre
a mesma folhagem
de madrugada ausente.
O mesmo aceno imperceptível
entre a janela e o sonho.
A mesma lágrima
no mesmo rosto vazio.
A mesma frase
dentro dos mesmos olhos
sob a fonte.
Seremos sempre
a mesma dor oculta
nas árvores, no vento.
A mesma humilhação
diante da vida.
A mesma solidão
dentro da noite.
A mesma noite antiga
que separa
a semente do fruto
e amadurece
os lábios para a morte
como um rasto
de silêncio no mar.
2. Abandonei-me ao vento
Abandonei-me ao vento. Quem sou, pode
explicar-te o vento que me invade.
E já perdi o nome ao som da morte,
ganhei um outro livre, que me sabe
quando me levantar e o corpo solte
o meu despojo vão. Em toda parte
o vento há-de soprar, onde não cabe
a morte mais. A morte a morte explode.
E os seus fragmentos caem na viração
e o que ela foi na pedra se consome.
Abandonei-me ao vento como um grão.
Sem a opressão dos ganhos, utensílio,
abandonei-me. E assim fiquei conciso,
eterno. Mas o amor guardou meu nome.
Achei muito difícil elaborar a lista, mais sei que o Carlos Nejar teria grande chance de figurar entre os poetas que mais me falam ao coração (arrítmico) e a inteligência (residual).
E é com dois poemas de Carlos Nejar que eu falo a você nesta hora, meu amigo. O primeiro poema fala do desespero e da fragilidade da condição humana. O segundo arremessa-nos a um plano mais sutil do que a linguagem, próximo ao Verbo.
Meu Deus, como estou solene hoje. Vamos corrigir essa viadagem tomando uma Skol no Magdalena ou no Riomori, certo? A Jana Ávila vai junto.
É, seus hooligans. Eu gosto de poesia, mas sou do Clube Irmão Caminhoneiro Shell, falô?
Seguem os dois poemas:
1. Nossa é a miséria
Nossa é a miséria
nossa é a inquietação incalculável,
nossa é a ânsia de mar e de naufrágios,
onde nossas raízes se alimentam.
Em vão lutamos
contra os grandes signos.
Seremos sempre
a mesma folhagem
de madrugada ausente.
O mesmo aceno imperceptível
entre a janela e o sonho.
A mesma lágrima
no mesmo rosto vazio.
A mesma frase
dentro dos mesmos olhos
sob a fonte.
Seremos sempre
a mesma dor oculta
nas árvores, no vento.
A mesma humilhação
diante da vida.
A mesma solidão
dentro da noite.
A mesma noite antiga
que separa
a semente do fruto
e amadurece
os lábios para a morte
como um rasto
de silêncio no mar.
2. Abandonei-me ao vento
Abandonei-me ao vento. Quem sou, pode
explicar-te o vento que me invade.
E já perdi o nome ao som da morte,
ganhei um outro livre, que me sabe
quando me levantar e o corpo solte
o meu despojo vão. Em toda parte
o vento há-de soprar, onde não cabe
a morte mais. A morte a morte explode.
E os seus fragmentos caem na viração
e o que ela foi na pedra se consome.
Abandonei-me ao vento como um grão.
Sem a opressão dos ganhos, utensílio,
abandonei-me. E assim fiquei conciso,
eterno. Mas o amor guardou meu nome.
Na hora da morte
January 08, 2005Olá, meus filhos. Que bom ver todos vocês reunidos aqui. Há quanto tempo isso não acontece? Talvez uns 20 anos. Ouçam o seu pai que vai morrer.
Meus filhos, não desanimem. Não deixei seguro de vida, nem casa própria, nem carro, nem poupança, nem bens. Deixei para vocês apenas esta alegria estranha, esta capacidade de fazer amigos e amigas, este jeito de brincar com as crianças pequenas, este talento para contar piadas internas, infames.
Sei que sou um homem ridículo. Deve ser duro ter um pai assim. Deixei para vocês apenas um punhado de livros velhos, meus filhos, vocês leiam se quiserem. Se não quiserem, ótimo. Doem os livros para o sebo do Carlinhos.
Dizem que morrer dói. Mentira. Viver é que dói. Morrer é apenas um silêncio, um intervalo entre dois movimentos de uma sonata, quando o público murmura e se ajeita nas poltronas, sem ainda bater palmas.
Meus filhos, não chorem. É hora de dar risada e lembrar as histórias engraçadas. Lembram aquela festa em que eu resolvi dormir na lareira? O dia em que vocês foram me buscar na delegacia, só porque eu disse ao guarda: “Eu tenho um Passat e muita pinga na cabeça!”? E aquele Festival de Tequila Gole Gordo, que eu organizei junto com a amiga francesa? Meus filhos, só não bebam tanto quanto eu bebi. Pode fazer mal. Está fazendo. Vou morrer.
Rapazes, acreditem: amei a mãe de cada um de vocês como se fosse a única mulher do mundo. É um tanto constrangedor deixar cinco meios-irmãos neste mundo, mas fazer o quê? Não sejam tolos, meus filhos: amem-se como se a mãe de vocês fosse a mesma mulher. Pois a cada uma delas eu dei um lírio-do-brejo que catei no veranico.
Agora podem ir, meninos. Fiquem com Deus, que eu também ficarei. Daqui a pouco, muito pouco, vou prestar contas dos meus pecados. É uma lista grande, Deus vai ter trabalho, mas sei que Ele estará com vocês. Estar com todos e não estar com ninguém é a profissão do Cara. Agora, por favor, coloquem uma sonata do Bach no aparelho de som, que eu quero morrer ouvindo música. Obrigado e adeus.
Acordar é difícil (parte 2)
January 07, 2005
Acordar é difícil, meus amigos,
depois da quinta sem-lei,
é difícil, chave de enigma,
x de equação, raiz de tudo, enfim.
Acordar é tão difícil
quanto achar uma caneta perdida,
é tão difícil quanto pensar na morte,
é tão difícil quanto domar a paixão
no largo da memória.
Acordar é mais difícil
que acordar e fazer um samba,
um rock, uma ária, qualquer coisa,
acordar é a coisa mais difícil do mundo.
Acordar é abrir os olhos, difícil,
é tomar banho, é lavar o rosto,
é marchar para o centro, difícil,
acordar é difícil e lento.
Acordar é tão difícil
quanto amar e fisgar um peixe,
é tão difícil quanto esquecer,
é tão difícil quanto estar à mercê
de tudo, é difícil, tão difícil
quanto olhar o impossível
e passar para o lado interno do espelho.
Acordar é difícil numa sexta-feira,
engolir as neosaldinas,
entender o livro do faulkner,
amar o mundo como a si mesmo,
acordar é tão difícil
quanto erguer uma parede,
carregar a geladeira do Bar Brasil.
Acordar é tão difícil
quanto acertar as horas sem horas,
quanto gozar à distância
e construir um monumento.
Acordar é mais difícil que o sol,
é mais difícil que o vento,
é mais difícil que a chuva
e a nuvem no firmamento.
Acordar é um momento
mais duro que o aço, Stálin,
que a pele e que a carne,
mais duro que o bar
que só vende kaiser,
mais duro que a pedra, a pedra da roseta,
acordar é mais difícil que a buceta.
Acordar é difícil pra burro,
é difícil pra sempre,
barbaridade, acordar é difícil
até em pensamento.
E, quando sonho que vou acordar,
fico em silêncio.
Acordar é o martírio do tempo,
é viver de vez em quando,
é fazer o nó da gravata,
acordar é uma errata,
é errar um acento,
acordar é pior
que dormir ao relento,
vendo as luzes do céu,
vendo as cores do mundo,
acordar é pior que tudo.
Mas se eu não acordar, meus amigos,
estou fora, estou perdido,
estou louco.
Se eu não acordar, meus amigos,
estou morto.
depois da quinta sem-lei,
é difícil, chave de enigma,
x de equação, raiz de tudo, enfim.
Acordar é tão difícil
quanto achar uma caneta perdida,
é tão difícil quanto pensar na morte,
é tão difícil quanto domar a paixão
no largo da memória.
Acordar é mais difícil
que acordar e fazer um samba,
um rock, uma ária, qualquer coisa,
acordar é a coisa mais difícil do mundo.
Acordar é abrir os olhos, difícil,
é tomar banho, é lavar o rosto,
é marchar para o centro, difícil,
acordar é difícil e lento.
Acordar é tão difícil
quanto amar e fisgar um peixe,
é tão difícil quanto esquecer,
é tão difícil quanto estar à mercê
de tudo, é difícil, tão difícil
quanto olhar o impossível
e passar para o lado interno do espelho.
Acordar é difícil numa sexta-feira,
engolir as neosaldinas,
entender o livro do faulkner,
amar o mundo como a si mesmo,
acordar é tão difícil
quanto erguer uma parede,
carregar a geladeira do Bar Brasil.
Acordar é tão difícil
quanto acertar as horas sem horas,
quanto gozar à distância
e construir um monumento.
Acordar é mais difícil que o sol,
é mais difícil que o vento,
é mais difícil que a chuva
e a nuvem no firmamento.
Acordar é um momento
mais duro que o aço, Stálin,
que a pele e que a carne,
mais duro que o bar
que só vende kaiser,
mais duro que a pedra, a pedra da roseta,
acordar é mais difícil que a buceta.
Acordar é difícil pra burro,
é difícil pra sempre,
barbaridade, acordar é difícil
até em pensamento.
E, quando sonho que vou acordar,
fico em silêncio.
Acordar é o martírio do tempo,
é viver de vez em quando,
é fazer o nó da gravata,
acordar é uma errata,
é errar um acento,
acordar é pior
que dormir ao relento,
vendo as luzes do céu,
vendo as cores do mundo,
acordar é pior que tudo.
Mas se eu não acordar, meus amigos,
estou fora, estou perdido,
estou louco.
Se eu não acordar, meus amigos,
estou morto.
Coisas que me dão pânico (a porcaria continua)
January 06, 2005
A lista não termina nunca. Até desisti de numerar:
Marília Gabriela com o dedo sob o queixo, óculos de leitura e cara de inteligente.
Elenco do Big Brother depois que o programa termina (durante o programa, tudo bem, a gente sabe que pelo menos eles estão lá, confinados; depois, é o pânico, eles podem aparecer em qualquer lugar, até no Magdalena).
Kaiser.
“Bares” que só vendem Kaiser. A cara do garçom quando diz isso.
Garçom que só olha pra baixo.
Furadeira (especialmente em dias de ressaca)
Aquela toada que diz assim: “Xonei, xonei, xonei!”
Voz “masculina” em alto-falante de rodoviária ou loja de departamentos (“Cláudio, pacote!” “Moraes, recepção!”).
Bebuns polemistas.
Polemistas bebuns.
Polemistas sóbrios.
“Marinheeeeeiro só!”
Seleção de clipes no Multishow.
Cachorro que dá susto.
Documentário “de esquerda” na TV Senado.
Café muito doce
Universitário politicamente correto.
Porteiro com cara de quem sabe tudo.
Vizinho que pergunta como foi ontem.
Farmacêutico que pergunta se estou com dor de cabeça quando vou comprar Neosaldina. Não! Tô com dor na unha, Mané!
*****
Hoje, QSL especial de Reis. Tragam ouro, incenso e mirra. Ou comprem algumas fichas de Skol. É tempo de folia.
Marília Gabriela com o dedo sob o queixo, óculos de leitura e cara de inteligente.
Elenco do Big Brother depois que o programa termina (durante o programa, tudo bem, a gente sabe que pelo menos eles estão lá, confinados; depois, é o pânico, eles podem aparecer em qualquer lugar, até no Magdalena).
Kaiser.
“Bares” que só vendem Kaiser. A cara do garçom quando diz isso.
Garçom que só olha pra baixo.
Furadeira (especialmente em dias de ressaca)
Aquela toada que diz assim: “Xonei, xonei, xonei!”
Voz “masculina” em alto-falante de rodoviária ou loja de departamentos (“Cláudio, pacote!” “Moraes, recepção!”).
Bebuns polemistas.
Polemistas bebuns.
Polemistas sóbrios.
“Marinheeeeeiro só!”
Seleção de clipes no Multishow.
Cachorro que dá susto.
Documentário “de esquerda” na TV Senado.
Café muito doce
Universitário politicamente correto.
Porteiro com cara de quem sabe tudo.
Vizinho que pergunta como foi ontem.
Farmacêutico que pergunta se estou com dor de cabeça quando vou comprar Neosaldina. Não! Tô com dor na unha, Mané!
*****
Hoje, QSL especial de Reis. Tragam ouro, incenso e mirra. Ou comprem algumas fichas de Skol. É tempo de folia.
Dez coisas que me dão pânico (e suplentes)
January 05, 2005
1. Samba-enredo na Globo
2. Skank (ah, isso todo mundo já sabe. Pensei em trocar por Ana Carolina-Zélia Duncan)
3. Carlinhos Brown
4. Pitty (a Bahia tem um jeito...)
5. Cortadores de grama (quem me garante que um deles não é o Jason?)
6. Cheiro de pastelaria (aquele que fica impregnado)
7. Músico peruano no Calçadão tocando “Imagine”
8. Poesia concreta
9. Literatura ativista (que mané ativista, rapá?)
10. Programinha cabeça – aliás, cabefa – na TV a cabo (com debate de intelecuais cariocas e paulistanos)
Suplentes:
11. PM da Rone fazendo bico de segurança
12. Jô Soares (apesar da minha semelhança com o Derico; e do “Planeta dos Homens” eu gostava)
13. Anti-semitismo de boteco
14. Gente que chove no ouvido dos outros
15. Pôster do Bob Marley
16. Aquele tiozinho insistente que vende mel na rua
17. Família Lima
Hour-concours:
Homem (é feio, é chato, é peludo)
2. Skank (ah, isso todo mundo já sabe. Pensei em trocar por Ana Carolina-Zélia Duncan)
3. Carlinhos Brown
4. Pitty (a Bahia tem um jeito...)
5. Cortadores de grama (quem me garante que um deles não é o Jason?)
6. Cheiro de pastelaria (aquele que fica impregnado)
7. Músico peruano no Calçadão tocando “Imagine”
8. Poesia concreta
9. Literatura ativista (que mané ativista, rapá?)
10. Programinha cabeça – aliás, cabefa – na TV a cabo (com debate de intelecuais cariocas e paulistanos)
Suplentes:
11. PM da Rone fazendo bico de segurança
12. Jô Soares (apesar da minha semelhança com o Derico; e do “Planeta dos Homens” eu gostava)
13. Anti-semitismo de boteco
14. Gente que chove no ouvido dos outros
15. Pôster do Bob Marley
16. Aquele tiozinho insistente que vende mel na rua
17. Família Lima
Hour-concours:
Homem (é feio, é chato, é peludo)
Confissões de um cara patético
January 04, 2005Vivemos cercados por coisas que não compreendemos. Queremos Skol gelada, mas o que sabemos de fermentação, de refrigeração? Alguém seria capaz de construir uma geladeira, ainda que rudimentar? E as cervejas feitas em casa, ao menos as que arrisquei tomar até hoje (por educação), me pareceram péssimas.
Neste momento, estou sentado sobre uma cadeira de metal, com assento de espuma. Desconfio que sou incapaz até mesmo de fazer um banquinho de madeira, daqueles que o pessoal usa em churrascos como suporte de pratinhos de plástico. E que segredo sei eu de plásticos? Plástico e vidro continuam sendo grandes enigmas para mim. Um inseto compreende a natureza do vidro tão bem quanto eu. E eu também não entendo de insetos. Moscas e muriçocas, percevejos e pulgas, besouros e joaninhas, qual a diferença? Minha ignorância é abissal como as profundidades atingidas por um mergulhador da Petrobráixxxxx. Pafu, nada sei de matemática, rapá! Nem lembro a fórmula da equação de segundo grau.
Apesar de conversar sempre com meu fígado, nada sei sobre as milhares de funções que ele cumpre (dentro de mim mesmo, dentro de mim mesmo!). Tudo que eu tenho a dizer para ele, antes de dormir, são duas Neosaldinas. E nunca vou entender o milagre das Neosaldinas – só sei que elas são iguaizinhas a um Confete marrom. Ou a grafia correta (do produto, do produto)seria Confeti? Alguém responda, por favor!
Se eu voltasse ao tempo das cavernas, ou fosse para um campo de extermínio, não duraria uma semana. Morto na primeira pedrada, na primeira vacilada com um SS. Tenho a nítida impressão de ser um erro da evolução das espécies. Se eu sobrevivo, Deus existe. Como queríamos demonstrar.
E a luz? O que é a luz? O que é um fóton? Por que a velocidade ao quadrado multiplicada pela massa é igual à energia? E tem crase antes de energia – ou não? Tanga, Tanga, Tanga! Me ajude, professor Tanga (e desculpaê essa próclise indevida).
Mal sei acender a luz. E, quando estou bêbado, esqueço de apagá-la. Tentei, num acampamento que fiz, aos 12 anos, produzir fogo com duas pedras e uma vareta. Nada. Nem faísca. Centelha, então, necas vezes necas.
Abandonado no meio da mata amazônica, acho que eu duraria umas sete horas. Cinco, talvez. Como diferenciar a mandioca braba e a comestível? Que frutos são venenosos? Eu não sei nem reconhecer um aipim! (Vou ao dicionário, e constato que aipim é sinônimo de mandioca. Mas na floresta não tem Aurélio).
Eu poderia acampar, viver na frugalidade da natureza? Quem sabe. Tentei ser escoteiro quando era moleque, mas meu pai disse, proibindo, que era coisa de militar. Comprei um Almanaque do Escoteiro do Tio Patinhas, mas esqueci tudo. Aliás, acabo de lembrar que o Almanaque não era meu: apenas emprestei do Octávio Gordão. Por onde andará Octávio Gordão? Garai, não sei nada!
Sim, quem sabe acampar em Sapopema (puta coisa de gente-maconha...), ou outro lugar, onde o insuportável cheiro de Cannabis não me fosse imposto – mas, e depois? Eu voltaria para o bem-bom: banho quente, cama gostosa, lig-pizza, rádio-táxi, TV a cabo, computa, microondas, cd player com joão sebastião, celular, alguém tem aí um carregador de Motorola?
E o ar condicionado. Ah, o ar condicionado, no verão insuportável desta Terra Vermelha. Henry Miller, meu escritor preferido, odiava ar condicionado. Eu considero a melhor invenção do século 20, depois da Neosaldina. Sulfa, penicilina, computa? Nem saem na foto. Viva o ar condicionado, que eu também não sei como funciona.
Fora não saber dirigir, assobiar, os naipes do baralho, combinar roupa, fazer caipirinha, falar inglês.
Que vergonha.
Eliot, pergunte-me como
January 04, 2005Não falo inglês. Só leio traduções e versões bilíngües. Mas, na minha modestíssima opinião, morria há 40 anos um dos maiores poetas do século XX: T. S. Eliot.
Escrevi um perfil dele no jornal. Dê uma lida, se quiser, e me diga o que achou. Título do texto: Assim como era no princípio.
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No bottom:
Perca peso. Pergunte-me como.
- Como?
- Não, não come.
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Meu Deus. Botei Eliot e um trocadilho infame no mesmo post. Eu sou da dimensão bagarai.
Anotações de um cara noturno
January 03, 2005
À noite enlouquecemos. Falamos sozinhos. Gritamos por motivos obscuros. De olhos fechados, dizemos: “Viver! Viver!” Acreditamos ainda estar no bar. Chamamos – pelos nomes – os que já se foram. E eles aparecem, falam, vivem, bebem conosco uma cerveja dos anos 70. “Guardei para você. Saúde!”
Enquanto os olhos dançam, conversamos longamente em línguas mortas, natimortas. Argumentamos, sem letras, em dialetos da sombra. Uma garota me disse que eu falava iídiche na madrugada.
Enlouquecemos à noite porque escutamos as vozes ancestrais. Do tempo em que à noite só havia noite. E as estrelas se moviam todas, e o povo falava em fantasmas e deuses quando uma pedra riscava o céu e caía negra aos nossos pés. Enlouquecemos como se enlouquecia, como se enlouquecera.
O que mais nos move, no templo azul da noite, é o que menos resta à luz do Sol, à triste luz do Sol. O Sol que todos sabem – os olhos bem abertos – que não se move nunca.
Porque à noite – só à noite – enlouquecemos.
*****
Mudei a cor do blog só porque a Janaína Ávila mudou. E daí? Sou copião mesmo. Dela eu sou.
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Aonde foram todos os leitores do Tipos neste final de ano? Ou só o meu Nedststsxxwtat que caiu?
Enquanto os olhos dançam, conversamos longamente em línguas mortas, natimortas. Argumentamos, sem letras, em dialetos da sombra. Uma garota me disse que eu falava iídiche na madrugada.
Enlouquecemos à noite porque escutamos as vozes ancestrais. Do tempo em que à noite só havia noite. E as estrelas se moviam todas, e o povo falava em fantasmas e deuses quando uma pedra riscava o céu e caía negra aos nossos pés. Enlouquecemos como se enlouquecia, como se enlouquecera.
O que mais nos move, no templo azul da noite, é o que menos resta à luz do Sol, à triste luz do Sol. O Sol que todos sabem – os olhos bem abertos – que não se move nunca.
Porque à noite – só à noite – enlouquecemos.
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Mudei a cor do blog só porque a Janaína Ávila mudou. E daí? Sou copião mesmo. Dela eu sou.
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Aonde foram todos os leitores do Tipos neste final de ano? Ou só o meu Nedststsxxwtat que caiu?
Suicídio
January 03, 2005Vi um policial no ônibus.
De um lado do cinto, revólver.
Do outro lado, celular.
E se o celular tocasse e ele atendesse o revólver?