Repórter das Coisas

Confissão de um ex-eleitor de Grande Otelo

Hoje é Dia de Todos os Santos, Dia de Todas as Culpas. Agora, diante do tribunal, tendo sobre as mãos o Livro, eu confesso todos os pecados. Todos. A começar por minha aldeia: fui eu quem sumiu com os 186 milhões. Estão todos depositados na minha conta do Banco do Brasil em Sabáudia. Também fui eu que votei 120 mil vezes no mentiroso, ladrão, corrupto e sem-vergonha, e agora tenho uma certa compaixão por ele, pois os derrotados invariavelmente me inspiram compaixão (e quem disse que ele é derrotado?).
Mas no meu voto – pois só tenho direito a um, e insistem em chamar direito de dever – confesso que escolhi o outro candidato, e confesso sem vergonha. Pois todos sabemos que votar num sem-vergonha é diferente de votar sem vergonha.
Confesso, oh confesso, diante de vós juízes e vós advogados, diante de vós jurados, que, por um dia (vá lá, por duas semanas), voltei a me preocupar com esta aberração chamada poder, que para mim é como juiz de futebol: quanto menos aparece, melhor. Confesso que quebrei, assim, o juramento feito tempos atrás. Mas, agora, diante do tribunal, com as mãos sobre o Livro, juro outra vez: doravante, votarei só em Grande Otelo – meu amigo, poeta e ator Grande Otelo, tendo como vice Grande Elenco –, a não ser que o próprio Coisa-Ruim volte à carga (caro Groo, acredite, não é exagero). Pois, no fim, será a culpa. Só ela, nada mais – nem palavra, nem idéia, nem omissão.
Confesso que vi a luz se apagar (ela, que já corre a 300 mil km por segundo).
Confesso que torci para aquele partido (e assim que vocês chamam?) perder em todas as cidades, menos aqui, porque não agüento a arrogância e a noção de que “tudo é política” (se fosse verdade, eu preferiria que um Stálin aparecesse para me mandar uma bala na cabeça, como fez com seu ex-companheiro de prisão Kamenev e outros 20 milhões).
Confesso que fiquei de mãos geladas, acompanhando a apuração ao pé do rádio, e que liguei para meu amigo Diego e para meu amigo Marcelo e para meu amigo Grota e para minha amiga Carla, atrás de notícias alentadoras. Confesso que tomei uma Neosaldina sem colocar uma gota de álcool na boca. Pavor também dá ressaca. Confesso que abusei da paciência de minha namorada (embora ela também estivesse ansiosa).
Confesso que senti ódio, principalmente daquele advogado amoral e safado, de seus telefonemas, de suas ameaças de prisão (que me fizeram pensar em aprender cavaquinho). Mas agora não sinto ódio; acho que ele é apenas amoral, e eu gosto de amorais. (Contudo, será difícil gostar dele, confesso. Amar os inimigos é a mais difícil tarefa, mesmo quando a gente acredita não ter inimigos.)
Confesso – por tudo que é visível e invisível, por tudo que é audível como Deus ou como Bach, por tudo que está adiante ou atrás, à direita ou à esquerda, acima ou abaixo – confesso que fiz promessa para Deus, oh meu Deus, para que não acontecesse o pior, e não aconteceu, graças a Deus. Confesso, portanto, que envolvi o Nome em tais assuntos mundanos, o que é errado, a “César o que é de César”.
Mas eu tinha medo, confesso. O medo é meu fundamento, o que me faz viver. Sou mais medo que carne, mais medo que o osso, mais medo que eu mesmo. Eu tinha medo – mas a manhã é viável. Sim, a manhã é viável, embora a culpa seja sempre. A culpa já é, todas as tardes, todas as noites, a essência da manhã.
Meritíssimos, vim aqui me confessar. Sou eu o culpado de tudo. Dos 186 milhões, de a aldeia votar 120 mil vezes no cara – 120 mil cúmplices e/ou vítimas (nunca se é só uma coisa ou só outra) – 120 mil vezes a mesma culpa, e adeus para nunca mais. Assim eu confesso, diante do tribunal, com as mãos sobre o Livro, no Dia de Todos os Santos, Dia de Todas as Culpas.

Publicado em 01 de novembro de 2004 às 10:28 por briguet

Comentários

    • Que texto bom, Paulo! Adoro o modo como vc mostra os mundos objetivo e o subjetivo juntos, instantâneos, indissociáveis, tal como são. Vc é mesmo o repórter das coisas.
    • por salome
    • 03.Nov.2004 às 17:33 - Permalink - Reportar
    salome
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