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Archive for November of 2004

pequenas angústias

November 29, 2004

de pequenas angústias
e leves desesperos
é feito nosso dia:

o sapato engole a meia
o alarme dispara (na ressaca)
queima o fundo da garganta
e a moça da padaria
diz
uma palavra áspera.

buzina malcriada
telefone sem linha
impressora enroscou
e essa internet
lenta, lenta, lenta

e-mail que não chega
dois quilos na balança
trocado que não há

lembrança da mulher fatal
do guardador de carros
da menina que vende panos

camisa colada de suor
trabalho pela metade
domingo chegando ao fim
o prazo que vence
o dentista amanhã
a insistência
o odor

de pequenas angústias
e leves desesperos
se faz o nosso dia
até que a noite nos separe
trazendo toda sua dor.

Quinta Sem-Lei e Com-Bach

November 25, 2004

Senhores e senhores, sei que isso não tem muita importância, mas hoje vou chegar um pouco mais tarde à nossa famigerada QSL. É que, a partir das 8 horas, João Carlos Martins rege o Concerto de Brandenburgo no 3, daquele outro João, o Sebastião. Martins é considerado um dos melhores intérpretes bachianos no mundo. Há alguns anos, ele parou de tocar piano (perdeu movimentos das mãos), mas seguiu a carreira como regente.
É dele este comentário insuperável sobre o João Sebastião: “Bach foi síntese e profeta. Síntese de toda a música antiga, profeta de toda a música moderna”.
Vejo vocês na Quinta Sem-Lei. E mais não digo porque não sei. Mesmo.



Tipos utilidade pública

November 22, 2004
Diante das imposições do horário de verão, Janaína Ávila e Paulo Briguet convidam a todos os leitores deste diário para uma(s) cerveja(s) e um peixe frito no boteco chamado Madalena, sito à Rua Belo Horizonte almost esquina com a Sergipe. E mais não digo porque desconheço.
PS: Colegas da Capital e gente d’além-mar: registre-se a vossa presença espiritual. Forte abraço.

Álcool absoluto

November 21, 2004
Abro o armário do banheiro.
Vejo um pote de álcool absoluto.
No rótulo, um aviso: “A ingestão deste produto pode causar a morte”.
Mas – como?
Como guardo um produto desse tipo em casa, se sou contra a morte?

*****

No décimo andar, observando o desenho da cidade, as janelas do Hospital Evangélico, as mínimas casas, os carros parados no posto da Avenida Higienópolis: sim, sou contra a morte. Apenas e tão-somente.

*****

Escrevo para mim mesmo, essa é a verdade. Ter um blog, no meu caso, é uma forma divertida de falar sozinho.
Veja: este blog tem, na média, 150 acessos por dia. Destes, para ser otimista, uns 50 devem ler o que está escrito. Dos 50, uns 10 devem gostar do que leram. Destes 10, na maioria amigos que eu já encontro na QSL, em média 2 deixam comentários.
Este blog não passa de uma hora extra da infância. Quem nunca brincou com o amigo imaginário?

*****

E teve essa idéia que foi embora. Essa idéia que estava aqui agora mesmo, e nunca mais vai voltar.

*****

Venderam cerveja Conti na Metamorfose, autodenominada a “maior festa à fantasia do mundo”.
Cerveja Conti deveria ser crime inafiançável.
Ouvi dizer que o Pafu tomou nove. Xilindró!

*****

Quem se lembra da Malt Nojenta?

*****

– Cale-se, Joe. Agora o caso está conosco.
– Isso é o que vocês pensam. Vocês estão na minha jurisdição.
– Nada disso, Joe. Eu tenho aqui um documento assinado pelo governador.
– Malditos federais! Chegam aqui e acham que podem tudo. Agora que eu estava perto da solução do caso...
– Sinto muito, Joe. Mas vou precisar da sua arma e do seu distintivo.

*****

Trilha sonora para manhãs de domingo: “Quarteto das Dissonâncias”, de W. A. Mozart, segundo movimento.

A genética explica

November 19, 2004


Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai. Sexta-feira é um dia difícil.

*****

Eu:
– E agora?
Minha mãe:
– Agora? Caga na mão e joga fora.
Depois dizem que a genética não influencia.

*****

Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai.

*****

Quer mais visões do Inferno? Leia a crônica.

Mais uma visão do Inferno

November 18, 2004
Imagine passar a eternidade sendo obrigado a beber cerveja Kaiser e ouvir “Vamos Fugir”, do Gilberto Gil, cantada por Samuel Rosa, do Skank. E tendo ao seu lado, de camisola, aquela figura que ganhou o Big Brother.

Música para Bo Derek transar

November 17, 2004

Frase do Preto:
- O Bolero de Ravel é a Andanças da música clássica.

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Certo, certo. E eu diria que Jesus Alegria dos Homens, do João Sebastião, está para os clássicos assim como Travessia está para a MPB. Quinta Sinfonia, do Ludwig, é A Banda.

*****

E o rock, teria o seu Bolero de Ravel?

Jornalismo 24 horas (ô, dureza)

November 17, 2004
Ecletismo again:
Eis que estou entrevistando um pintor (não, eu não perguntei “Você pinta como eu pinto?” Buahahahahahaha) e ouço um barulhão lá fora.
Peço licença ao entrevistado, vou até a janela e constato que na rua está rolando o maior quebra-pau entre camelôs e polícia.
Digo ao pintor:
- Desculpe, mas vamos precisar interromper a entrevista.
Desço e, de gravador em punho, vou cobrir a confusão. Repórti tem que reportá, ué.

*****

é dia é noite é quando
o vocabulário enlouquece
primeiro partem os parágrafos
as frases pulam pela janela
as palavras se pulverizam
em letras
e as letras – em quê?
talvez em idéias
idéias vagas, idiomas
que não aprendemos
sânscritos e celtas
em vagas, ondas
e ondas e ondas
de silêncio e ruído
o oceano da língua
onde o vocabulário
enlouquece

Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgina Mufumo

November 16, 2004

Ecletismo, ecletismo no duro, ali ó, é fazer o que eu fiz hoje de manhã: entrevistar um grupo de teatro vanguardista, atravessar a rua, entrar no estádio do VGD e entrevistar o Itamarzão, novo técnico do Londrina Esporte Clube, fã do Serginho Chulapa.
Mas dizem que esse parangolé de ecletismo não pega bem lá no Clube Irmão Caminhoneiro Shell, não.

*****

Não é por nada, mas o slogan da campanha de prevenção contra o câncer de próstata – “É preciso tocar neste assunto” – parece ter sido feita pelo Lúcio Flávio.


******

O comentário mais pertinente quando as coisas andam bem (ou não):
– Belesma!
Traduzindo: elas vão bem, sim, mas de maneira lenta, longe do ideal, como sói ser a vida.

*****

E não é que o Diego foi ao Orkut e desenterrou aquela música que o Didi e o Zacarias cantavam:
– Papai, eu quero me casá!
– Ô minha fia, ocê diga com quem?
– Eu quero me casá co Marlo Brando.
– Co Marlo Brando ocê não casa bem!
– Por que papai?
– O Marlo Bando mantegô Maria Chinaide. E despois vai mantegá ocê também!


*****

Eu me lembro que me surpreendi, quando moleque, com a informação de que o Renato Aragão era advogado. O velho Didi era bem melhor que o Renato Aragão que lança “romance adulto”.

*****

É impressão minha ou tem muita gente surda em Londrina? Em tudo quanto é lugar da cidade, vejo grupos de surdos gesticulando, gesticulando. Conversam pra caramba.

*****

Bom, tiremos esta e outras dúvidas na fabulosa Terça Tilt, logo mais. Estou quase começando a identificar músicas dos Strokes.

*****

“O que a noite tem a ver com o sono?” (Milton)

E mais não digo porque...

*****

...não sei.

obrigado

November 14, 2004

vivo dizendo obrigado
mesmo quando nada fizeram por mim
mesmo quando faço um favor
quando dou uma esmola
quando ensino onde fica uma rua
“o senhor sobe até o primeiro sinal,
vira à esquerda e anda mais três quadras,
não tem como errar, obrigado”

vivo dizendo obrigado
quando nasci não chorei
disse obrigado ao médico
(e olha que ele me deu um tapa)

nasci dizendo obrigado
vivo dizendo obrigado
se me pisam no pé
e dizem “desculpe”
eu respondo
não foi nada, obrigado
eu digo obrigado
até mesmo dormindo
até mesmo se me acordam
no meio da madrugada

mas hoje
eu devo dizer obrigado
ao galão e ao lúcio flávio
por terem feito que eu desligasse
um pouco o bach
(o querido joão sebastião)
e ouvisse o cd de los hermanos
obrigado, caras
a música está tocando
agora
este músculo risível
meu coração

poema do último bar

November 13, 2004

melhor ficar em silêncio
pra dentro mandar mais um gole
ouvir as palavras dos mortos
em línguas estranhas
e, numa aflição tamanha,
pedir a conta
ir embora

E mais não digo porque não sei

November 12, 2004

Hoje é quinta-feira

November 11, 2004
Sem dúvida, vamos discutir todas essas bombas na QSL.

*****

“ser mãe
é desdobrar fibra por fibra
os corações dos filhos,
seja feliz
seja feliz”

(Torquato Neto)


*****

Quinta Sem-Lei!
E mais não digo porque não sei.

Extra! Extra!

November 11, 2004

Acharam uma pista da bomba!

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Crônica para minha mãe

November 11, 2004
Quem nunca elogiou a própria mãe, atire a primeira mamadeira.
Engana-se quem diz que mãe só tem uma. Pelo contrário: mãe tem várias. Philip Roth começa o livro “Complexo de Portnoy” dizendo que, na infância, tinha uma certeza: todas as suas professoras eram a sua mãe disfarçada.
Sempre tive a mesma impressão.
Em homenagem às diversas faces de minha mãe, que aniversaria hoje, e na falta de um presente melhor, escrevi esta crônica.

Planos

November 10, 2004
Ao som de Bill Evans


O que você vai fazer com o resto da sua vida?
Vai unificar a Terça Tilt, a Quarta Rock e a Quinta Sem-Lei?
Vai buscar o sentido da vida quando estiver usando o banheiro no bar?
Vai pensar em coisas magníficas durante o banho – quem sabe um bom poema –, e se esquecer de anotá-lo depois?
O que você vai fazer com o resto da sua vida?
Vai esperar sua namorada voltar no fim de semana?
Vai viajar para São Paulo e encontrar o Zé e a Carla? Tomar chope no Filial? E, se é Filial, onde fica a Matriz? O que você vai fazer com o resto da sua vida, rapaz?
Vai ler os livros que faltam? São tantos...
Vai contar mais uma piada sem graça? Vai ouvir um trocadilho do Lúcio Flávio? Vai rir sozinho com as imitações do Diego? Vai esperar o livro da Paula Schütze? Vai pedir um conselho para a Janaína? Vai perguntar ao Fábio Galão que banda está tocando? Vai protelar mais o trabalho? Vai comprar uma campainha para seu apartamento? Vai trocar o celular para que finalmente te encontrem? O que você vai fazer com o resto da sua vida, rapaz?

A boate azul

November 09, 2004

Havia um palco. No meio do palco, um cano, que ia do teto ao chão. Pendurada ao cano, uma mulher, a dama da noite, fazendo strip-tease. Não me recordo perfeitamente de seus traços, mas sei que era uma mulher bonita, ou melhor, uma mulher que parecia ter sido bonita algum tempo antes. Muito vagamente me lembro que estou numa boate aqui na Zona Sul. Eu bebi demais, e não consigo me lembrar sequer qual era o nome daquela mulher – a flor da noite na boate azul.
Parece letra de música sertaneja, mas não é. É apenas uma crônica.

Meu novo sósia

November 08, 2004
Eu me pareço com ele? Vocês acham mesmo?

Depois do almoço, fui tomar um café no shopping.
A moça do café ficou me olhando.
- Eu vi sua foto lá no Ouro Verde.
(Para os que não são de Londrina: Ouro Verde é o maior teatro daqui.)
- É mesmo? Não seria a foto de outra pessoa?
- Era você.
- Tem certeza?
- Você não é escritor?
- É... sou.
- Então: a sua foto tá lá.

*****

Fiquei intrigado. O Teatro Ouro Verde é vizinho do shopping. Resolvi ir até lá para conferir.
Na porta do teatro, há, realmente, uma foto. Mas não é minha: é do DERICO.
Ele mesmo - o assessor de assuntos aleatórios do Jô Soares.

*****

Já fui comparado a mr. Burns (chefe do Simpson), ao Kiko (do Chaves) e ao vereador Rubens Canizares. Já disseram que eu sou irmão da Denise Fraga. Agora mais essa: Derico.

*****

Eu devo estar pagando pelos meus pecados nos anos 90.

Madrigal da arrebentação

November 05, 2004

O vento é de Deus, o caos é do homem.
Vivemos na arrebentação.
Uma hora a mais, uma hora a menos,
é o que menos importa.
Importa que o vento é de Deus
e o caos é do homem.

O vento é de Deus, o caos é do homem.
No instante em que levamos a facada,
a história do mundo é irrelevante.
Relevante é que o vento é de Deus
e o caos é do homem.

O vento é de Deus, o caos é do homem.
Do sorriso frio da garota que amamos,
e que não nos amou, nada restará.
Restará apenas que o caos é do homem.
E amamos o vento, sobre todas as coisas.

Balada do Dia dos Mortos

November 04, 2004

Como se morre em Londrina?
Morre-se de medo e de vergonha,
de dó e de rir.
De alegria até se morre,
mas então se morre feliz.
De morte morrida ou matada,
em Londrina bastante se morre.
Em Londrina, os peixes do lago,
vorazes, morrem pela boca.
E pela boca se fazem as crônicas
da minha tenebrosa ressaca.
Do coração, muito se morre.
De repente, morre-se à beça.
De véspera, nunca vi ninguém morrer.
Como se morre em Londrina, não sei.
Morre-se, e fica-se morto.
Depois dizem que Londrina
é linda de morrer.

Carta de amigo

November 03, 2004
Minha querida amiga Sílvia:
Ontem você me ligou brava, muito brava, e olhe que eu já estou acostumado à sua braveza. O motivo era simples: você veio a Londrina e não conseguiu me encontrar.
Confesso que fui negligente e desatencioso; deveria ter retornado aos seus telefonemas com maior rapidez.
Você estava certa; eu, errado. Aliás, não quero discutir o assunto braveza aqui.
Em vez de argumentar, quero apenas usar este espaço, público e notório, embora nem um pouco nobre, para dizer o quanto eu gosto de você.
Parece piegas, não? Parece ridículo? Parece sentimentalóide? Dane-se. Vai ficar pior.
Ou melhor: não apenas gosto de você. Eu amo você. Minha namorada não vai ficar com ciúme, porque ela entende a natureza desse amor. Não é por acaso que amor e amigo são palavras com a mesma origem etimológica.
Amo você; amo seus irmãos (que eu vejo todos os dias ou, pelo menos, todas as semanas); amo as pedras do calçamento por onde você passa (pois elas a sustentam sobre a face da Terra); amo suas memórias de infância e suas histórias da noite; amo o dia em que eu o Marcelo ficamos te colocamos num táxi porque eu queria ir para a “mulherada”; amo o instante em que você voltou ao bar chorando, e eu perguntei com a maior seriedade do mundo: “Silvia, você foi violentada?”; amo até aquele dia em que nós vimos os Bandidões tocando, e na manhã seguinte eu fiquei lendo “Esaú e Jacó” enquanto você dormia morta de ressaca; amo a madrugada em que você ligou cinco vezes lá de Ribeirão Preto dizendo a mesma coisa: “Paulo, eu tô com sono e meus irmãos não querem ir embora!”.
Prometo responder aos seus telefonemas, mesmo que eles venham tarde da noite, mesmo que eles venham às sete horas da manhã de uma Sexta Neosaldina, mesmo que eles não venham.
Prometo e sei que não vou cumprir – porque sou um vagabundo, salafrário e sem-vergonha.
Um beijo, Sílvia. E, mais uma vez, desculpe este seu amigo de meia-pataca.

Minha semana dos sonhos tem duas quintas-feiras

November 01, 2004

Diálogo de dois caras ontem na fila de votação:
- E aí, já justificou no Nedson?
- Já.
- Então, tá bom.
Esses pegaram bem o espírito da coisa.

*****

Vitória do Serra em SP: ótima notícia. Senão daqui a pouco vira unipartidarismo.

*****

Madalena, hoje? Tipo QSL antecipada? Pré-aniversário de Karla Matida? Com Janaína Ávila no comando? E com presença do tipo Daniel? Sim, sim, sirim-sim-sim!

Confissão de um ex-eleitor de Grande Otelo

November 01, 2004

Hoje é Dia de Todos os Santos, Dia de Todas as Culpas. Agora, diante do tribunal, tendo sobre as mãos o Livro, eu confesso todos os pecados. Todos. A começar por minha aldeia: fui eu quem sumiu com os 186 milhões. Estão todos depositados na minha conta do Banco do Brasil em Sabáudia. Também fui eu que votei 120 mil vezes no mentiroso, ladrão, corrupto e sem-vergonha, e agora tenho uma certa compaixão por ele, pois os derrotados invariavelmente me inspiram compaixão (e quem disse que ele é derrotado?).
Mas no meu voto – pois só tenho direito a um, e insistem em chamar direito de dever – confesso que escolhi o outro candidato, e confesso sem vergonha. Pois todos sabemos que votar num sem-vergonha é diferente de votar sem vergonha.
Confesso, oh confesso, diante de vós juízes e vós advogados, diante de vós jurados, que, por um dia (vá lá, por duas semanas), voltei a me preocupar com esta aberração chamada poder, que para mim é como juiz de futebol: quanto menos aparece, melhor. Confesso que quebrei, assim, o juramento feito tempos atrás. Mas, agora, diante do tribunal, com as mãos sobre o Livro, juro outra vez: doravante, votarei só em Grande Otelo – meu amigo, poeta e ator Grande Otelo, tendo como vice Grande Elenco –, a não ser que o próprio Coisa-Ruim volte à carga (caro Groo, acredite, não é exagero). Pois, no fim, será a culpa. Só ela, nada mais – nem palavra, nem idéia, nem omissão.
Confesso que vi a luz se apagar (ela, que já corre a 300 mil km por segundo).
Confesso que torci para aquele partido (e assim que vocês chamam?) perder em todas as cidades, menos aqui, porque não agüento a arrogância e a noção de que “tudo é política” (se fosse verdade, eu preferiria que um Stálin aparecesse para me mandar uma bala na cabeça, como fez com seu ex-companheiro de prisão Kamenev e outros 20 milhões).
Confesso que fiquei de mãos geladas, acompanhando a apuração ao pé do rádio, e que liguei para meu amigo Diego e para meu amigo Marcelo e para meu amigo Grota e para minha amiga Carla, atrás de notícias alentadoras. Confesso que tomei uma Neosaldina sem colocar uma gota de álcool na boca. Pavor também dá ressaca. Confesso que abusei da paciência de minha namorada (embora ela também estivesse ansiosa).
Confesso que senti ódio, principalmente daquele advogado amoral e safado, de seus telefonemas, de suas ameaças de prisão (que me fizeram pensar em aprender cavaquinho). Mas agora não sinto ódio; acho que ele é apenas amoral, e eu gosto de amorais. (Contudo, será difícil gostar dele, confesso. Amar os inimigos é a mais difícil tarefa, mesmo quando a gente acredita não ter inimigos.)
Confesso – por tudo que é visível e invisível, por tudo que é audível como Deus ou como Bach, por tudo que está adiante ou atrás, à direita ou à esquerda, acima ou abaixo – confesso que fiz promessa para Deus, oh meu Deus, para que não acontecesse o pior, e não aconteceu, graças a Deus. Confesso, portanto, que envolvi o Nome em tais assuntos mundanos, o que é errado, a “César o que é de César”.
Mas eu tinha medo, confesso. O medo é meu fundamento, o que me faz viver. Sou mais medo que carne, mais medo que o osso, mais medo que eu mesmo. Eu tinha medo – mas a manhã é viável. Sim, a manhã é viável, embora a culpa seja sempre. A culpa já é, todas as tardes, todas as noites, a essência da manhã.
Meritíssimos, vim aqui me confessar. Sou eu o culpado de tudo. Dos 186 milhões, de a aldeia votar 120 mil vezes no cara – 120 mil cúmplices e/ou vítimas (nunca se é só uma coisa ou só outra) – 120 mil vezes a mesma culpa, e adeus para nunca mais. Assim eu confesso, diante do tribunal, com as mãos sobre o Livro, no Dia de Todos os Santos, Dia de Todas as Culpas.