Repórter das Coisas

Memorize

Memorize estes versos.
Memorize estas palavras.
Saiba que em cada vírgula,
em cada ponto, em cada forma,
em cada pausa – mora Deus.

Nada que nos é dado
nos é dado por acaso.
Não há mera coincidência:
tudo o que incide agora
sobre seus olhos,
sua boca, a ponta de seus dedos
é o enredo das coisas,
é a história do mundo.

Memorize
as cachaças que você tomou
e os tombos que você levou.
Memorize os falidos amores
e as sombras da paixão futura.
O enigma das coisas óbvias
– memorize, memorize.

Memorize os amigos,
a força, a ternura.
Memorize a altura,
o coração e a cabeça,
a água e o óleo
radiantes sobre a mesa.

Memorize
o quarto e o exílio,
o choro dentro do sonho
e a lógica do desespero.
A invasão da Normandia
e o cerco a Stalingrado.
O roubo do pão
e o vinho tomado.
A fábula antes de dormir
e a moral da história.
(Não deixe a memória
ir embora daqui.)

Cada mínima sílaba
que entra em seus olhos
e sai de sua boca
contém o interminável conto.

Memorize estes versos,
Memorize estas palavras, meu amigo,
e elas vão lembrar de você
– para sempre.

Londrina, 27.out.2004

Publicado em 28 de outubro de 2004 às 10:01 por briguet

Comentários

    • É, Paulo,
      Ainda que pudesse haver escolha, ainda que fosse possível não memorizar cada palavra, cada som e cada cena, todas as impressões são como tatuagens (das antigas, aquelas que duravam pra sempre)... Mesmo que não se tenha consciência do viver, vive-se, quer você tenha ou não tempo e disposição para metabolizar o sentido das coisas...
      Parabéns pelos textos!
    • por uma carolina
    • 29.Out.2004 às 01:20 - Permalink - Reportar
    uma carolina
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"Não contavam com minha astúúúcia!"
(Milton Friedman with lasers)

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