Dizem que existe um túnel secreto ligando o Bar Brasil ao Valentino, os dois bares da cidade.
A entrada do túnel fica nos cantos, perto do banheiro masculino; basta procurá-la com atenção e persistência.
Lá estão todos os meus e os seus fantasmas. Os de todo mundo.
A garota de olhos amendoados, que parava de sorrir quando a gente não estava olhando.
A estudante que perdeu o brinco no campus e ficou muda para sempre.
A falsa amiga que me ouviu no telefone, suspirando de tédio, durante 15 minutos. “Eu não posso viver sem essa mulher!” Essa mulher era a de olhos amendoados. Olhos sombrios.
O médico que, depois de receber o pagamento em dinheiro, me disse: “Bico calado!”
A ex-cunhada que me xingou de covarde. O começo da frase é mentira: não existe ex-cunhada.
Há o mendigo que andava no meio da rua, pedindo para ser atropelado. E eu não o tirei de lá.
As ex-garçonetes do Bar Brasil, aquelas a quem dediquei vários poemas, também vivem por lá. Servem uma Skol para quem entra no túnel.
Mas quem entra no túnel não sai nunca mais.
Publicado em 25 de outubro de 2004 às 16:19 por briguet
Realmente gostei dessa história de túnel...