Ao meu pequeno primo Mateus (2004)
Mateus, que arte foi essa de nascer e morrer tão cedo?
Te vejo pequeno, Mateus, não mais pesado que um livro, onde o primeiro capítulo é também o epílogo.
O que é isso, Mateus, que faz o maestro ficar surdo, que faz o pintor ficar cego, que faz o saltador perder a perna, que faz o goleiro falhar no segundo tempo – e que faz Mateus morrer?
Mateus, tua pequena voz e teus pequenos olhos, ainda imersos na obscuridade, o ar que respiravas no ventre seco da incubadora, todos esses teus vestígios que não vingaram, Mateus, para mim estão vivos e já cresceram.
Meu primo, meu pequeno primo, já conheço tua voz e teu choro, teus braços e tua risada, a mulher de tua vida e teus grandes amigos. Já vi teu berço e tua casa, tua guerra e tua memória.
Jogavas futebol aos sábados, Mateus, e ias ao cinema com as garotas na quarta-feira (porque era mais barato). Gostavas de matemática e sonhavas em ser engenheiro ou analista de sistemas. Dormias bem nas manhãs chuvosas de domingo.
Observei atentamente, meu primo, meu pequeno primo, o itinerário de cada fio de teus cabelos, o ritmo do sangue dentro dos teus vasos, e alma ensimesmada dentro do teu corpo.
Já vi teu tempo inteiro, Mateus: o menino e o moço, o adulto e o velho. Conheci tua alegria diante dos meses.
Que arte foi essa, Mateus, de morrer e nascer tão cedo?
Mas resta ainda um caminho, para o qual tudo se destina: se o tempo levou Mateus, deixou para nós Carolina.