Repórter das Coisas

Diário de um ex-comunista

Quando eu era comunista, as coisas tornavam-se mais fáceis. Estes aqui, eu amava. Aqueles ali, eu odiava. Proletas, burgueses: as variações e mudanças eram atribuídas à deusa Dialética.

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Daí para 100 milhões de mortos, um pulinho.

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Já disse, mas torno a dizer: deixar de ser comunista é mole. Duro mesmo é deixar de odiar o capitalismo.

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Os caras não querem só que a gente trabalhe; eles querem que a gente acredite neles.

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Encontrei uma conhecida na rua, ela perguntou onde eu estava trabalhando. Eu disse. Ela fez uma cara de desprezo: “Xi, Briguet, continua servindo ao capital!”

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Encontrei um motorista de táxi; ele me perguntou em que eu votaria. Eu respondi: “No Grande Otelo”. Ele: “Mas os jornalistas não votam todos no PT?”.

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Ser um ex-comunista é como ser índio catequizado pelos jesuítas. Para os índios, eles eram brancos. Para os brancos, eles eram índios.

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Ser cronista também não é fácil. O pessoal da literatura diz que eu sou do jornalismo. O pessoal do jornalismo diz que eu sou da literatura.

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E daí? (Como diria Carlos Lacerda, a pergunta mais importante do lead.)

Publicado em 04 de outubro de 2004 às 17:43 por briguet

Comentários

    • o problema da nossa geração, ou da nossa época [geração é um termo muito pesado], é que não restou mais nenhum valor. nietzsche e toda a arte do século 20 mataram deus. legal. vivem nos dizendo: be yourself. só que ninguém pára e pensa: como assim... ser eu mesmo? existe mesmo alguma individualidade? eu conseguirei algum dia ser EU mesmo? não se trata tudo de linguagem, instintos condicionados pela sociedade...
      eu não sei mais o que vale a pena: ter um valor e viver na ilusão ou prosseguir com esta contínua consciência neutralizadora que nos impele ao ócio. algo nos diz: todos estamos mortos. o que fazer, caro briguet? o que?
      eu achava que era o amor.
      hoje penso que a arte.
      estive e estou certo.
      estive e estou errado.
      um abraço.
    • por grota
    • 04.Out.2004 às 18:16 - Permalink - Reportar
    grota
    • ao contrário de você, quando eu era comunista as coisas eram mais difíceis, muito mais difíceis. Toda diversão era motivo de sensação de culpa, toda postura tinha um tom solene do bem contra o mal e todos os nomes russos me soavam tão poéticos...
      ah, felizmente o tempo nos desnuda os olhos, acalma algumas posturas rígidas e ensina que resignar-se é sobretudo a maior das artes.
      um abraço,
    • por gabi
    • 05.Out.2004 às 14:22 - Permalink - Reportar
    gabi
    • O que deve prevalecer não são os rótulos, mas as atitudes. E como agir, sendo ou não comunista num mundo onde o q impera é o capital, o dispêndio de sangue e suor?
      Como ignorar, como fingir?
      Acordo todos os dias e me deparo com situações absurdas, com falta de amor na humanidade pelo simples prazer de explorar, de possuir, de dominar.
      Como um cara com sua Ferrari, seu mercedes, o q.quer similar pode passar pelo ponto de ônibus e ver sua empregada pegando chuva, tendo que chegar em casa e fazer milagres no jantar com o salário q recebe? Esse cara não sente nada?
      Tô cansada desses FDP, mas o q fazer? Partir p/ “amigos da escola”, votar no PT e achar q fiz a minha parte?
      Não sei, não sei, sei q cansei...
    • por rits
    • 15.Out.2004 às 23:07 - Permalink - Reportar
    rits
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