Não me fale da solidão
se os livros estão ao seu lado,
e você pode abri-los, se quiser.
Se a última lâmpada
pode ser acesa,
e se mesmo ela queimar,
há o dia, a noite,
o enxame de vaga-lumes
e os olhos atentos de um gato.
Não me fale da solidão
se o bar fica cheio de gente todas as noites,
se aquele disco de Bach
ainda pode ser ouvido,
se um cachorro o segue
quando você volta bêbado para casa.
E ainda há sua casa,
sua cama com os lençóis desarrumados de ontem,
sua louça por lavar,
e sua água, que verte musicalmente das torneiras.
Há o eco das palavras
no ladrilho atento do banheiro,
há um cão latindo por você
lá fora.
Não me fale da solidão.
Publicado em 26 de setembro de 2004 às 18:09 por briguet