Vote nele
Crônica para eleitores decididos
Vote nele. Vote com prazer, raiva, masoquismo. Vote como quem caminha – como quem caminha para o cadafalso. Vote como quem recebe um beijo – o beijo do discípulo mais brilhante. Vote nele.
Vote nele, meu amigo, minha amiga. Vote como o técnico que escala um goleiro comprado. Vote como Abel, que confia em seu querido irmão. Vote como eleitor do incrível – eleja o monstro do lago. É seu direito!
Exerça o sagrado dever cívico. Ninguém poderá dizer que você votou por ignorância, por ingenuidade, por tramóia. Vote nele. Vote consciente!
Vote com a cabeça, com o coração, principalmente com o estômago. Lembre-se: o voto é obrigatório. Mas não vote por obrigação. Vote para provar que os seus dedos o
bedecem à sua alma.
Eu sei que você gosta dele. Ele é tão bom, não é? Fica bem na TV. Um dia, apertou sua mão. E lhe deu um abraço apertado. Você nunca mais se livrou dele. Na verdade, ele é igual a você, não é? Parabéns.
Vote: quanto pior, melhor. “Contra ele temos mais chance.” “A rejeição dele é muito grande.” “O importante é a polarização.” “Os votos dele não podem migrar para aquele outro.” Vote, porque estamos numa guerra. E guerra é uma guerra é uma guerra, assim como a rosa é uma rosa é uma rosa.
Vote como Danton, que gritou para Robespierre: “Robespierre, amanhã será você!” Vote como o inventor da guilhotina, em quem testaram a própria máquina. Vote como Stálin, que disse: “A morte de um homem é uma tragédia. A de milhões, uma estatística”. Vote como o homem que eu encontrei ontem no supermercado, e que disse à mulher, com ódio na voz: “Sua louca!” Vote sem dó, sem tristeza, sem compaixão. Melancolia é a desculpa dos fracos.
Vote no vento, vote no fogo, vote na sua própria casa em chamas. Vote nele. Porque o voto é um devir do cidadão.
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Da voz
O silêncio tem uma voz
por trás do silêncio,
e essa voz – ouça –,
essa voz é você.
Essa voz é o fundo
de tudo, do ruído,
da quietude, palavra
mínima e bastante,
lá estava mesmo antes
da linguagem.
Nunca se esqueça:
o rumor dos mortos
e o desconcerto do presente,
assim como o silêncio
pavoroso que não é,
nada são diante da voz,
e a voz é você.
Lembre-se dos cavalos loucos
que trovejaram na circunstância.
Lembre-se da voz do acusado
nos Processos de Moscou.
Lembre-se dos personagens
depois que o romance acaba.
E se um dia você morrer,
na cama ou com um tiro na nuca,
como um sopro na ventania,
como um watt no relâmpago,
como um coágulo na mente,
a voz – para sempre seja ouvida –,
a voz não calará.
Não há nada depois da voz,
e a voz para sempre é você.