Repórter das Coisas

Dois poemas de Quinta Sem-Lei

Enquanto a noite

Algo errado aconteceu.
Eu não deveria estar aqui,
sentado, diante da tela,
escrevendo para um blog,
para ser lido por ninguém.

Eu não deveria estar,
no dia 16 de setembro de 2005,
às 8 e meia da manhã,
esperando um ônibus
na Avenida Higienópolis,
na cidade de Londrina,
estado do Paraná, Brasil.

Eu não deveria trabalhar
onde trabalho,
nem morar onde moro.
Talvez não seria certo
nem mesmo conhecer
quem eu conheço.
E o meu nome – que nome? –
Talvez seja outro,
bem diferente.

Não foi isso
o que eu havia combinado
com Will e Smith,
do Túnel do Tempo.

Desconfio
que houve alguma falha
de percurso,
um erro de itinerário,
um desvio de rota.
(Não há outra explicação.)

Nada pode me provar
que eu deveria estar aqui,
agora, terminando de escrever
este poema,
com 34 anos de idade,
enquanto a noite chega.
Tem algo errado nisso tudo.

Desanatomia

Há alguns problemas em ter três mãos,
sendo que uma delas virou noite
a outra se liquefez em tempo
e a última nasceu mão dentro da mão.

Há alguns problemas em ter olhos de vidro,
todos os nove,
pés direitos todos eles, nenhum canhoto,
e fígados de sacrifícios humanos.

É duro criar bodes expiatórios na varanda,
ter formigas como pets,
dar a meu cachorro o nome de Spam.

Há alguns problemas em ter pulmões de melancolia,
tosse de galáxias e braços de tempestade.

Meu problema é o Sol.
Vinde a mim, ó cataclisma,
chovei, expedito, onde não é possível,
cavai um sopro no meu coração.

Há alguns problemas em ter três mãos
com síndrome de vírgulas e cedilhas,
sendo que uma das mãos virou alma,
a outra virou vento
e a última acena para a morte amiga.

*****

Bora pra QSL, cambada!

Publicado em 16 de setembro de 2004 às 18:39 por briguet

Comentários

  1. gabi
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