Para Ester Falaschi
Deixei os pedidos de desculpas espalhados pelo balcão. E mais algumas coisas. Este CD irrecuperável, perdido na noite imensa, a razão, o gol de futsal que não fiz há 18 anos.
Sobre o balcão deixei muitas coisas. Simone esperando. Um cão que confundiu minha carteira com a madrugada. Um santinho da eleição de 90. A esperança, na forma de uma porção de frango à passarinho. Uma porção que não peço desde o ano em que Ayrton Senna foi campeão.
Debaixo do balcão, deixei minhas pernas, e as antigas pernas de minhas pernas, e todas as pernas que me conduziram até aqui. Deixei meus sapatos mortos, as meias que viraram trapo, e os trapos que de tantos buracos hoje são apenas o buraco.
Tantas coisas que não ocupam mais espaço ocupam lugar no balcão. Ali também vão meus pés dormentes, e os dormentes da linha de trem que não existem mais, e hoje são vendidos à beira da rodovia.
O Clube da Esquina, que está sendo demolido, tinha um balcão. Embaixo deste balcão, ainda está a camisa que usei na foto do RG. Era verde e azul, a camisa. Era boa. Não amassava. Usei-a durante uns cinco anos, depois desapareceu. Eu tinha 16 quando fiz meu RG. A camisa está ali.
Tudo se acumula sob o balcão, como um oceano de picaretagens. Continuo não fazendo o gol de futsal que não fiz aos 18 anos; continuo não usando da faculdade da razão; continuo tentando ouvir um CD irrecuperável ao contrário.
Sobre o balcão se acumulam os bilhetes, os comprimidos, os romances, a baleia Moby Dick, os filmes que tenho medo de ver de novo, as chaves do porão, o doce de banana, o cheiro da chuva, a sonda no nariz de minha irmã internada com bronquite.
Sobre o balcão há uma caneta e um papel, sobre um balcão há um balcão, e um balcão e outro balcão. Sobre o balcão há um ruído estranho, a conversa amiga, a noite imensa. E um pedido de desculpas por viver.