Ontem encontrei meu amigo Ricardo Nélson no bar. O
Preto, o
Marcelo e o
Vitor estavam lá, são testemunhas.
Ricardo Nélson – que é médico – pegou um gancho no serviço porque disse a uma enfermeira: “Sou buceteiro”. A moça não gostou da palavra, denunciou à administração, Ricardo Nélson dançou. Quinze dias de gancho, sob acusação de sexista. Palavrinha nova essa,
sexista. “No meu tempo não tinha isso não”, declarou meu amigo, enquanto pedia mais uma Skol à Inês, a melhor garçonete dubrasil, quiçá do mundo. A Skol lá no Bar Brasil custa três reais (três reais hoje e amanhã também, não é,
Guilherme?).
Mas voltando ao Ricardo Nélson. Vocês acham que ele mereceu a punição? Um médico não pode falar a palavra buceteiro?
“Deus, vivemos no império do politicamente correto. Daqui a pouco, não posso nem pronunciar o termo viadagem, que perco o emprego”, comentou Ricardo Nélson. “Vão dizer que sou homofóbico. Mas que mané homofóbico! Sou caminhoneiro, do Clube Irmão Caminhoneiro Shell”, bradou meu amigo Ricardo Nélson, que, como eu já disse, é médico. “Se eu fosse jornalista como você, Briguet, eu seria censurado? Mandariam o Conselho Federal atrás de mim?”, questionou o açougueiro de almas, mas eu apenas balancei a cabeça como quem diz sim (na Albânia, o gesto de cabeça que indica sim quer dizer não – grande coisa).
“E vocês sabem que o Glauco Mattoso tem um soneto chamado ‘Buceteiro’?”, interrogou meu amigo Ricardo Nélson, elevando seu copo de Skol dourado à penumbra do Bar Brasil, como se fosse a lanterna de Hermógenes (se é que era o Hermógenes que tinha lanterna). “Acaso não nascemos todos DELA? Acaso não somos todos buceteiros?”, sentenciou, se é que se pode sentenciar em forma de perguntas.
Mas Ricardo Nélson logo mudou de assunto, esvaziou seu copo com a velocidade de um Satoru Nakajima, e encerrou as discussões: “Isso é uma tremenda viadagem!”
E sumiu na noite escura, porque ela é o seu elemento.
*****
Mais uma coisa: o Marcelo chegou em casa e o porteiro do prédio – inacreditável, inacreditável – estava dentro do apartamento dele, acompanhado de uma “sobrinha”. A moça tinha uma lata de Brahma na mão direito, com guardanapo.
Meu Deus, esse guardanapo! Esse guardanapo! Esse guardanapo parece ter sido invenção do meu amigo Ricardo Nélson. Esse guardanapo não dá uma crônica – dá um Guerra e Paz da sem-vergonhice!
O porteiro do Marcelo é um gênio. Não porque entra no apartamento dos outros sem autorização. Não porque leva uma “sobrinha” para lá. Não porque lhe serve uma lata de cerveja. Ele é um gênio porque faz tudo isso e oferece, educadamente, um guardanapo! Leia a história completa
aqui.
De madrugada, escrevi sobre o porteiro que invadiu meu apartamento. Mas estava muito bêbado. Hoje cedo, ao acordar, reescrevi a história. Acho que ficou um pouco menos confusa. Quem já leu, é melhor ler de novo. E quem não leu, se quiser, tá valendo...
Marcelo Rocha