página inicial do tipos

Receba por e-mail os posts de Repórter das Coisas: RSS - Assine os feeds deste blog

Archive for September of 2004

Clube da Esquina e Josi Campos

September 28, 2004


Na crônica da semana, o destino de um bar e de uma ex-modelo da Playboy.

Tribunal Infernal Eleitoral

September 27, 2004
Que mané despertador, que nada! Sete da matina, acordei com o carro de som de um candidato a vereador que se diz meu “amigo verdadeiro”. Esse mesmo “amigo” passou o domingo martelando o jingle hediondo (perdão pela redundância) em meus caracóis auditivos.
Votar em Grande Otelo para prefeito e Clarice Lispector para vereadora era apenas uma forma de protesto contra a paulada do voto obrigatório; doravante passou a ser vingança.

*****

Doravante não parece nome de candidato? “Vote em Doravante, um vereador brilhante!”

*****

Hoje almocei com um pessoal que vai lançar uma casa noturna para “ocupar os espaços” da sexta-feira em Londrina. É que a quinta não tem pra ninguém: é sem-lei.

*****

Vidal, suas mulheres são muito mais interessantes que os meus asteriscos! Mas copiá-lo seria uma desfaçatez.

*****

Galão, amanhã tem TT?

*****

Vereador faz lei, não faz? Seu eu gosto é do que não tem lei, por que votar no Legislativo? Clarice Lispector, já!

*****
E mais não digo porque não sei.

Canção dos vaga-lumes

September 26, 2004


Não me fale da solidão
se os livros estão ao seu lado,
e você pode abri-los, se quiser.
Se a última lâmpada
pode ser acesa,
e se mesmo ela queimar,
há o dia, a noite,
o enxame de vaga-lumes
e os olhos atentos de um gato.

Não me fale da solidão
se o bar fica cheio de gente todas as noites,
se aquele disco de Bach
ainda pode ser ouvido,
se um cachorro o segue
quando você volta bêbado para casa.

E ainda há sua casa,
sua cama com os lençóis desarrumados de ontem,
sua louça por lavar,
e sua água, que verte musicalmente das torneiras.
Há o eco das palavras
no ladrilho atento do banheiro,
há um cão latindo por você
lá fora.
Não me fale da solidão.

Uma crônica e um poema

September 25, 2004
Vote nele

Crônica para eleitores decididos

Vote nele. Vote com prazer, raiva, masoquismo. Vote como quem caminha – como quem caminha para o cadafalso. Vote como quem recebe um beijo – o beijo do discípulo mais brilhante. Vote nele.
Vote nele, meu amigo, minha amiga. Vote como o técnico que escala um goleiro comprado. Vote como Abel, que confia em seu querido irmão. Vote como eleitor do incrível – eleja o monstro do lago. É seu direito!
Exerça o sagrado dever cívico. Ninguém poderá dizer que você votou por ignorância, por ingenuidade, por tramóia. Vote nele. Vote consciente!
Vote com a cabeça, com o coração, principalmente com o estômago. Lembre-se: o voto é obrigatório. Mas não vote por obrigação. Vote para provar que os seus dedos obedecem à sua alma.
Eu sei que você gosta dele. Ele é tão bom, não é? Fica bem na TV. Um dia, apertou sua mão. E lhe deu um abraço apertado. Você nunca mais se livrou dele. Na verdade, ele é igual a você, não é? Parabéns.
Vote: quanto pior, melhor. “Contra ele temos mais chance.” “A rejeição dele é muito grande.” “O importante é a polarização.” “Os votos dele não podem migrar para aquele outro.” Vote, porque estamos numa guerra. E guerra é uma guerra é uma guerra, assim como a rosa é uma rosa é uma rosa.
Vote como Danton, que gritou para Robespierre: “Robespierre, amanhã será você!” Vote como o inventor da guilhotina, em quem testaram a própria máquina. Vote como Stálin, que disse: “A morte de um homem é uma tragédia. A de milhões, uma estatística”. Vote como o homem que eu encontrei ontem no supermercado, e que disse à mulher, com ódio na voz: “Sua louca!” Vote sem dó, sem tristeza, sem compaixão. Melancolia é a desculpa dos fracos.
Vote no vento, vote no fogo, vote na sua própria casa em chamas. Vote nele. Porque o voto é um devir do cidadão.

*****

Da voz


O silêncio tem uma voz
por trás do silêncio,
e essa voz – ouça –,
essa voz é você.

Essa voz é o fundo
de tudo, do ruído,
da quietude, palavra
mínima e bastante,
lá estava mesmo antes
da linguagem.

Nunca se esqueça:
o rumor dos mortos
e o desconcerto do presente,
assim como o silêncio
pavoroso que não é,
nada são diante da voz,
e a voz é você.

Lembre-se dos cavalos loucos
que trovejaram na circunstância.
Lembre-se da voz do acusado
nos Processos de Moscou.
Lembre-se dos personagens
depois que o romance acaba.

E se um dia você morrer,
na cama ou com um tiro na nuca,
como um sopro na ventania,
como um watt no relâmpago,
como um coágulo na mente,
a voz – para sempre seja ouvida –,
a voz não calará.

Não há nada depois da voz,
e a voz para sempre é você.

Que não seja por falta de convocação!

September 23, 2004

Atenção, salafrários e bons moços.
Atenção, meninas más e garotas-modelo.
Atenção, animais e vegetais.
Atenção, minerais e fungos.
Atenção, concretistas e românticos.
Este reles cronista vos convida e vos convoca para aquilo que, a despeito de ocorrer toda semana, é a suprema novidade da noite.
Quinta. Sem. Lei.
E mais não digo porque não sei.

Horário apolítico

September 22, 2004
Em “Macunaíma”

O melhor candidato a prefeito de Londrina é...

GRANDE OTELO!


Astro da Atlântida e do Cinema Novo (com a diferença que, neste, aparecia pelado, como bem observou Nelson Rodrigues).
Grande ator. Cantor. Dançarino. Humorista. Já falecido. Feio, mas amado pelas mulheres. Admirado até mesmo por Drummond (que confessou querer ser o próprio – eta, provinciano de Itabira, isso jamais seria possível!).
GRANDE OTELO. Vice: Grande Elenco. Número 99.
É preto no branco!

Comentários pertinentes

September 22, 2004
Para melhor satisfação de nossos leitores, publico a seguir dois comentários sobre o meu post “Manifesto contra a poesia”.

Desde já, peço autorização dos comentaristas para publicar suas palavras na orelha do meu próximo livro.

Veja só:

“Mais um idiota que acha que poesia é necessariamente veiculadora de “sentimentos elevados”, de “idéias nobres”... Meus alunos da oitava série também pensavam assim. Parece que Mallarmé ainda não chegou em Londrina. Nem os concretos. Aliás, da poesia só se viu a sombra do reflexo do mindinho.

“Se você tem algo importante a dizer, não use versos”
Sério? Você leu isso no Almanaque Abril?

“Poetas são seres profundamente ingênuos”?
Que profundo!! Absolutamente chocante!! Ou, como diria o Cid Moreira, um espanto!! Generalizando pra que compreenda: uma generalização bem típica da geração que nasceu do cu da cultura de massa. Rápido e simples. Apostilal. Anote no caderninho: parágrafo, dois dedinhos, travessão...

“Graham Greene”??
Sem comentários

“Poetas deveriam ser internados na Clínica das Palmeiras”
Você devia se afogar no igapó, ó ser deformado. Os caras batem nessa tecla desde o Romantismo: poeta = indivíduo louco, anti-social, absolutamente “sensível”, afetado e deslumbrado com o mundo. Ah, e com tendência ao desregramento e à promiscuidade. Ou seja, os “moderninhos”.

(Isso foge um pouco do tema, mas matutando um pouco, já que tenho tempo, um dos problemas da “Democracia” tal qual a conhecemos hoje é justamente dar aos imbecis a impressão de que são tão importantes quanto todo mundo. Dar voz aos que não tem nada pra dizer. Se conformar com a arte fácil é um dos sintomas disso. Camões é brega, ponto. É “fora de moda”. Homero é chato. “Dante eu só li o inferno. Em prosa”. Legal é Ygor Raduy. E os “beats”. E cineminha. Muito loco. O próximo passo é atribuir nossos fracassos e incompetências ao “sistema”. E viva Che.)

Qual o problema da poesia ser “uma aberração da linguagem”? Ah, você estava sendo irônico.

Um dos problemas do Brasil é que nosso “poeta maior” é o Drummond, a única coisa que a maioria consegue entender. Olhe lá: “Itabira, sinto falta do meu pai, sentado na varanda...” Hehehe. Extasiante.

“A única forma aceitável de comunicação, em nosso tempo, é a narrativa crua, seca, bruta, sem emoções.”
Quer dizer que poesia, tal como vc a entende, não tem absolutamente nada a ver com crueza, secura, brutalidade etc??? Poesia é realmente apenas as meiguices deslumbradas que Ygor Raduy escreve? Não minta para você.

Alguém tá precisando rever seus conceitos. Bem vindo ao século XXI, “cronista”.

NOIGANDRES
[país subdesenvolvido não precisa ter cultura subdesenvolvida]
ps: Aliás, será que todo mundo que vive em uma cidade provinciana de um país periférico quando arruma um emprego [do tipo “escrever pr'um jornaleco”] ou passa num vestibular já acha que é gênio?”

(22 de setembro de 2004)

*****

“Estude mais sobre poesia. Observe o mundo.

A poesia nasce do homem, corpo e pneuma. Não importa se é boa ou ruim. Quem disse que tem que ser uma ou outra.

O brasileiro não lê nem gosta de poesia porque não pratica a poesia e nem tem o contato devido com a mesma no ensino básico.

Todo homem é linguagem (Mário Faustino) e por isso todo homem tem enraizado dentro de si a semente da poesia.

Basta saber como eclodir a semente.

Só mente.”

(15 de setembro de 2004)

Redundâncias pleonásticas

September 21, 2004
Um pocket show de Nelson Ned.

Um trocadilho de Lúcio Flávio.

Uma haste flexível Cotonete.

Um aparelho de barbear Gilette.

Uma palha de aço Bombril.

Um cabo eleitoral mala.

A simpatia de Janaína Ávila.

A acuidade de Tanga (a desnudar os fatos).

A poética de Ygor.

A loucura de Flipper.

Um discurso de Lula.

Um escândalo político.

Uma piada contra.

A ressaca pós-QSL.

A magreza de uma top model.

A chatice de um bêbado.

Conselho burocrático.

Justiça lenta.

Uma bobagem do Briguet.

Redundância – faça também a sua!

Alice no País das Vaidades

September 21, 2004

Alice é magra. Muito magra. Desnutrida, mesmo. Parece nunca ter ingerido outra coisa que não alface e bolacha de água e sal. Sob as luzes, ela própria é feita de alface, água e sal: dá a impressão de que vai desmanchar a qualquer momento...
Leia mais na crônica.

sol vermelho

September 18, 2004

sol vermelho sol vermelho
morres uma só vez
nunca mais serás
sol vermelho sol vermelho

assim também vou eu
sol vermelho sol vermelho
atravessando a mesma rua
que nunca mais voltará
abrindo o mesmo livro
na mesma página
que já é outra
amarela

sol vermelho sol vermelho
adeus para nunca mais

Dois poemas de Quinta Sem-Lei

September 16, 2004

Enquanto a noite

Algo errado aconteceu.
Eu não deveria estar aqui,
sentado, diante da tela,
escrevendo para um blog,
para ser lido por ninguém.

Eu não deveria estar,
no dia 16 de setembro de 2005,
às 8 e meia da manhã,
esperando um ônibus
na Avenida Higienópolis,
na cidade de Londrina,
estado do Paraná, Brasil.

Eu não deveria trabalhar
onde trabalho,
nem morar onde moro.
Talvez não seria certo
nem mesmo conhecer
quem eu conheço.
E o meu nome – que nome? –
Talvez seja outro,
bem diferente.

Não foi isso
o que eu havia combinado
com Will e Smith,
do Túnel do Tempo.

Desconfio
que houve alguma falha
de percurso,
um erro de itinerário,
um desvio de rota.
(Não há outra explicação.)

Nada pode me provar
que eu deveria estar aqui,
agora, terminando de escrever
este poema,
com 34 anos de idade,
enquanto a noite chega.
Tem algo errado nisso tudo.

Desanatomia

Há alguns problemas em ter três mãos,
sendo que uma delas virou noite
a outra se liquefez em tempo
e a última nasceu mão dentro da mão.

Há alguns problemas em ter olhos de vidro,
todos os nove,
pés direitos todos eles, nenhum canhoto,
e fígados de sacrifícios humanos.

É duro criar bodes expiatórios na varanda,
ter formigas como pets,
dar a meu cachorro o nome de Spam.

Há alguns problemas em ter pulmões de melancolia,
tosse de galáxias e braços de tempestade.

Meu problema é o Sol.
Vinde a mim, ó cataclisma,
chovei, expedito, onde não é possível,
cavai um sopro no meu coração.

Há alguns problemas em ter três mãos
com síndrome de vírgulas e cedilhas,
sendo que uma das mãos virou alma,
a outra virou vento
e a última acena para a morte amiga.

*****

Bora pra QSL, cambada!

Sobre o meu último post

September 15, 2004


Acho que preciso colar um cartaz bem grande com os seguintes dizeres:

EI, PESSOAL, EU ESTAVA APENAS SENDO IRÔNICO.
EU GOSTO DE POESIA.
EU ESCREVO POEMAS TODOS OS DIAS.
EU NÃO SOU O INIMIGO NÚMERO 1 DA LITERATURA.

Sinceramente.

Manifesto contra a poesia

September 14, 2004

A poesia espanta as pessoas. Se você tem algo importante a dizer, não use versos. Se você tem algo importante a dizer, diga da forma mais direta e truculenta possível. Esqueça a sutileza e as meias-palavras. Não lapide o pensamento. Diga, simplesmente.

*****

A poesia é uma aberração da linguagem.

*****

Em nosso país, temos mais poetas do que leitores de poesia. Isso quer dizer que boa parte dos poetas não lê poemas além dos próprios. Talvez isso explique por que os poetas espantem as pessoas. Poesia ruim é a ante-sala dos infernos.

*****

Falta, em nosso país, a poesia mediana. Aqui só há poesia-lixo ou poesia “genial”. Preocupados em fazer lixo ou obras-primas, os autores de poesia se esquecem de escrever bons versos. Apenas bons versos.

*****

Dizem que o poema, o bom poema, traz a essência do idioma. Ora, o idioma não é feito para veicular essências! O idioma é feito para gritar, xingar, difamar, ofender, tripudiar, guerrear. Não tem sido assim, todos os dias? Poetas são seres profundamente ingênuos, que acreditam na linguagem como modo de aproximação entre as pesssoas. A ingenuidade é uma forma de loucura, dizia Graham Greene. Poetas deveriam ser internados na Clínica das Palmeiras. E que levem os cronistas com eles.

*****

A poesia, em verdade, em verdade, é um modo de incomunicação entre os homens; a linguagem poética está mais morta do que o latim e o sânscrito. Pior que isso: a poesia é o esperanto dos gêneros literários. Um fracasso em todos os sentidos. Não há pior loser que um poeta.

*****

A única forma aceitável de comunicação, em nosso tempo, é a narrativa crua, seca, bruta, sem emoções.

*****

Quando o Lobo Mau regurgitou a Vovozinha, o Caçador colocou pedras no ventre da fera. A linguagem é a pedra que nasce da pedra: nós somos os lobos os lobos estéreis de nós mesmos. A poesia não tem nada a ver conosco.

Ainda sobre o balcão

September 13, 2004
As coisas que deixei sobre o balcão
foram muitas, além das desculpas.
De variada qualidade e procedência,
foram esquecidas
como uma civilização esquece
a língua morta;
e o homem,
o grito de nascer;
e a árvore de 100 anos,
a hora do plantio.

O balcão é feito da madeira
da árvore esquecida,
é feito de línguas mortas
e de crianças mudas.
O balcão é feito, na verdade,
das coisas esquecidas
sobre o balcão.

Coisas espalhadas pelo balcão

September 13, 2004

Para Ester Falaschi

Deixei os pedidos de desculpas espalhados pelo balcão. E mais algumas coisas. Este CD irrecuperável, perdido na noite imensa, a razão, o gol de futsal que não fiz há 18 anos.

Sobre o balcão deixei muitas coisas. Simone esperando. Um cão que confundiu minha carteira com a madrugada. Um santinho da eleição de 90. A esperança, na forma de uma porção de frango à passarinho. Uma porção que não peço desde o ano em que Ayrton Senna foi campeão.

Debaixo do balcão, deixei minhas pernas, e as antigas pernas de minhas pernas, e todas as pernas que me conduziram até aqui. Deixei meus sapatos mortos, as meias que viraram trapo, e os trapos que de tantos buracos hoje são apenas o buraco.

Tantas coisas que não ocupam mais espaço ocupam lugar no balcão. Ali também vão meus pés dormentes, e os dormentes da linha de trem que não existem mais, e hoje são vendidos à beira da rodovia.

O Clube da Esquina, que está sendo demolido, tinha um balcão. Embaixo deste balcão, ainda está a camisa que usei na foto do RG. Era verde e azul, a camisa. Era boa. Não amassava. Usei-a durante uns cinco anos, depois desapareceu. Eu tinha 16 quando fiz meu RG. A camisa está ali.

Tudo se acumula sob o balcão, como um oceano de picaretagens. Continuo não fazendo o gol de futsal que não fiz aos 18 anos; continuo não usando da faculdade da razão; continuo tentando ouvir um CD irrecuperável ao contrário.

Sobre o balcão se acumulam os bilhetes, os comprimidos, os romances, a baleia Moby Dick, os filmes que tenho medo de ver de novo, as chaves do porão, o doce de banana, o cheiro da chuva, a sonda no nariz de minha irmã internada com bronquite.

Sobre o balcão há uma caneta e um papel, sobre um balcão há um balcão, e um balcão e outro balcão. Sobre o balcão há um ruído estranho, a conversa amiga, a noite imensa. E um pedido de desculpas por viver.

Almoço com Félix Ribeiro

September 10, 2004
Fui almoçar. Almocei. E depois, aconteceu.

Na saída do restaurante, quem estava à minha frente, segurando a fila do caixa?

Ele: Félix Ribeiro.

(Para os que não conhecem a sumidade, candidato a prefeito em Londrix. O refrão de sua campanha: FÉ! Modestamente parodiado, neste Repórter das Coisas, por PÉ!)

Estava fazendo campanha? Claro. Mas também estava pedindo desculpas à moça do caixa, pois havia perdido o comando do restaurante. Daqueles que a gente precisa pagar 100ão se perde.

Aí, Félix disse:

- Vou procurar mais um pouco.

Virou as costas e foi atrás do comando.

Eu e a moça do caixa trocamos um olhar de quanto-mais-eu-rezo-mais-assombração-me-aparece.

Menos de um minuto depois, volta Félix, feliz, exibindo, sorridente, o comando que havia achado embaixo da mesa. Com a mão direita, ele devolveu o comando e pagou a conta. Com a mão esquerda, ele me deu um santinho. Não sem antes dizer a todos:

- Sabem por que eu achei o comando? Porque eu tenho FÉ!

E prosseguiu:

- E é a mesma fé que eu pretendo usar na Prefeitura de Londrina, etc.

É. Eu acho que esse cara vai ser o próximo prefeito. Tem todas as qualidades para o cargo.

Curto poema

September 09, 2004

Eu faço apenas
curtos poemas.
Não faço cantos,
não faço histórias,
nem odisséias
(só irrisórias).
Nas minhas guerras,
Só há memória.
Canudos, onde?
E quede Tróia?

Se me contento,
diante das grandes,
das grandes teses,
com as pequenas,
está perfeito,
valeu a pena.
Eu faço apenas
reles poemas.

Se me perguntam
como era antes,
digo que antes
era só nunca.
Se me perguntam
se faço contos,
se crio pombos,
odes, romances,
eu digo: amigo,
não seja tonto,
que esse estorvo
era pro Cervantes.

Se me perguntam
se crio corvos,
um arrepio
me sobe ao pêlo.
(Me diga lá
se é de bom-tom
criar aqueles
que vão comê-lo!)

Da minha parte
não crio bichos,
sejam de escamas,
pêlos ou penas:
se perguntarem
pelo que faço
diga: um maço
de longos problemas.

De volta à vida

September 09, 2004
Quando eu disse que uma simples amigdalite pode destruir (temporariamente, graças a Deus!) nossos hábitos mais adorados, como ouvir música, eu não estava brincando ou exagerando.

***

Há uns minutos, botei um CD do Bach na vitrola. Por favor, não entenda o que eu vou dizer como pieguice: eu ouvi – e chorei. Chorei porque fiquei três dias sem fazer alguma coisa que amo, mesmo tendo ali, ao meu lado, o CD e a vitrola. Imagine, uma reles amigdalite fazer isso! O que não faria um... não, chega de doença.

***

O fato é que o João Sebastião Bach continua lá, novo como nunca, amigo como sempre.

***

Homem chora, sim. E Piegas é nome de ditador em filme latino-americano. VIVA LA REVOLUCIÓN! MUERTE A DOM PIEGAS! (Pena que aqui não tem aquela exclamaçãozinha de ponta-cabeça.)

***

Mais uma vez: homem chora, sim.

***

De volta à vida, sim. Mas, à Quinta Sem-Lei, só semana que vem. Marcelão Rocha acumula minha pasta. Bom balcão para vocês, moços e moças. Vocês com o bar, eu com o Bach. Bom mesmo é ter os dois.

Post para cair chuva

September 09, 2004

Canto para cair chuva, sei que já houve muitos. De todas as línguas, dialetos, culturas e tribos.

Mas, post para cair chuva, acho que este é o primeiro. Agosto passou em seco, e a danada não veio.

O solzão lá, reinando sozinho e soberbo como o Michael Schumacher (algo me diz que o sol tem o sorriso de um carioca autóctone ou de um alemão sem Senna por perto); o ar aí, mais seco que um poema do João Cabral, exterminando nossos pobres aparelhos respiratórios; e muita água para tomar.

Enagüenta!

Sei que a expressão “cair a chuva” é um tanto, sejamos francos, pleonástica – alguém já viu a chuva rolar morro acima? Mas dizer apenas “chover” me parece fraco sob a perspectiva de São Pedro.

E só a ele – ô Pedrão, meu chapa! – podemos recorrer agora: CAI, CHUVA! CAI AÊ!

Amigdalite

September 09, 2004
Desculpe, Lúcio Flávio, ó rei dos trocadilhos, mais lá vai:

Com amígdalas assim, eu não preciso de inimigos.

Leia a crônica sobre a amigdalite que eu achava ser gripe.

***

Estão construindo uma guarita nova aqui no meu prédio. Tudo para espantar os ladrões. A única coisa de valor mesmo que um ladrão me roubou foi um CD da Ella Fitzgerald cantando músicas do Gershwin. E um lenço azul. Ouvi dizer que você também usa lenço, Vidal.

***

Os pedreiros começaram a dar umas marretadas, um tanto ritmadas, e o resultado sonoro me lembrou o começo de uma música do Radiohead (só tenho um disco, e acho bom). Por falar no assunto, nesses meus dias de recluso amigdalítico, vi um clip dos Strokes e... gostei! Devo ter ouvido alguma coisa deles na Terça Tilt mas não soube identificar. Um cara maldoso diria que foi efeito da amigdalite, mas não foi, não. Não consta que eu tenha passado a gostar da Ivete Sangalo ou do Skank só por estar doente. Solução para Ivete Sangalo na TV: tecla MUTE. Solução para Skank: tecla POWER.

***

Detalhe: os Strokes usam All Star. Essas coisas ainda me impressionam. Sou um impressionável. Além de impressionista, diria um crítico literário.

***

E, se você chegou até aqui, desculpe a insistência, mas vale a pena ler a crônica das amígdalas. Acho que ficou até legal. Se você já foi, mil desculpas.

***

Aquela idéia? Só por telefone.




Noites em claro

September 08, 2004

Terceira noite sem dormir, culpa da febre. Nesta última madrugada eu vi o pior filme de todos os tempos. Juro que vi. Passou no Brazil Channel, da NET. Eis a sinopse:

Abrigo Nuclear (Brasil/1981). Direção: Roberto Pires. Drama. 90 min. O filme é parte de uma série sobre os perigos do uso da energia nuclear, fruto da preocupação do cineasta Pires com essa polêmica questão.

Quer dizer: o filme é parte de uma série. Parte de uma série! Vou ao médico.

***

Definição da febre

Dor e tempo somos nós.
Dor e tempo e água,
às vezes fogo, às vezes mar.
Dor e tempo e medo
somos nós. Se somos mais,
não sei.

Verdade é que não somos.
Somos mais que ela,
somos dor e tempo,
somos as labaredas
do mar.

Nem forma, nem função.
Nem número. Somos caos
dentro do caos dentro do caos.

Se somos mais, não sei.
O Verbo saberá.
Dor e tempo e Verbo,
o batismo das águas
sobre a superfície
das águas.

E, mesmo se a morte queimar o maná,
o amor proverá.

Diário da gripe

September 06, 2004
Quem não se comove com aquela imagem da russa chorando diante da filha morta, meu irmão, não se comove com nada.

--- PÉ! ---

Descobri que não tenho mais existência política. Eu até iria hoje ao Madalena para comemorar o fato, Marcelo, mas estou gripado, com 39 de febre.

--- PÉ! ---

Daqui a pouco eles não vão apenas demitir, vão ocupar a nossa casa também, como o porteiro que entrou no apartamento do Marcelo.

--- PÉ! ---

Comprei a “Bíblia do Bebê” para meu afilhado, o Danilo. Mas o fato é que, Senhor, eu não sou digno.

--- PÉ! ---

Marx dizia que o melhor antídoto contra o sofrimento espiritual era a dor física. A única frase que vai me restar dele.

--- PÉ! ---

Acordar de sapatos: consumo de álcool industrial.
Acordar de roupa: consumo de álcool no atacado.
Acordar de camiseta e cueca: consumo de álcool razoável.
Não dormir: GRIPE.

--- PÉ! ---

Mas, graças a Deus, eu tenho a Rô, e ela cuida de mim.

--- PÉ! ---

Amor é compartilhar o absurdo do tempo. É crer PORQUE é absurdo.

--- PÉ! ---


“Ninguém, nada, nunca.” Como eu gosto disso. Foi o Rei Lear que disse?

--- PÉ! ---

Surgiu ontem uma boa idéia de que o Galão, o Lúcio Flávio, o Marcelo, o Cláudio Yuge, a Paula, o Bastardo e outros podem gostar.

--- PÉ! ---

E aquela mulher russa diante da filha morta? E aquela mulher?

September 06, 2004
um dia me vingo
tem uma segunda-feira
no meio do domingo

A volta de Ricardo Nélson (seguida de O guardanapo do porteiro do Marcelo)

September 04, 2004
Ontem encontrei meu amigo Ricardo Nélson no bar. O Preto, o Marcelo e o Vitor estavam lá, são testemunhas.

Ricardo Nélson – que é médico – pegou um gancho no serviço porque disse a uma enfermeira: “Sou buceteiro”. A moça não gostou da palavra, denunciou à administração, Ricardo Nélson dançou. Quinze dias de gancho, sob acusação de sexista. Palavrinha nova essa, sexista. “No meu tempo não tinha isso não”, declarou meu amigo, enquanto pedia mais uma Skol à Inês, a melhor garçonete dubrasil, quiçá do mundo. A Skol lá no Bar Brasil custa três reais (três reais hoje e amanhã também, não é, Guilherme?).

Mas voltando ao Ricardo Nélson. Vocês acham que ele mereceu a punição? Um médico não pode falar a palavra buceteiro?

“Deus, vivemos no império do politicamente correto. Daqui a pouco, não posso nem pronunciar o termo viadagem, que perco o emprego”, comentou Ricardo Nélson. “Vão dizer que sou homofóbico. Mas que mané homofóbico! Sou caminhoneiro, do Clube Irmão Caminhoneiro Shell”, bradou meu amigo Ricardo Nélson, que, como eu já disse, é médico. “Se eu fosse jornalista como você, Briguet, eu seria censurado? Mandariam o Conselho Federal atrás de mim?”, questionou o açougueiro de almas, mas eu apenas balancei a cabeça como quem diz sim (na Albânia, o gesto de cabeça que indica sim quer dizer não – grande coisa).

“E vocês sabem que o Glauco Mattoso tem um soneto chamado ‘Buceteiro’?”, interrogou meu amigo Ricardo Nélson, elevando seu copo de Skol dourado à penumbra do Bar Brasil, como se fosse a lanterna de Hermógenes (se é que era o Hermógenes que tinha lanterna). “Acaso não nascemos todos DELA? Acaso não somos todos buceteiros?”, sentenciou, se é que se pode sentenciar em forma de perguntas.

Mas Ricardo Nélson logo mudou de assunto, esvaziou seu copo com a velocidade de um Satoru Nakajima, e encerrou as discussões: “Isso é uma tremenda viadagem!”
E sumiu na noite escura, porque ela é o seu elemento.

*****

Mais uma coisa: o Marcelo chegou em casa e o porteiro do prédio – inacreditável, inacreditável – estava dentro do apartamento dele, acompanhado de uma “sobrinha”. A moça tinha uma lata de Brahma na mão direito, com guardanapo.
Meu Deus, esse guardanapo! Esse guardanapo! Esse guardanapo parece ter sido invenção do meu amigo Ricardo Nélson. Esse guardanapo não dá uma crônica – dá um Guerra e Paz da sem-vergonhice!
O porteiro do Marcelo é um gênio. Não porque entra no apartamento dos outros sem autorização. Não porque leva uma “sobrinha” para lá. Não porque lhe serve uma lata de cerveja. Ele é um gênio porque faz tudo isso e oferece, educadamente, um guardanapo! Leia a história completa aqui.

Fim de mês

September 04, 2004
Acaba, agosto.
Antes de acabar comigo.
Antes de acabar conosco.

Acaba, agosto.
Antes de acabar o tempo.
Antes de virar setembro.

Termina, agosto
– é dia 31!
Termina antes que, ao fim,
não sobre mais nenhum.

Acaba, agosto.
Tá ficando tarde.
Vai bem de fininho,
sem fazer alarde.
Fica aí sozinho
dentro do teu limbo.
Vai para a agenda de 2005.

Acaba sem demora,
ó mês inimigo.
Nem mais uma hora
quero estar contigo!

Não duraste pouco,
mês de Hiroshima,
e do cachorro louco,
data compulsória.
Saíste da vida
para entrar na história.

Agosto, agosto,
vê se acaba, agosto.
Volta ao calendário
de onde, todo ano,
sem menor esforço,
voltas ao cenário.

Acaba, agosto.
Pois se mais um dia
ficares aqui
para um tira-gosto,
o que verei em ti,
além da ventania,
será só meu rosto.

Isto posto, acaba,
longo e duro agosto.
Antes morra o mês
que a gente, de desgosto.