O juiz pergunta ao funcionário de uma empresa:
– O sr. confirma ter assinado este documento?
– Sim, meritíssimo.
– O sr. foi de alguma forma coagido a assiná-lo?
– Não, de maneira nenhuma! Assinei por livre e espontânea vontade.
– Mas aqui diz que o sr. renuncia a todos os seus ganhos.
– Precisamente, meritíssimo.
– O que levou o sr. a assinar este documento?
– Não apenas assinei o documento, meritíssimo, como também sou responsável pelos seus termos. Eu o escrevi de punho próprio.
– Por quê?
– Porque pensei bem, e vi que era a coisa mais justa a fazer.
– É justo renunciar ao próprio salário?
– Veja bem, meritíssimo, eu trabalho nessa empresa há muitos anos, e sempre recebi salário. Houve alguns atrasos de pagamento, é verdade, mas foram plenamente justificados. Há algum tempo, eu pensei que seria justo, depois de tanto tempo recebendo para trabalhar, fazer o contrário.
– Então o sr. vai pagar para trabalhar?
– Isso mesmo, meritíssimo. O trabalho, para mim, é um prazer. Por todos os outros prazeres da vida, eu pago. Pago para comer trufas, para viajar a Sabáudia, para tomar cerveja Zanni, para assistir ao Caldeirão do Huck e ao Saia Justa na TV a cabo, para tomar banho quente com sabonete Alma de Flores. Por que deveria receber para trabalhar?
– Todos que trabalham têm direito a um salário.
– De onde o sr. tirou essa idéia? Com todo respeito, meritíssimo, isso é slogan de sindicalista. Catadores de papel trabalham, engolidores de fogo trabalham, pregadores do Calçadão trabalham, músicos peruanos que vendem CD na praça trabalham, os lobbistas do governo trabalham, os donos de grandes empresas guatemaltecas trabalham – e nenhum deles ganha salário.
– Mas o sr. citou casos diferentes do seu. O sr. é o empregado de uma empresa, e a lei é clara quanto ao pagamento obrigatório de salários.
– Já fui empregado de uma empresa. Agora, sou o empregador de mim mesmo. Emprego todos os meus esforços para devolver à empresa tudo aquilo que ela me deu ao longo dos anos.
– E o que ela lhe deu?
– Além dos salários, ela me deu luz; me deu teto; me deu segurança; me deu a possibilidade de dizer aos outros que trabalho lá; me deu cafezinho; me deu pão com mortadela; me deu tudo! Chegou a hora da devolução.
– E como o sr. vai sustentar sua família?
– A minha família pode muito bem se virar sozinha. Meus filhos já têm mais de 12 anos, estão bem crescidinhos. A mulher também pode ajudar. Se o sr. leu o documento com atenção, meritíssimo, verá que eu passei todos os meus filhos e a minha esposa ao controle da empresa. Quando nascerem meus netos, eles também serão funcionários. É a estabilidade geracional.
– Aqui diz que o sr. se compromete a doar sangue semanalmente para a empresa.
– Sangue, suor, lágrimas e todos os meus bens, meritíssimo. O chefe do departamento já está com meu cartão do banco e a senha. Minha casa foi transformada em almoxarifado. Eu e a empresa, pouco a pouco, estamos virando uma coisa só. Não basta vestir a camisa, é preciso entregar a pele, a carne, os ossos e a alma. E, então, chegará o dia em que eu não direi que trabalho na empresa. Eu direi que SOU a empresa. Nesse dia eu serei um homem feliz.
– Um homem?
Publicado em 27 de agosto de 2004 às 20:45 por briguet