Que venha a sexta-feira
com 6 milhões de Neosaldinas
e trabalhos intermináveis.
Dia 13, sexta-feira
é feriado de fantasmas
em crise de identidade.
Que venha a sexta-feira
quando a louça é meu espelho
e o queijo tem data vencida.
Não tenho medo da sexta-feira.
Sei que vou morrer num domingo,
num domingo sem plantão ou desespero,
talvez no Carnaval ou na Páscoa.
Já fui amante da sexta-feira,
já esperei que ela viesse logo,
hoje eu conto as horas
para que a quinta não acabe.
(Mas não adianta, como se sabe.)
Que venha a sexta-feira
com seu ar de apressada,
com sua aflição neurótica,
com seus amantes vulgares.
A sexta-feira não é nada.
Sua soberba se dissolve
nas primeiras notas do sábado;
quando chega o domingo,
ninguém lembra o que ela era.
A sexta-feira não tem vida,
não tem personalidade.
Às vezes sinto pena dela,
embora sinta mais pena de mim.
Então, venha, sexta-feira
– e 6 milhões de Neosaldinas.