Atender ao telefone e meu pai dizer que a tia Ruth está muito mal; ligar a Internet para pesquisar alguma coisa sobre Cartier-Bresson, que morreu na semana passada; ouvir um recado do pai na secretário eletrônica dizendo que a tia Ruth morreu; desmarcar a viagem de avião para São Paulo; comprar passagem de ônibus para Araçatuba; viajar sete horas; chegar à noite em Araçatuba e dar um abraço no pai na Rodoviária; dormir na cama que usei dos 6 aos 14 anos; sonhar com o
Fábio Galão e a
Paula Schütze (sendo que esta não conheço pessoalmente, mas no sonho é mais alta do que eu, que tenho 1,80); ambos querem comer lebre temperada com vinho comprado no Super Muffato; acordar; ir ao enterro da minha tia; carregar o caixão de minha tia junto com meus cinco primos; dizer algumas palavras no cemitério, com o frio da manhã sobre as colinas da Noroeste (o pessoal lá no Estado de São Paulo sempre diz “a” Noroeste para designar a região); conversar com meus primos; fazer um curativo no dedo da vó Maria que ela prendeu na porta do carro; voltar para casa; beber um pouco de cerveja com meu pai que está triste; almoçar; dormir e não sonhar; depois sonhar com um trabalho de pós-graduação que eu jamais concluo; voltar para Londrina de ônibus; ver a cabeça de um hamster surgir no porta-volumes do ônibus; presenciar uma garota percorrendo o ônibus com o hamster nas mãos, sob o riso geral , perguntando: “Esse hamster é seu?”; observar que o dono do hamster finalmente aparece; o dia escurecer; o frio; a ida ao banheiro; encontrar você na Rodoviária; constatar mais uma vez o quanto você é bonita; comer um sanduíche; voltar para casa; tomar um chá antigripal; dormir e não lembrar do sonho.