página inicial do tipos

Receba por e-mail os posts de Repórter das Coisas: RSS - Assine os feeds deste blog

Archive for August of 2004

Imagem do Purgatório

August 30, 2004

Almoçar sozinho no único restaurante próximo, com pensamentos sombrios e agüentando música de Bruno & Marrone. A comida? Péssima. Restam o café expresso, o ar condicionado e o sonho de escrever um livro para crianças.

Plantão de domingo

August 28, 2004

Domingo. Mesas vazias e telas apagadas.
Domingo. Memórias dispersas e silêncio na rua.
Domingo. Nenhum táxi no ponto, nenhuma loja aberta.
Pensando bem, na última semana fomos condenados a um eterno domingo.

A Tcheka da notícia

August 28, 2004

A expressão “politicamente correto” é um absurdo. Só tem sentido em ditaduras.

******

Esse tal Conselho Federal de Jornalismo, meu Deus, não passa de uma Tcheka da notícia. Um poder paraestatal, com todos as prerrogativas do Estado e nenhuma limitação do indivíduo.

*****

Quem deu a esses caras o direito de controlar ou regulamentar alguma coisa? Os “delegados” do “congresso”?

*****

Para refrescar a memória: Tcheka era a sangrenta polícia comunista criada por Lênin e Dzerzhinsky.


*****

Conselho? Se fosse bom ninguém dava, vendia. Não quero a ditadura do “politicamente correto”. Melhor deixar como está.


*****

Uma questão de lógica: se é politicamente, não é correto.

A hora da devolução (fábula surrealista)

August 27, 2004
O juiz pergunta ao funcionário de uma empresa:
– O sr. confirma ter assinado este documento?
– Sim, meritíssimo.
– O sr. foi de alguma forma coagido a assiná-lo?
– Não, de maneira nenhuma! Assinei por livre e espontânea vontade.
– Mas aqui diz que o sr. renuncia a todos os seus ganhos.
– Precisamente, meritíssimo.
– O que levou o sr. a assinar este documento?
– Não apenas assinei o documento, meritíssimo, como também sou responsável pelos seus termos. Eu o escrevi de punho próprio.
– Por quê?
– Porque pensei bem, e vi que era a coisa mais justa a fazer.
– É justo renunciar ao próprio salário?
– Veja bem, meritíssimo, eu trabalho nessa empresa há muitos anos, e sempre recebi salário. Houve alguns atrasos de pagamento, é verdade, mas foram plenamente justificados. Há algum tempo, eu pensei que seria justo, depois de tanto tempo recebendo para trabalhar, fazer o contrário.
– Então o sr. vai pagar para trabalhar?
– Isso mesmo, meritíssimo. O trabalho, para mim, é um prazer. Por todos os outros prazeres da vida, eu pago. Pago para comer trufas, para viajar a Sabáudia, para tomar cerveja Zanni, para assistir ao Caldeirão do Huck e ao Saia Justa na TV a cabo, para tomar banho quente com sabonete Alma de Flores. Por que deveria receber para trabalhar?
– Todos que trabalham têm direito a um salário.
– De onde o sr. tirou essa idéia? Com todo respeito, meritíssimo, isso é slogan de sindicalista. Catadores de papel trabalham, engolidores de fogo trabalham, pregadores do Calçadão trabalham, músicos peruanos que vendem CD na praça trabalham, os lobbistas do governo trabalham, os donos de grandes empresas guatemaltecas trabalham – e nenhum deles ganha salário.
– Mas o sr. citou casos diferentes do seu. O sr. é o empregado de uma empresa, e a lei é clara quanto ao pagamento obrigatório de salários.
– Já fui empregado de uma empresa. Agora, sou o empregador de mim mesmo. Emprego todos os meus esforços para devolver à empresa tudo aquilo que ela me deu ao longo dos anos.
– E o que ela lhe deu?
– Além dos salários, ela me deu luz; me deu teto; me deu segurança; me deu a possibilidade de dizer aos outros que trabalho lá; me deu cafezinho; me deu pão com mortadela; me deu tudo! Chegou a hora da devolução.
– E como o sr. vai sustentar sua família?
– A minha família pode muito bem se virar sozinha. Meus filhos já têm mais de 12 anos, estão bem crescidinhos. A mulher também pode ajudar. Se o sr. leu o documento com atenção, meritíssimo, verá que eu passei todos os meus filhos e a minha esposa ao controle da empresa. Quando nascerem meus netos, eles também serão funcionários. É a estabilidade geracional.
– Aqui diz que o sr. se compromete a doar sangue semanalmente para a empresa.
– Sangue, suor, lágrimas e todos os meus bens, meritíssimo. O chefe do departamento já está com meu cartão do banco e a senha. Minha casa foi transformada em almoxarifado. Eu e a empresa, pouco a pouco, estamos virando uma coisa só. Não basta vestir a camisa, é preciso entregar a pele, a carne, os ossos e a alma. E, então, chegará o dia em que eu não direi que trabalho na empresa. Eu direi que SOU a empresa. Nesse dia eu serei um homem feliz.
– Um homem?

Crônica para crianças

August 26, 2004
Era uma vez um bicho, e o nome desse bicho era homem. Leia o resto da história aqui. O texto é dedicado ao meu amigo Carlos Okawati.

*****

Com a devida licença do Marcelo Rocha, especialista no assunto, vou fazer uma citação de Nelson, o Rodrigues:

“Sempre que vai estourar uma catástrofe, o ser humano cai num otimismo obtuso, pétreo e córneo. Foi assim em Hiroxima na manhã dominical da bomba. Nenhum presságio, nenhuma tensão, nada que turvasse a ternura da cidade. Pastores, senhoras, crianças e babás tinham a mesma inconsciência de um bodinho de charrete. E, de repente, há o clarão hediondo.”

(In: Flor de Obsessão - org. Ruy Castro.)

(In e org. - sempre quis escrever isso!)

(Por sinal, o livro é do Marcelo.)

Doce panacéia (para aumentar a receita)

August 25, 2004


Eu tenho a solução para nós (jornalistas ou não):

Vamos todos vender TRUFAS!

Tudo em poucas palavras

August 24, 2004

“Todos os meus bens estão comigo.”
(Sêneca)

Vaidade das vaidades

August 24, 2004

Hoje, mais do que nunca, eu sei que estava errado quando escolhi esta profissão.
Aqui, cheguei a acreditar que o trabalho poderia ser uma atividade tranqüila e prazerosa. Mas, agora, este lugar praticamente vazio, silencioso como um poço, eu me pergunto se esta profissão tem algum futuro.
Caiu a ficha. Estamos condenados à extinção, como os sapateiros, os mecanógrafos, os paneleiros e a expressão “cair a ficha”.
Graham Greene dizia que a ingenuidade é uma forma de loucura. E eu fui ingênuo, escravo da minha própria vaidade. Acreditei! Acreditei, mesmo sabendo de tudo. Sabendo que esta profissão é vista com desprezo por quase todos. Sabendo que esta profissão nos rende a fama de pernósticos e ardilosos. Sabendo que o estigma da mentira paira sobre nossas cabeças. Sabendo que esta profissão jamais vai oferecer a mínima segurança para o filho que ainda não tive. Sabendo que esta profissão não privilegia nem a competência, nem a integridade. Sabendo que tanta gente jovem e boa se ilude achando que a coisa vai mudar. Sabendo que a esquerda vai dizer que estamos vendidos para a direita, e que a direita vai dizer que estamos a serviço da esquerda. Sabendo que, hoje, ficar é mais duro que partir. Sabendo, acima de tudo, que nada sei, além de fazer o que estou fazendo: colocar uma palavra na frente da outra.
Mas, felizmente, desaprendi a lição do ódio. Mais do que nunca, ouço as palavras do sábio Eclesiastes: Vaidade das vaidades, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade e vento que passa.

Sobre amizade

August 23, 2004
Meu Deus, meu Deus, meu Deus.

Hoje fiz uma das coisas que mais gosto de fazer: almoçar com Janaína Ávila. Ela me falou de Curitiba, de quanta gente legal encontrou aí, da calorosa recepção no James, da conversa que teve com Rosângela, minha amada.

Pode parecer mentira, mas a Janaína consegue ser ainda mais agradável pessoalmente do que no seu blog (é claro que sou leitor contumaz do “Mundo Sonoro”).

Amiga dia e noite; coração do tamanho do mundo; diretora honorária da Quinta Sem-Lei; a feiticeira que faz indies e bachianos irem à Noite Latina; uma grande competência profissional, daquelas que fazem o editor considerar-se desnecessário.

Ninguém pode ficar feliz com a notícia de que não vai mais trabalhar com Janaína Ávila. Muito menos eu.

E o Aurélio Albano? O que eu vou falar sobre um dos caras que mais me ajudaram na vida profissional?

Hoje a coisa está bem difícil.

O estudante eterno

August 23, 2004

Pédro Brigué, voxê naum léu méus téxtus!

Uma crônica para os 30 anos do curso de Jornalismo da UEL: leia aqui.

Cachorro astronauta

August 20, 2004

Laika

Vendo Monza 86.
Primeiro dono.


Às vezes
é como se o irmão que eu não tenho
tivesse acabado de morrer.
É como se um sabre de vento
cortasse as ramificações da alma
no meu tecido muscular.
É como um trovão
na carne da íris.

Vendo ou alugo esta casa.
Excelente localização.


Às vezes
é a consciência da derrota
em cada fio de cabelo.
É uma dieta interminável
de leite e querosene.
É o império das ratazanas
na praça de alimentação,
um campo de extermínio
dentro da boca,
um nervo a puxar as vísceras
mais antigas que a memória.

Às vezes, é um tempo circular
no corpo do tempo,
um cão sozinho na nave espacial
a olhar o universo,
triste e faminto
a olhar o universo.

Procura-se cão.
Recompensa-se bem.

Plunct-virge-maria-zum

August 19, 2004

Hoje estou postando compulsivamente. É que não tem outro jeito.
Vindo pra casa, eis que passa um carro de som com o seguinte jingle:

Plunct-plact-zum... Vote 8-8-7-1!
Plunct-plact-zum... Vote 8-8-7-1!

Meu Deus. Raul Seixas em campanha eleitoral. Tás brincando!
Como forma de purificação (eu iria escrever putificação), o jeito é ouvir a missa de Mozart antes do Tomate Seco e da QSL.

PS: O número do candidato foi trocado para evitar complicações com o TRE.
PS2: Que tal me dispensar do voto obrigatório, seo TRE?


Quinta sem-lei é quinta sem-lei!

August 19, 2004
(Nota da redação: Desculpe, Groo, mas tomei a liberdade de afanar suas palavras para fazer uma convocatória geral da QSL de hoje.)

Povo de Londrina!

Eis o que diz o sábio Groo em relação à Quarta Rock, lá em Curitiba:

“E só se fala nessa tal de Quarta Rock de ontem. Tava legal, né, povo? Tava divertida, né, pessoal? Super dez! Agora deixa o titio Bastardo contar um segredinho procês:

TAVA LEGAL PORQUE TAVA TODO MUNDO LÁ, CARALHO!

Logo, vocês ponham as mãos em suas respectivas consciências e comecem a parar de faltar na QR, estrupícios. Não quero mais ouvir esse papo de que “tenho que trabalhar amanhã”, “tô meio sem grana”, “peguei uma gripe”, “amputei minha perna ontem”, “o cachorro comeu meu carro”.

Acho que todos nós merecemos um dia de diversão destruidora uma vez por semana.”


O Bastardo tá certo!

Portanto, animais e moças, mexam-se! Todo mundo para a QSL de hoje, e tenho dito!

(De vez em quando me baixa um autoritarismo bolchevique.)

Escambo da ventania

August 19, 2004

Não troco o vento por nada.
O vento é insubstituível.
Não troco meu vento por casa,
por flor, por amante, por sombra,
não troco meu vento por onda.

Não troco meu vento por graça,
por deus, por rancor, por céu,
não troco nem por cachaça.

Não troco meu vento por mel,
por asa, nem por amor.
Só troco meu vento por vento:
pois quem me roubou o vento
o vento há de repor.

Apenas um discípulo de Lúcio Flávio, passageiro da Garcia

August 19, 2004


Antes eu era da esquerda festiva. Hoje sou só festivo.

*****

Antes eu trotskista. Hoje sou trocista.

*****

Diante da urna eletrônica, me deu um branco.

*****

Aos polemistas, agentes provocadores e demais beligerantes: o principal esporte de Paulo Briguento é oferecer a outra face.


*****

Janaína, você que está na Capital, responda: a Paula existe, de verdade? Ela gosta de lebre com vinho? E o Vidal, é fato? Groo e Theo, eu sei que existem.


*****

A frase definitiva sobre a QSL é de Lúcio Flávio Moura: “Quem beber, berá.”

Respondendo às perguntas do lead - parte 1: QUANDO?

August 18, 2004

Quando duas grávidas pedem esmola na esquina da Rua Pernambuco com a Avenida JK; quando uma garota clubber consulta o banco eletrônico; quando eu volto em pensamento à noite em que fui jurado do Concurso de Paródias e atravessei o palco do Cine Teatro Ouro Verde com a platéia gritando “Bicha! Bicha! Bicha!” e fui recebido na boca do palco por uma ex-namorada que havia me dado o maior fora de todos os tempos; quando olho para a bagunça do meu escritório e imagino que ela já adquiriu vida e personalidade próprias; quando ouço um concerto de Brahms que não estava no programa e, meu Deus, é de arrasar o quarteirão e abalar as vigas de concreto; quando recebo um telefonema da campanha de Alex Canziani e digo que NÃO, não vou votar em ninguém e não quero receber material de campanha nenhum; quando “você se separou de mim / quase que a minha vida teve fim...”; quando sonho que o Lúcio Flávio e o Guilherme Mendes da Costa moravam no Bexiga em São Paulo, em 1988, época em que eles não deveriam nem ser nascidos; quando as Olimpíadas me parecem um mero exercício da vaidade humana em forma de tempos e pontos; quando sinto uma imensa compaixão da humanidade e do tiozinho que distribui folhetos de COMPRO OURO no Calçadão...
... nada melhor que lembrar: amanhã é Quinta Sem-Lei.

Você não é o Paulo Briguet

August 17, 2004

O que fazer se alguém insiste em dizer que você não é você? Pois é, aconteceu comigo. Leia a crônica.

Receitas para suportar o domingo e a segunda-feira (e um adendo sobre a falta de atenção no mundo virtual)

August 16, 2004
Domingo céu de brigadeiro. Depois de almoçar com a mulher que você ama no Restaurante do Toninho (arroz de Navarra, salada e sorvete de sobremesa), ir trabalhar...
De plantão no jornal, assistir ao clássico Portuguesa Londrinense x Cascavel, no Estádio do Café, tendo por companhia, à beira do gramado, Lúcio Flávio Moura. É espetacular (muito mais que o jogo)!

******

Almoçar, na segundona braba, com Janaína Ávila no Super Muffato (onde Paula e Galão queriam comprar o vinho para temperar a lebre), e aprender muitas, muitas coisas. É delicioso (bem melhor que a comida do Super Muffato - e não era lebre com vinho)!

*****

Escrevi um post sobre trufas (ver aí embaixo), onde digo coisas como “trufas de carne humana”, e o povo continua pedindo receitas. Ou as pessoas são incapazes de compreender as ironias mais óbvias, ou o Google afeta dramaticamente a capacidade humana de prestar atenção no que é lido.


Trufas de trufas

August 14, 2004


Quero trufas. Quero trufas de chocolate, morango, cereja, maracujá, vinho, cerveja e cicuta. Quero trufas de farinha, de carne, de carne humana, de ar. Quero trufas de trufas.



Fábio Galão, quero receita de trufas! Ofélia! Hamlet! Raskolnikov! Dom Quixote! Las trufas... ¡ Yo quiero las trufas ahora mismo!



Quero trufas de bolacha, trufas de leite, trufas de mel, trufas de terra, trufas de sabor artificial de euforia. Quero trufas de caules, de flores, de Ramos, de Pentecostes. Quero trufas de Natal. Queros trufas do tipo safurt, do tipo miserê, trufas iê-iê-iê.



Ouvi falar de trufas pornográficas, trufas de putaria. Quero-as. Quero trufas de papel.



Quero trufas de letras. Quero um blog só de trufas: blufas. É isso aí! Quero blufas, blufas, blufas!



“Amor, tô com desejo de trufas”, disse a mulher em estado interessante.



Envie-me, por favor, receitas de trufas transparentes, invisíveis. Quero trufas de água, não só de chocolate.



Quero trufas de fogo. Penso, logo trufas.



Quero trufas de amianto, de tungstênio, de – qual era o nome daquele metal do inimigo do Homiaranha mesmo? (Agora entendi o significado da musiquinha: “Homiranha, homiranha, nunca bate, só apanha!”) Quero um tropel de trufas.



Mas de trufas não sei bulhufas.

Canção da sexta-feira 13

August 13, 2004

Que venha a sexta-feira
com 6 milhões de Neosaldinas
e trabalhos intermináveis.



Dia 13, sexta-feira
é feriado de fantasmas
em crise de identidade.



Que venha a sexta-feira
quando a louça é meu espelho
e o queijo tem data vencida.



Não tenho medo da sexta-feira.
Sei que vou morrer num domingo,
num domingo sem plantão ou desespero,
talvez no Carnaval ou na Páscoa.



Já fui amante da sexta-feira,
já esperei que ela viesse logo,
hoje eu conto as horas
para que a quinta não acabe.
(Mas não adianta, como se sabe.)



Que venha a sexta-feira
com seu ar de apressada,
com sua aflição neurótica,
com seus amantes vulgares.



A sexta-feira não é nada.
Sua soberba se dissolve
nas primeiras notas do sábado;
quando chega o domingo,
ninguém lembra o que ela era.



A sexta-feira não tem vida,
não tem personalidade.
Às vezes sinto pena dela,
embora sinta mais pena de mim.



Então, venha, sexta-feira
– e 6 milhões de Neosaldinas.

Pensamentos de QSL

August 12, 2004
O ideal é a alienação completa, como a dos idiotas gregos.

*****

Não é que eu não me sinta culpado pelos problemas do país. É que eu me sentiria muito pior se tivesse qualquer forma de participação política.

*****

Comecei a ler “O Livro Negro do Comunismo”. O horror, o horror.

*****

Três tipos de verdades: as horríveis, as belas e as desinteressantes.

*****

Esse tal de Orkut faz perguntas demais.

*****

A morte é uma notícia. A morte é sempre uma notícia.

*****

Hoje à noite, no mesmo balcão, certo?

Dia do Estudante

August 11, 2004

Hoje fui conversar com alunos de 3a série primária. E me lembrei do jornal “O Polegar”, que editei quando tinha a idade deles, 9 anos. Era feito em mimeógrafo. O exemplar custava 5 cruzeiros. Adalberto, o salafrário do meu sócio na empreitada, quis me passar a perna na hora de dividir os lucros. E passou. Começava aí minha carreira de loser.

*****

Falando com as crianças, lembrei do belíssimo poema de Alexei Bueno, “A Juventude dos Deuses”, em que ele fala dos alunos imaginários que, muitos anos depois da idade escolar, no pátio do colégio, respondem a uma chamada. E dizem apenas: Ausente! O queridinho das professoras: Ausente! O japonês: Ausente! O mau elemento: Ausente! O gordinho de óculos: Ausente!

*****

Orkut? Spammer? Desktop? Java? Não sei o que é nada disso. Não sei falar javanês.

Fim de semana

August 09, 2004
Atender ao telefone e meu pai dizer que a tia Ruth está muito mal; ligar a Internet para pesquisar alguma coisa sobre Cartier-Bresson, que morreu na semana passada; ouvir um recado do pai na secretário eletrônica dizendo que a tia Ruth morreu; desmarcar a viagem de avião para São Paulo; comprar passagem de ônibus para Araçatuba; viajar sete horas; chegar à noite em Araçatuba e dar um abraço no pai na Rodoviária; dormir na cama que usei dos 6 aos 14 anos; sonhar com o Fábio Galão e a Paula Schütze (sendo que esta não conheço pessoalmente, mas no sonho é mais alta do que eu, que tenho 1,80); ambos querem comer lebre temperada com vinho comprado no Super Muffato; acordar; ir ao enterro da minha tia; carregar o caixão de minha tia junto com meus cinco primos; dizer algumas palavras no cemitério, com o frio da manhã sobre as colinas da Noroeste (o pessoal lá no Estado de São Paulo sempre diz “a” Noroeste para designar a região); conversar com meus primos; fazer um curativo no dedo da vó Maria que ela prendeu na porta do carro; voltar para casa; beber um pouco de cerveja com meu pai que está triste; almoçar; dormir e não sonhar; depois sonhar com um trabalho de pós-graduação que eu jamais concluo; voltar para Londrina de ônibus; ver a cabeça de um hamster surgir no porta-volumes do ônibus; presenciar uma garota percorrendo o ônibus com o hamster nas mãos, sob o riso geral , perguntando: “Esse hamster é seu?”; observar que o dono do hamster finalmente aparece; o dia escurecer; o frio; a ida ao banheiro; encontrar você na Rodoviária; constatar mais uma vez o quanto você é bonita; comer um sanduíche; voltar para casa; tomar um chá antigripal; dormir e não lembrar do sonho.

Todas as crianças são loucas

August 06, 2004

Todas as crianças são loucas,
por isso eu sigo entre elas.
Giro em torno de mim mesmo
para que o mundo gire também.
Simulo dores que não são minhas,
invento mil doenças de ar,
para ganhar a atenção dos maiores.
Todas as crianças são loucas.

Existem palavras que são você,
mas não pretendo enunciá-las nunca,
pois ficam bem assim, silenciosas.
Palavras de tal modo altissonantes
que carregam um deus em cada sílaba,
que viajam no tempo em cada letra,
e se ouvidas venceriam mesmo a morte.
Existem palavras que são você.

Todas as crianças são loucas,
e por isso são belas, inventam
amigos imaginários, protegem
cachorros e gatos de pano,
nascem e morrem no intercurso
de uma brincadeira, dizendo
as palavras que são você.
E todas as palavras nascem loucas.

O xará

August 05, 2004

Fiz uma crônica para meu pai - o melhor cronista da família. Leia aqui.

Dicionário

August 04, 2004

Eu queria ter um dicionário velho
para decifrar tuas palavras lúcidas.
Elas ficariam bem assim, translúcidas,
e o desconhecido se faria belo.

Dicionário feito de vírgulas gêmeas,
pontos de partida e meias-verdades;
onde a loucura falasse à vontade
traduzindo toda a sintaxe fêmea.

Até hoje não há um dicionário
para explicar-me as entrelinhas,
fazendo de tuas falas, então, minhas,
e um sábio encontrando neste otário.

Dê-me um dicionário só de frases feitas,
onde a morte é tal água que escorre,
com o engenho eterno da mente perfeita,
onde o verbo diz e nunca, nunca morre.

QSL

August 04, 2004
E quem diria! A Quinta Sem-Lei tem uma co-irmã em Ribeirão Preto, com direito a site próprio. É Quarta Sem-Lei, cuja sigla também é QSL. Veja aqui.
Foi a Deni quem achou.

*****

Da série Grandes Frases:

- Vocês é homens ou não são?
(Deus, Ele mesmo, no conto “O santo que não acreditava em Deus”, de João Ubaldo Ribeiro)

Poema das palavras feias

August 02, 2004
Cunhado é palavra horrível.
Lambisgóia também não é boa.
Jamais digas marimbondo,
se quiseres fazer uma loa.
Também detesto acabarão
– o futuro, pra mim, é um vão.

Vereador é tão ruim quanto edil,
mas não como gororoba,
a qual, prima da gonorréia,
a todo mau gosto engloba.
Xepa e nauseabundo
não uses nem por um segundo.

Palavras ruins? Vários tipos:
flexibilização, inhaca,
pluralismo, metrossexual,
narote, fiofó e caca.
Mas a pior de todas seria
a tal epistemologia.

O maravilhoso mundo dos clichês - parte 1

August 02, 2004
Como bem observou meu amigo Preto:

Alguém aí já foi a uma festa de casamento ou formatura sem que o cantor da banda imitasse a voz do Louis Armstrong em “What a Wonderful World”?

Eu não agüento mais esses imitadores malas!!! Oh, yeah.