Se eu não puder dizer noite,
que será das casas desconhecidas
passando na janela do ônibus
quando viajo de madrugada?
Pra onde vou fugir quando resolvo
entrar no último bar, depois das duas,
pensando numa frase do Pessoa?
Se eu não puder dizer sonho,
que fazer da tua mão, teu cheiro,
tua boca explodindo numa treva,
o grito do animal livre das cordas?
Se eu não puder dizer paz,
que fazer dos livros mais amados,
das páginas que me esperam, na estante,
em silêncio de pretérito perfeito?
Se eu não puder dizer tempo,
que será do meu abrigo intransponível,
diante da pior entre as doenças,
aquela que se chama esquecimento?
Se eu não puder dizer Deus,
se eu não puder dizer mãe,
se eu não puder dizer luz,
nem alma, nem amor, nem coração
– então muito melhor será calar
deixar que o grande incêndio continue
– até a mais total devastação.