Eu não posso ser você,
essa coisa inaceitável
que me fita
com olhos de nada
e boca de desprezo.
Esses olhos tão mortos,
tão mortos quanto um peixe,
não são meus.
Nem tua camisa
de gola derruída
e pescoço paralítico:
esse não sou eu.
Eu tinha pensado
em coisa melhor pra mim.
Tinha pensado
em ventos de fogo,
em cavalos de raça
trotando na falésia,
tinha pensado
em vagas de treva
no vão da cordilheira.
Mas nada se confirmou.
Restou apenas
o rosto sem face,
essa voz sem boca,
esse lado sem meio
que não sou eu, é você.
Jamais vou acreditar
que pertenço a mim mesmo.
Eu não posso ser você,
um irmão desnaturado
ocupante do que eu era.
Publicado em 29 de julho de 2004 às 21:48 por briguet