Tenho dois olhos para o dia
e dois olhos para a noite.
Dois olhos da vista
e dois olhos da cegueira.
Quem tem olhos de ver
também tem olhos de errar:
somos videntes de agora,
cegos de tudo mais.
Invisível o que foi
(para sempre perdido
no glaucoma da memória);
e o que será
mais intangível
que um telefone de rua
ao toque da bengala.
Nada vemos além
do instante,
e a noite da cegueira
nos espera,
vigiando na esquina.
Dois olhos para o dia,
dois olhos para a noite.
Quem tem olhos de ver,
cegará.
Publicado em 23 de julho de 2004 às 21:35 por briguet