Lembro sempre uma cena que meu pai descreveu, do filme “Viridiana”, de Buñuel:
Um homem está à beira da estrada, quando vê um cachorro passar com a língua de fora, amarrado a uma carroça. Com pena do animal, o homem pára o carroceiro e diz:
– Por que o senhor não coloca o cachorro em cima da carroça?
– Porque aqui em cima só vai gente.
O homem fica revoltado e decide comprar o cachorro, para acabar com aquela cena.
Depois de comprar o cachorro, o homem vê uma outra carroça e um outro cachorro amarrado, correndo atrás dela.
Mas comprar dois cães já seria demais.
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Agora mesmo, ocorreu uma cena parecida, quando o ônibus parou no terminal urbano.
Primeiro, subiu uma senhora dizendo que estava desempregada e vendendo umas pastilhas de menta por R$ 1.
Fiquei com pena da mulher e comprei as pastilhas.
Assim que ela saiu do ônibus, entrou um garoto vendendo umas canetinhas por R$ 1, em prol de uma clínica para dependentes de drogas.
Mas comprar as canetas já seria demais.
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Antes que alguém venha dizer que eu comparo cães a homens (ou ainda: “Não dê esmolas”; ou ainda: “Não dê o peixe, ensine a pescar”; ou ainda: “O importante são as mudanças estruturais na sociedade”; ou ainda: “Vá se foder, Briguet!”), um esclarecimento: o que aproxima as duas histórias são os limites da compaixão.
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Até que ponto um indivíduo pratica o bem só para espantar os seus demônios?
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A pastilha de menta tem gosto de caridade minúscula.